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Retiradas de ações na Justiça: abertura de diálogo?

2º turno: o jogo continua

Os goianos retornam às urnas no último domingo deste mês, dia 26, para escolher novamente quem deve governar o Brasil e quem deve governar Goiás. Dilma Roussef e Aécio Neves repetem a eterna rivalidade entre PT e PSDB. Marconi Perillo e Iris Rezende repetem a eterna rivalidade entre eles mesmos. Tudo igual? Não exatamente igual.

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O 2º turno das eleições é uma nova eleição, mas não começa do zero, como  no 1º turno. E a razão é simples: quem votou em um dos dois classificados para o turno final logicamente tende a repetir o voto no 2º turno. Então, a eleição agora partirá desse patamar obtido no 1º turno.

Outro viés que deve ser observado inicialmente são as curvas dos candidatos na comparação entre as pesquisas pré-eleição e o resultado das urnas. Essas curvas, apesar dos “erros” dos institutos, podem estar revelando tendências que restam ser comprovadas ou não. É isso que torna as eleições nacional e regional diferentes.

Transferência de votos – Outro ponto que sempre causa discussão é sobre o patrimônio eleitoral dos candidatos que não conseguiram chegar ao 2º turno. Existe uma tendência natural de se somar esses votos, e por isso há uma intensa negociação dos classificados com os derrotados.

Apesar da tendência, esse fato, a migração de votos, não é líquida e certa, infalível. Aliás, historicamente, apenas uma única vez um candidato desclassificado para o 2º turno conseguiu convencer seus eleitores a votar em outro candidato no 2º turno. Foi Leonel Brizola, em 1989, que acabou em terceiro lugar e apoiou Luiz Inácio Lula da Silva no 2º turno. No Rio de Janeiro, Brizola conseguiu transferir seu prestígio eleitoral para Lula totalmente.

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Se não há essa transferência/soma de votos do 1º para o 2º turno, as negociações que visem apoios são uma bobagem? Longe disso. Muito longe. Há, sim, um pequeno percentual de eleitores que acompanham seus candidatos desclassificados no 2º turno, mas o principal é o aumento do volume de  campanha e da militância. Ganha-se em argumentos também. Portanto, receber o apoio dos candidatos que não se classificaram para o 2º turno é importante do ponto de vista global das campanhas. Se não no aspecto direto, dos votos, com certeza no aspecto político.

Mário Covas

Viradas no 2º turno – Em 90% das eleições decididas em 2º turno, repetiu-se a ordem de chegada dos candidatos obtida no 1º turno. Ou seja, quem ganhou na primeira, ganha também na segunda. Em 10% das eleições, aconteceram viradas: quem chegou atrás conseguiu ultrapassar o primeiro colocado e vencer. maluf-450_linkO maior e mais acabado exemplo de virada eleitoral entre o 1º e o 2º turno é o de Mário Covas, em São Paulo, contra Paulo Maluf. Em 1998, Covas chegou em 2º lugar com mais de 1 milhão de votos de desvantagem, uma diferença fantástica mesmo em um eleitorado imenso como o paulista. Foi reeleito.

Iris e Aécio tem esse baita desafio pela frente. E ao contrário do discurso de ambos, vão ter que trabalha intensamente para reverter o placar do 1 turno.

Aécio – O final do 1º turno é amplamente favorável, enquanto quadro eleitoral estático, ao candidato do PSDB. Ele estava com menos da metade dos votos que obteve há cerca de 1 mês. Ou seja, ele veio ganhando eleitores aos montes. Mas, repetindo, esse quadro enquanto resultado final é estático, parado. O 2º turno é uma nova eleição a partir do patamar final do 1º turno. E só. Não significa que ele vai continuar ganhando eleitores no mesmo ritmo e nem que a presidente Dilma não aumentará seu eleitorado. O jogo não foi zerado. O que houve foi simplesmente uma prorrogação.

Aécio terá que ganhar mais 8,04% de eleitores para empatar com Dilma. Somente a partir daí é que ele começará efetivamente a disputar a eleição contra a presidente. É possível? É, mas não é fácil.

Iris – A tarefa de Iris Rezende contra Marconi Perillo é ainda mais difícil. Marconi não conseguiu atingir a barreira dos 50% dos votos para vencer no 1º turno – faltaram menos de 5% dos votos válidos -, mas a votação de Iris ficou abaixo dos 30%. Iris terá que crescer 17,46% para empatar com Marconi, e só após esse patamar é que estará em condições de disputar realmente o 2º turno contra o adversário.

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De qualquer forma, e como o eleitorado não é estático, ao contrário do resultado final do 1º turno, Dilma e Marconi devem pisar no acelerador imediatamente. Isso porque eleições são decididas muitas vezes pelas tendências. Se Aécio e Iris criarem essa tendência de crescimento constante, como aconteceu com o tucano na reta final do 1º turno, é difícil segurar a onda. Se, ao contrário, Dilma e Marconi se mantiverem à frente e também crescerem, evitarão que se crie a onda da virada, que onde bate sempre provoca uma mudança e tanto.

Tudo pode acontecer no 2º turno? Sim, pode. Mas nesse “tudo” deve-se levar em conta também o “nada”. Aécio e Iris precisam de “tudo” e mais um pouco para repetirem o feito histórico de Mário Covas em 1989. E viradas são tão difíceis que são raras, e por serem raras se tornam históricas.

Marconi Perillo: Os opositores jamais acreditaram

 

Há dois anos, a maioria da oposição não acreditava nem na possibilidade de Marconi se candidatar à reeleição. Sempre foi assim, mas, hoje, ele não só chega às urnas outra vez como tem possibilidade de vencer já no 1º turno

Governador Marconi Perillo: nunca perdeu uma eleição desde que se elegeu deputado estadual, em 1990 | Fernando Leite/Jornal Opção

Governador Marconi Perillo: nunca perdeu uma eleição desde que se elegeu deputado estadual, em 1990 | Fernando Leite/Jornal Opção

Afonso Lopes

A vida política de Marconi Perillo nunca foi tranquila. Ele começou como auxiliar do governador Henrique Santillo, em 1986, e alcançou, a partir de sua posição dentro do Palácio das Esmeraldas, a Pre­si­dência estadual do PMDB-Jovem. Desde então, coleciona vitórias nas urnas. Algumas, de maneira espetacular. Outras, contra todos os prognósticos possíveis e lógicos.

O primeiro mandato, de deputado estadual, foi conquistado por ele nas eleições de 1990, marcada fortemente pela guerra interna no PMDB entre as forças de Iris Re­zen­de e do então governador em fi­nal de mandato Henrique Santillo. Mar­coni estreou nas urnas nessa au­têntica prova de fogo. Naquela eleição, embora Santillo e Iris estivessem no PMDB, eles se tornaram fer­renhos adversários. Com o controle da maioria, Iris lançou-se candidato ao anunciar que era oposição a Santillo. Isso foi dito abertamente, já no discurso de lançamento de sua candidatura. Todos os possíveis nomes santillistas ficaram inviabilizados de imediato no choque interno.

