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Um país feito nas coxas

É pra desanimar qualquer cidadão… O Brasil é uma eterna piada de muito mau gosto. E faz um tempão que é assim. Tem piorado muito. Será que um dia ainda verei um país surgir desse troço? Não acredito. Não mesmo.

Cresci num país que não podia votar pra presidente. Nem pra governador. Época inocente. Lá no interiorzão das Gerais, ninguém ligava muito para isso. As notícias não circulavam instantaneamente como hoje. TV, por exemplo, só fui ver mesmo na Copa do Mundo de 70. Antes, não existia. E só havia um canal na cidade. A TV Tupi. Preto e branco, claro.

O povo votava de tempos em tempos para vereador e para prefeito. Dois partidos apenas. Mas nenhum deles podia ser chamado de partido. Arena e MDB.

ilustração: 3bp.blogspot

ilustração: 3bp.blogspot

Os emedebistas eram mal vistos. Eram “comunistas”. Sei lá por quê, mas quase todo mundo tinha medo dos “comunistas”. Eu não tinha medo, não. Nem sabia o que era isso. A Arena ganhava sempre.

É claro que depois passei a entender como eram essas coisas da política brasileira. E também depois é que fui entender porque os brasileiros não votavam nem para governador e nem para presidente. Ditadura.

Outra coisa da qual me lembro é o telefone. Poucos na pequena cidade. Dois números apenas.

O disco não era usado. Quem completava a ligação era uma telefonista

O disco não era usado. Quem completava a ligação era uma telefonista

Tirava o fone do gancho e esperava a voz feminina anunciar: ¨Telefonista¨. Aí você dizia o tal número. De repente, alguém atendia do outro lado. A “telefonista” avisava: “Pode falar”. Era assim que se fazia uma ligação naquela época.

Carro também não era comum. O primeiro na minha família foi um Volkswagem sedã vermelho. Esse nome todo pomposo nunca pegou. Era o Fusca. 1969. volkswagen-fusca-1969-vermelho_30987cf0Meu pai o comprou através de consórcio. Como na nossa casa não tinha garagem, meu pai alugava uma, que ficava no final do quarteirão.

Viagens? Que nada. Meu universo ia somente até São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, perto da divisa com Minas. Ninguém falava São José. Era só Rio Preto. Cidade “grande”, assustadora. Eu morria de medo de me perder naquela selva.

A gente ia pra lá de ônibus. 120 KM de distância. Asfaltados. Um luxo. Tinha cobrador dentro do ônibus, que ia parando na estrada para pegar novos passageiros. ônibus velhoPara Uberaba, também em Minas e com a mesma distância, era terra. Todo mundo na cidade, então, ia só pra Rio Preto. Cada viagem era uma aventura pra se lembrar por muito tempo.

Falo que meu universo conhecido era só esse, mas já tinha ido a Portugal. Só que eu era muito pequeno, seis anos apenas. Então, me lembro muito pouco. Fomos de avião e voltamos de navio. Ou fomos de navio e voltamos de avião, sei lá. Eu, minha irmã e minha mãe. Meu pai ficou para garantir o paitrocínio.

Bons tempos aqueles. Pela inocência de não saber das coisas como elas são. Não sei se eram tempos melhores ou piores que agora. Não há como comparar.

De quase todas as formas que se pode ver, a vida hoje é bem mais fácil e prática. E tem muito mais opção. Carro? Vai na esquina que tem uma revenda que te entrega o zerado e parcela em sei lá quantos meses. Telefone? Nem precisa decorar os 8 ou 9 números. A memória do próprio aparelho faz isso. Viagem de navio? Só se for para ficar de papo pro ar. Sobe num avião, tira uma soneca e rapidim tá lá do outro lado do Atlântico.

Me pego rindo agora. “Pega o avião e rapidim está lá”. Tô rindo porque nunca mais voltei a Portugal. avião modernoNão é medo de avião, não. Quer dizer, tenho medo, sim, mas consigo viajar. É só beber antes um gole d’água com um comprimidim antes de embarcar. Não há pânico que sobreviva. Ahh, sim, tenho algumas crises de pânico. Antes eram bastante frequentes. Hoje, só de vez em quando. Bateu? Comprimidim na síndrome e pronto.

O que me incomoda nos vôos é ter que ficar dentro do avião muito tempo. Meu limite tranquilamente suportável é coisa de hora e meia, duas horas e meia, no máximo. E não sei o que é mais perturbador, se na hora de decolar ou na hora de pousar. Acho que são os dois, do mesmo tanto.

É, o mundo mudou, e o Brasil mudou muito também… Muita coisa melhorou, mas muita coisa bagunçou.

O Brasil tá patinando há muito tempo. É como eu percebo as coisas agora. Não sei se isso é uma inocência minha no sentido inverso daquela da infância ou se é um pouco de pessimismo e ceticismo amadurecidos pelo mais de meio século de vida. Não acredito que o Brasil vai funcionar algum dia como deveria funcionar.

Como é que a gente pode ser otimista diante de tantas coisas que se vê a cada instante?

Quer um exemplo? O Brasil foi capaz de construir há algumas décadas uma das maiores pontes do mundo, a Rio-Niterói. RJ_Constru_o_da_Ponte_Rio_Niter_i_v_o_central_1974Mas hoje, com tanta tecnologia e conhecimento no mercado, não conseguiu fazer sequer um viadutozinho em Belo Horizonte sem que ele caísse e matasse algumas pessoas. E nem terminado estava. Não tinha nenhum peso em cima dele e… prófiti, caiu. Fico imaginando se fossemos construir hoje a tal Rio-Niterói…

E a coisa é tão ruim que basta falar sobre um troço qualquer pra virar conversa e discussão política. “A culpa é do partido tal”, soa na minha mente uma voz que eu não sei de quem é, mas imagino que seja de um grupo. “Mas a obra tal também caiu e a culpa é do outro partido”, ouço a resposta. Saco isso.

