Todos os posts de Afonso Lopes

Marconi-Perillo-cpi-20120612-06-size-598

Marconi, a história que se supera

Para quem o imaginava, com toda razão, carta fora do baralho de 2014, Marconi Perillo simplesmente conseguiu um feito eleitoral épico. Ele não somente foi reeleito. Ele foi reeleito com a maior votação proporcional desde 1998, com quase 60% dos votos nominais. É um desempenho extraordinário, sem qualquer dúvida, em qualquer circunstância, mas no caso dele, e levando-se em conta o calvário de 2012, extrapola qualquer coisa que já se tenha registrado anteriormente.

Marconi Governador

É óbvio que qualquer análise sobre Marconi Perillo atualmente é contaminada por todos os fatos proporcionados por ele na última década e meia. Mas certamente o seu poder de superação vai se estender pela história também nas análises futuras. Essa, talvez, seja a sua maior virtude, a capacidade de se superar, de obstinadamente superar desafios aparentemente intransponíveis.

Em 1990, quando se candidatou pela primeira vez, ele foi o único santillista a ser eleito para a Assembleia Legislativa. Foi o único que conseguiu superar o cerco eleitoral criado pela máquina irista, que derrubou um a um todos os candidatos ligados ao grupo do governador Henrique Santillo, que vivia uma guerra política de controle do PMDB com Iris Rezende.

No exercício do mandato, outra superação: a da barreira que se montou contra ele pelo sistema de comunicação comandado pelo Palácio das Esmeraldas. Entre 1991 e 1994, ele foi a cigarra oposicionista a reverberar seu canto contra o rolo compressor governista, que sempre havia conseguido abafar qualquer ruído perturbador da oposição.

Marconi-Perillo-cpi-20120612-06-size-598

Em 1994, após construir uma boa base que lhe garantiria uma tranquila reeleição, Marconi deixou a área de conforto e se aventurou numa candidatura a deputado federal, selva bem mais concorrida do que a Assembleia Legislativa, especialmente para quem buscaria somente bisar o mandato. Apurados os votos, e mais uma vez diante de maioria palaciana irista, lá estava ele entre os deputados federais eleitos como opositor ao status quo.

Logo no início, em Brasília, ele superou o complexo da província e se introduziu na corte republicana brasiliense, caindo nas graças de setores do PSDB e do próprio Palácio do Planalto. Tornou-se vice-líder do partido e um dos frequentadores do segundo mais importante gabinete da República, onde despachava o ministro Sérgio Motta, uma espécie de primeiro-ministro do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso.

Governo – O ano é 1998. A oposição em Goiás se resume a quatro grandes partidos e duas dúzias de prefeituras, mais alguns deputados estaduais e federais. Todo o restante do território político goiano era povoado pelo poderosíssimo PMDB e seus aliados.

Iris Rezende, então ministro da Justiça de FHC, usou a sua hegemonia interna no PMDB goiano e se lançou candidato. O presidente da República, candidato à reeleição e cortejando o PMDB nacional, desestimulou os tucanos de Goiás a lançar candidatura contra Iris. Marconi foi até Sérgio Motta e o convenceu de que a oposição em Goiás estaria morta e enterrada se topasse aliança com os peemedebistas, que desdenhavam qualquer aliança com o PSDB oferecendo apenas uma segunda suplência para o Senado.

marconi-perillo-620x450

Com apoio de Sérgio, a oposição quebrou a cabeça para encontrar alguém que fosse para o sacrifício eleitoral. Naquela altura, Iris aparecia nas pesquisas com nada menos que 74% das intenções de votos válidos. Seria um massacre absolutamente previsível. Os oposicionistas foram inicialmente com o deputado federal Roberto Balestra, mas não teve jeito. Às vésperas das convenções, os partidos oposicionistas não tinham candidato. Mais uma vez, Marconi deixou a área de conforto, e se ofereceu como candidato ao governo. Era uma insanidade para um jovem político em plena ascenção e com um vastíssimo caminho pronto a ser percorrido na corte palaciana de FHC e Sérgio Motta.

Marconi superou o ultra-favorito Iris Rezende numa campanha que fez história. Terminou o 1º turno na frente, e sacramentou a vitória no 2º turno.

No final de 2001, pesquisa indicou que o virtual candidato da oposição, o peemedebista Maguito Vilela, somava 17 pontos de vantagem sobre o governador de primeiro mandato Marconi Perillo. Aparentemente, o sonho oposicionista estava prestes a se transformar novamente em pesadelo. Um ano depois, Marconi foi reeleito já no 1º turno.

Até aí, quatro eleições e quatro imensos desafios superados. Em 2006, seu momento refrescante eleitoralmente. Foi eleito com tranquilidade para o Senado, na única vaga que estava em disputa. Quatro anos depois…

Uma nova prova político-eleitoral duríssima. Inimigo número 1 do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, inimigo número 1 do governador Alcides Rodrigues, que ele próprio havia colocado em seu lugar em 2006, e inimigo visceral do então prefeito reeleito de Goiânia, Iris Rezende, candidato ao governo, Marconi se lançou candidato contando apenas com seu grupamento político. Eram três palácios, três máquinas administrativas, políticas e eleitorais contra ele. Venceu o 1º turno e mais uma vez garantiu a vitória no 2º turno.

Este ano, tanto o resultado eleitoral quanto os fatos que o precederam, desde 2012, estão frescos nas memórias de todos. Ao derrotar Iris Rezende pela terceira vez, Marconi não o retirou do Olimpo político estadual. Iris permanece, assim como Pedro Ludovico e Totó Caiado, dentre as maiores lideranças de toda a história de Goiás. Mas, certamente, é impossível não reconhecer que Marconi superou todos eles, e tem lugar de destaque dentre os maiores.

Marconi-Perillo-pesquisa

Oposições 2014: A repetição dos mesmos erros de avaliação

 

Pela quinta vez consecutiva, os opositores chegam às urnas prevendo mais uma derrota. O que faltou?

Marconi Perillo: poder aguçado para enxergar situações e se posicionar antecipadamente no embate eleitoral |  Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Marconi Perillo: poder aguçado para enxergar situações e se posicionar antecipadamente no embate eleitoral | Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Afonso Lopes

Salvo uma hecatombe eleitoral sem qualquer precedentes na história, o governador Marconi Perillo será reeleito neste domingo, 26, com larga margem de votos sobre seu oponente, o peemedebista Iris Rezende. Será a quinta vez consecutiva que PSDB e PMDB protagonizam o cenário principal da disputa política estadual, e será também a quinta derrota dos peemedebistas. De resto, também são derrotados todos os demais grupamentos que compõem a oposição, como o PT e a chamada terceira via, que jamais conseguiu se impor com força real de combate.