Sobrevivente

Naquela época, Iris tinha uma extraordinária capacidade de mapear as potencialidades de votos dos candidatos. Foi dessa forma que ele lançou candidatos de seu grupo em todos os nichos trabalhados pelos candidatos apoiados por Santillo. Essa invasão bárbara dos iristas nas bases dizimou o exército de candidatos santillistas em todo o Estado. Me­nos um: Marconi Perillo, o jo­vem estreante. Assim, na Assem­bleia Legislativa, entre os anos de 1991 e 1994, apenas um deputado do PMDB de Santillo marcou presença.

E que presença. O sobrevivente foi uma pedra no sapato do Palácio das Esmeraldas. Sem deixar o PMDB, o deputado estadual Mar­co­ni foi o mais empedernido e persistente oposicionista. Tornou-se, as­sim, e rapidamente, uma das maiores referências da minoritária bancada de oposição. Iris fez o possível para isolá-lo, mas não conseguiu evitar que uma chuva de denúncias contra a sua administração tivessem como denunciante o deputado santillista.

Quando se imaginava que Mar­coni se candidataria à reeleição, que era considerada muito mais tranquila do que a estreia, ele mudou de ares e entrou em outra parada tortíssima: a disputa por uma das 17 cadeiras da Câmara dos Deputados, em Brasília. Se quatro anos antes, contando com apoio de Henrique Santillo, ele precisou enfrentar a máquina eleitoral trituradora de Iris para se eleger deputado estadual, arriscar tudo num voo ainda mais ousado era quase um suicídio político. Não foi.

Durante toda a campanha, o nome de Marconi jamais apareceu nas possíveis listas de candidatos favoritos. No máximo, ele figurava no bloco intermediário, o que reforçava inclusive a imagem de que a ousadia custaria muitíssimo caro. Contados os votos, lá estava ele entre os deputados federais eleitos.

Nacional

O desembarque em Brasília não foi fácil. De estrela estadual em ascensão, Marconi era mais um numa multidão de 513 deputados federais. Mas na Presidência da República estava o tucano Fernando Henrique Cardoso, e no Ministério dele, Sérgio Motta, turma que desde sempre se identificava politicamente com Henrique Santillo. Essa proximidade foi importante para o recém-eleito deputado federal Marconi, que caiu nas graças do super-ministro de FHC.

Dois anos depois, em 1996, já com certa influência dentro do ninho tucano, Marconi foi um dos principais articuladores da candidatura de Nion Alber­naz à Prefeitura de Goiânia. E também foi ele quem conseguiu trazer Sérgio Motta para, no início da campanha, anunciar apoio de Brasília a um possível governo de Nion em Goiânia, o que abriu caminho para a consolidação da união total dos principais partidos de oposição ao PMDB e ao PT em Goiânia, PSDB, PP, PTB e PFL/DEM.

O trabalho desenvolvido em Brasília construiu para Marconi Perillo um tranquilo caminho rumo à reeleição, em 1998. Seu relacionamento com o prefeito Nion também era perfeitamente sincronizado. Assim, aparentemente nada indicaria qualquer mudança de rumo nas eleições de 1998. Ninguém imaginava outro cenário senão o da reeleição de Marconi para a Câmara dos Deputados. Quer dizer, ninguém vírgula. Marconi tinha outros planos: disputar o governo do Estado contra o mito sagrado da política estadual, Iris Rezende.

Qualquer hipótese eleitoral futura para Marconi em 1998 levaria em conta sua reeleição para a Câmara. Uma dessas hipóteses seria a de suceder Nion no comando da Prefeitura de Goiânia, em 2000. Até porque não havia a menor possibilidade concreta de as oposições vencerem as tropas palacianas do então governador Maguito Vilela, que era candidato natural à reeleição pelo PMDB. Iris estava em Brasília, muito bem instalado no Ministério da Justiça.

Mas Iris resolveu voltar a Goiás e se candidatar pela terceira vez ao governo do Estado. Maguito recuou da reeleição e se lançou para o Senado. Maguito seria imbatível naquela eleição e, mesmo com Iris, a situação do governo era absolutamente tranquila. Para a oposição, mesmo unificada, não restava muita coisa. Chance zero.

Tentou-se um grande acordo com o PMDB, mas os 74% de intenções de voto captadas a favor de Iris pelas pesquisas inviabilizaram qualquer aproximação que não significasse uma rendição incondicional. No Palácio do Planalto, Fernando Henrique apontou que o caminho do PSDB goiano deveria ser o apoio, incondicional se fosse o caso, a Iris Rezende, seu ex-ministro da Justiça. Mas, também em Brasília, Marconi aproveitou o trânsito livre que tinha com o super-ministro Sérgio Motta e conseguiu dele o sinal verde para que os tucanos fechassem com a oposição e não com o PMDB.

Completamente atordoada diante da avassaladora preferência por Iris nas pesquisas, a oposição era um exército maltrapilho contra a azeitada máquina irista. O primeiro candidato ungido pelo grupo, o deputado federal Ro­berto Balestra, não suportou a enorme pressão e abriu mão do privilégio às avessas de enfrentar Iris Rezende. Os principais líderes dos partidos oposicionistas procuraram outro candidato, mas ninguém topou a parada tortíssima. Foi então que surgiu o jovem deputado federal Marconi disposto a sair da zona de conforto da reeleição para a Câmara dos Deputados e enfrentar o bicho-papão peemedebista. Na realidade, nos bastidores e em silêncio, Marconi trabalhava para ser o candidato ao governo contra Iris.

Foi uma eleição duríssima a de 1998. A mais difícil de todas. Apesar de unida, as oposições não somavam densidade suficiente para enfrentar o até então imbatível Iris Rezende e o PMDB. Marconi, logo na primeira pesquisa com o seu nome, surgiu com dois pontos porcentuais a menos que o candidato anterior, Roberto Balestra. A liderança de Iris era acachapante. Mas no final da campanha, em dois turnos, Marconi Perillo venceu e se tornou governador do Estado. Era apenas a sua terceira disputa, em oito anos – 1990, estadual, 1994, fe­deral, e 1998, governador – e sua terceira e mais impressionante vitória.

Inferno astral

A reeleição em 2002 foi muito mais tranquila do que as três disputas anteriores. Em 2006, buscou e conseguiu cadeira de Senador com sobras e sem ne­nhum sufoco. De quebra, teve forças suficientes para eleger também seu sucessor. Em 2010, nova pedreira, mas a vida dele foi facilitada pela divisão na oposição.

