Ajuste fiscal: recessão por canetaço é a pior solução

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Juros na estratosfera, demissões em massa, aumento na carga tributária, inflação em crescimento, direitos trabalhistas cortados, contenção de gastos básicos na saúde, educação e segurança, dívida pública em alta. Os índices do tal ajuste fiscal do governo da presidenta Dilma Roussef são devastadores. Não há um só ponto a ser destacado positivamente. Aliado a tudo isso, uma crise política que demonstra a fragilização da Presidência. Isso, num sistema presidencialista. Se fosse enredo de romance, talvez um título adequado para essa situação fosse algo como “Crônica de um desastre anunciado”.

gráficos queda

A pergunta que se faz, e em tom cada vez mais alto, é se esse é o único caminho para consertar as contas do governo. Aliás, todos esses desarranjos foram provocados não por um comportamento negativo da população, mas por uma série de ações equivocadas do próprio governo. Então, e com muita pertinência, a dúvida se a solução escolhida é a melhor ou não faz sentido, sim. Afinal, se esse governo errou tanto ao ponto de levar a economia para o fosso da crise, é óbvio que se pode, e deve, questionar se essa equipe de Brasília agora está sendo realmente competente para consertar o estrago.

A crise não é provocada por uma conjuntura externa desfavorável. Sim, há problemas no mundo (quase) todo, e alguns países bastante graves, como no caso da Grécia. Mas a grande e indesmentível verdade é que o momento hoje é muitíssimo melhor no conjunto do que era em 2008, quando explodiu uma bolha imobiliária nos Estados Unidos, e as economias foram caindo num efeito dominó planetário.

Lá fora, enquanto os principais países trataram a crise com total desconfiança, ao ponto de se criar algum tipo de comparação com a maior quebradeira da história, na década de 1929, por aqui o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do alto de sua sapiência econômica e prepotência de sempre, desdenhava das dificuldades. Os sinais, já naquela época, eram claros e mostravam que o tsunami rondava perigosamente as praias econômico-financeiras do Brasil, mas Lula dizia que era somente uma marolinha.

cofre vazio

O governo da presidenta Dilma, iniciado em 2011, manteve exatamente esse mesmo diapasão, fantasiando a situação de grave distúrbio nas contas públicas. Apesar disso, nem os muitos PACs lançados e nem as desonerações temporárias e localizadas de impostos, foram suficientes para quebrar o marasmo registrado em índices pífios de crescimento do PIB. Anos de pibinho.

Lula desdenhou os sinais

Lula desdenhou os sinais

Pois agora, nem pibinho o Brasil tem mais. É recessão mesmo. E o que é muito mais grave: recessão provocada a canetaços do próprio governo. E nem por isso a taxa de inflação ameniza, ou as contas melhoram. Ao contrário: estão piorando.Capas Globo-1

Saída – Aparentemente, salvo algum comportamento anômalo da economia, vai chegar uma hora que a inflação vai ceder, e talvez até cair. O problema é saber quando isso vai acontecer, e a que custo.globo_090311

O caminho escolhido vai enriquecer ainda mais os grandes bancos. O brutal aumento na taxa de juros, somado aos demais ajustes negativos da economia, provocam um efeito imediato desastroso. Para equilibrar o caixa, o governo corta despesas essenciais de todos os lados, provocando ainda mais recessão, e consegue economizar alguns bilhões de reais aqui e acolá, apesar do custo social dessa economia ser brutal. Só que na outra ponta, o aumento das taxas referenciais de juros, que incidem sobre a colossal dívida pública brasileira, pega toda essa economia e entrega para os bancos. Neste momento, o Brasil se transformou num paraíso para os banqueiros, e um inferno para os seus cidadãos.the economist

Todos os países que entraram em crise em 2008 e já saíram dela fugiram dessa armadilha dos juros altos. Estados Unidos, Japão e as boas economias da Europa fizeram caminho exatamente inverso, baixando as taxas dramaticamente. Com isso, não permitiram que a recessão se aprofundasse e nem que a arrecadação de impostos, por consequência, despencasse. E por lá a crise não foi uma ondinha, marolinha ou coisa parecida.

Lula não viu tsunami ou mentiu quando falou que era marolinha?

Lula não viu tsunami ou mentiu quando falou que era marolinha?

Foi encarada como aquilo que realmente era, um tsunami. O governo dos Estados Unidos chegou, pela primeira vez em quase um século, a não ter dinheiro para manter em funcionamento normal parques públicos e museus. Mas ao proteger a economia da recessão, embora tenha sido banhada por ela durante meses, o governo americano, assim como fizeram as boas economias, conseguiram escapar inteiros. Houve sacrifício da população, evidentemente, mas infinitamente menor, do que se a opção fosse nos moldes dessa adotada pelo Brasil.

Esse é o ponto: a recessão provocada por governos penalizam muitos e beneficiam alguns. Esse é o caso do Brasil. Não é o único caminho, mas é o pior deles.