É inegável que o eixo político li­de­rado por Marconi Perillo tem um somatório de méritos administrativos, políticos e eleitorais que justifica esse notável desempenho desde 1998, mas também é certo que os opositores conseguem errar nas mesmas coisas o tempo todo, co­mo se das derrotas não houvesse ne­nhum aprendizado a ser absorvido. Pior do que isso, os opositores não conseguem nem ao menos o­lhar para a história eleitoral do Es­ta­do, donde se encontram incontáveis detalhes que analisados corretamente formam um parecer in­ques­tionável sobre vitórias e derrotas.

Vanderlan Cardoso (direita): 3ª via? Iris Rezende: sem conseguir a união que tornaria possível a vitória

Vanderlan Cardoso (direita): 3ª via? Iris Rezende: sem conseguir a união que tornaria possível a vitória

Ruptura do poder

Desde o retorno das eleições diretas para governador, em 1982, o eleitorado goiano promoveu duas estupendas rupturas no poder instalado. Foi exatamente naquele ano, em 82, e em 1998. Em todas as demais eleições, o núcleo do poder não sofreu abalos mais sérios.

Apenas duas vezes, e nas duas há fatores idênticos. O primeiro deles é a união total das grandes forças oposicionistas. Em 1982, que ainda tinha muitos resquícios do bipartidarismo imposto pelo regime ditatorial, o PMDB formava um grande leque partidário, que reunia de comunistas do PCdoB e do PCB, aos herdeiros do espólio do PSD e do PSB, passando ainda por autênticos e moderados do velho MDB. Todos juntos, e sem dissidências, carregaram a candidatura de Iris Rezende a uma vitória que rompeu com o sistema de poder dominante, que ainda era remanescente da ditadura.

Também foi assim em 1998, quando os quatro grandes partidos da oposição de uniram e, ao fim de um complicado processo de escolha, caminharam com a candidatura de Marconi Perillo contra o amplo domínio palaciano do PMDB. An­tes de ter um nome para o governo, PSDB, DEM, PP e PTB ti­nham um propósito. Portanto, nessas duas eleições, que quebraram a estrutura do poder dominante no Estado, salta aos olhos esse primeiro fator: a união de toda a oposição, sem dissidências.

O segundo ponto comum entre 1982 e 1998 é a crise interna dos setores dominantes. Em 82, o PDS, descendente direto da Arena, chegou ao processo eleitoral profundamente dividido. O Palácio das Esmeraldas, comandado por Ary Valadão, foi derrotado nas convenções do partido pelo grupo de Otávio Lage (já falecido). Em 98, mais uma vez o Palácio das Esmeraldas foi derrotado internamente. A candidatura natural do PMDB era a reeleição do governador Maguito Vi­le­la, mas Iris Rezende, então Mi­nis­tro da Justiça, com ampla ma­ioria interna, se impôs candidato.

Somente esses dois fatores históricos já deveriam servir de alerta máximo para os pensadores oposicionistas. Principal­men­te quanto ao aspecto da união total contra o centro do poder. É claro que essa união pode não ser suficiente para quebrar o sistema político dominante, mas sem ela, pelo menos até hoje, foi absolutamente impossível.

Reedição em 2014

Ao se focar apenas as duas últimas eleições, 2010 e a atual, pode-se observar a mesma linha de atuação oposicionista. Primei­ro, um culto à personalidade como nunca se tinha visto antes. A oposição se comportou como um cercadinho cheio de pavões, todos se exibindo maravilhosamente grandes e prestes a conquistar todo o eleitorado de maneira arrebatadora. Na atual eleição, inclusive, muito mais do que na anterior.

Por sinal, em 2010, havia, sim, um dos fatores comuns em 82 e 98: a crise interna no núcleo do poder. O Palácio das Esmeraldas se rebelou contra o próprio grupo a que pertencia. E nem assim os opositores se uniram para sacramentar uma derrota ao eixo político liderado por Marconi Perillo.

É possível que a aparente fragilidade político-eleitoral de Marconi em 2010, e que se imaginava ainda maior para agora, em 2014, tenha provocado nos opositores uma forma de insensatez absoluta, que os levou a menosprezar a capacidade de reação de Marconi, e sua extraordinária visão político-eleitoral. E esse erro, o menosprezo pelo adversário, é costumeiramente fatal nos processos eleitorais.

Em 2010 e em 2014, portanto, os opositores se comportaram exatamente da mesma forma. Aliás, de forma mais agravada ainda em 2014. No PMDB, por exemplo, a candidatura de Iris Rezende só se efetivou após se desgastar ao máximo num duríssimo embate interno. Foi uma candidatura sobrevivente, mas com ferimentos evidentes e com hemorragias incontroláveis. Não é sem motivos que Iris Rezende colheu nas urnas do primeiro turno a pior votação dentre todas eleições que disputou para o governo do Estado e para o Senado desde 1982, com apenas 898 mil votos. Ele foi menos votado agora do que ao ser derrotado no processo de reeleição para o Senado, em 2002, quando teve mais de 1 milhão de votos.

Vanderlan Cardoso, que se pretende um general do terceiro exército político eleitoral do Estado, também teve menos votos agora do que em 2010. Desta vez, ele não chegou ao meio milhão de votos, como na eleição anterior. Pode-se alegar, e com alguma razão, que este ano havia mais um concorrente de peso, Antônio Gomide, que provocou uma maior divisão dos votos. Mas Marconi, o candidato mais diretamente atingido pela votação de Gomide, especialmente em Anápolis, teve 50 mil votos a mais agora do que no primeiro turno de 2010.
Se na primeira das cinco vitórias do eixo político que está no poder em Goiás houve uma convergência das lideranças, nas demais houve a convergência em torno de uma liderança.

Marconi Perillo tem um poder extremamente aguçado para enxergar situações e se posicionar correta e antecipadamente. Dentro de quatro anos, os opositores mais uma vez vão ter que enfrentar o grupo liderado por ele. Se não foi fácil até aqui, é certo que continuará difícil.

Pesquisas Eleitorais: O que há além da margem de erro

 

Em todas as eleições, os institutos de pesquisa se tornam alvos preferenciais por apresentarem informações que não se confirmam nas urnas. De quem é o erro?