Implodiram o tal viaduto que caiu. Vão ter que fazer tudo de novo. E fora das acusações, ninguém parece ter se preocupado em discutir por quê aquilo caiu e o que se pode fazer para que jamais outra obra caia nas cabeças e nas vidas das pessoas. Discute-se o que ocorreu politicamente. Caiu em Minas? Caiu, mas caiu em São Paulo também. Catzo! Não deveria ter caído nem um e nem o outro, uai.

Mas as coisas no Brasil são feitas nas coxas. Agora mesmo, aqui em Goiás, um candidato a vice-governador renunciou. Virou um quiprocó danado. Ninguém sabe ao certo o que vai acontecer. Alguns entendem que a candidatura do governador rodou. Para outros, continua do mesmo jeito. Ué, mas a regra não é clara? Não, não é. Deveria ser, mas não é.

No início deste ano, a maior corte eleitoral do Brasil, composta inclusive por ministros da corte suprema, baixou uma regra para ser aplicada nas eleições deste ano. logo TSELá pelas tantas, mudou uma das regras exatamente sobre troca de candidatos que renunciam. Tá escrito lá: só pode haver essa troca até 20 dias antes das eleições.

Resolvida a parada? Não. A regra anterior dizia que essa troca poderia ser feita até às vésperas da eleição. “Mas a nova lei mudou isso”, pode-se afirmar. Mudou, sim, mas não vale a mudança. Por que? Constitui_oPorque a Constituição, aquele outro calhamaço de leis, diz que só se pode mudar a regra do jogo um ano antes da eleição. Então, continuaria valendo a regra anterior.

Como é que pode ser otimista num país em que a maior corte eleitoral muda uma regra e ao fazer isso não leva em conta a elementar questão constitucional?

Tá esse quiprocó aí. Pelo jeito, a tal candidatura com substituto vai para a disputa eleitoral sabendo que deverá perder a questão na corte eleitoral, que obviamente terá que acatar a regra que ela própria instituiu. Mas depois, na corte suprema, deverá vencer porque a regra da corte eleitoral esbarra no fundamento constitucional.

Olha só o tamanho do rolo. engrenagensE lá se vai uma dinheirama preta dos nossos bolsos para sustentar o movimento das engrenagens dessa imensa máquina jurídica… Engrenagens que não funcionam em linha. Feitas nas coxas.

“Ahh, mas peralá, não da pra ser pessimista por causa de um erro”, ouço algumas vozes. Também acho. Mas não é um erro. São muitos. O tempo todo. É a regra que vale-mas-não-vale-agora, são os viadutos que despencam… Melhor parar por aqui. A lista é imensa.

É ou não é um país feito nas coxas onde se pode comprar um carro facilmente e se obter a CNH até por telefone? cnh-em-branco-9E não é uma CNH qualquer, não. Coisa oficial. “De primeira, autêntica, com selo de relevo e tudo, doutor”, diria o vendedor.

E quando vejo a regra-que-não-vale-agora, me lembro novamente dos tempos em que só havia Arena e MDB, os partidos que não podiam ser chamados de partidos, na esquizofrenia que não é de agora. Hoje, pode. Tem partido pra dar com pau na cabeça de doido. Tem até partido que não tem nome de partido.

E os caixas continuam tilintando. Saco.

debate TV - 1

Debate TV Anhanguera: opositores não tinham bala de prata

Líder nas pesquisas de todos os institutos, com a maioria inclusive apontando para possibilidade de vitória já no 1º turno, o governador Marconi Perillo foi ao último grande momento da campanha eleitoral, ontem, na TV Anhanguera/Rede Globo, com o único objetivo de se manter “vivo”. Deve ter saído satisfeito com o próprio desempenho. Ele não apenas sobreviveu aos ataques e questionamentos dos adversários como fez e sambou sobre todos os temas propostos.debate TV - 1Tanto que nas redes sociais após o debate, militantes e simpatizantes das candidaturas de oposição se apegaram a um fato extra-debate – uma postagem de blogueiro que conteria uma “ameaça velada” ao candidato do Psol, professor Wesley. Sobre o debate em si, pouquíssima repercussão.

debate Maconi:Iris

Confusos e equivocados – Disparadamente, os dois melhores debatedores foram Marconi Perillo e Antônio Gomide. Ambos falaram sem atropelar as palavras, de maneira clara e concatenada. Eles deram um “passeio” sobre os demais. Ambos demonstraram estar muito melhor preparados que seus adversários.

debate Iris

Iris Rezende, que em seu programa eleitoral de 2ª feira, acusou Marconi Perillo de estar sendo investigado no STJ, Superior Tribunal de Justiça, de manter contas no exterior (leia post neste site), não tocou no assunto. Em seus primeiros momentos, transpareceu certo descontrole. Iris, um debatedor de peso, esteve muito aquém do que se esperava dele. Transmitiu imagem cansada, sem pegada, e às vezes confuso.

debate vanderlan

Vanderlan Cardoso bem que tentou, mas gaguejou muito todas as vezes que precisou sair do script que ele seguiu durante a campanha, baseado num tal “plano de metas”. Quando abordava temas pertinentes ao plano, conseguia desenvolver bem a linha de raciocínio. Demonstrou disposição, mas preparação equivocada para um debate. Por exemplo, ao apresentar um questionamento em que foi surpreendido pela resposta. Sua “bala de prata” no debate de ontem era usar palavras ditas por Marconi Perillo em 1998 contra as pesquisas. Fez a pergunta e se enrolou com a resposta que soou como um direto no queixo dele. Marconi reafirmou o que havia dito em 1998 e ainda saçaricou sobre Vanderlan: “Fique tranquilo, candidato, a pesquisa que vale mesmo é no domingo (dia da eleição)”. O erro de Vanderlan nessa pergunta foi elementar: não se pergunta nada sem saber exatamente o que o adversário irá responder. Na preparação, deve-se levar em conta todas as possibilidades de resposta. Vanderlan, que esperava constranger Marconi, acabou constrangido.

