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Impressões do cotidiano

Corrupção: Minha Casa, Minha Vida tem esquema igual ao da Petrobras

A trinca de bilhões de reais da corrupção brasileira, empresários desonestos, políticos e funcionários públicos idem, não se instalou apenas na Petrobras. Reportagem de O Globo neste domingo, 29, revela que o programa Mina Casa, Minha Vida tem esquema igual ao descoberto na Operação Lava Jato, que apura o maior volume de dinheiro roubado dos cidadãos brasileiros, o Petrolão. Os empreiteiros fizeram consórcios criminosos para driblar licitações legais, anulando o princípio básico da livre concorrência. Como sempre, eles contaram com decisivo apoio dos seus “sócios” na empreitada criminosa, políticos e funcionários públicos.

Minha-Casa-Minha-Vida-para-renda-de-até-R-5-mil-03

O caso já foi comprovado em pelo menos 3 estados, Rio Grande do Sul, Acre e Minas Gerais, mas a maioria dos procedimentos do Judiciário corre sob sigilo, e assim não é possível ainda saber se a prática é comum em todo o país ou se existem algumas ilhas isoladas imune ao esquema. Há 300 inquéritos em andamento.

minha casa

Além de construir casas e apartamentos superfaturados, o Ministério Público tem se espantado com a péssima qualidade dos imóveis. Ou seja, custaram muito mais caro do que deveria, e ainda foram feitos com produtos básicos de qualidade inferior ao especificado. As denúncias a respeito desses problemas são inúmeras. Existem prédios que não conseguiram se manter em pé, e caíram antes mesmo de serem concluídos.

minha casa inacabada

Esse esquema só funciona porque o governo é quem se encarrega de todas as etapas da construção e entrega dos imóveis. Seria bem mais complicado para os larápios se o cidadão pudesse ter acesso direto ao financiamento, e ele próprio escolhesse o que comprar ou como construir, naturalmente seguindo não apenas orientação oficial como fiscalização, inclusive de instituições como o Ministério Público. Como o dinheiro é do povo, e quem deveria fiscalizar e zelar por sua aplicação se locupleta também, se escancara a porta para a corrupção endêmica.

Nota do PT é inusitada, e permite dúvida: a cúpula sabia de tudo?

Apenas algumas horas após a polícia federal prender o senador Delcídio do Amaral, até então líder do governo no Senado, o presidente nacional do PT, Rui Falcão, divulgou nota em que afirmou, entre outros posicionamentos oficiais, que o partido não é solidário com o senador encarcerado. É, muito além de uma posição defensiva e preventiva, uma atitude inusitada.

Partido lavou as mãos rapidamente no caso Delcídio

Partido lavou as mãos rapidamente no caso Delcídio

Não que o PT ou qualquer outro partido tenha a obrigação de apoiar qualquer membro que for levado pra cadeia por decisão da Justiça. Ao contrário, enquanto instituição, é evidente que a posição de qualquer partido não pode ser percebida como uma proteção. O fato, porém, é que a cúpula do PT não deu a Delcídio o elementar benefício da dúvida.

Rui Falcão, presidente nacional do PT

Rui Falcão, presidente nacional do PT

Na prática, ao lavar as mãos tão rapidamente, a cúpula do partido disse que não compactua com, digamos, coisas erradas praticadas por seus filiados mesmo que ele seja um senador. E é nessa livre prática de interpretação que surge a questão principal e de fundo: essa instantaneidade não revela, ou pelo menos aponta indício sério, que o PT sabia muito bem o que Delcídio andava aprontando por aí?

Delcídio: Por que o PT o abandonou instantaneamente?

Delcídio: Por que o PT o abandonou instantaneamente?

Uma dúvida leva a outra. Se o partido, ou sua cúpula, tinha conhecimento de que o caso do senador Delcídio é tão indefensável que não mereceu ao menos o direito de se explicar, por que ele foi levado a representar o governo da presidente Dilma Roussef perante os demais senadores? Como foi que permitiram que um senador imediatamente abandonado e condenado pelo partido antes de lhe ser oferecida a oportunidade de defesa ocupasse um cargo tão relevante na estrutura de poder da República?

É difícil encontrar outra explicação para a atitude do comando do PT a não ser prévio conhecimento de que havia um senador, líder do governo Dilma no Senado, que agia como um gângster fora do plenário.