Universo de eleitores das pesquisas pode não ser o mesmo da votação efetiva: distorção | Foto: Erick Pinheiro

Universo de eleitores das pesquisas pode não ser o mesmo da votação efetiva: distorção | Foto: Erick Pinheiro

Antes de entrar nesse assunto tão polêmico, os erros, uma rápida abordagem sobre o objetivo das pesquisas eleitorais. Elas não são a palavra final sobre um conjunto de informações. Fazem parte desse universo. Ou seja, são algo a mais na informação. E não, repito, a única e definitiva ação desse conjunto.

Em outras palavras, não se pode “ler” as pesquisas como se o mundo das informações não tivesse mais nada, apenas os porcentuais e suas tabelas. Elas são, portanto, um elemento informativo que acrescenta ao global da informação.

Complicado isso? Não, não é. O problema está exatamente na manipulação que se faz das pesquisas e dos seus números. Isso ocorre pelas mentes criativas dos marqueteiros e pela emoção dos simpatizantes deste ou daquele candidato. E, claro, também pela falta de traquejo com que alguns veículos de comunicação tratam esse tipo de informação, por má fé ou mesmo por absoluta falta de conhecimento sobre o assunto.

Assim, termina-se por ver e entender uma só pesquisa como projeção de resultado das urnas no futuro, próximo ou não, quando se trata prioritariamente de informação sobre determinado momento. Pesquisa não tem e nunca teve a pretensão de prever o futuro. Tem, sim, a intenção de revelar/informar sobre o presente.

É óbvio que, pelo potencial informativo que carregam, as pesquisas se tornaram uma importante e cara mercadoria, que muitas vezes é comercializada com único propósito monetário e não como ciência. E nesse submundo, como em qualquer outro ramo da atividade humana, os limites éticos são completamente desprezados tanto por quem vende como por quem compra.

Mas ao contrário do que se imagina e afirma nas ruas, praças e bate-papos em redes sociais, essa não é a regra geral que norteia as pesquisas eleitorais no Brasil. Se houvesse apenas um ou dois institutos, a manipulação mercadológica seria facilmente obtida, mas com tantos institutos, é bastante improvável que alguém ou algum setor do mercado consiga “comprar” todo mundo, desde os institutos até os veículos de comunicação. Mais do que isso: se as pesquisas são “compráveis”, por que nem todos os candidatos as compram? São idiotas, por acaso?

No final do primeiro turno, como em outros ciclos eleitorais do passado, poucas pesquisas se confirmaram nas urnas. Pelo menos, essa foi a sensação geral do público consumidor de informação. O problema é que as pesquisas, com exceção daquelas conhecidas como “boca-de-urna”, não são projeções. Não são aplicáveis enquanto informação futura de voto, mas apenas enquanto informação sobre intenção de votar neste ou naquele, desta ou daquela forma. Há uma diferença brutal nisso: voto e intenção de voto.

O método aplicado nas pesquisas brasileiras, como de resto no mundo todo, foi desenvolvido nos Estados Unidos pelo estatístico George Gallup. Na década de 1930, os grandes jornais americanos promoviam enquetes gigantescas entre seus milhares de leitores para informar sobre as tendências das intenções de voto. Os leitores recortavam um pequeno cupom e indicavam em quem tinham a intenção de votar. Os cupons preenchidos com essa informação eram enviados para os jornais que os computavam. Tudo somado, os números se transformavam em informação.

Pois na eleição de 1935, os leitores dos grandes jornais dos Estados Unidos majoritamente, e aos milhares, indicavam que Alfred Landon seria eleito presidente com um pé nas costas. Gallup formatou a sua pesquisa e com alguns poucos milhares de entrevistas garantiu que Franklin Roosevelt é quem venceria. É claro que ninguém levou a pesquisa de Gallup muito a sério. Afinal, como milhões de cupons/respostas dos leitores de todos os grandes jornais americanos não projetariam com muito maior precisão a tendência geral do eleitorado em comparação com algumas poucas entrevistas realizadas por Gallup em sua pesquisa? O resultado daquela eleição marcou definitivamente a validade da ciência estatística na medição da opinião pública. Roosevelt venceu.

É óbvio que, tanto pelo ineditismo como pela surpresa geral, George Gallup teve que explicar a “mágica” durante os meses que se seguiram. E ele se utilizou de um exemplo simples para mostrar que há ciência, sim, numa pesquisa. Imagine uma caixa com 1.000 litros de água. Você não precisaria analisar cada molécula desses 1.000 litros para saber com precisão a sua composição química. Bastaria agitar toda a água e retirar da caixa apenas um copo. O que esse copo contiver será exatamente igual a toda a água que está dentro da caixa.

É óbvio que esse método não se aplica apenas com uma caixa de água. A poluição nos rios e lagos, por exemplo, é medida da mesma forma. Recolhe-se um pouco de água em vários pontos e é possível compor quimicamente todo o conjunto. Agora, imagine que alguns dias depois, a fonte poluidora do tal rio ou lago pesquisado seja anulada. Se for feita nova medição, vai se concluir que a água está menos poluída. E se novas pesquisas forem feitas ao longo do tempo, chegará o momento em que se vai concluir que a água está totalmente limpa, sem qualquer semelhança com a primeira pesquisa realizada lá atrás.

Aplica-se isso, exatamente dessa forma, nas pesquisas eleitorais. É esse o método que se usa até hoje nas pesquisas quantitativas. E elas, via de regra, quase sempre acertam no olho da mosca, como aquela primeira pesquisa feita por Gallup na década de 1930. O que ocorre é que não se pode pegar a informação de uma pesquisa e atirá-la como informação futura. Isso seria o mesmo que pegar a pesquisa inicial do rio ou lago poluído e dizer que futuramente ele estará tão poluído quanto agora. Ora, poderá estar mais ou menos poluído, dependendo do que se fizer.

Mas, afinal, tudo isso não invalida a dúvida: por que os institutos de pesquisa “erraram” tanto no primeiro turno, além até das margens de erro admitidas? Vamos lá, em que momento as tais pesquisas informaram que as intenções de votar seriam idênticas ao voto consolidado? Em nenhum momento. O fato de alguém responder que tem a intenção de votar neste ou naquele candidato no momento em que é entrevistado por um pesquisador não significa, longe disso!, viola no saco, favas contadas.

Da intenção de votar até a consolidação do voto há inúmeros fatores que podem provocar alterações. Grosso modo, grossíssimo modo, se o eleitor amanhecer com uma… dor de dente ele pode nem se dispor a ir votar. Enfim, são milhares de situações pessoais que interferem diretamente nessa relação entre intenção e consolidação. Um filho que amanhece com febre no dia da eleição pode causar uma preocupação tão grande nos pais que o ato de votar, de transformar suas intenções em voto, perde completamente o sentido.