debate prof wesley

O último debatedor, professor Wesley, do Psol, era um estranho nesse ninho de cobras criadas. (E só estava lá graças a pesquisa Ibope que o colocou com 1% a mais do que Antonio Gomide — correção: o candidato do Psol foi convidado porque o partido tem representação no Congresso Nacional, critério utilizado pela organização do debate). Nesse caso, seria muito melhor assistir a candidata do PCB, a também professora Marta Jane, debatedora que se revelou bastante eficaz nas eleições de 2010. Ou, para ficar no próprio Psol, o professor Pantaleão. Wesley tentou acertar a mutamba em praticamente todos os adversários, mas parecia estar usando um graveto e não um porrete.

debate gomide

No final, a impressão que ficou é que, no geral, os opositores fizeram um enorme “rastro de onça” sobre os debates, mas não souberam ou não conseguiram levar Marconi a nocaute. Gomide saiu maior do que entrou e os demais poderiam ter ficado em casa. Talvez pudessem ganhar mais com a própria ausência. Quanto à organização do debate, pra lá de aprovada, desde a apresentação até a formatação dos blocos, que privilegiou o debate entre os candidatos do início ao fim. Nota 10, sem qualquer reparo. (Fotos: site O Popular)

Por que Iris não usou o dossiê dos aloprados no debate?

Segunda-feira, 29, última semana de campanha eleitoral, véspera do último dia de propaganda no rádio e na TV para governador. Iris Rezende, em seu programa, acusa Marconi Perillo de ter contas no exterior. Com emprego da animações, diz que as contas correntes de Marconi em paraísos fiscais e ilegais estão sendo investigadas pelo STJ. Verdade ou mentira? Verdade e mentira.

Sim, há um inquérito no STJ que procura ligações de Marconi Perillo com contas no exterior. Não, não existe nada além de um inquérito (que no jargão jurídico nada mais é que investigação) sobre as tais contas. Sim, portanto, é mentira afirmar, e veicular como se fosse verdade, que Marconi tem contas bancárias clandestinas no exterior.

dossiê

O assunto não é novo. Nasceu na campanha de 2010, e chegou a circular no Palácio do Planalto, na época ocupado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, embora ninguém tenha assumido a sua paternidade. Apontado como autor, o deputado federal Sandro Mabel desmentiu peremptoriamente qualquer ligação com o dossiê. O ministro Gilberto de Carvalho também se esquivou do assunto. No Senado, Marconi cobrou, na tribuna, que o tal dossiê fosse investigado.

Falso – O Banco UBS, de Suíça, que seria depositário de transferências internacionais a partir das contas das Ilhas Virgens, atentou de imediato que a documentação que constava no dossiê contra Marconi era falsa. Também não eram autênticas as assinaturas de Marconi que constavam no pacote desses supostos documentos. A falsificação, inclusive, foi apontada como extremamente grosseira. O inquérito para apurar o tal dossiê segue no STJ, Superior Tribunal de Justiça.

Dinheiro aprendido em São Paulo com supostos autores de dossiês, em 2010

Dinheiro aprendido em São Paulo com supostos autores de dossiês, em 2010

Nada disso, no entanto, foi levado em conta pelo programa eleitoral de Iris Rezende na 2ª feira, 29. A acusação foi “clara” e direta, mas sem revelar sequer que se tratava do tal dossiê de 2010. Na época, um segundo dossiê apareceu, envolvendo políticos do PSDB do estado de São Paulo, com acusações semelhantes. O próprio presidente Lula, acuado, acusou que os autores desse dossiê seriam aloprados.

Intrigante é Iris Rezende, apesar de veicular o assunto na propaganda eleitoral dele, não ter confrontado Marconi Perillo frente a frente, olho no olho, no debate da TV Anhanguera, ontem. Seria o grande momento. Por que ele não se aproveitou da presença do adversário para acusá-lo diretamente? Realmente, intrigante.

Marconi e Iris

Opositores dependem de fato novo, Marconi só tem que evitar nocaute

Seja pela importância direta da emissora, seja pela abrangência do grupo de comunicação ao qual ela pertence, o maior do Centro-Oeste e um dos maiores do Brasil, é inegável que o último grande momento da campanha eleitoral deste ano vai acontecer logo mais à noite, na TV Anhanguera. Trata-se do debate entre os candidatos ao governo de Goiás.

Foto: site O Popular

Foto: site O Popular

As expectativas de cada grupo são distintas. Para os opositores, a dependência de algum fato novo realmente impactante é notável. As pesquisas, todas elas, indicam que o governador Marconi Perillo tem condições de vencer as eleições já no 1º turno. O debate da TV Anhanguera é a última tentativa, a última bala de prata dos opositores para levar a decisão para o 2º turno. Já Marconi só não pode ser nocauteado. Fora isso, o que vier é lucro.

Ritmo – Não se deve esperar um debate serelepe o tempo todo. Há gente demais da conta. Eram quatro, mas graças a uma pesquisa Ibope que destoou de todas as demais publicadas até aqui, um quinto candidato foi incluído. Professor Wesley, do Psol, apareceu com 1% a mais que Antonio Gomide, do PT, no último levantamento do instituto. Como uma das diretoras do próprio Ibope admitiu ao jornal O Popular, do mesmo grupo da TV Anhanguera, que pode ter ocorrido um erro de amostragem, o jeito foi acrescentar mais uma bancada no debate.

Marconi e Iris

Com cinco participantes, nenhum debate se sustenta pela agilidade, obviamente. Nesse caso, vai depender muito do conteúdo. E é exatamente aí que está a chave de tudo: qual será a estratégia de cada candidato? É claro que os opositores devem malhar o governador, e é claro também que ele terá que se defender e não fazer cara de paisagem – a não ser nos ataques bobinhos e sem maiores consequências. As encrencas estão em se defender sem criar fato novo e atacar sem vitimizar. Não são tarefas fáceis.