Delcídio: mais um bambambã da política brasileira na cadeia

Supremo Tribunal Federal, uma corte composta majoritariamente por ministros indicados pelos dois últimos presidentes da República, Luiz Inácio Lula e Dilma Roussef, determinou hoje, 25, a prisão do senador Delcídio do Amaral, PT, líder do governo no Senado. Em outras palavras, um peixe realmente grande caiu nas redes da Operação Lava Jato. Curiosamente, porém, a prisão não decorre das denúncias feitas por um dos operadores do esquema que roubou bilhões de dólares da Petrobras e que deixou a companhia estatal do petróleo na lona.

Delcídio Amaral

Delcídio Amaral

Delcídio, conforme gravações telefônicas, tentou subornar Nestor Cerveró para que ele não contasse sobre a sua participação nos esquemas de rapinagem da empresa. Mais do que isso, prometeu ao ex-diretor da Petrobras, envolvido até a medula no roubo coletivo da Petrobras perpetuado ao longo de pelo menos uma década, um “mensalão” de 50 mil reais caso ele fugisse do Brasil via Paraguai. Uma denúncia de delito flagrante e inquestionável de clara intenção de burlar as investigações e, com isso, interferir na ação da Justiça.

Cerveró: promessa de "mensalão" para não delatar

Cerveró: promessa de “mensalão” para não delatar

Delcídio é, neste momento, o mais vistoso tubarão acusado de participar do maior esquema de ladroagem de dinheiro público da história do Brasil a parar atrás das grades. Existem muitos outros na lista, como os atuais presidentes do Congresso Nacional, Renan Calheiros, do Senado, e Eduardo Cunha, da Câmara dos Deputados. Cunha pode perder o cargo e até mesmo o mandato, mas como ocorreu na prisão de Delcídio hoje, não diretamente pelos milhões de dólares de origem inexplicável que ele mantém em contas numeradas na Suíça.

Eduardo Cunha: falou demais

Eduardo Cunha: falou demais

O presidente da Câmara se encralacou ao dizer espontaneamente durante uma sessão da CPI da Petrobras que não tinha contas no exterior. Autêntico caso de peixe, no caso também um tubarão, que se perde pela boca rota. Renan, Cunha, Delcídio e vários outros integrantes do mais alto escalão do poder Legislativo brasileiro deverão responder na suprema corte sobre as denúncias que pesam sobre eles graças ao manto protetor que determina o foro privilegiado. Se essa anomalia da legislação brasileira não existisse, é possível imaginar que todos eles estariam nos cárceres paranaenses sob a jurisdição do juiz Sérgio Moro.

Renan Calheiros

Renan Calheiros

Há 2 dias o Congresso brasileiro vive momentos particularmente angustiantes para boa parte dos deputados e senadores. Ontem, 24, o empresário José Carlos Bumlai fez o temido trajeto entre Brasília e Curitiba a bordo de um jatinho preto da Polícia Federal. Não é um lambari nesse esquema. Bumlai era frequentador com passe livre dos principais salões da república durante os governos do presidente Lula. Se apresentava nas altas rodas da elite política e empresarial como sendo amigão do peito do presidente, e com isso conseguia escancarar várias portas para o dinheiro fácil e, em muitos casos, desonesto. Lula classificou a prisão do empresário como “espetaculosa”. Seja lá o que ele quis dizer com isso, se com a intenção de se referir à ação da Justiça como exageradamente pirotécnica ou somente para fazer uma certa “média” com Bumlai, Lula deixou de se referir à espetacular rede financeira que se formou em torno do amigo do poder.

Previsão errada: Esteves é preso

Previsão errada: Esteves é preso

Também foi parar na cadeia um dos donos do banco de investimentos BTG Pactual, André Esteves. É igualmente um peixe graúdo, não somente muitíssimo bem recebido nos gabinetes mais poderosos de Brasília tanto do governo como da oposição. Sua prisão se deu na mesma esteira que levou Delcídio para atrás das grades. Ele teria prometido uma bolada de 50 milhões de dólares para Cerveró desaparecer dos horizontes da pátria, e assim não delatar os demais envolvidos no esquema da Petrobras, inclusive o próprio Delcídio.

O líder do governo no Senado poderá voltar às ruas, e ao núcleo do poder, dentro de 24 horas. Esse é o prazo máximo de sua prisão até que o plenário do Senado decida se autoriza imediatamente o prosseguimento da ação do Supremo Tribunal Federal ou a impeça formalmente. Alguma aposta?

