Brumadinho: a tragédia se repete como história

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Nenhum brasileiro deveria ficar seriamente surpreso com a queda da barragem em Brumadinho, na região metropolitana de Belo Horizonte. No Brasil, a tragédia se repete como história. Assim, não se deve ficar surpreso se – com o perdão da dor imensa de pais, irmãos, irmãs e demais pessoas próximas das vítimas – uma nova tragédia ocorrer nos mesmos moldes daquela registrada na boate Kiss, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul. E igualmente não será surpresa alguma se novas rebeliões em presídios terminarem em presos decapitados e corpos atirados na rede de esgoto. A tragédia, reafirme-se, se repete como história neste país de poderes apodrecidos.

A tragédia em Mariana, também em Minas Gerais, não nos ensinou nada porque não tem nada a nos ensinar. O problema não está nas barragens. Portanto, não há o que aprender. A razão para o cotidiano trágico que nos envolve a todos não pode ser resumida a exemplos negativos. O Brasil é reativo e não ativo. Nos contorcemos de dor e pena das vítimas de hoje até que tenhamos que lamentar as vítimas de amanhã. E entre um dia e outro não se faz nada.

A máquina pública que aí está seria solenemente reprovada e substituída em qualquer nação razoavelmente funcional. Do alto a baixo, sem poupar absolutamente nada e nem ninguém. É uma máquina administrativa que vive para ela própria, se realimentando dos esforços desprendidos por todos. O dinheiro público não é, na prática, do público e muito menos para o público. É da máquina, e ela o consome ferozmente e impiedosamente.

O país se escandalizou recentemente ao saber que congressistas recebem “auxílio-mudança” mesmo quando não se mudam. E mesmo que se mudassem, ainda assim não tem o menor cabimento um gasto como esse. Não tem cabimento do ponto de vista do interesse público, mas faz todo o sentido no império da máquina devoradora do dinheiro do público. Assim como faz sentido para os ministros da Suprema Corte zanzarem pelos ares Brasil e mundo afora com passagens de 1.a classe pagos por todos nós.

Não, não são as barragens que estão doentes, é a máquina administrativa que não funciona. Não é por outro motivo que os brasileiros pagam uma das maiores e mais pesadas carga de impostos dentre todos os países e ainda assim não tem um país minimamente organizado. A única coisa organizada por aqui é o improviso da máquina administrativa, o crime e a bandalheira.

Dessa forma, e tristemente, só nos resta um até breve. Até que nossas lágrimas se encontrem novamente na próxima tragédia.