Vanderlan

Decisivo – A última vez que uma eleição teve os debates como um dos principais fatores de definição foi em 1994. Depois disso, nunca mais o confronto entre os candidatos foi tão preponderante. Em 1998, por exemplo, Iris Rezende não participou de nenhum debate no 1º turno. E no 2º turno, a vaca dele já estava no brejo. Em 2002, nem 2º turno houve. No 1º turno, num momento exatamente igual ao atual, o debate da TV Anhanguera teve apenas os dois principais candidatos da oposição, Maguito Vilela e Marina Santana. E 2006, foram inúmeros debates, e quem ganhou a eleição foi exatamente o candidato com pior desempenho em todos eles, Alcides Rodrigues. Em 2010, os debates também não mexeram com o placar.

gomide

Isso não significa que o debate de logo mais será apenas uma espécie de ritual histórico das eleições, sem qualquer relevância nas urnas. Pode ser que sim, mas pode acontecer alguma coisa que detone algum fato novo. Isso é condição sine qua non para que o debate de hoje não seja como todos os demais das últimas eleições.

Para o público em geral, pipoca na panela. Para os diretamente e emocionalmente envolvidos com a campanha eleitoral, é cruzar os dedos e esperar pelo último grande momento da eleição no 1º turno.

Um toscaninho de 50/60 reais e um californiano Pinot por 25

Um legítimo Toscano gostoso, redondão mesmo, lotado de Sangiovese, e por menos de 80/100 reais? Vale a pena arriscar esse aí, o Santa Cristina. Esse toscaninho faz milagres na taça. Claro que não é nenhum Barolo ou qualquer outro super-Toscano. Mas tem o DNA da região. De quebra, é assinado pela lendária casa Antinori, talvez a maior e mais famosa da Itália. Antinori está para a Itália como o Catena está para a Argentina: um ícone.

SantaCristinaIGTSó esse cartão de apresentação do Santa Cristina já arrancaria fácil uns 35 reais de uma garrafa sem rótulo. Esse Santinha aí vai bem mais longe. É um baita vinho pelo valor que cobra. Claro que, como qualquer italiano da gema, baseado quase inteiramente na uva Sangiovese, se casa perfeitamente com as massas. Mas o Santa Cristina encara fácil uma rodada legal de queijos não muito condimentados.

Ele é redondinho desde o primeiro gole, mesmo sem estagiar antes num decanter. Mas ganha bastante se for bebericado sem nenhuma pressa, permitindo que ele respire um bocado ainda na garrafa. Depois, é só jogar na taça e dar a ele alguns minutos pra se ambientar. E pronto. Basta isso, sem maiores delongas.

Pode ser encontrado em importadoras online, mas é preciso ter cuidado nesse caso. os preços variam muito. Dia desses estava em promoção no Carrefour do Sudoeste, aqui em Goiânia, por 52 reais. Pechinchona. Não sei se ainda tem, mas deve ter. Num empório da cidade está em 65, mas se chorar acaba levando por 60 reais. Os dois preços são muito bons. É claro que é uma pena que custe tão caro. É o custo-Brasil dos vinhos. O que lá fora é barato, aqui custa pequenas fábulas. E com o dólar em alta a coisa lasca de vez.

Que tal um Pinot Noir californiano por 25 pratas?

Acredita nisso? Um californiano Pinot Noir honestíssimo, assinado por Robert Mondavi, o maior fabricante dos Estados Unidos, por menos de 30 reais? Mais exatamente, R$ 25,90. É outra pechincha que apareceu em promoção no Carrefour (Sul/Flamboyant) há alguns dias. O Merlot e o Cabernet Sauvignon também estão por esse preço, mas são mais sisudões. É o Woodbridge, a linha básica do Mondavi.

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É lógico que não se deve esperar um vinho fantástico numa garrafa como essa, mas esse Pinot tem alguma coisa da escola californiana, até com uma certa personalidade. Levíssimo, chega a dar alguma sensação de aguado. Mas não tem nada de água em excesso. É um Pinot leve, para o dia a dia, feito pra agradar todo mundo, mesmo bebedores iniciais ou eventuais, que ainda não se acostumaram aos sabores variados, e algumas vezes marcantes, do mundo dos taninos.

Vale a pena esperar por promoções nesse vinho aí, especialmente o Pinot. Quanto ao Merlot e o Cabernet são mais agressivos. E imploram acompanhamento.

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Marconi Perillo: Vitória no 1º turno?

 

Restando apenas uma semana para a eleição, pesquisas registram tecnicamente a possibilidade de a eleição em Goiás terminar domingo que vem. Caiado é favorito para o Senado

conexao.qxdFora a certeza contaminada pelas emoções de um lado e de outro, a eleição deste ano para governador reserva um grande segredo para o último e decisivo momento. Tecnicamente, todos os institutos de pesquisa de opinião que sondaram os humores dos eleitores no Estado indicam que a eleição tanto pode terminar definitivamente no próximo domingo como se estender até o final do mês de outubro, com a realização de um 2º turno entre os dois candidatos mais bem votados. O governador Marconi Perillo (PSDB) aparece nessas pesquisas na faixa de 50% das intenções de voto, o que o coloca, dentro da chamada margem de erro para mais ou para menos oscilando entre a reeleição direta e uma nova rodada eleitoral.

Essa parece ser a última incerteza da atual campanha, a se julgar os números dos institutos. No mais, existe tamanha cristalização nos números dos candidatos que apenas um fato absolutamente imponderável inverteria as posições consolidadas ao longo de todo o segundo semestre deste ano, com Iris Rezende (PMDB) na segunda colocação, Vanderlan Cardoso (PSB) na terceira e Antônio Gomide (PT) colado logo atrás, no quarto posto.

Para o Senado, a disputa também parece definida. O deputado federal Ronaldo Caiado, presidente regional do DEM, tem a eleição assegurada. Apesar de pequenas variações durante a campanha, ele jamais deixou de aparecer com larga vantagem sobre o também deputado federal Vilmar Rocha, do PSD, e Marina Santana, do PT. A única disputa que ainda existiria, segundo as pesquisas, seria sobre a segunda colocação, embora nas últimas semanas Vilmar tenha registrado uma frente sobre Marina pouco acima da margem de erro. Na eleição do Senado, não existe previsão de dois turnos, mesmo que o mais votado não atinja 50% do eleitorado. É eleito quem chegar na frente, independentemente do percentual de votos obtidos.