Felipe Pereira - site Prefeitura

Falta capacidade de gerenciamento nas obras da Prefeitura de Goiânia

Pista que derrete com a chuva. Poste metálico que eletrocuta e mata pessoas. Abrigo que pode matar quem se abrigar por queda de estrutura do teto. Essas são situações comuns em edifícios muito antigos e abandonados por décadas. Mas o que se pode dizer sobre uma obra absolutamente nova, que foi inaugurada a pouco mais de um mês? Não há qualquer explicação razoável para tantos e sequenciais problemas, a não ser o questionamento sobre a qualidade da obra. Falta de qualidade que matou um jovem eletrocutado e poderia ter matado também um vigilante, salvo por um acaso do destino por se encontrar em outro ponto do abrigo quando a estrutura do teto desabou.

Foto: site O Popular.com.br

Foto: site O Popular.com.br

Não é a primeira obra da Prefeitura de Goiânia que apresenta sérios problemas logo após a inauguração. O parque Mutirama, reformado e dotado de inúmeros brinquedos novos, enfrentou sérios problemas de funcionamento nos primeiros meses, com defeitos de operação nos equipamentos que ofereciam risco aos usuários. A mais vistosa das obras da atual gestão naquele local, o túnel da avenida Araguaia, inundou logo após ser inaugurado porque se transformou num enorme chuveiro. Ele foi entregue com as claraboias escancaradas, sem qualquer proteção, e sem um eficiente sistema de drenagem.

Primeira grande obra inaugurada pelo prefeito precisou de reparos para evitar alagamentos

Primeira grande obra inaugurada pelo prefeito precisou de reparos para evitar alagamentos

As explicações oficiais sempre procuraram minimizar esses problemas. No primeiro sinal de que a obra do Parque da Vizinhança estava com problemas, com parte do piso de uma posta levada pelas chuvas como se fosse um pedaço de papel. E o que se falou a respeito? Que foi um problema localizado e pequeno, em percentual reduzidíssimo em relação à grande obra. Agora se sabe que não era pequeno. Era um aviso. E como não se levou isso em conta, veio a tragédia com o jovem eletrocutado. E como isso também foi, talvez, um “fato isolado, em um poste”, não se verificou se as demais instalações oferecem riscos à população.

Festa na inauguração, problemas e morte um mês depois

Festa na inauguração, problemas e morte um mês depois

Essa falta de gerenciamento na Prefeitura de Goiânia é assustadora. Ao mesmo tempo, credita-se à má vontade de todos qualquer apontamento crítico nesse sentido. O jornalista Jackson Abrão, em editorial na TV Anhanguera, avaliou que o Parque da Vizinhança 2 foi entregue às pressas para atender o calendário de eventos pelo aniversário da capital, e isso teria sido uma das causas da morte do jovem em um poste metálico. Foi contestado pelas autoridades goianienses peremptoriamente. Talvez, e esse novo “acidente” revela isso, a contestação da Prefeitura à observação crítica do profissional Jackson Abrão seja mesmo pertinente. O problema não foi a pressa. O problema é a qualidade.

É preciso parar e pensar: por que a violência urbana não diminui?

O noticiário policial é a mais vasta pauta de notícias dos veículos brasileiros em todos os Estados e cidades médias e grandes. Com exceção dos Shoppings, onde o nível de segurança é maior por causa da segregação do espaço físico, e dos condomínios residenciais, pela mesma razão, os assaltos ao comércio e aos cidadãos, motorizados ou não, se sucedem e aumentam numa escalada completamente insana.

É óbvio que a população frequentemente atingida por essa violência reclama soluções, e pede mais policiamento. É inegável que o número de policiais é baixo. A média brasileira está em 1 policial militar ou civil a cada 473 habitantes, segundo dados do IBGE. Embora circule a informação de que a ONU estabeleceu um número de certa forma cabalístico de 1 policial a cada 250 habitantes, o que daria 4 por cada 1000, não existe uma fórmula pronta e acabada. A média dos Estados Unidos, país muitíssimo mais seguro que o Brasil, a relação de policiais por habitante é menor. Apenas algumas cidades sensivelmente mais violentas, como é o caso de Detroit, tem a tal relação de 4 por 1000. No geral, a média americana é de 0,6 para cada grupo de 500 habitantes.