Herdeiro de uma máquina administrativa onde se identificava um déficit potencial que alcançava R$ 2 bilhões, em 2011, conforme denunciou seu então secretário da Fazenda, Simão Cirineu, Marconi começou o governo acumulando dificuldades. Além disso, a pressão criada naturalmente pela esperança de seu retorno, após o governo de Alcides Rodrigues, ampliou extremamente as demandas e a urgência nas soluções. Foi um ano duríssimo.

Nem bem iniciava o ano de 2012, quando se imaginava que o sufoco administrativo maior havia passado, eis que explode o caso Cachoeira, que envolveu politicamente o Palácio das Esmeraldas. Em Brasília, uma CPI com digitais do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, arqui-inimigo de Marconi, acabou provocando uma crise seriíssima que criou um efeito de terra arrasada sobre todo o patrimônio político de Marconi. Era o fim, concluíram os opositores.

Recuperação

Se a vida eleitoral de Marconi nunca foi fácil, há dois anos ninguém na oposição acreditava sequer que ela ainda continuaria a existir. Era comum, nos bastidores e publicamente, ouvir líderes opositores prevendo que Marconi nem candidato seria este ano. Não teria coragem, diziam. Politicamente, ele estava morto e enterrado.

Hoje, Marconi não apenas chega às urnas mais uma vez como tem possibilidade real de vencer já no primeiro turno, conforme revelam as pesquisas mais recentes. Se ele vai mesmo conseguir ganhar de todos os adversários agora ou em um 2º turno, descobriremos em breve. Mas a verdade é que os que fazem oposição a ele jamais acreditaram.

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Haverá 2ºturno ou não? Eis a dúvida

 

Para candidatos, militância e simpatizantes, este domingo vai ser cheio de emoções. E de decepções, também

Por um dos sistemas de votação mais modernos do mundo, a urna eletrônica, Goiás conhecerá seus eleitos

Por um dos sistemas de votação mais modernos do mundo, a urna eletrônica, Goiás conhecerá seus eleitos

Para milhares de pessoas, entre candidatos, militantes e simpatizantes, o dia de hoje só vai terminar nas primeiras horas da madrugada de segunda-feira, 6. Será quando provavelmente a Justiça Eleitoral já terá apontado eleitos e não eleitos, vencedores e derrotados. Um longo dia que apresentará o resultado final de um incessante trabalho de vários meses. E o que virá das urnas? Ninguém sabe, mas todos tem ao menos uma ideia do que poderá vir. Os processos eleitorais são bastante complicados, mas geralmente não reservam muitas surpresas. Elas ocorrem, claro, mas são muito raras.

Tempos modernos também nos processos eleitorais. O sistema mudou muito desde o retorno das eleições diretas para governadores, no início dos anos de 1980. Naqueles tempos, o voto era depositado em urnas de lona. O cidadão chegava na seção de votação, recebia um pedaço de papel, que se chamava cédula, e escrevia o nome ou o número de seus escolhidos. No final do dia, essas urnas eram reunidas em grandes espaços, geralmente quadras cobertas, e passavam a noite sob vigilância de soldados do exército. Ao amanhecer, iniciava-se a apuração dos votos. Urna por urna, voto por voto. A soma total era então transcrita num mapa geral da urna, um resumo. Em seguida, outra turma de apuradores somava os mapas e apresentavam, finalmente, o resultado final daquela zona eleitoral. Esse ritual todo era repetido simultaneamente em todas as demais zonas até chegar à apuração final da cidade, do Estado ou do país. Aliás, a apuração nacional só surgiu alguns anos depois, já no final dos anos de 1980, com o retorno também das eleições diretas para presidente da República.

Uma trabalheira infernal que levava alguns dias para ser concluída. E era tão precário o sistema de apuração que as fraudes eram rotineiras. Alguns candidatos conseguiam colocar simpatizantes/funcionários no processo de afunilamento dos mapas de apuração, que continham os nomes de todos os candidatos. E como era necessário somar vários mapas de urnas e transcrever essas somas num mapa maior, era possível “errar” na transcrição e dar votos a candidatos não votados, principalmente na enorme lista de candidatos aos legislativos. Isso tudo acontecia apesar dos exércitos de fiscais de apuração que os partidos mantinham em cada mesa de apuração.

Quanta diferença para o funcionamento da Justiça Eleitoral brasileira hoje em dia. O cidadão agora vai à seção eleitoral, se identifica, e segue para a cabine de votação. Encontra uma maquininha pronta para receber os números que ele digita como se estivesse num telefone qualquer, com cada número representando um candidato ou partido. No final do dia, basta retirar digitalmente os votos de cada urna e somá-los rapidamente em um computador central. Em pouco mais de alguns segundos se obtém resultados que antes só seriam conhecidos após vários dias.

É um sistema seguro? Há controvérsias, mas aparentemente, sim, é muito seguro. É óbvio que muitas pessoas desconfiam que os resultados podem ser fraudados. Não mais como antigamente, na ponta do lápis, mas virtualmente. Vez ou outra surge alguém acusando que seu voto, normalmente exótico — em um candidato sem qualquer expressão —, sumiu. No geral, porém, o mundo político aceita muito bem o sistema atual, e se aceita é porque confia nos resultados apresentados pela Justiça Eleitoral brasileira
É por tudo isso que hoje será um longo dia, e não o início de uma longa semana ou quinzena. Logo mais, nas primeiras horas de segunda-feira, Goiás provavelmente já conhecerá seus 59 ou 60 candidatos eleitos. Vão ser 41 deputados estaduais, 17 deputados federais, um senador e um governador, ou dois classificados para um 2º turno.

As últimas pesquisas eleitorais indicam que o governador Marconi Perillo (PSDB) está tecnicamente, dentro da margem de erro, com condições de ser reeleito já no 1º turno. Essa, por sinal, é a grande dúvida desta eleição: essas margens de erro vão funcionar para mais, como torcem os governistas, ou para menos, como sonham os opositores? De qualquer forma, inclusive entre os opositores, há unanimidade quanto ao fato de que, em eventual 2º turno, uma das vagas será de Marconi. A outra, apontam as pesquisas, será de Iris Rezende (PMDB), apesar da crença de Vanderlan Cardoso (PSB) e Antonio Gomide (PT) de que vão conseguir ultrapassar o peemedebista. A eleição vai terminar hoje, no 1º turno, ou haverá 2º turno? A decisão é sua, minha, de todos nós.

Um país feito nas coxas

É pra desanimar qualquer cidadão… O Brasil é uma eterna piada de muito mau gosto. E faz um tempão que é assim. Tem piorado muito. Será que um dia ainda verei um país surgir desse troço? Não acredito. Não mesmo.

