A influência das pesquisas nas eleições

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É lugar comum: as pesquisas são manipuladas pra favorecer este ou aquele candidato ou candidata. Pode percorrer o Brasil e em todos os Estados o que vai se ouvir é essa cantilena. Sem exceção. E também a cada eleição surgem ideias mirabolantes para proibir ou pelo menos limitar a publicação dessas pesquisas eleitorais. Há razão para tanta desconfiança? Os institutos, todos eles, são mesmo empresas malandras que alteram os números ao toque do caixa?

Pesquisa não influencia a multidão

Pesquisa não influencia a multidão

Bem, vamos lá. Em primeiro lugar, existem pesquisas e pesquisas. Aparentemente, todas elas são iguais, ou deveriam ser. Pelo menos no que se refere ao modo de se colher as opiniões e, depois, de tabular essas opiniões de acordo com as médias ponderadas da composição social do universo abrangido. Ninguém, nenhum instituto, pode variar esse  modus operandi básico.

Mas é óbvio que alguns institutos apresentam números absolutamente discrepantes em relação a outros. Se for um grande instituto, certamente ocorreu um entre dois fatores: ou se atingiu equivocadamente uma base pesquisada errada, com falha na sua abrangência enquanto parte do universo pesquisado, ou acertou-se de tal maneira que o resultado discrepante é na realidade uma antecipação real do que as pesquisas dos demais institutos fatalmente também irão captar brevemente.

Mas isso, claro, é entre institutos com fama a zelar, apesar dos humores e rumores de desconfiança que sempre há contra eles. Existem empresas que, sim, muito provavelmente alteram os números para atender aos interesses do departamento comercial e financeiro e de candidatos que se deixam levar pela falácia de que números positivos, porém falsos, conseguem dar um certo gás nas campanhas.

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Influência zero – A maior mentira que tem se contado no Brasil há pelo menos duas décadas é sobre a tal influência das pesquisas nas eleições. Como jornalista da área política, jamais vi ou fiquei sabendo de uma só eleição que teve a vontade majoritária dos eleitores alterada por pesquisas. Nunca, nenhuma vez sequer. Já vi, e isso é normal, viradas espetaculares acontecerem. Muitas, inclusive, diagnosticadas por pesquisas.

Portanto, e novamente puxando a questão para a opinião pessoal e intransferível, acho que as pesquisas não tem essa influência toda sobre o eleitor. Ahh, pode-se alegar, mas e quanto ao eleitor que não quer “perder o voto, ele não é influenciado pela pesquisa?”. Não, inclusive esse eleitor não se deixa enganar por pesquisas fraudadas.

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Isso não significa que está se negando a existência de eleitores que votam em candidatos como se estivessem tentando acertar os resultados da loteca. Eles existem, sim, embora estejam a caminho da extinção. Mas a influência sobre eles não emana, definitivamente, das pesquisas. Eles são muito mais impressionados pelo volume das campanhas do que pelos números. Mais do que isso, o eleitor que não “perde voto” se comporta como manada dentro de seu próprio grupo e não como um ser exótico dentro dele. Em outras palavras, se no círculo social em que ele vive a maioria tem clara tendência de votar em um candidato, esse eleitor “vai-com-as-outras” seria influenciado pelo grupo e não pelas pesquisas.

O eleitor, de uma forma geral, é bem mais inteligente e sensível do que imagina a maioria dos analistas, jornalistas, políticos e pesquisadores.

Surpresas – Se não fosse assim, certas eleições não apresentariam viradas espetaculares. Candidatos lideram as pesquisas o tempo todo e acabam sendo ultrapassados na reta final da campanha. Se os números das pesquisas, mesmo as autênticas, feitas pelos institutos sérios, influenciassem o eleitorado da forma como se diz, então essas viradas jamais ocorreriam. É óbvio isso.

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Há exemplos espalhados por todo o país, em quase todas as cidades. Pra não ir longe, fiquemos com exemplo daqui mesmo. Em 1998, às vésperas do 1º turno, nenhum instituto apontava que Marconi Perillo chegaria à frente de Iris Rezende. Estava pau a pau, mas com vantagem para Iris. E por que os institutos “erraram” naquela eleição? Não erraram, aí é que está a coisa. Iris realmente estava na frente, mas vinha perdendo eleitores aos montes enquanto Marconi os ganhava. Se fosse possível adiar aquela eleição por mais uma semana, talvez menos até, provavelmente Marconi venceria já no 1º turno, e não apenas chegaria à frente de Iris. As pesquisas mostraram isso o tempo todo, mas a leitura errada que se faz dos números é que conduz ao erro de interpretação.

Pesquisa não antecipa e nem projeta os resultados. Ela é apenas, e para ficar no chavão, um retrato do momento em que é realizada. Ou seja, a pesquisa revela o presente, mas não antecipa o futuro.

Uma sequência de pesquisas – sempre do mesmo instituto, obviamente – permite o registro da evolução das candidaturas junto ao eleitorado. Esse fato explica por que as pesquisas às vésperas das eleições de 1998 não estavam erradas. Havia claramente o indicativo de tendência do que se constatou depois, nas urnas. Historicamente, se diz apenas que Iris começou aquela campanha com 74% de intenções de voto contra 6% de Marconi, e acabou derrotado. Mas nesse enredo aí estão faltando os capítulos internos entre o início e o fim, e neles as pesquisas mostraram que a diferença caiu inicialmente bastante lentamente e depois se acelerou e se multiplicou nos momentos que antecederam a votação.

Prepotência – Afirmar que as pesquisas influenciam a vontade da maioria dos eleitores é uma tremenda prepotência. É, em outras palavras, afirmar que o eleitor é incapaz de decidir de acordo com a sua própria vontade, seus próprios desejos. Há, isso sim, uma identificação do eleitor dentro do seu grupamento social ou comunitário, e não é uma ou mais pesquisas que vão colocar o eleitor como um ser lobotizado numa fila de votação. O eleitor de uma forma geral tem tanto discernimento quanto aqueles que o acham idiota o suficiente para ser passado para trás por números e percentuais.

Aliás, o eleitor é mais esperto que aqueles que o veem como presa fácil e indefesa das pesquisas. Ele pode até não ter tanta escolaridade, mas certamente tem mais sabedoria. Tanto é verdade que o eleitor comum não briga com as pesquisas e seus números. A briga dele é outra: escolher quem lhe oferece condições de viver cada vez melhor. A briga contra ou a favor de números e de pesquisas é quase sempre centrada no fígado. O eleitor vota com o bolso e o estômago.