Além desses fatores pessoais, que obviamente não compõem um quadro majoritário do eleitorado, mas que se tornam de certa forma representativos, há um aspecto que mexe substancialmente com o conjunto todo, e que está diretamente interligado: a pesquisa aponta intenções de voto do universo dos eleitores num determinado momento, inclusive às vésperas das eleições, enquanto a apuração dos votos resulta do universo votante. Só para se ter uma melhor ideia do que isso representa, no primeiro turno, em Goiás, as pesquisas se aplicavam sobre um universo de 4 milhões e 200 mil eleitores, mas somente 3 milhões e 600 mil votaram para governador. E para Senador, foram menos ainda os eleitores que realmente votaram. Em resumo, de cada 100 eleitores que compõem o universo pesquisado, cerca de 30 não votam — anulam os votos, votam em branco ou nem comparecem. Esse conjunto é tratado como alienação eleitoral.

Mas, então, pesquisa não vale nada enquanto, no mínimo, uma informação? Vale, sim. É só reparar que nenhum instituto de pesquisa “errou” a ordem dos votados: Marconi na frente, com boa vantagem, Iris em segundo, Vanderlan em terceiro, Gomide em quarto e assim por diante. E os institutos “acertaram” também para o Senado, na ordem exata: Caiado, Vilmar e Marina Santana. Ah, pode-se alegar, mas os institutos “erraram” os porcentuais de cada candidato. Não exatamente. Se for levar em conta uma alienação eleitoral de 30%, é óbvio que os porcentuais pesquisados podem ser diferentes dos votos obtidos individualmente.

Portanto, e definitivamente, as pesquisas eleitorais são apenas informação e, como toda informação, podem envelhecer rapidamente ou não. Muito além das margens de erro e das discussões.

Candidatura de Iris apenas “cumpriu tabela” no 2º turno

A pesquisa Ibope divulgada ontem, terça-feira, 21 de outubro, representa uma pá de cal sobre a candidatura de Iris Rezende. Acabou. A diferença de 20 pontos, mesmo levando em conta a possibilidade de uma falha no levantamento, a apenas 5 dias da eleição é definitiva. Simplesmente, jamais alguém conseguiu virar um placar como esse em tão pouco tempo.

Iris pode olhos fechados

Na realidade, a impressão que se tem é que a candidatura Iris entregou os pontos diante do resultado das urnas no 1º turno. Desde então, embora classificada para o 2º turno, apenas “cumpriu tabela”. Para se ter uma ideia, em 15 dias de plena efervescência da campanha, o candidato esteve apenas em 3 eventos públicos, Goiânia, Aparecida e, ontem, em Catalão. Nada além disso.

Vá lá que as eleições brasileiras estão caminhando há algumas edições rumo ao mundo virtual da telinha da TV e das ondas do rádio, mas ainda não é possível fazer uma campanha sem o chamado corpo-a-corpo, se limitando apenas a manter uma candidatura apenas no horário eleitoral.

ibope1-460x260

Pela curva da pesquisa Ibope neste reta final, com Marconi Perillo ganhando eleitores e Iris perdendo fôlego, existe um claro indicativo de que o peemedebista poderá sofrer domingo a pior derrota em toda a sua história. É exatamente o contrário do que se imaginava no início. Marconi sempre foi favorito à reeleição, mas havia a crença generalizada, inclusive no núcleo de campanha governista, que Iris seria um adversário perigoso, que deveria ser monitorado o tempo todo para evitar surpresas.

No final, fica a impressão que, se fosse necessário, Marconi poderia facilmente dobrar o volume de sua campanha. A candidatura de Iris não exigiu um esforço maior do adversário. Ela acabou no dia 5 de outubro, e desde então vive num espécie de limbo à espera do juízo final neste próximo domingo.

2º turno: O conflito da modernidade

 

Marconi Perillo e Iris Rezende disputam pela terceira vez um 2º turno em que a linguagem da modernidade é o grande diferencial

Afonso Lopes

Adversários de Marconi Perillo, especialmente aqueles que trafegam e se movimentam fora dos dois grandes eixos políticos do Estado, como o PT e a sempre sonhada e nunca realizada terceira via, costumam dizer que o governador é o Iris novo, com práticas políticas iguais as do grande e histórico líder peemedebista. De certa forma, e em alguns aspectos, eles têm razão quando fazem essa observação. Marconi, como Iris, entram nas disputas eleitorais com uma fome de ontem e avançam com uma estupenda força. No comando de seus grupos, nem Marconi nem Iris enfrentam rivais tão bons politicamente como eles. E quando surgem lideranças dispostas a colocar em xeque seus domínios, protegem seus patrimônios político-eleitorais com todas as forças que possuem.

Antes de ser um defeito, essas características que compõem um conjunto são evidentes virtudes. O processo de seleção natural na política, aqui ou em qualquer outra democracia do planeta, é realmente dura, e só os muito fortes sobrevivem e se mantêm no topo. Líderes políticos não recuam e abandonam o poder. Eles precisam ser vencidos, ser superados por outros líderes, novos ou não.

Repetição

Não é por outra razão que pela terceira vez os goianos decidem entre Marconi e Iris. Eles são realmente os melhores líderes do Estado. Não se está aqui dizendo que outros políticos não conseguiriam realizar bons governos. Não é isso. O que há é uma eleição, e o peso nas definições que desembocam nas candidaturas é político. O aspecto administrativo é um dos parâmetros que levam a população/eleitorado a se definir entre este ou aquele, mas não conta tanto assim nessa composição de cunho estritamente político. Se não fosse assim jamais seria possível, por exemplo, uma organizar uma chapa de oposição, já que neste caso seria obviamente impossível avaliar algum tipo de peso administrativo.

Embora uma das maiores frases feitas absolutamente verdadeira sobre disputas eleitorais seja a de que cada eleição é uma eleição, ou seja sem qualquer vinculação entre elas, existem algumas coincidências nesse conflito entre Marconi e Iris. E a própria repetição do confronto direto entre eles salienta ainda mais essas semelhanças individuais na disputa eleitoral. A maior delas é quanto ao estilo pessoal de Marconi e de Iris. O primeiro, com a imagem fortemente ligada ao conceito da modernidade, da vida atual e rápida. O segundo, com sua imagem mais paterna, mais à moda antiga. Não é defeito para um ou para o outro. São maneiras de ser, e ambos já foram suficientemente exitosos nas urnas e na aprovação por parte da população. Trata-se de estilo, e aqui se destaca que essas maneiras de ser de cada um se chocam nesses três conflitos eleitorais entre eles.