Cresci num país que não podia votar pra presidente. Nem pra governador. Época inocente. Lá no interiorzão das Gerais, ninguém ligava muito para isso. As notícias não circulavam instantaneamente como hoje. TV, por exemplo, só fui ver mesmo na Copa do Mundo de 70. Antes, não existia. E só havia um canal na cidade. A TV Tupi. Preto e branco, claro.

O povo votava de tempos em tempos para vereador e para prefeito. Dois partidos apenas. Mas nenhum deles podia ser chamado de partido. Arena e MDB.

ilustração: 3bp.blogspot

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Os emedebistas eram mal vistos. Eram “comunistas”. Sei lá por quê, mas quase todo mundo tinha medo dos “comunistas”. Eu não tinha medo, não. Nem sabia o que era isso. A Arena ganhava sempre.

É claro que depois passei a entender como eram essas coisas da política brasileira. E também depois é que fui entender porque os brasileiros não votavam nem para governador e nem para presidente. Ditadura.

Outra coisa da qual me lembro é o telefone. Poucos na pequena cidade. Dois números apenas.

O disco não era usado. Quem completava a ligação era uma telefonista

O disco não era usado. Quem completava a ligação era uma telefonista

Tirava o fone do gancho e esperava a voz feminina anunciar: ¨Telefonista¨. Aí você dizia o tal número. De repente, alguém atendia do outro lado. A “telefonista” avisava: “Pode falar”. Era assim que se fazia uma ligação naquela época.

Carro também não era comum. O primeiro na minha família foi um Volkswagem sedã vermelho. Esse nome todo pomposo nunca pegou. Era o Fusca. 1969. volkswagen-fusca-1969-vermelho_30987cf0Meu pai o comprou através de consórcio. Como na nossa casa não tinha garagem, meu pai alugava uma, que ficava no final do quarteirão.

Viagens? Que nada. Meu universo ia somente até São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, perto da divisa com Minas. Ninguém falava São José. Era só Rio Preto. Cidade “grande”, assustadora. Eu morria de medo de me perder naquela selva.

A gente ia pra lá de ônibus. 120 KM de distância. Asfaltados. Um luxo. Tinha cobrador dentro do ônibus, que ia parando na estrada para pegar novos passageiros. ônibus velhoPara Uberaba, também em Minas e com a mesma distância, era terra. Todo mundo na cidade, então, ia só pra Rio Preto. Cada viagem era uma aventura pra se lembrar por muito tempo.

Falo que meu universo conhecido era só esse, mas já tinha ido a Portugal. Só que eu era muito pequeno, seis anos apenas. Então, me lembro muito pouco. Fomos de avião e voltamos de navio. Ou fomos de navio e voltamos de avião, sei lá. Eu, minha irmã e minha mãe. Meu pai ficou para garantir o paitrocínio.

Bons tempos aqueles. Pela inocência de não saber das coisas como elas são. Não sei se eram tempos melhores ou piores que agora. Não há como comparar.

De quase todas as formas que se pode ver, a vida hoje é bem mais fácil e prática. E tem muito mais opção. Carro? Vai na esquina que tem uma revenda que te entrega o zerado e parcela em sei lá quantos meses. Telefone? Nem precisa decorar os 8 ou 9 números. A memória do próprio aparelho faz isso. Viagem de navio? Só se for para ficar de papo pro ar. Sobe num avião, tira uma soneca e rapidim tá lá do outro lado do Atlântico.

Me pego rindo agora. “Pega o avião e rapidim está lá”. Tô rindo porque nunca mais voltei a Portugal. avião modernoNão é medo de avião, não. Quer dizer, tenho medo, sim, mas consigo viajar. É só beber antes um gole d’água com um comprimidim antes de embarcar. Não há pânico que sobreviva. Ahh, sim, tenho algumas crises de pânico. Antes eram bastante frequentes. Hoje, só de vez em quando. Bateu? Comprimidim na síndrome e pronto.

O que me incomoda nos vôos é ter que ficar dentro do avião muito tempo. Meu limite tranquilamente suportável é coisa de hora e meia, duas horas e meia, no máximo. E não sei o que é mais perturbador, se na hora de decolar ou na hora de pousar. Acho que são os dois, do mesmo tanto.

É, o mundo mudou, e o Brasil mudou muito também… Muita coisa melhorou, mas muita coisa bagunçou.

O Brasil tá patinando há muito tempo. É como eu percebo as coisas agora. Não sei se isso é uma inocência minha no sentido inverso daquela da infância ou se é um pouco de pessimismo e ceticismo amadurecidos pelo mais de meio século de vida. Não acredito que o Brasil vai funcionar algum dia como deveria funcionar.

Como é que a gente pode ser otimista diante de tantas coisas que se vê a cada instante?

Quer um exemplo? O Brasil foi capaz de construir há algumas décadas uma das maiores pontes do mundo, a Rio-Niterói. RJ_Constru_o_da_Ponte_Rio_Niter_i_v_o_central_1974Mas hoje, com tanta tecnologia e conhecimento no mercado, não conseguiu fazer sequer um viadutozinho em Belo Horizonte sem que ele caísse e matasse algumas pessoas. E nem terminado estava. Não tinha nenhum peso em cima dele e… prófiti, caiu. Fico imaginando se fossemos construir hoje a tal Rio-Niterói…

E a coisa é tão ruim que basta falar sobre um troço qualquer pra virar conversa e discussão política. “A culpa é do partido tal”, soa na minha mente uma voz que eu não sei de quem é, mas imagino que seja de um grupo. “Mas a obra tal também caiu e a culpa é do outro partido”, ouço a resposta. Saco isso.

Implodiram o tal viaduto que caiu. Vão ter que fazer tudo de novo. E fora das acusações, ninguém parece ter se preocupado em discutir por quê aquilo caiu e o que se pode fazer para que jamais outra obra caia nas cabeças e nas vidas das pessoas. Discute-se o que ocorreu politicamente. Caiu em Minas? Caiu, mas caiu em São Paulo também. Catzo! Não deveria ter caído nem um e nem o outro, uai.

Mas as coisas no Brasil são feitas nas coxas. Agora mesmo, aqui em Goiás, um candidato a vice-governador renunciou. Virou um quiprocó danado. Ninguém sabe ao certo o que vai acontecer. Alguns entendem que a candidatura do governador rodou. Para outros, continua do mesmo jeito. Ué, mas a regra não é clara? Não, não é. Deveria ser, mas não é.

No início deste ano, a maior corte eleitoral do Brasil, composta inclusive por ministros da corte suprema, baixou uma regra para ser aplicada nas eleições deste ano. logo TSELá pelas tantas, mudou uma das regras exatamente sobre troca de candidatos que renunciam. Tá escrito lá: só pode haver essa troca até 20 dias antes das eleições.