Inúmeros fatores podem interferir no resultado das eleições. Além dos fatos e aspectos políticos, até fenômenos naturais podem mexer com os números. Eleição com muita chuva, por exemplo, provoca um substancial aumento no número de eleitores faltosos. Muito calor também leva muitos eleitores para perto de bastante água, como piscinas e cursos de água, de preferência com cachoeiras.

De acordo com o site climatempo, no domingo, 5, dia da eleição, terá muito sol durante quase todo o período, podendo chover rapidamente em algumas regiões isoladas. E se a chuva promete não atrapalhar a votação, o eleitor pode ser preparar para um calorão danado, acima dos 30 graus, podendo bater em 33 graus em alguns lugares. Ou seja, no que depender da natureza, o eleitor não terá maiores problemas para ir às urnas.

Mas qual seria a previsão mais aceitável quanto ao comparecimento do eleitor nestas eleições? Difícil dizer, mas é razoável observar o comportamento dos eleitores em 2010, quando o índice de abstenção atingiu pouco menos de 18%. É um índice considerado bastante elevado num país que ainda mantém a obrigatoriedade do voto. Além disso, há eleitores que votam em branco ou anulam o voto, e em 2010 eles somaram outros quase 8%. Ou seja, 26% dos goianos não opinaram através de seus votos na eleição imediatamente anterior.

Ao contrário do que se pode pensar, porém, abstenção, brancos e nulos interferem muito pouco, se é que há interferência real, no resultado da eleição. Geralmente, todos os principais candidatos acabam perdendo intenções de voto proporcionalmente, mantendo a média geral de todos.
Isso posto, retorna a questão central sobre a duvida que persistirá até a noite de domingo que vem: Marconi vencerá no 1º turno ou ele e Iris Rezende vão se pegar até o último domingo de outubro, data prevista para, se necessário, a realização do 2º turno?

A resposta para a pergunta é absolutamente impossível neste momento, mesmo sem levar em conta qualquer tipo de acontecimento imponderável. Se o eleitor goiano ainda se comportasse como nos anos 1980, a resposta seria um pouco mais fácil e com alguma margem de segurança. Naquelas primeiras eleições pós-abertura, a sensação de vitória de algum candidato provocava uma debandada significativa do chamado “voto útil”, quando uma parcela de eleitores abandonavam suas intenções de voto iniciais para reforçar um candidato em melhores condições de vencer. Se esse tipo de comportamento ainda fosse dominante hoje em dia, certamente no domingo que vem Marconi seria reeleito no 1º turno.

De qualquer forma, se há dúvida se o governador vencerá de imediato, parece estar absolutamente cristalizada a tendência de que, se houver necessidade de 2º turno, Marconi Perillo poderá começar a campanha relâmpago, de apenas 15 dias, com uma vantagem que jamais havia conseguido. Em 1998, quando venceu pela primeira vez, ele e Iris iniciaram o 2º turno praticamente colados um no outro. Em 2010, a diferença foi de cerca de 10%. Este ano, conforme as pesquisas, deve ficar acima dos 15%. Ou seja, neste momento, e diante das perspectivas criadas a partir das pesquisas eleitorais ao longo de todo o processo sucessório, o governador Marconi Perillo jamais foi tão favorito contra Iris Rezende como nestas eleições. No 1º ou no 2º turno.

A influência das pesquisas nas eleições

É lugar comum: as pesquisas são manipuladas pra favorecer este ou aquele candidato ou candidata. Pode percorrer o Brasil e em todos os Estados o que vai se ouvir é essa cantilena. Sem exceção. E também a cada eleição surgem ideias mirabolantes para proibir ou pelo menos limitar a publicação dessas pesquisas eleitorais. Há razão para tanta desconfiança? Os institutos, todos eles, são mesmo empresas malandras que alteram os números ao toque do caixa?

Pesquisa não influencia a multidão

Pesquisa não influencia a multidão

Bem, vamos lá. Em primeiro lugar, existem pesquisas e pesquisas. Aparentemente, todas elas são iguais, ou deveriam ser. Pelo menos no que se refere ao modo de se colher as opiniões e, depois, de tabular essas opiniões de acordo com as médias ponderadas da composição social do universo abrangido. Ninguém, nenhum instituto, pode variar esse  modus operandi básico.

Mas é óbvio que alguns institutos apresentam números absolutamente discrepantes em relação a outros. Se for um grande instituto, certamente ocorreu um entre dois fatores: ou se atingiu equivocadamente uma base pesquisada errada, com falha na sua abrangência enquanto parte do universo pesquisado, ou acertou-se de tal maneira que o resultado discrepante é na realidade uma antecipação real do que as pesquisas dos demais institutos fatalmente também irão captar brevemente.

Mas isso, claro, é entre institutos com fama a zelar, apesar dos humores e rumores de desconfiança que sempre há contra eles. Existem empresas que, sim, muito provavelmente alteram os números para atender aos interesses do departamento comercial e financeiro e de candidatos que se deixam levar pela falácia de que números positivos, porém falsos, conseguem dar um certo gás nas campanhas.

gráficos 1

Influência zero – A maior mentira que tem se contado no Brasil há pelo menos duas décadas é sobre a tal influência das pesquisas nas eleições. Como jornalista da área política, jamais vi ou fiquei sabendo de uma só eleição que teve a vontade majoritária dos eleitores alterada por pesquisas. Nunca, nenhuma vez sequer. Já vi, e isso é normal, viradas espetaculares acontecerem. Muitas, inclusive, diagnosticadas por pesquisas.

Portanto, e novamente puxando a questão para a opinião pessoal e intransferível, acho que as pesquisas não tem essa influência toda sobre o eleitor. Ahh, pode-se alegar, mas e quanto ao eleitor que não quer “perder o voto, ele não é influenciado pela pesquisa?”. Não, inclusive esse eleitor não se deixa enganar por pesquisas fraudadas.

gráficos qualitativa

Isso não significa que está se negando a existência de eleitores que votam em candidatos como se estivessem tentando acertar os resultados da loteca. Eles existem, sim, embora estejam a caminho da extinção. Mas a influência sobre eles não emana, definitivamente, das pesquisas. Eles são muito mais impressionados pelo volume das campanhas do que pelos números. Mais do que isso, o eleitor que não “perde voto” se comporta como manada dentro de seu próprio grupo e não como um ser exótico dentro dele. Em outras palavras, se no círculo social em que ele vive a maioria tem clara tendência de votar em um candidato, esse eleitor “vai-com-as-outras” seria influenciado pelo grupo e não pelas pesquisas.