Impossibilidade

É impossível para Iris Rezende tentar se apresentar ao eleitor como um jovem moderno, antenado, afeito à internet e seus apetrechos de alta tecnologia. Ele, além de não ser nada disso, tem a sua imagem fortemente baseada em outra conceituação, exatamente na direção antagônica.

Igualmente seria impossível a Marconi Perillo se transformar na campanha em uma espécie de avô carinhoso, com tempo suficiente para ficar lendo histórias para netinhos numa tarde de domingo. A imagem dele é exatamente oposta. Ele é visto como um executivo moderno, urbano e não rural. Ele está muito mais para o agronegócio do que para a enxada de um camponês calçando botinas surradas.

Talvez a desobediência a esses conceitos de imagem de Iris contra Marconi seja a origem do fracasso que o líder peemedebista tem colhido nas disputas contra o tucano. Nas campanhas, e até antes do período delas, tenta-se de todas as formas transformar a imagem de Iris num Marconi experiente, mais vivido. É óbvio que, além de não haver verossimilhança com a imagem real de Iris perante o modo como o eleitor o vê e percebe, a disputa pela modernidade é facilmente vencida por Marconi, que disputa, por assim dizer, em sua seara, onde ele se sente completamente à vontade, e como o eleitor o vê.

O pior que se colhe nessa estratégia marqueteira de tentar “modernizar” Iris Rezende diante dos embates contra Marconi é o fundo crítico que se gera na própria imagem do Iris. Ou seja, ao invés de se acrescentar mais um conceito a Iris, termina por estender um fundo de crítica àquilo que ele realmente é. Não ser moderno, um executivo, um antenado, não é defeito que inviabilize uma eleição. Mas tentar mudar essa imagem à força de marketing não deixa de ser uma crítica, e nesse caso é uma autocrítica.

Recentemente, em Editorial, o Jornal Opção apontou esse fato e o sintetizou de forma fria e cortante: Iris moderniza Marconi. E isso acontece porque, apesar dos esforços televisivos, é humanamente impossível montar a imagem de um Iris moderno. Não dá, não tem jeito. Quando sai do script da “modernidade”, em debates ou entrevistas, por exemplo, o que surge é o Iris de fato, real, exatamente como a população o enxerga. E isso termina por reforçar que o conceito da modernidade que compõe o fundo da disputa eleitoral, é de Marconi. Até pela espontaneidade com que ele navega nessa tematização, e por ser esse o terreno onde está erguida a sua imagem política.

Goiás poderia assistir e decidir eleitoralmente sobre esses dois grandes e basilares conceitos humanos: a celeridade da modernidade contra a segurança do tradicionalismo. Quem poderia vencer uma disputa como essa? Difícil saber. Talvez seja realmente impossível. Ninguém é tão moderno que não seja também um pouco tradicional, e ninguém é tão tradicional que não seja também um pouco moderno.

Nesse sentido, é realmente uma pena que os goianos não tenham a oportunidade de ouvir, discutir e decidir sobre esses conceitos. Então, há apenas a modernidade em mais essa disputa eleitoral. E ela tem nome: é Marconi.

Ronaldo Caiado Secretário: Bala de prata ou tiro de festim?

 

Comando central da campanha de Iris Rezende criou suspense ao anunciar explosão de 
um fato novo que mexeria com a eleição. Nem explodiu, nem repercutiu tanto assim

Era para ser um fato novo com poder de fogo suficiente para incendiar a reta final do segundo turno em Goiás. Imaginado como uma bomba poderosa por comandantes do quartel general eleitoral, a solução levada a Iris Rezende era bem mais singela: anunciar que, se eleito, Ro­naldo Caiado será o próximo se­cre­tário de Segurança Pública de Goiás. Não se sabe exatamente o que le­vou os idealizadores do plano a imaginar que a indicação do agora senador eleito como secretário de Estado po­deria causar impacto tão grande ao ponto de estrangular a curva histórica que tem se verificado até aqui em re­lação ao desempenho das candidaturas de Iris e Marconi nesta eleição, con­forme indicam as pesquisas eleitorais e o próprio resultado do primeiro turno. Cai­ado tem uma imagem forte, consistente e bastante positiva até quando se apresenta ideologicamente na linha radical, mas seguramente essa imagem jamais sequer se aproximou a de um “xerifão” justiceiro. A imagem de Cai­ado é muitíssimo mais refinada que isso.

caiado-iris

Talvez o comando da campanha de Iris tenha cometido não somente um deslize ao provavelmente errar no diagnóstico do impacto. No fundo, e sobre isso o futuro oferecerá a resposta, pode ser que a “solução Caia­do/Xerife” cause um dano substancial à imagem que o senador trabalhou tanto anos para conseguir er­guer. Desde 1989, quando disputou a eleição presidencial, jamais a imagem de Caiado foi tão amena e positiva do ponto de vista da rejeição e de certo temor que causava. E é uma imagem tão consistente essa que ele conseguiu construir que não se identificou em nenhum momento com o quase sempre demagógico “caiadinho-paz-e-amor”. Ele continuou sendo um Caiado, com toda a força que isso representa, com todo o radicalismo que carrega intrinsecamente, mas sem qualquer vestígio de crueldade.

É óbvio que a campanha de Iris queria surfar nessa onda favorável a Ro­naldo Caiado. Até porque não resta mais nada a se fazer a não ser a­creditar em algum santo eleitoral mi­lagreiro. Iris está derrotado. Ele sabe disso, seus comandantes sabem disso, e os militantes, mesmo os mais apaixonados, sabem que a derrota, pelo curso normal dos acontecimentos, é inevitável. E para constatar que essa dura realidade bateu forte nas hostes iristas basta prestar alguma atenção nas manifestações atuais: praticamente ninguém mais fala em virada.

Houve um certo alento quando do anúncio da explosão da bomba que mudaria os destinos do turno final. Pe­emedebistas se animaram, militantes afiaram as baionetas. Mas a “ex­plosão” simplesmente não aconteceu. Caiado realmente teve uma vitória extraordinária na disputa pela única vaga ao Senado, mas daí a imaginar que ele poderia ser o efeito detonador de uma virada eleitoral para governador como possível futuro secretário de Estado é exigir demais.

É quase certo que o pleno êxito de Ronaldo Caiado na campanha de senador tenha gerado a impressão de que ele poderia ser o efeito bomba do segundo turno. Afinal, pela primeira vez des­de 1982 — quando do retorno à eleição direta de governadores — jamais um senador goiano foi eleito pela oposição (em 82, Mauro Borges venceu). O mais próximo do que se viu de oposicionista vencer para o Senado depois daquela eleição foi em 2010, quando foram reeleitos Demóstenes Torres e Lúcia Vânia, mas nesse caso deve-se levar em conta que houve divisão no grupo governista majoritário. A eleição de Caiado portanto representou a quebra de um tabu eleitoral que durou mais de 30 anos.