Assaltos em bares e restaurantes se tornaram frequentes

Assaltos em bares e restaurantes se tornaram frequentes

Isso mostra que o número de policiais no Brasil não é tão baixo assim. Então, se essa não é a essência, o ponto nevrálgico, é preciso buscar outras razões para o país apresentar alguns dos piores índices de violência do mundo.

Uma leitura mais atenta do próprio noticiário policial brasileiro expõe um dos motivos para a violência urbana crescer sem nenhum controle. São frequentes os casos de marginais presos quase diariamente. Isso significa que a polícia trabalha de forma constante e com boa eficiência, mas ela precisa refazer o trabalho todos os dias. Não é exagero de forma alguma a afirmação de que o marginal é preso e, muitas vezes, consegue se livrar da delegacia antes que o policial que o prendeu termine de preencher a papelada burocrática. Ora, se todos sabem disso, é claro que a marginália também sabe, e não teme a prisão.

A polícia trabalha e prende, mas não há mais vaga nas prisões

A polícia trabalha e prende, mas não há mais vaga nas prisões

Crimes contra a vida, por exemplo, levam, digamos, a uma pena de 12 anos de reclusão. Mas com apenas 2 anos o autor de um crime tão bárbaro poderá obter a progressão de pena e ser colocado em liberdade parcial. No papel, essa norma visa unicamente a recuperação social do criminoso, o que é simplesmente maravilhoso. Na prática, é a porta escancarada da impunidade. E se isso se verifica no caso de um crime tão grave, pode-se imaginar o que ocorre quando se trata de inúmeros outros crimes sem grave ofensa à vida. Ou seja: roubar ou furtar, desde que a vítima não morra, é um delito praticamente sem penalização alguma.

Cigarro de maconha

Cigarro de maconha

Mas se cadeia fosse solução, o Brasil seria um paraíso seguro. O país ostenta a nada cômoda posição de terceira ou quarta maior população presa, atrás de Estados Unidos, China e Rússia. É verdade, mas fora os crimes de morte, que levam a um rápido período de reclusão, mais da metade dessa população carcerária é constituída por delitos derivados dos efeitos das drogas, seja o consumo e/ou a comercialização. Furtos, roubos e agressões, portas da escalada da violência, praticamente não são punidos, inclusive pela falta de espaço nas prisões.

"Carreira" de cocaína

“Carreira” de cocaína

A solução passa, sim, pela construção de mais presídios, mas paralelamente deve ser rediscutida a questão das drogas. O modelo de combate simplesmente não funcionou. O mundo todo começa a despertar para uma nova forma de encarar o problema, abandonando o combate e criando mecanismos para conviver com as drogas com o menor custo social possível. Nesse sentido, a mera liberação não resolve o problema, mas é, sim, um dos passos a ser dado.

Portugal tem sido o país com melhor aplicação dessa nova maneira de se conviver com as drogas com prejuízos sociais sensivelmente menores. Os que defendem o modelo atual alegam que Portugal é pequeno o suficiente para poder fazer o que tem sido feito. Não é o que pensa a ONU, que tem monitorado o país. O mundo percebe que uma parcela da população irá consumir drogas, sejam elas legais ou não. O combate policial não resolve isso. Ao contrário, agrava, já que força o usuário a mergulhar no submundo do tráfico para obtenção do produto. Nesse contato direto com os traficantes, inúmeros se perdem e acabam encontrando uma forma de satisfazer suas necessidades sem custos, passando a trabalhar nessa distribuição ilegal. A disputa comercial pelos pontos de venda de drogas completa o serviço macabro.

Pedras de crack

Pedras de crack

Uma coisa é certa: não adianta colocar um policial em cada esquina se os marginais presos não ficarem fora de circulação conforme está previsto na lei. Da forma como está, dentro de muito pouco tempo os próprios policiais vão ser assaltados dentro de suas viaturas por grupos armados. Esse tipo de crime já é praticado contra a população em restaurantes e bares. É só uma questão de tempo para chegar aos Shoppings, aos condomínios e às viaturas.

É preciso parar e pensar sobre isso.

Isto tudo é Brasil. Que pena

Fiz algumas anotações nos últimos dias…

Creches em São Paulo

Mãe que mora na periferia da mais rica cidade do Brasil deu a luz a um garotinho faz uns 3 meses. Aliás, não foi só ela, mas uma porção de mães pariram nessa época, antes e outras tantas continuam parindo em São Paulo e nas demais cidades do Brasil. O fato, portanto, não é o nascimento de mais um paulistano.