Resolvida a parada? Não. A regra anterior dizia que essa troca poderia ser feita até às vésperas da eleição. “Mas a nova lei mudou isso”, pode-se afirmar. Mudou, sim, mas não vale a mudança. Por que? Constitui_oPorque a Constituição, aquele outro calhamaço de leis, diz que só se pode mudar a regra do jogo um ano antes da eleição. Então, continuaria valendo a regra anterior.

Como é que pode ser otimista num país em que a maior corte eleitoral muda uma regra e ao fazer isso não leva em conta a elementar questão constitucional?

Tá esse quiprocó aí. Pelo jeito, a tal candidatura com substituto vai para a disputa eleitoral sabendo que deverá perder a questão na corte eleitoral, que obviamente terá que acatar a regra que ela própria instituiu. Mas depois, na corte suprema, deverá vencer porque a regra da corte eleitoral esbarra no fundamento constitucional.

Olha só o tamanho do rolo. engrenagensE lá se vai uma dinheirama preta dos nossos bolsos para sustentar o movimento das engrenagens dessa imensa máquina jurídica… Engrenagens que não funcionam em linha. Feitas nas coxas.

“Ahh, mas peralá, não da pra ser pessimista por causa de um erro”, ouço algumas vozes. Também acho. Mas não é um erro. São muitos. O tempo todo. É a regra que vale-mas-não-vale-agora, são os viadutos que despencam… Melhor parar por aqui. A lista é imensa.

É ou não é um país feito nas coxas onde se pode comprar um carro facilmente e se obter a CNH até por telefone? cnh-em-branco-9E não é uma CNH qualquer, não. Coisa oficial. “De primeira, autêntica, com selo de relevo e tudo, doutor”, diria o vendedor.

E quando vejo a regra-que-não-vale-agora, me lembro novamente dos tempos em que só havia Arena e MDB, os partidos que não podiam ser chamados de partidos, na esquizofrenia que não é de agora. Hoje, pode. Tem partido pra dar com pau na cabeça de doido. Tem até partido que não tem nome de partido.

E os caixas continuam tilintando. Saco.

debate TV - 1

Debate TV Anhanguera: opositores não tinham bala de prata

Líder nas pesquisas de todos os institutos, com a maioria inclusive apontando para possibilidade de vitória já no 1º turno, o governador Marconi Perillo foi ao último grande momento da campanha eleitoral, ontem, na TV Anhanguera/Rede Globo, com o único objetivo de se manter “vivo”. Deve ter saído satisfeito com o próprio desempenho. Ele não apenas sobreviveu aos ataques e questionamentos dos adversários como fez e sambou sobre todos os temas propostos.debate TV - 1Tanto que nas redes sociais após o debate, militantes e simpatizantes das candidaturas de oposição se apegaram a um fato extra-debate – uma postagem de blogueiro que conteria uma “ameaça velada” ao candidato do Psol, professor Wesley. Sobre o debate em si, pouquíssima repercussão.

debate Maconi:Iris

Confusos e equivocados – Disparadamente, os dois melhores debatedores foram Marconi Perillo e Antônio Gomide. Ambos falaram sem atropelar as palavras, de maneira clara e concatenada. Eles deram um “passeio” sobre os demais. Ambos demonstraram estar muito melhor preparados que seus adversários.

debate Iris

Iris Rezende, que em seu programa eleitoral de 2ª feira, acusou Marconi Perillo de estar sendo investigado no STJ, Superior Tribunal de Justiça, de manter contas no exterior (leia post neste site), não tocou no assunto. Em seus primeiros momentos, transpareceu certo descontrole. Iris, um debatedor de peso, esteve muito aquém do que se esperava dele. Transmitiu imagem cansada, sem pegada, e às vezes confuso.

debate vanderlan

Vanderlan Cardoso bem que tentou, mas gaguejou muito todas as vezes que precisou sair do script que ele seguiu durante a campanha, baseado num tal “plano de metas”. Quando abordava temas pertinentes ao plano, conseguia desenvolver bem a linha de raciocínio. Demonstrou disposição, mas preparação equivocada para um debate. Por exemplo, ao apresentar um questionamento em que foi surpreendido pela resposta. Sua “bala de prata” no debate de ontem era usar palavras ditas por Marconi Perillo em 1998 contra as pesquisas. Fez a pergunta e se enrolou com a resposta que soou como um direto no queixo dele. Marconi reafirmou o que havia dito em 1998 e ainda saçaricou sobre Vanderlan: “Fique tranquilo, candidato, a pesquisa que vale mesmo é no domingo (dia da eleição)”. O erro de Vanderlan nessa pergunta foi elementar: não se pergunta nada sem saber exatamente o que o adversário irá responder. Na preparação, deve-se levar em conta todas as possibilidades de resposta. Vanderlan, que esperava constranger Marconi, acabou constrangido.

debate prof wesley

O último debatedor, professor Wesley, do Psol, era um estranho nesse ninho de cobras criadas. (E só estava lá graças a pesquisa Ibope que o colocou com 1% a mais do que Antonio Gomide — correção: o candidato do Psol foi convidado porque o partido tem representação no Congresso Nacional, critério utilizado pela organização do debate). Nesse caso, seria muito melhor assistir a candidata do PCB, a também professora Marta Jane, debatedora que se revelou bastante eficaz nas eleições de 2010. Ou, para ficar no próprio Psol, o professor Pantaleão. Wesley tentou acertar a mutamba em praticamente todos os adversários, mas parecia estar usando um graveto e não um porrete.

debate gomide

No final, a impressão que ficou é que, no geral, os opositores fizeram um enorme “rastro de onça” sobre os debates, mas não souberam ou não conseguiram levar Marconi a nocaute. Gomide saiu maior do que entrou e os demais poderiam ter ficado em casa. Talvez pudessem ganhar mais com a própria ausência. Quanto à organização do debate, pra lá de aprovada, desde a apresentação até a formatação dos blocos, que privilegiou o debate entre os candidatos do início ao fim. Nota 10, sem qualquer reparo. (Fotos: site O Popular)

Por que Iris não usou o dossiê dos aloprados no debate?

Segunda-feira, 29, última semana de campanha eleitoral, véspera do último dia de propaganda no rádio e na TV para governador. Iris Rezende, em seu programa, acusa Marconi Perillo de ter contas no exterior. Com emprego da animações, diz que as contas correntes de Marconi em paraísos fiscais e ilegais estão sendo investigadas pelo STJ. Verdade ou mentira? Verdade e mentira.