O eleitor, de uma forma geral, é bem mais inteligente e sensível do que imagina a maioria dos analistas, jornalistas, políticos e pesquisadores.

Surpresas – Se não fosse assim, certas eleições não apresentariam viradas espetaculares. Candidatos lideram as pesquisas o tempo todo e acabam sendo ultrapassados na reta final da campanha. Se os números das pesquisas, mesmo as autênticas, feitas pelos institutos sérios, influenciassem o eleitorado da forma como se diz, então essas viradas jamais ocorreriam. É óbvio isso.

gráficos queda

Há exemplos espalhados por todo o país, em quase todas as cidades. Pra não ir longe, fiquemos com exemplo daqui mesmo. Em 1998, às vésperas do 1º turno, nenhum instituto apontava que Marconi Perillo chegaria à frente de Iris Rezende. Estava pau a pau, mas com vantagem para Iris. E por que os institutos “erraram” naquela eleição? Não erraram, aí é que está a coisa. Iris realmente estava na frente, mas vinha perdendo eleitores aos montes enquanto Marconi os ganhava. Se fosse possível adiar aquela eleição por mais uma semana, talvez menos até, provavelmente Marconi venceria já no 1º turno, e não apenas chegaria à frente de Iris. As pesquisas mostraram isso o tempo todo, mas a leitura errada que se faz dos números é que conduz ao erro de interpretação.

Pesquisa não antecipa e nem projeta os resultados. Ela é apenas, e para ficar no chavão, um retrato do momento em que é realizada. Ou seja, a pesquisa revela o presente, mas não antecipa o futuro.

Uma sequência de pesquisas – sempre do mesmo instituto, obviamente – permite o registro da evolução das candidaturas junto ao eleitorado. Esse fato explica por que as pesquisas às vésperas das eleições de 1998 não estavam erradas. Havia claramente o indicativo de tendência do que se constatou depois, nas urnas. Historicamente, se diz apenas que Iris começou aquela campanha com 74% de intenções de voto contra 6% de Marconi, e acabou derrotado. Mas nesse enredo aí estão faltando os capítulos internos entre o início e o fim, e neles as pesquisas mostraram que a diferença caiu inicialmente bastante lentamente e depois se acelerou e se multiplicou nos momentos que antecederam a votação.

Prepotência – Afirmar que as pesquisas influenciam a vontade da maioria dos eleitores é uma tremenda prepotência. É, em outras palavras, afirmar que o eleitor é incapaz de decidir de acordo com a sua própria vontade, seus próprios desejos. Há, isso sim, uma identificação do eleitor dentro do seu grupamento social ou comunitário, e não é uma ou mais pesquisas que vão colocar o eleitor como um ser lobotizado numa fila de votação. O eleitor de uma forma geral tem tanto discernimento quanto aqueles que o acham idiota o suficiente para ser passado para trás por números e percentuais.

Aliás, o eleitor é mais esperto que aqueles que o veem como presa fácil e indefesa das pesquisas. Ele pode até não ter tanta escolaridade, mas certamente tem mais sabedoria. Tanto é verdade que o eleitor comum não briga com as pesquisas e seus números. A briga dele é outra: escolher quem lhe oferece condições de viver cada vez melhor. A briga contra ou a favor de números e de pesquisas é quase sempre centrada no fígado. O eleitor vota com o bolso e o estômago.

Rádio e TV: Só mais 5 dias úteis

horario eleitoral TVProgramas dos governadores no 1º turno terminam no meio da próxima semana

Afonso Lopes

De agora até o 1º turno das eleições deste ano, os candidatos ainda vão ter direito a cinco dias de programas eleitorais. Para governador, o prazo final é quarta-feira da próxima semana, dia 1º de outubro. Ou seja, os marqueteiros vão ter que aproveitar cada segundo que resta para ainda tentar convencer o eleitorado visando sempre dois pontos: confirmar os que estão dispostos a votar em seus candidatos e pegar eventualmente eleitores dos demais concorrentes e os indecisos. Como diria aquele velho general americano, numa livre aplicação para esta ocasião, “nenhum eleitor deve ficar para trás”.

Quem conhece a rotina dos centros pensadores do marketing das campanhas sabe que estes vão ser dos dias mais longos, mais tensos e de maior apreensão em todo o processo. O  trabalho de um ano de preparação, iniciado em outubro do ano passado com o fim do prazo das filiações partidárias, depende bastante daquilo que vai se fazer estes dias. Uma frase mal colocada, no momento errado, e  muita coisa pode ser comprometida. Na outra ponta, um lance, por menor potencial de apelo possível, pode empurrar mais alguns votos para algum candidato.

1º ou 2º turno? – Neste momento, e a não ser que todos os institutos de opinião tenham errado barbaramente em suas estratificações sociais, as pesquisas indicam que o governador Marconi Perillo, candidato à reeleição, se apresenta numa área de conforto quanto à garantia de que deverá confirmar uma das duas vagas de eventual 2º turno. E pode, também de acordo com a maioria dessas pesquisas, quebrar a mágica barreira dos 50% dos votos, o que liquidaria a eleição já no 1º turno.

Na segunda posição, também com vaga aparentemente assegurada em um 2º turno, o peemedebista Iris Rezende, garantem os institutos de pesquisa, não foi incomodado em nenhum momento, se mantendo sempre com quase duas vezes mais intenções de voto que seus colegas da trincheira oposicionista. Nos próximos cinco dias úteis, com programas eleitorais no rádio e na televisão, que é hoje a forma massiva e instantânea de campanha, o objetivo de seus marqueteiros deve ser o de preservar o patrimônio que possui e diminuir a grande vantagem conseguida por Marconi até aqui. Ou seja, para ele, não basta chegar ao 2º turno. É necessário chegar muito mais próximo para, quem sabe, tentar virar a eleição no turno decisivo.