Em São Paulo, as crianças só podem ir para a creche aos 3 anos. Faltam vagas

Em São Paulo, as crianças só podem ir para a creche aos 3 anos. Faltam vagas

Como precisa mais do que nunca voltar a trabalhar, a mulher procurou uma creche da Prefeitura de São Paulo para abrigar a sua criança. Os funcionários aceitaram a matrícula. Mas não tem vaga, não. As creches paulistanas estão entupidas de crianças até as tampas. A criança que nasceu há 3 meses vai ter que enfrentar uma filha de quase 3 anos. E é assim no Brasil todo.

Baita estratégia educacional, né? Mal nasceu e já vai aprender que na Pátria Educadora ele só vai ter vaga na creche às vésperas do primeiro ano do ensino formal.

Praça do relógio acabou, mas a obra parou

Goiânia já foi a cidade das flores, quando os goianienses se exibiam para o país como a capital da eterna primavera. Deixou de ser há muito tempo.

Recentemente, numa decisão a toque de caixa, a Prefeitura resolveu mudar um ponto de estrangulamento do trânsito no Jardim Goiás, no cruzamento de duas avenidas bastante movimentadas, Jamel Cecílio e E.

O relógio já era, mas a mudança no trânsito parou

O relógio já era, mas a mudança no trânsito parou

A solução encontrada mais parece uma equação de raiz quadrada de algum elemento químico em aula de geografia não aplicada. O trânsito da avenida E vai ser desviado em linha reta, faz uma quebra logo depois e… volta para avenida Jamel Cecílio. Para tal proeza, tratoraram um dos símbolos da cidade, a praça do relógio das flores, nome como ficou conhecida uma rótula na Jamel Cecílio. Destruição relâmpago, com turnos de trabalhadores e máquinas até na noite de sábado.

E então? Então, nada. A notícia acaba aqui.

Multas contra a Samarco, e quem vai multar os órgãos de fiscalização?

Até a presidente da República tirou casquinha: a mineradora Samarco, dona das barragens de contenção de rejeitos minerais que se romperam e provocaram a maior tragédia criminosa do país, foi multada pelo Ibama em 250 milhões de reais.

Multas pra quem? Dinheiro para o governo e não para as vítimas

Multas pra quem? Dinheiro para o governo e não para as vítimas

Não tem nenhuma lógica uma coisa dessas. A Samarco deveria pagar mesmo uma multa imediatamente, mas para as pessoas que foram atingidas. Esses 250 milhões de reais, se forem pagos algum dia, vão desaparecer nos ralos da máquina administrativa instantaneamente. Aliás, o Ibama e o DNPM, Departamento Nacional de Pesquisa Mineral, também deveriam ser “multados” exatamente pelo mesmo motivo que se multa a empresa: descumprimento das normas.

Propaganda de remédio, por que?

O Brasil é o país mais esquizofrênico do mundo. É absolutamente impossível compreender o que acontece normalmente por aqui.

Há alguns anos, proibiram o cidadão de comprar inúmeros medicamentos sem receita médica, como os antibióticos. Mesmo aqueles mais leves, como pomadas para usar em pequenas queimaduras. OK, diziam que era pra evitar automedicação.

Vamos comer exageradamente sem medo?

Vamos comer exageradamente sem medo?

Mas você olha a TV e é avassaladora a quantidade de outros medicamentos anunciados. Um deles, de um antiácido em pó, chega ao desplante de incentivar as pessoas a comerem em excesso. “Vamos comer sem medo”, diz o ator. E os demais, na mesa do restaurante, sacramentam em uma só voz: “Feijoada”. Tem cabimento uma coisa dessas?

Prepare-se para a nova temporada goianiense

Goiânia, que já foi a cidade das flores, agora inicia a temporada de cidade do matagal. E não é somente em lotes baldios, não. As praças estão completamente abandonadas, e com as chuvas o mato começa a tomar conta. Faz a praça, mas não a mantém. Que coisa, né?