Sim, há um inquérito no STJ que procura ligações de Marconi Perillo com contas no exterior. Não, não existe nada além de um inquérito (que no jargão jurídico nada mais é que investigação) sobre as tais contas. Sim, portanto, é mentira afirmar, e veicular como se fosse verdade, que Marconi tem contas bancárias clandestinas no exterior.

dossiê

O assunto não é novo. Nasceu na campanha de 2010, e chegou a circular no Palácio do Planalto, na época ocupado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, embora ninguém tenha assumido a sua paternidade. Apontado como autor, o deputado federal Sandro Mabel desmentiu peremptoriamente qualquer ligação com o dossiê. O ministro Gilberto de Carvalho também se esquivou do assunto. No Senado, Marconi cobrou, na tribuna, que o tal dossiê fosse investigado.

Falso – O Banco UBS, de Suíça, que seria depositário de transferências internacionais a partir das contas das Ilhas Virgens, atentou de imediato que a documentação que constava no dossiê contra Marconi era falsa. Também não eram autênticas as assinaturas de Marconi que constavam no pacote desses supostos documentos. A falsificação, inclusive, foi apontada como extremamente grosseira. O inquérito para apurar o tal dossiê segue no STJ, Superior Tribunal de Justiça.

Dinheiro aprendido em São Paulo com supostos autores de dossiês, em 2010

Dinheiro aprendido em São Paulo com supostos autores de dossiês, em 2010

Nada disso, no entanto, foi levado em conta pelo programa eleitoral de Iris Rezende na 2ª feira, 29. A acusação foi “clara” e direta, mas sem revelar sequer que se tratava do tal dossiê de 2010. Na época, um segundo dossiê apareceu, envolvendo políticos do PSDB do estado de São Paulo, com acusações semelhantes. O próprio presidente Lula, acuado, acusou que os autores desse dossiê seriam aloprados.

Intrigante é Iris Rezende, apesar de veicular o assunto na propaganda eleitoral dele, não ter confrontado Marconi Perillo frente a frente, olho no olho, no debate da TV Anhanguera, ontem. Seria o grande momento. Por que ele não se aproveitou da presença do adversário para acusá-lo diretamente? Realmente, intrigante.

Marconi e Iris

Opositores dependem de fato novo, Marconi só tem que evitar nocaute

Seja pela importância direta da emissora, seja pela abrangência do grupo de comunicação ao qual ela pertence, o maior do Centro-Oeste e um dos maiores do Brasil, é inegável que o último grande momento da campanha eleitoral deste ano vai acontecer logo mais à noite, na TV Anhanguera. Trata-se do debate entre os candidatos ao governo de Goiás.

Foto: site O Popular

Foto: site O Popular

As expectativas de cada grupo são distintas. Para os opositores, a dependência de algum fato novo realmente impactante é notável. As pesquisas, todas elas, indicam que o governador Marconi Perillo tem condições de vencer as eleições já no 1º turno. O debate da TV Anhanguera é a última tentativa, a última bala de prata dos opositores para levar a decisão para o 2º turno. Já Marconi só não pode ser nocauteado. Fora isso, o que vier é lucro.

Ritmo – Não se deve esperar um debate serelepe o tempo todo. Há gente demais da conta. Eram quatro, mas graças a uma pesquisa Ibope que destoou de todas as demais publicadas até aqui, um quinto candidato foi incluído. Professor Wesley, do Psol, apareceu com 1% a mais que Antonio Gomide, do PT, no último levantamento do instituto. Como uma das diretoras do próprio Ibope admitiu ao jornal O Popular, do mesmo grupo da TV Anhanguera, que pode ter ocorrido um erro de amostragem, o jeito foi acrescentar mais uma bancada no debate.

Marconi e Iris

Com cinco participantes, nenhum debate se sustenta pela agilidade, obviamente. Nesse caso, vai depender muito do conteúdo. E é exatamente aí que está a chave de tudo: qual será a estratégia de cada candidato? É claro que os opositores devem malhar o governador, e é claro também que ele terá que se defender e não fazer cara de paisagem – a não ser nos ataques bobinhos e sem maiores consequências. As encrencas estão em se defender sem criar fato novo e atacar sem vitimizar. Não são tarefas fáceis.

Vanderlan

Decisivo – A última vez que uma eleição teve os debates como um dos principais fatores de definição foi em 1994. Depois disso, nunca mais o confronto entre os candidatos foi tão preponderante. Em 1998, por exemplo, Iris Rezende não participou de nenhum debate no 1º turno. E no 2º turno, a vaca dele já estava no brejo. Em 2002, nem 2º turno houve. No 1º turno, num momento exatamente igual ao atual, o debate da TV Anhanguera teve apenas os dois principais candidatos da oposição, Maguito Vilela e Marina Santana. E 2006, foram inúmeros debates, e quem ganhou a eleição foi exatamente o candidato com pior desempenho em todos eles, Alcides Rodrigues. Em 2010, os debates também não mexeram com o placar.

gomide

Isso não significa que o debate de logo mais será apenas uma espécie de ritual histórico das eleições, sem qualquer relevância nas urnas. Pode ser que sim, mas pode acontecer alguma coisa que detone algum fato novo. Isso é condição sine qua non para que o debate de hoje não seja como todos os demais das últimas eleições.

Para o público em geral, pipoca na panela. Para os diretamente e emocionalmente envolvidos com a campanha eleitoral, é cruzar os dedos e esperar pelo último grande momento da eleição no 1º turno.

Um toscaninho de 50/60 reais e um californiano Pinot por 25

Um legítimo Toscano gostoso, redondão mesmo, lotado de Sangiovese, e por menos de 80/100 reais? Vale a pena arriscar esse aí, o Santa Cristina. Esse toscaninho faz milagres na taça. Claro que não é nenhum Barolo ou qualquer outro super-Toscano. Mas tem o DNA da região. De quebra, é assinado pela lendária casa Antinori, talvez a maior e mais famosa da Itália. Antinori está para a Itália como o Catena está para a Argentina: um ícone.

SantaCristinaIGTSó esse cartão de apresentação do Santa Cristina já arrancaria fácil uns 35 reais de uma garrafa sem rótulo. Esse Santinha aí vai bem mais longe. É um baita vinho pelo valor que cobra. Claro que, como qualquer italiano da gema, baseado quase inteiramente na uva Sangiovese, se casa perfeitamente com as massas. Mas o Santa Cristina encara fácil uma rodada legal de queijos não muito condimentados.

Ele é redondinho desde o primeiro gole, mesmo sem estagiar antes num decanter. Mas ganha bastante se for bebericado sem nenhuma pressa, permitindo que ele respire um bocado ainda na garrafa. Depois, é só jogar na taça e dar a ele alguns minutos pra se ambientar. E pronto. Basta isso, sem maiores delongas.