Vanderlan Cardoso e Antônio Gomide tentaram na semana passada manter a bandeira içada para não deixar a militância se desmoralizar. Na realidade, segundo as pesquisas, a coisa não foi nada bem para eles nesta campanha. Gomide estaria hoje com o mesmo número de intenções de voto com que começou, em abril deste ano. Vanderlan nem isso conseguiu fazer. Ao longo da caminhada, ele só fez perder possíveis eleitores, dizem os institutos de pesquisa. Na propaganda de ambos, as mensagens de otimismo falam em arrancada, virada e vitória.

Fôlego – Se a campanha eleitoral fosse uma maratona olímpica, neste momento os atletas estariam entrando no estádio. Todos eles, além dos torcedores, claro, estão cansados. Alguns vão chegar à linha final quase arrastados. Mas sempre tem alguém com reserva de fôlego para acelerar e garantir a posição.

Para Vanderlan e Gomide, não basta apenas ter fôlego de reserva.  Aliás, eles não demonstraram até agora muito alcance, e seria uma bobagem acreditar que guardaram forças para esta etapa, quando teriam que descontar uma vantagem quilométrica para Marconi e Iris Rezende. A impressão que se tem é que eles estão travando um duelo particular para não terminar em último lugar entre os quatro grandes candidatos ao governo do Estado. Ficar em terceiro seria, então, uma vitória. Amarga, sem dúvida, mas a possível. Qualquer coisa além disso, uma segunda colocação, por exemplo, extrapolaria o imaginário e invadiria o êxtase celestial.

Para Marconi e Iris, uma arrancada final faz todo o sentido. Iris precisa dela para levar a disputa para o segundo turno, mesmo que não seja possível depois reverter a situação. Para ele, que tem seu nome escrito no Panteão da política de Goiás, pior que ser derrotado mais uma vez por Marconi, seria perder já no 1º turno. Além disso, e apesar de todas as históricas dificuldades que se conhece de viradas no 2º turno, sempre haverá uma esperança derradeira.

Já para Marconi, vencer o 1º turno parece ser o enredo normal desenhado desde que se lançou à reeleição. Vencer no 1º turno, e evitar a realização de 2º turno, é bisar 2002. Se conseguir essa proeza, ele não apenas será o único a vencer quatro vezes para o governo, mas também o único capaz de vencer a eleição duas vezes já no 1º turno, o que seria igualmente inédito – Iris conseguiu vencer no 1º turno apenas uma vez, em 1990.

Enfim, por tudo o que está em jogo em tão pouco tempo, o eleitor deve se preparar para ser abordado por todo mundo. É ele quem decidirá.

Retiradas de ações na Justiça: abertura de diálogo?

Conexão: Atirando pedras no lago

É fácil perceber quem está atrás nas pesquisas ou sob forte ameaça: é só observar quem promove ataques

Cada campanha eleitoral é uma história completa, com preâmbulo, início, meio, epílogo e fim. Cam­panhas não são, portanto, episódios de uma série interminável, que se arrastam por décadas sem conclusão alguma. Não. Todas as campanhas eleitorais se isolam completamente, mudando as narrativas, algumas vezes alterando também os personagens, e invariavelmente focando sempre o mesmo tema: a disputa pelo poder político-administrativo.

Ao se observar e comparar algumas campanhas, tem-se a tendência fácil de concluir pela semelhança e, assim, pela continuidade. Há alguns fatos este ano que evidenciam esse comportamento. A campanha de Vanderlan Cardoso (PSB), por exemplo, nasceu baseada na campanha de 2010, como se fosse uma continuidade. Talvez por isso esteja, neste momento, surpreendendo de forma tão negativa em relação aos índices de intenção de voto, bem menores do que a votação da eleição anterior, segundo todos os grandes institutos.

Há coisa de um ano, falava-se que Antônio Gomide (PT), popular prefeito na problemática cidade de Anápolis, seria uma espécie de Marconi Perillo de 1998. Naquele ano, como se sabe, o jovem Marconi, novo na grande seara dos caciques da oposição ao PMDB, foi lançado candidato e se transformou aos poucos numa febre de consumo eleitoral absolutamente irresistível, derrubando por terra um dos maiores mitos políticos de toda a história de Goiás, o até então imbatível Iris Rezende. Gomide, para muitos, e talvez também para ele, seria o próprio Marconi/98 re-escrito, como se a eleição daquele ano ainda estivesse com algumas páginas em branco.

Mas se cada eleição é uma eleição, que se en­cerra completamente sem restar uma só letra a ser acrescentada na próxima disputa, algumas a­ções se repetem. Afinal, o objeto do desejo é sem­pre o mesmo: a vitória. O enredo, em de­terminadas situações, quase não se altera. Neste caso estão as estratégias. Para cada momento, há uma lista de “obrigações” a serem cumpridas. Antes de colocar o bloco na rua atrás dos vo­tos, por exemplo, é necessário ganhar completamente o público interno. Quando não se agrada totalmente em “casa”, haverá sempre, e naturalmente, uma razoável dose de desconfiança também nas “casas” vizinhas. Esse não é um problema definitivo, que previamente condene ao fracasso eleitoral, mas é uma dificuldade que sempre deve ser levada em conta. Es­pe­cialmente nas campanhas atuais, em que se de­pende demais dos tempos de rádio e TV, além de uma excelente cobertura nas chapas de candidatos a deputado estadual e deputado federal.

Também é praxe estabelecer estratégias, sejam elas isoladas dentro do próprio grupamento seja no âmbito do segmento em que se situa a candidatura. Em 1994, as oposições se lançaram com dois fortíssimos nomes ao governo do Estado, Lúcia Vânia e Ronaldo Caiado. Absolutamente divorciados enquanto objetivo comum, se devoraram pelas bordas, enquanto Maguito Vilela, do governista PMDB, se fartou no centro da mesa e do prato eleitoral. No final, nem união no 2º turno ocorreu de fato entre os oposicionistas. Nem houve clima para se discutir essa junção de interesses.