Tragédia como a de Mariana poderá acontecer novamente a qualquer momento

O sofrimento das pessoas que tiveram suas vidas levadas por uma montanha de rejeitos de mineração no distrito de Bento Rodrigues, em Mariana-MG, e todo o restante da população do pequeno lugarejo que perderam tudo e não sabem nem ao menos onde e como poderão recomeçar é terrível. Todo o choro e sentimento em relação ao drama daquelas pessoas de vida simples são justificáveis. Além delas, milhares de pessoas foram atingidas pelo total e complicadíssimo dano ambiental do rio Doce, que corta aquela região mineira, atravessa o Espírito Santo e desemboca no oceano Atlântico.

cascata de lama

Mas muito além de lamentar e exigir justiça e apontar legalmente culpados por uma tragédia ambiental com indícios de crime, é preciso voltar os olhos para o fato de que apenas em Minas Gerais existem outras 750 barragens de contenção de rejeitos de mineradoras e de indústrias, como as de extração e produção de etanol. O que se tem feito para saber a situação de todas elas, se há ou não risco iminente para inúmeras outras populações, não apenas em Minas Gerais, mas igualmente em todos os demais estados brasileiros? Absolutamente nada. Sabe-se que pelo menos em 35 barragens mineiras o nível de segurança está abaixo do minimamente recomendável. Mas também elas continuam recebendo rejeitos dia e noite. Novas “Marianas”, portanto, não devem ser descartadas. O risco é real, e se há riscos poderá acontecer novamente. A duríssima lição de Bento Rodrigues e seus mártires não foi aprendida.

Mariana 1

Por outro lado, tramita no Senado uma proposta de Marco Regulatório da Mineração, que deverá substituir o atual, de 1978. Entre outras coisas, o novo marco acaba, por exemplo, com a exigência de seguro para cobrir possíveis indenizações. Mais do que isso: cria províncias extrativistas que tem prioridade sobre as atividades já existentes e sobre as populações residentes, o que pode, por exemplo, impedir demarcações de terras indígenas futuramente. O novo marco simplifica de tal forma a regulamentação do setor extrativista que até empresas como a Samarco, dona da mineração de Bento Rodrigues/Mariana, poderia participar de licitações para obtenção de novas províncias de extração de minérios.

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E o que está se fazendo diante da promessa do Senado de que o novo Marco Regulatório da Mineração no Brasil será votado até o final deste mês de novembro? Nada. O assunto vem sendo tratado em subcomissão do Senado presidida pelo senador goiano Wilder Moraes, do DEM, e tem chamado a atenção das empresas mineradoras e de poucas organizações da sociedade civil. Se na tragédia de Minas cristalizou-se a impressão de que a ganância foi a razão de fundo, então a preocupação com o novo Marco Regulatório deve ser ampliada ao máximo. marco_regul_clip_image002Nas palavras do senador Wilder, “Não adianta termos um reserva mineral gigante, de grande valor agregado, mas embaixo da terra. Temos bilhões de dólares que poderiam estar circulando na economia”, afirmou.

Até quando vai se chorar rios de lágrimas pelos mártires de Bento Rodrigues e demais populações e mananciais sem que o país se volte para a importância absoluta de se trabalhar intensamente para, na pior das hipóteses, pelo menos honrar a memória daqueles que morreram e evitar que aconteça novamente.

Finalmente, relacionamento institucional Paulo Garcia/Marconi Perillo melhora

Crise entre prefeitura de Goiânia e governo estadual pode ter sido “fabricada”

No 4º round da briga entre lideranças do PMDB e a administração de Goiânia, fatos importantes começam a aflorar. No 1º round, o vice-prefeito peemedebista Agenor Mariano criticou a proposta de aumento da administração do prefeito Paulo Garcia, PT. O prefeito respondeu também com pedras na mão.

Iris Rezende: apoio ao vice-prefeito

Iris Rezende: apoio ao vice-prefeito

Not 3º round, o ex-prefeito, e principal avalista da aliança PT/PMDB, Iris Rezende, saiu em defesa de Agenor e também limou o governo do município. A resposta mais incisiva foi dada pelo prefeito Paulo Garcia. Ele não economizou na dose. Primeiro, disse que não é preposto de pupilo e nem de cacique, referência direta a Agenor e Iris. Em seguida, conforme nota publicada na sexta-feira pela coluna Giro, de O Popular, assinada pelo jornalista Jarbas Rodrigues, o prefeito disse uma frase enigmática: “Estou pagando um preço alto na relação institucional com o governo do Estado por conta do PMDB. A receita do município de hoje é incompatível com as demandas da cidade”.

Paulo Garcia: crise com o Estado por causa do PMDB

Paulo Garcia: crise com o Estado por causa do PMDB

O prefeito reconhece que a Prefeitura de Goiânia teve dificuldades na relação administrativa com o governo estadual, fato que a imprensa sempre destacou, mas que nunca havia sido admitido oficialmente pelo Palácio do Cerrado Venerando de Freitas Borges. No desabafo do prefeito, pela primeira vez a prefeitura admitiu a existência da crise com o Estado.