Pode ser encontrado em importadoras online, mas é preciso ter cuidado nesse caso. os preços variam muito. Dia desses estava em promoção no Carrefour do Sudoeste, aqui em Goiânia, por 52 reais. Pechinchona. Não sei se ainda tem, mas deve ter. Num empório da cidade está em 65, mas se chorar acaba levando por 60 reais. Os dois preços são muito bons. É claro que é uma pena que custe tão caro. É o custo-Brasil dos vinhos. O que lá fora é barato, aqui custa pequenas fábulas. E com o dólar em alta a coisa lasca de vez.

Que tal um Pinot Noir californiano por 25 pratas?

Acredita nisso? Um californiano Pinot Noir honestíssimo, assinado por Robert Mondavi, o maior fabricante dos Estados Unidos, por menos de 30 reais? Mais exatamente, R$ 25,90. É outra pechincha que apareceu em promoção no Carrefour (Sul/Flamboyant) há alguns dias. O Merlot e o Cabernet Sauvignon também estão por esse preço, mas são mais sisudões. É o Woodbridge, a linha básica do Mondavi.

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É lógico que não se deve esperar um vinho fantástico numa garrafa como essa, mas esse Pinot tem alguma coisa da escola californiana, até com uma certa personalidade. Levíssimo, chega a dar alguma sensação de aguado. Mas não tem nada de água em excesso. É um Pinot leve, para o dia a dia, feito pra agradar todo mundo, mesmo bebedores iniciais ou eventuais, que ainda não se acostumaram aos sabores variados, e algumas vezes marcantes, do mundo dos taninos.

Vale a pena esperar por promoções nesse vinho aí, especialmente o Pinot. Quanto ao Merlot e o Cabernet são mais agressivos. E imploram acompanhamento.

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Marconi Perillo: Vitória no 1º turno?

 

Restando apenas uma semana para a eleição, pesquisas registram tecnicamente a possibilidade de a eleição em Goiás terminar domingo que vem. Caiado é favorito para o Senado

conexao.qxdFora a certeza contaminada pelas emoções de um lado e de outro, a eleição deste ano para governador reserva um grande segredo para o último e decisivo momento. Tecnicamente, todos os institutos de pesquisa de opinião que sondaram os humores dos eleitores no Estado indicam que a eleição tanto pode terminar definitivamente no próximo domingo como se estender até o final do mês de outubro, com a realização de um 2º turno entre os dois candidatos mais bem votados. O governador Marconi Perillo (PSDB) aparece nessas pesquisas na faixa de 50% das intenções de voto, o que o coloca, dentro da chamada margem de erro para mais ou para menos oscilando entre a reeleição direta e uma nova rodada eleitoral.

Essa parece ser a última incerteza da atual campanha, a se julgar os números dos institutos. No mais, existe tamanha cristalização nos números dos candidatos que apenas um fato absolutamente imponderável inverteria as posições consolidadas ao longo de todo o segundo semestre deste ano, com Iris Rezende (PMDB) na segunda colocação, Vanderlan Cardoso (PSB) na terceira e Antônio Gomide (PT) colado logo atrás, no quarto posto.

Para o Senado, a disputa também parece definida. O deputado federal Ronaldo Caiado, presidente regional do DEM, tem a eleição assegurada. Apesar de pequenas variações durante a campanha, ele jamais deixou de aparecer com larga vantagem sobre o também deputado federal Vilmar Rocha, do PSD, e Marina Santana, do PT. A única disputa que ainda existiria, segundo as pesquisas, seria sobre a segunda colocação, embora nas últimas semanas Vilmar tenha registrado uma frente sobre Marina pouco acima da margem de erro. Na eleição do Senado, não existe previsão de dois turnos, mesmo que o mais votado não atinja 50% do eleitorado. É eleito quem chegar na frente, independentemente do percentual de votos obtidos.

Inúmeros fatores podem interferir no resultado das eleições. Além dos fatos e aspectos políticos, até fenômenos naturais podem mexer com os números. Eleição com muita chuva, por exemplo, provoca um substancial aumento no número de eleitores faltosos. Muito calor também leva muitos eleitores para perto de bastante água, como piscinas e cursos de água, de preferência com cachoeiras.

De acordo com o site climatempo, no domingo, 5, dia da eleição, terá muito sol durante quase todo o período, podendo chover rapidamente em algumas regiões isoladas. E se a chuva promete não atrapalhar a votação, o eleitor pode ser preparar para um calorão danado, acima dos 30 graus, podendo bater em 33 graus em alguns lugares. Ou seja, no que depender da natureza, o eleitor não terá maiores problemas para ir às urnas.

Mas qual seria a previsão mais aceitável quanto ao comparecimento do eleitor nestas eleições? Difícil dizer, mas é razoável observar o comportamento dos eleitores em 2010, quando o índice de abstenção atingiu pouco menos de 18%. É um índice considerado bastante elevado num país que ainda mantém a obrigatoriedade do voto. Além disso, há eleitores que votam em branco ou anulam o voto, e em 2010 eles somaram outros quase 8%. Ou seja, 26% dos goianos não opinaram através de seus votos na eleição imediatamente anterior.

Ao contrário do que se pode pensar, porém, abstenção, brancos e nulos interferem muito pouco, se é que há interferência real, no resultado da eleição. Geralmente, todos os principais candidatos acabam perdendo intenções de voto proporcionalmente, mantendo a média geral de todos.
Isso posto, retorna a questão central sobre a duvida que persistirá até a noite de domingo que vem: Marconi vencerá no 1º turno ou ele e Iris Rezende vão se pegar até o último domingo de outubro, data prevista para, se necessário, a realização do 2º turno?

A resposta para a pergunta é absolutamente impossível neste momento, mesmo sem levar em conta qualquer tipo de acontecimento imponderável. Se o eleitor goiano ainda se comportasse como nos anos 1980, a resposta seria um pouco mais fácil e com alguma margem de segurança. Naquelas primeiras eleições pós-abertura, a sensação de vitória de algum candidato provocava uma debandada significativa do chamado “voto útil”, quando uma parcela de eleitores abandonavam suas intenções de voto iniciais para reforçar um candidato em melhores condições de vencer. Se esse tipo de comportamento ainda fosse dominante hoje em dia, certamente no domingo que vem Marconi seria reeleito no 1º turno.

De qualquer forma, se há dúvida se o governador vencerá de imediato, parece estar absolutamente cristalizada a tendência de que, se houver necessidade de 2º turno, Marconi Perillo poderá começar a campanha relâmpago, de apenas 15 dias, com uma vantagem que jamais havia conseguido. Em 1998, quando venceu pela primeira vez, ele e Iris iniciaram o 2º turno praticamente colados um no outro. Em 2010, a diferença foi de cerca de 10%. Este ano, conforme as pesquisas, deve ficar acima dos 15%. Ou seja, neste momento, e diante das perspectivas criadas a partir das pesquisas eleitorais ao longo de todo o processo sucessório, o governador Marconi Perillo jamais foi tão favorito contra Iris Rezende como nestas eleições. No 1º ou no 2º turno.