Somente esse fato pode oferecer alguma pista para se entender o que levou os estrategistas de Iris Re­zende a imaginar que um Caiado-secretário teria mais força eleitoral no segundo tur­no do que um Caiado-senador. Mas ainda assim é difícil compreender a matemática eleitoral desses estrategistas. Simplesmente, vai contra a lógica. É mais do que nadar contra a correnteza. É contrariar o senso.

Se era essa a “bala de prata” da campanha de Iris para esta última semana no segundo turno, o efeito bomba ficou com jeito de “tiro de festim”, além de prejudicar duramente a imagem que Caiado levou anos para conquistar. Na propaganda de Iris na TV, o “Caia­do/Xerifão/Justiceiro” aparece num desenho animado distribuindo sopapos. É exatamente essa imagem que Caiado havia superado, e com isso se tornado um político com baixa rejeição. Iris pode até vencer no domingo que vem por algum fato imponderável e ainda improvável, mas certamente não será por rebaixar um Senador da República a mero futuro secretário de Estado.

motoqueiro serial

Policial que investigou serial killer desabafa e conta detalhes

A sequência de mortes de mulheres em Goiânia aparentemente em qualquer motivação levou a polícia goiana a suspeitar que um temido criminoso, o mais temido de todas as polícias do mundo, poderia estar agindo, o serial killer. Esta semana, ao apresentar o autor desses e de outros assassinatos, os policiais diretamente envolvidos nas investigação ficaram em absoluto estado de êxtase. Foi um alívio coletivo após a mais dura prova da capacidade investigativa da polícia do Estado de Goiás. “As pessoas não conseguem compreender direito, mas prender um serial killer é sempre muito difícil. Pode levar anos e anos, e em inúmeros casos jamais se descobriu o autor de assassinatos em série”, disse a este site um policial que integrou desde o início o grupo que se dedicou exclusivamente nas investigações.

motoqueiro serial

Mas por que a polícia dizia antes que não tinha elementos suficientes para afirmar que era um serial killer? “Porque isso poderia alertá-lo, e provocar nele comportamentos mais ainda fora do padrão”, disse o policial. Seria o caso da informação sobre os exames de balística, que apontaram claramente para o uso de uma mesma arma em vários assassinatos. “Se a gente dissesse que os exames comprovavam que a arma era a mesma, ele poderia simplesmente sumir com ela e arrumar uma outra. E estaríamos mais uma vez na estaca zero”, explicou o policial.

Campanha eleitoral – Uma das suspeitas, principalmente dos opositores ao atual governo, é de que “fabricou-se” um culpado sob medida por causa da proximidade com as eleições. “Isso é um absurdo. Chega a ser um desaforo pra nós policiais que sacrificamos até nossas folgas para encontrar o cara” respondeu com certa irritação o policial. Mas não houve pressão da cúpula por causa da eleição? “Eu não sofri pressão nenhuma nesse sentido. Nenhuma. Ninguém chegou e falou pra mim que a gente precisava prender logo o assassino por causa da eleição. Nem eu e nem algum colega meu. Não que eu saiba”, detalhou. “A pressão é interna, nossa, pessoal. A gente se sente pressionado porque quer solucionar o caso. É o nosso trabalho. É o que nós gostamos de fazer, investigar, solucionar os crimes”, contou ele.

De qualquer forma, a prisão do serial killer veio bem a calhar com a eleição estadual. “E você queria que a gente fizesse o que? Que escondesse o cara uma semana para apresentá-lo na segunda-feira (dia 27, um dia após a realização do 2º turno)?”, perguntou o policial. “Vou repetir pra você: nós não temos nada a ver com a eleição. A polícia de Goiás trabalhou nesse caso como em tantos outros casos. Você sabia que Goiás é o único Estado do Brasil que conseguiu solucionar todos os casos de sequestro até hoje? O único. Por que aqui não tem mais sequestros? Você tem sequestros em São Paulo, no Rio de Janeiro, no Paraná, mas aqui, não”, disse em tom de desabafo.

As críticas de que a polícia de Goiás é ruim e mal preparada incomoda alguns setores policiais. “Quando ouço essas críticas eu me pergunto: o que mais a gente tem que fazer? Não entendo. Nem eu e nem muitos dos meus colegas”, lamenta o policial. “Houve um tempo que as pessoas iam a uma agência bancária aqui em Goiânia e bandidos invadiam e assaltavam. Não há mais assaltos. Isso acontece por causa do nosso trabalho. Aqui também não tem os grupos como o PCC e o Comando Vermelho, como em São Paulo, no Rio e em Santa Catarina. Por que? Posso te garantir que eles já tentaram se instalar aqui, mas até agora não conseguiram, graças a Deus e ao nosso trabalho. Somos incompentes, mal preparados, mal equipados? Mas por que não temos mais sequestros, não temos mais assaltos a banco, não temos PCC e Comando Vermelho?”, pergunta indignado.

Mas apesar da competência da polícia de Goiás o número de assassinatos tem crescido. Pior que isso, o índice de solução desses crimes é muito pequeno. “No Brasil todo o número de casos solucionados é baixo no geral, mas quando você olha os detalhes percebe que a gente consegue descobrir e solucionar quase todos os assassinatos que acontecem entre os cidadãos de bem. Quase todos. O problema realmente é grande quando envolve a bandidagem. Eles se matam o tempo todo. Quando a gente consegue prender, eles batem na cadeia e voltam para as ruas. Do jeito que está a lei, não tem jeito: vai ser assim sempre”, entende ele. A população também não consegue entender por que os índices de solução de assassinatos são muito melhores nos Estados Unidos e nos países europeus. “Vou repetir pra você: nós quase sempre descobrimos os autores de assassinatos entre cidadãos de bem. Faça um levantamento detalhado e você vai comprovar isso. O problema, vou repetir, é entre bandidos. Quem vai preso nos Estados Unidos fica preso. Aqui, não. A gente descobre o cara, prende o cara, e quando volta pra delegacia começa a investigar outro assassinato cometido pelo mesmo cara que já está solto”. E completa: “Se a lei não mudar, não vai mudar nada”.