Parceria prefeitura/Estado poderia ter amenizado crises administrativas?

Parceria prefeitura/Estado poderia ter amenizado crises administrativas?

A dúvida é por que isso aconteceu. Prefeitos de importantes cidades do Estado, como Maguito Vilela (PMDB), de Aparecida de Goiânia, e Antonio Gomide (PT), de Anápolis, mantiveram convênios pra lá de proveitosos para a população, ao contrário do que ocorreu em Goiânia, com Paulo Garcia.

Maguito Vilela (PMDB): Aparecida ganhou com parcerias

Maguito Vilela (PMDB): Aparecida ganhou com parcerias

A soma dos esforços do Estado e das Prefeituras beneficiou duramente anapolinos e aparecidenses. Os goianienses, ao contrário, viram prestação de serviços da prefeitura em tarefas basilares esfacelar-se, derreter, como na grave crise do lixo, em meados de 2013/2014. Ainda hoje, não faltam reclamações de problemas localizados nessa área.

Finalmente, relacionamento institucional Paulo Garcia/Marconi Perillo melhora

Finalmente, relacionamento institucional Paulo Garcia/Marconi Perillo melhora

Se foi possível uma boa parceria entre Estado e municípios nas duas maiores administrações de opositores ao governo estadual, fica bastante difícil entender as dificuldades que existiram no relacionamento de Goiânia. Seria uma crise política fabricada na administração de Goiânia para beneficiar indireta e politicamente o PMDB de Iris Rezende? Essa é a grande dúvida que resta nesse tumultuado processo. Talvez isso possa ser esclarecido nos próximos rounds, se eles acontecerem. Mas será que o PMDB de Iris topa manter a temperatura tão quente? Há quem duvide.

Crise: Henrique Meirelles seria o melhor substituto de Joaquim Levy?

A imagem do ministro da Fazenda está fortemente cristalizada com a crise econômica e arrocho. Ex-presidente do BC vem sendo apontado como preferido do ex-presidente Lula para eventual substituição

Henrique Meirelles: No governo Lula ele exigiu e teve autonomia para tocar a política fiscal do país | Valter Campanato/Agência Brasil

Afonso Lopes

O mercado é absolutamente implacável, e quando começa a se mover em uma direção geralmente provoca o que se chama de efeito manada. E é exatamente isso o que está ocorrendo neste momento em relação à permanência ou não do ministro Joaquim Levy, da Fazenda. Na quinta-feira, 12, um boato dizendo que sua queda é questão de tempo, provocou reação positiva imediatamente em todos os setores sensíveis do mercado, como Bolsa de Valores e câmbio. O nome de Henrique Mei­relles, ex-presidente mundial do Banco de Boston e ex-presidente do Banco Central do Brasil durante o primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, é o único que aparece como provável substituto de Levy, e teria inclusive a preferência declarada de Lula para o cargo. Mas seria ele o melhor player para o jogo duríssimo que se trava para conter os efeitos mais perversos do ajuste fiscal?

A passagem de Meirelles pelo Banco Central foi coroada pelo êxito. Nos idos de 2002, durante a campanha eleitoral, era fortíssima a desconfiança de amplos setores do mercado de que eventual governo de Lula levaria o país a um radicalismo esquerdista absurdo. Ao ponto de o marqueteiro da campanha, e apontado como um dos principais responsáveis pela construção de imagem de um PT menos radical e um “Lulinha paz e amor”, o mago Duda Mendonça, ter escrito um conjunto de princípios que ficou conhecido como ”Carta ao Povo Brasileiro”, onde Lula assegurou que manteria os contratos e não quebraria a ordem natural da economia. Ao contrário, daria prosseguimento à política econômica do presidente Fernando Henrique e corrigiria os pontos negativos.

Inquietação

Ainda assim, e já no final da campanha, quando se esperava a confirmação da vitória de Lula também no segundo turno, a inquietação foi geral. Os preços começaram a subir e a inflação revelou seu lado oculto. Depois da vitória, Lula teria procurado soluções para a economia que criasse laços com a harmonia do mercado e, mais do que isso, pudesse gerar confiança na população, ávida, sim, por mudanças, mas sem pirotecnia esquerdista.

