Caramba, hora de entrar na fila dos “velhinhos” do INSS…

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Lá atrás, 12 dias após completar 18 anos, tive meu primeiro registro na carteira de trabalho. E lá se foram 40 anos de estrada… No total, 42 anos de redações de jornais, rádios e TVs.

Sem essa de que “parece que foi ontem”. Parece que faz um tempão. E faz mesmo. Do jovem com barba rala, à beirinha dos 60 com barba grisalha. A aposentadoria finalmente chega. Longe de ser uma notícia ruim, embora saiba que muita gente não goste. Eu adorei receber a informação do INSS: oficialmente aposentado.

Máquina de escrever Olivetti portátil. A primeira a gente nunca esquece... (meu pai tinha uma)

Máquina de escrever Olivetti portátil. A primeira a gente nunca esquece… (meu pai tinha uma)

Não vou parar de trabalhar. Acho que só vou parar quando não puder fazer mais. Por enquanto, da pra levar as coisas. Num ritmo menos intenso, claro. Mas como deixar de ser jornalista depois de 42 anos? Não tem jeito.

Cansado? Demais da conta. Ser jornalista/comunicador é viver em estresse permanente. É ver “pautas” sempre, nas noites mal dormidas ou nas mesas de bares. É saber que não existe fim do expediente. É ter a certeza que o final do dia pode ser somente o início de jornada extra diante de um fato repentino. Quantas vezes isso aconteceu nesses 42 anos dentro de redações? Muitas. Não sei quantas vezes, mas foi uma porção.

E como deixar o jornalismo para ser somente um aposentado se a comunicação é o oxigênio. O pique, evidentemente, não é mais o mesmo. O corpo vive o apogeu da grande corrida desabalada da decadência. Os neurônios, surrados por tanto tempo, escravizados pelo funcionamento em tempo integral, igualmente decaem. Mas ainda funcionam. Se não é mais possível enfrentar a loucura intensa do dia a dia nas redações de diários, que exige absurdamente, adequa-se às limitações para continuar jornalista. Aposentado, sim, mas jornalista como sempre.

O jornalista nasce jornalista. A academia ensina a técnica, mas a essência é condição natural. Ninguém “vira” jornalista. Ou nasce jornalista, ou jamais será um.

Certa vez, convidado por um amigo professor de comunicação, falei para turma de alunos sobre o dia a dia da profissão, deste ofício. Depois, ao final, um pequeno grupo me rodeou e perguntou: “vale a pena ser jornalista?”.  Tive um  momento de dúvida sobre o que responder. Vale a pena ou não? Sei lá se vale. Até hoje eu não sei. Acho que nunca saberei se vale a pena ou não. E dentro das minhas dúvidas, respondi: se você algum dia se imaginou fazendo outra coisa de agora até o fim da sua vida, mude seu curso imediatamente. Se jamais pensou em alternativa, então é porque você nasceu jornalista, e não há nada que possa fazer. Quem não é jornalista até conseguirá viver algum tempo como jornalista, mas nunca será jornalista em tempo integral.

Talvez por isso eu comemore a chegada da aposentadoria. É pouco, mas é o resultado de uma vida inteira. E igualmente comemoro por jamais ter sido questionado judicialmente por calúnia, infâmia e difamação. Não condeno colegas profissionais que passaram por esse dissabor, mas igualmente não me condeno por não ter sido. Permitam a este velho repórter esta dupla comemoração.