Outro ponto que sempre é observado nas campanhas eleitorais é quanto ao formato. Disputas equilibradas tendem a resvalar na troca intensa de ataques, tanto no campo político como no, infelizmente, pessoal. Ao contrário, se um candidato se sobressai e assume uma boa vantagem sobre os demais concorrentes, criando assim uma real e perceptível perspectiva de vitória, a tendência é que ele evite ataques aos adversários para não criar nenhuma marola que possa vir a remexer as águas do lago eleitoral. O oposto é corriqueiro: candidatos que vislumbram o precipício da derrota eminente tendem a se tornar mais agressivos. É como se jogassem pedras no lago para, quem sabe, provocar alguma onda em que possam surfar. Esses aspectos das campanhas não mudam quase nunca. É fácil, portanto, saber quem lidera a corrida eleitoral e quem está com prévio gosto de possível derrota na boca. Basta observar o comportamento das campanhas.

Atualmente, a campanha de Iris, Go­mi­de e Vanderlan iniciaram uma série de ataques contra a campanha do governador Mar­coni. Se as marolas que estão sendo pro­vocadas por eles vão formar algum tipo de onda ou não, não há como saber. É cer­to que quem ataca geralmente tem muita di­ficuldade para crescer. Ao contrário, o agressor geralmente diminui as próprias chances. Mas é certo também que quem é atacado pode cair ou pelo menos parar de subir. Saber atuar bem para controlar as marolas criadas pelas pedras atiradas no lago eleitoral é fundamental. Se a campanha de Marconi vai conseguiu se defender na medida exata sem aumentar a marola do ataque, se fará sabido dentro de mais algumas semanas. Poucas semanas, pouquíssimas.

Em tese, o principal argumento de ataque de Iris é fraquíssimo. Escalar o caso Ca­choeira como artilheiro do seu time na esperança de virar o jogo eleitoral, obedecidas as pro­porções, seria o mesmo que escrever os no­mes dos jogadores da seleção de 1970 nas ca­misetas do time escalado por Felipão na Copa de 2014 na esperança de ga­nhar da Alemanha, no Mineirão. O que Iris e os demais opositores precisam é de algum fato realmente novo e deveras impactante, que forme uma onda instantânea. Pedras no lago remexem as águas eleitorais em forma de marolas, mas não abalam as margens. A oposição precisa de um tsunami.

Debate O Popular: nada mudou

Debate promovido pelo jornal O Popular reunindo os quatro principais candidatos ao governo do Estado, Marconi Perillo, Iris Rezende, Vanderlan Cardoso e Antônio Gomide. Jogo de cartas marcadas? Claro que sim, ué. E todo mundo sabia desde sempre o que iria acontecer e como as coisas se desenvolveriam. Iris, Vanderlan e Gomide promoveram voluntariamente ou combinado previamente uma tríplice aliança contra Marconi. E por que isso ocorreu? Seria ódio coletivo contra o governador e seu grupo? Claro que não. Trata-se de uma série de fatores combinados e que estão evidenciados nas pesquisas eleitorais.

Foto: site O Popular

Foto: site O Popular

 

Na Conexão semanal, destaquei que o único e real objetivo dos oposicionistas neste momento crucial da campanha é empurrar a eleição para o 2º turno. Iris, além dessa meta, ainda se apega numa outra meta: a de diminuir a já grande diferença que Marconi estabeleceu sobre ele. Para Gomide e Vanderlan só resta servir como linha auxiliar para a realização de 2º turno. São coadjuvantes, meros adereços democráticos da eleição.

Mas, perguntaria racionalmente um eleitor, o que Gomide ou Vanderlan tem pra lucrar com um 2º turno? Em tese, absolutamente nada. Nadica mesmo. Nenhum dos dois tem qualquer chance de, em situação normal, ultrapassar Iris Rezende nesta reta final. Em tese, diga-se. Na prática, o 2º turno encarecia o vexame eleitoral de ambos na mesa de negociações com Iris e eventualmente Marconi. Eles então deixariam a condição de adereços para ganhar espaço na carroceira do carro abre-alas de um dos classificados para o turno decisivo. De quebra, poderiam até obter alguma promessa de cargos futuros em caso de vitória do seus escolhidos.

3 contra 1 – Iris, Vanderlan e Gomide foram bastante incisivos com Marconi, mas nada além do debate civilizado. Duro, sim, e nem um pouquinho só terno. Ternura passou longe dos três quando os canhões apontaram para o líder disparado nas pesquisas. Tão disparado que está na boca para vencer já no 1º turno, o que transformaria o sonho dos opositores de vitória em 2014 num dos mais terríveis pesadelos.

 

Foto: site O Popular

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Entre eles, aí sobrou ternura. Transbordou gentilezas e bolas levantadas.Gomide, por exemplo, mandou uma bola redondinha para Iris falar sobre possível relação do governo dele com os funcionários públicos. O peemedebista deitou e rolou no tema. Se Vanderlan estivesse pau a pau com Iris nas pesquisas, muito provavelmente o mesmo tema seria revestido por outras palavras ao elaborar a pergunta, com vários espinhos, como o famoso decretão de demissões de 20 mil comissionados em 1982, ou o fato de que nos governos Iris os servidores recebiam seus salários sistematicamente com atrasos.

E foi assim o tempo todo: amabilidade entre os opositores e todos com pedras, estilingues e guatambu nas mãos contra Marconi. O risco nesses casos são dois: primeiro, transformar o alvo em vítima, segundo, deixar o eleitor perceber claramente o jogo de compadres. Inicialmente, embora evidente tenha sido o ataque em massa, Marconi não saiu vitimizado e nem os compadres deixaram a arena do debate com a imagem de que iriam juntos para um churrasco de confraternização.

No final, o que fica é mais um lance de campanha eleitoral absolutamente normal. Marconi promoveu as iniciativas que teve como administrador e procurou se defender dos ataques incessantes. Os opositores trocaram rosas vermelhas entre eles e mandaram os espinhos para Marconi. Apenas mais um round, nada decisivo, e que não deverá mudar o rumo das coisas.