 

Ilustração

Ilustração

Nota do redator – Ao final, perguntei se poderia identificá-lo ao publicar este bate papo. “Melhor não. Pra que? Estou te contando isso aí pra você saber o que aconteceu. Não é pra aparecer. Tudo o que eu te disse até hoje aconteceu, lembra? (Leia post “Serial killer em Goiânia? Sem alarde, polícia investiga possibilidade”, de 28/julho). Não me identifica, não. Se quiser usar o que eu falei, pode usar, mas me deixe fora. Se quiser entrevistar alguém, procure os delegados. Eles é que devem falar. Meu negócio é só investigar”. Está certo, então, e obrigado. “O que é isso ‘irmão’, grande abraço”. E parabéns, você e os outros agentes fizeram um grande trabalho. “(gargalhada) A gente sempre faz, vocês (genericamente, jornalistas) é que nem sempre reconhecem (risos)”.

Foto: Jornal Opção online

Polícia garante que terror acabou: serial killer está preso

A cúpula da Secretaria de Segurança Pública de Goiás anunciou hoje, 15, pela manhã que o autor de uma série de assassinatos de mulheres e moradores de rua está preso. A notícia repercutiu intensamente por duas razões. A primeira, obviamente, pelo clima de apreensão e insegurança provocada pela série de mortes.

Foto: Jornal Opção online

Foto: Jornal Opção online

A segunda, por causa do calendário eleitoral. Nas redes sociais, militantes pró-Iris e contrários a Marconi e militantes pró-Marconi e contrários a Iris trocaram impressões, e até algumas provocações, por causa da prisão daquele que a SSP anunciou como autor dos assassinatos.

Foto: Jornal Opção online

Foto: Jornal Opção online

Não há dúvida sobre as repercussões diretas no clima eleitoral que a prisão do acusado provocam. A existência de um serial killer entre os mais de 1 milhão de habitantes de Goiânia, que somados aos moradores das cidades coligadas ultrapassam a casa dos 2 milhões, causava sentimento coletivo de intensa insegurança e medo, principalmente entre as mulheres mais jovens, na faixa etária entre 14 e 29 anos, e também para os pais, irmãos e amigos de mulheres com essas idades. motoqueiroO serial killer se compara a uma roleta russa cega e inesperada, que pode disparar um tiro fatal a qualquer momento e em qualquer “alvo” que se enquadre no perfil de suas vítimas. Para completar, um serial killer foge do padrão do criminoso comum, se misturando à sociedade como parte dela, o que torna muito difícil a sua identificação e, consequente, prisão.

Eleição – Imediatamente após o anúncio feito pelo próprio secretário de Segurança Pública, delegado da PF Joaquim Mesquita, em entrevista à rádio Bandeirantes 820-AM, no início da manhã de hoje, 15, as redes sociais, especialmente o Twitter, foram invadidas por postagens relativas à prisão do serial killer.

É compreensiva essa reação. Durante meses, a cada assassinato os opositores do governo estadual politizavam o crime de forma a gerar o máximo de danos à imagem do governo e do governador Marconi Perillo. Consequentemente, o anúncio da prisão do serial killer gerou imediato alívio da pressão oposicionista e autêntico desabafo de alegria entre os governistas.

Band: bonecos de ventríloquo não vencem debates

Pode acontecer de em um debate entre apenas dois debateres nenhum deles possa ser considerado vencedor? É raro, mas pode, sim. Ontem, na Band, isso aconteceu. Dilma Roussef e Aécio Neves se comportaram como dois bonecos de ventríloquos, e isso, francamente, não é debater ideias e concepções políticas. Não se discutiu nem o futuro do país e nem se apontou peremptoriamente os possíveis defeitos entre eles. Foram idênticos.

DILMA:AÉCIO

É claro que, como invariavelmente ocorre, partidários e simpatizantes de Dilma e de Aécio proclamam entusiasticamente a vitória. Talvez realmente acreditem nisso.Mas, provavelmente, para os eleitores que estão em dúvida sobre em qual deles votar dia 26 o debate não conseguiu sequer apontar para uma definição.

Em alguns momentos, por exemplo, seria ideal a instalação de um tradutor ou um rol de NE – notas explicativas. Dilma citou uma tal de “pasta rosa”. Quem ainda se lembra o que vem a ser essa tal pasta? É claro que um ou outro brasileiro sabe de cor e salteado do que se trata, mas estou me referindo ao povo como um todo, ao eleitorado de uma maneira geral.

Em um outro momento, Aécio poderia estocar a presidente Dilma na nevrálgica questão do porto de Cuba, especialmente quando ela disse que o governo financiou não Cuba mas empresas brasileiras de engenharia, e acrescentou que exportar é importante para o Brasil. É claro que é, mas não seria o caso de Aécio perguntar a Dilma por que ela não financiou essas mesmas empresas brasileiras de engenharia para construir ou reformar os portos brasileiros? Aécio não fez isso porque estava, como Dilma, ligado 100% aquilo que havia sido ensaiado junto com suas equipes.

Dilma perguntou sobre violência contra a mulher. Se imaginava que, após a resposta de Aécio, ela tocaria num assunto constrangedor ao extremo, que circula nas redes sociais da militância, sobre uma possível agressão que Aécio, numa balada carioca, teria cometido contra uma namorada dele. Que nada. Desandaram, ambos, a entoar uma cantilena decoreba preparada pelos marqueteiros, que nada acrescentou.

Enfim, nem Dilma pode se vangloriar, e nem Aécio pode festejar. Ambos foram engolidos pelo formato ensaiadinho/decoradinho de debate. E olha que as regras criadas pela TV Band foram sensacionais: perguntas e respostas, com réplicas e tréplicas diretas, com temas livres – e com tempo suficiente para apresentar sucintamente as ideias e intenções de cada um.

Vinho: quanto mais velho, melhor?

Virou ditado popular, e portanto ganhou um certo charme, mas a frase não deveria ser essa. Não é qualquer vinho que fica melhor com o passar dos anos. Ao contrário, a maioria vira “vinagre”, torna-se uma gororoba intragável. Então a frase ideal e verdadeira seria: “Alguns vinhos, quanto mais velhos, melhores ficam”.

taça de vinho

Vendo assim, é fácil concluir que o mundo dos vinhos é bastante complicado. E é mesmo. Mais ou menos como as pessoas são, cada região, cada povo, uma cultura, um modo de ser e viver todo especial e único.