A influência das pesquisas nas eleições

É lugar comum: as pesquisas são manipuladas pra favorecer este ou aquele candidato ou candidata. Pode percorrer o Brasil e em todos os Estados o que vai se ouvir é essa cantilena. Sem exceção. E também a cada eleição surgem ideias mirabolantes para proibir ou pelo menos limitar a publicação dessas pesquisas eleitorais. Há razão para tanta desconfiança? Os institutos, todos eles, são mesmo empresas malandras que alteram os números ao toque do caixa?

Pesquisa não influencia a multidão

Pesquisa não influencia a multidão

Bem, vamos lá. Em primeiro lugar, existem pesquisas e pesquisas. Aparentemente, todas elas são iguais, ou deveriam ser. Pelo menos no que se refere ao modo de se colher as opiniões e, depois, de tabular essas opiniões de acordo com as médias ponderadas da composição social do universo abrangido. Ninguém, nenhum instituto, pode variar esse  modus operandi básico.

Mas é óbvio que alguns institutos apresentam números absolutamente discrepantes em relação a outros. Se for um grande instituto, certamente ocorreu um entre dois fatores: ou se atingiu equivocadamente uma base pesquisada errada, com falha na sua abrangência enquanto parte do universo pesquisado, ou acertou-se de tal maneira que o resultado discrepante é na realidade uma antecipação real do que as pesquisas dos demais institutos fatalmente também irão captar brevemente.

Mas isso, claro, é entre institutos com fama a zelar, apesar dos humores e rumores de desconfiança que sempre há contra eles. Existem empresas que, sim, muito provavelmente alteram os números para atender aos interesses do departamento comercial e financeiro e de candidatos que se deixam levar pela falácia de que números positivos, porém falsos, conseguem dar um certo gás nas campanhas.

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Influência zero – A maior mentira que tem se contado no Brasil há pelo menos duas décadas é sobre a tal influência das pesquisas nas eleições. Como jornalista da área política, jamais vi ou fiquei sabendo de uma só eleição que teve a vontade majoritária dos eleitores alterada por pesquisas. Nunca, nenhuma vez sequer. Já vi, e isso é normal, viradas espetaculares acontecerem. Muitas, inclusive, diagnosticadas por pesquisas.

Portanto, e novamente puxando a questão para a opinião pessoal e intransferível, acho que as pesquisas não tem essa influência toda sobre o eleitor. Ahh, pode-se alegar, mas e quanto ao eleitor que não quer “perder o voto, ele não é influenciado pela pesquisa?”. Não, inclusive esse eleitor não se deixa enganar por pesquisas fraudadas.

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Isso não significa que está se negando a existência de eleitores que votam em candidatos como se estivessem tentando acertar os resultados da loteca. Eles existem, sim, embora estejam a caminho da extinção. Mas a influência sobre eles não emana, definitivamente, das pesquisas. Eles são muito mais impressionados pelo volume das campanhas do que pelos números. Mais do que isso, o eleitor que não “perde voto” se comporta como manada dentro de seu próprio grupo e não como um ser exótico dentro dele. Em outras palavras, se no círculo social em que ele vive a maioria tem clara tendência de votar em um candidato, esse eleitor “vai-com-as-outras” seria influenciado pelo grupo e não pelas pesquisas.

O eleitor, de uma forma geral, é bem mais inteligente e sensível do que imagina a maioria dos analistas, jornalistas, políticos e pesquisadores.

Surpresas – Se não fosse assim, certas eleições não apresentariam viradas espetaculares. Candidatos lideram as pesquisas o tempo todo e acabam sendo ultrapassados na reta final da campanha. Se os números das pesquisas, mesmo as autênticas, feitas pelos institutos sérios, influenciassem o eleitorado da forma como se diz, então essas viradas jamais ocorreriam. É óbvio isso.

gráficos queda

Há exemplos espalhados por todo o país, em quase todas as cidades. Pra não ir longe, fiquemos com exemplo daqui mesmo. Em 1998, às vésperas do 1º turno, nenhum instituto apontava que Marconi Perillo chegaria à frente de Iris Rezende. Estava pau a pau, mas com vantagem para Iris. E por que os institutos “erraram” naquela eleição? Não erraram, aí é que está a coisa. Iris realmente estava na frente, mas vinha perdendo eleitores aos montes enquanto Marconi os ganhava. Se fosse possível adiar aquela eleição por mais uma semana, talvez menos até, provavelmente Marconi venceria já no 1º turno, e não apenas chegaria à frente de Iris. As pesquisas mostraram isso o tempo todo, mas a leitura errada que se faz dos números é que conduz ao erro de interpretação.

Pesquisa não antecipa e nem projeta os resultados. Ela é apenas, e para ficar no chavão, um retrato do momento em que é realizada. Ou seja, a pesquisa revela o presente, mas não antecipa o futuro.

Uma sequência de pesquisas – sempre do mesmo instituto, obviamente – permite o registro da evolução das candidaturas junto ao eleitorado. Esse fato explica por que as pesquisas às vésperas das eleições de 1998 não estavam erradas. Havia claramente o indicativo de tendência do que se constatou depois, nas urnas. Historicamente, se diz apenas que Iris começou aquela campanha com 74% de intenções de voto contra 6% de Marconi, e acabou derrotado. Mas nesse enredo aí estão faltando os capítulos internos entre o início e o fim, e neles as pesquisas mostraram que a diferença caiu inicialmente bastante lentamente e depois se acelerou e se multiplicou nos momentos que antecederam a votação.

Prepotência – Afirmar que as pesquisas influenciam a vontade da maioria dos eleitores é uma tremenda prepotência. É, em outras palavras, afirmar que o eleitor é incapaz de decidir de acordo com a sua própria vontade, seus próprios desejos. Há, isso sim, uma identificação do eleitor dentro do seu grupamento social ou comunitário, e não é uma ou mais pesquisas que vão colocar o eleitor como um ser lobotizado numa fila de votação. O eleitor de uma forma geral tem tanto discernimento quanto aqueles que o acham idiota o suficiente para ser passado para trás por números e percentuais.

Aliás, o eleitor é mais esperto que aqueles que o veem como presa fácil e indefesa das pesquisas. Ele pode até não ter tanta escolaridade, mas certamente tem mais sabedoria. Tanto é verdade que o eleitor comum não briga com as pesquisas e seus números. A briga dele é outra: escolher quem lhe oferece condições de viver cada vez melhor. A briga contra ou a favor de números e de pesquisas é quase sempre centrada no fígado. O eleitor vota com o bolso e o estômago.