Aí é que está: vinhos são bebidas vivas. Eles nascem, crescem, atingem o apogeu e entram em decadência. Por fim, morrem. E em cada uma dessas fases ele se apresenta de uma forma. E cada grupo de vinhos tem sua própria longevidade. A maioria tem vida mais curta, de 5 ou 6 anos. Geralmente, são os mais baratos e de maior consumo no mundo todo. No exato oposto ficam os vinhos chamados de longa guarda, que só se apresentam com todas as suas qualidades depois de evoluírem por 10, 15 e até 20 anos. Existem algumas garrafas francesas com mais de 30 anos e que são simplesmente indescritíveis. Mas esse é um privilégio para bolsos especialíssimos. Nós, mortais comuns, temos que nos contentar com vinhos de vida bem mais curta.

decanter vinho

Rebeldia – Vinhos de longa guarda quando novos são complicadíssimos na boca. Geralmente, nessa fase os taninos estão, como diria, no auge de seus “hormônios”. Rebeldes sem causa, indomináveis. Ao longo dos anos, ele vai amadurecendo aos poucos até que, após 15 ou 20 anos, ou até mais, finalmente se comportam com a classe e civilidade como os evoluídos devem ser.

Mas como saber se a garrafa safra, digamos, 2005 ali na prateleira da adega está boa, já passou da hora ou ainda está com taninos rebelados? Difícil responder de bate-pronto, mas como regra, o preço geralmente diz qual é a real dessa garrafa. Se muito cara, é extremamente provável que o vinho que está dentro da garrafa ainda é uma criancinha e tem muito ainda para viver. Se o preço for uma bela pechincha, daquelas que a carteira se mantém recheada de notas após passar pelo caixa, é quase certo que lá dentro tem um líquido que já viveu dias muito melhores. O ideal é pesquisar antes de comprar um vinho 2005 hoje em dia, principalmente se o bebedor não conhecer o modus operandi do fabricante. Na dúvida, prefira uma garrafa safra 2011 ou 2012. É mais seguro e quase sempre muito menos decepcionante.

É lenda? – Alguns poucos iniciantes no mundo delicioso do vinho estalam a língua quando ouvem algum relato sobre vinhos safra 2000, 1980 e tals. E realmente os vinhos mudam muito dentro de seus ciclos de vida. Mas nem todos sobrevivem por tantos anos.

Um dos muitos tons de vermelho dessa magia líquida

Um dos muitos tons de vermelho dessa magia líquida

Não sei se já contei aqui sobre ótima e surpreendente experiência que tive com garrafas de Montes Alpha, um chileno bastante conhecido no Brasil e que custava bem menos do que atualmente. Foi chocante para mim constatar o quanto um vinho consegue melhorar de um ano para o outro.

Primeiramente, a safra. O ano de 2005 foi divinamente ótimo para as videiras chilenas. São desse ano alguns dos melhores vinhos já produzidos por lá. E os fabricantes chilenos conseguem como ninguém oferecer vinhos bastante jovens de muito boa qualidade. O que eles conseguem atingir com 2 ou 3 anos de envelhecimento a maioria dos europeus precisa de uns 5 anos no mínimo.

A safra 2005 no início não tinha o rótulo dourado Vintage

A safra 2005 no início não tinha o rótulo dourado Vintage

Eu participava de um grupo que se reunia uma vez por semana para viver experiências no mundo de Baco. Época de descobertas. Abrimos muitas porcarias engarrafadas, mas a maioria ganhou nossos paladares. Um desses bons vinhos foi o Montes Alpha cabernet sauvignon. Não sei ao certo, mas em 2 anos de reuniões devemos ter bebido umas duas dúzias de Montes 2005. No final desse tempo já estávamos na safra 2006.

Tempo vai, vinhos outros vem, novas descobertas e tal, e eis que um belo dia bateu saudades dos sabores do Montes. Aleatório. Tava escolhendo algumas garrafas na loja e, de repente, peguei e separei uma do Montes.

Dois ou três dias depois, não mais que isso, em casa, resolvi abrir o velho conhecido. Não sou um bebedor com memória gustativa extraordinária, mas me lembrava exatamente o que iria beber. Quando coloquei o vinho na taça, apreciei a cor vermelhona, linda, mas ao bater o nariz levei um susto. Se minha memória gustativa é amadora, minha memória para os aromas é pior ainda, mas nem tanto assim que não me fizesse lembrar das garrafas de Montes que tinha bebido anteriormente. Foi um ótimo susto. Aromas perfeitos, muito agradáveis. Rodei a taça contra a luz e o vermelho ganhou ainda mais vida. “Uai, nem me lembrava mais disso tudo”, pensei na hora.

O Montes Alpha M 2005 é o primo rico (e muito mais caro. Um ícone)

O Montes Alpha M 2005 é o primo rico (e muito mais caro. Um ícone)

Mandei o primeiro gole. Rapaz, que coisa fantástica. Era o mesmo vinho que bebi tantas vezes antes, mas se apresentava de forma extraordinariamente gostosa. Beberiquei aquela garrafa aos pouquinhos, golim por golim até lamentar quando a última gota secou.

No dia seguinte, comentei com um dos amigos do grupo de bebedores que frequentava sobre essa experiência com o Montes Alpha. “Não pode ser tudo isso. É que tem mais de 1 ano que você não bebia esse vinho”, foi a reação dele. Pode ser, mas na dúvida, corri para a loja e comprei mais duas garrafas 2005. As derradeiras do estoque. Dali pra frente, só 2006.

Estava entrando em casa quando recebi telefonema desse amigo. “Você tem razão. Esse vinho explodiu. Tá cheio de depoimento de confrades na internet contando a mesma coisa. Já procurei nas lojas online e não tem mais safra 2005. Acabou. Onde você encontrou?”. No Ata (Empório Sírio Libanês), respondi, mas lá também acabou, disse sem contar que estava com as duas últimas garrafas 2005 debaixo do braço.

Ainda encontrei 11 garrafinhas de 375ml do Montes Alpha 2005 alguns dias depois. Fiquei com 6 delas e passei 5 para o amigo.

Auge – Isso é uma das características mais fascinantes nessa bebida extraordinária, a evolução. A mesmíssima garrafa, um único ano depois, um vinho bom que se tornou perfeito. Fico imaginando os vinhos franceses e portugueses de longa guarda e as marcantes diferenças e percepções ao longo dos anos.

Sobre o Montes Alpha 2005, não sei como ele estaria hoje ao ser aberto. Não acredito que estaria melhor do que no finalzinho de 2009, início de 2010, quando dessa minha experiência. Hoje, se me deparasse com uma garrafa dessa safra, a levaria para casa muito mais por curiosidade, para saber se ele ainda evoluiu ou se entrou na fase decadente.aqueijos taça

Portanto, se você está se iniciando nos prazeres do fantástico mundo dos vinhos, lembre-se que aquela garrafa maravilhosa bebida no ano passado pode não ser mais tudo aquilo hoje. Ou estar ainda melhor. Mas se você é um iniciado, certamente já passou por essas experiências que só fazem acrescentar as nossas paixões pelos vinhos.