Não foi fácil chegar ao nome de Hen­rique Meirelles, recém-eleito de­pu­tado federal mais votado de Goiás nas eleições de 2002 pelo PSDB. Con­forme se especulou na época, o presidente bateu às portas de muitos economistas e profissionais do mercado, mas ninguém teria topado a empreitada. A desconfiança geral é de que o presidente do BC sob o governo de Lula seria mera figura de­corativa. Sem alternativas, Lula acatou setores que sugeriam Mei­relles. Ele topou, mas pediu certa autonomia para implantar uma política que julgasse eficaz na condução do BC. Lula pagou pra ver, e o casamento se revelou perfeito.

Quando desembarcou na presidência do Banco Central, Meirelles estabeleceu um duro controle da moeda, e apertou as taxas de juros para derrubar a inflação a marretadas. Havia naqueles dias um residual expressivo de inflação de demanda, registrada quando o consumo interno se transforma de solução em problema no eterno e necessário equilíbrio entre produção e abastecimento. Hoje, Levy usa a mesma arma para uma inflação de natureza diferente. Não há, e nem houve, excesso de consumo, mas desequilíbrio nas contas do governo. Se corrigido esse problema, a inflação recua naturalmente, desde que não aconteça um processo intenso de reindexação, o que por sinal já começou a ocorrer.

Joaquim Levy: o maior problema é a falta de independência

Independentemente de qualquer outra coisa, Meirelles seria, sim, o melhor nome para substituir Joaquim Levy no Ministério da Fazenda. Não apenas pelo bom desempenho que teve antes como presidente do Banco Central, mas por ter a confiança do mercado. Ele é melhor porque geraria uma expectativa positiva de mudança de rumos na condução da economia, que ultimamente só tem conseguido gerar notícias ruins. Meirelles representaria, portanto, uma injeção de ânimo.

Mesmo quando se faz uma comparação analítica com outras situações, ainda assim o ex-presidente do BC leva vantagem. Supondo que num grande acordo nacional, o ministro da Fazenda seja indicado pelo PSDB. O preferido de Aécio Neves, conforme ficou claro durante a campanha eleitoral, é Armínio Fraga. Seria seis por meia dúzia. Armínio deu declarações recentemente fazendo apenas uma crítica leve em relação às medidas adotadas por Levy até agora: prometeria, se fosse ele o ministro, um superávit menor desde o início. É claro que essa situação é absolutamente improvável. Nem o PT gostaria de ter como parceiro o PSDB nem os tucanos aceitariam embarcar como coadjuvantes no governo dos petistas. Vale essa comparação portanto apenas como livre exercício do raciocínio sobre a imagem que poderia ser gerada. Meirelles ganha em todas as situações.

Mas ele conseguiria consertar o estrago nas contas públicas? Provavelmente, a reação positiva do mercado em relação ao seu nome não foi desmotivada. Meirelles só toparia essa empreitada perigosa se tivesse plena autonomia para cuidar do dinheiro de uma ponta, a arrecadação, até a outra, os gastos. Levy teve plena poderes para abrir todas os pacotes de maldades que julgou necessário, mas nunca teve pleno controle como Meirelles exige. Ao contrário, o atual ministro vive uma eterna disputa por prestígio com o seu colega do Planejamento, Nelson Barbosa. Isso não poderia dar certo. E não deu. Meirelles, enfim, é a esperança e aposta de que ainda é possível corrigir o que está errado.

Do site de humor Sensacionalista

A tragédia criminosa em Minas e o terrorismo em Paris

Há alguma forma de comparar o que aconteceu em Minas Gerais e aquilo que houve em Paris? Há, sim, mas apenas no que se refere às mortes de pessoas inocentes. No mais, na natureza dos fatos, há uma gigantesca distância que impede qualquer outra forma de comparação entre Mariana e Paris.

Do site de humor Sensacionalista

Do site de humor Sensacionalista

Qual fato é mais grave, então? Ambos tem a própria gravidade, e é impossível também aqui dimensionar uma tabela de comparação. E as possíveis soluções podem ser comparadas? Também não. Antes, porém, talvez seja necessário destacar as diferenças entre os fatos de Mariana e Paris para se entender que um caso é de solidariedade humana, enquanto o outro fala da esperança de manutenção de um modo de vida.

Mariana – A queda de duas barragens de rejeitos de mineração provocou o maior crime ambiental da história brasileira. É o caso de se procurar pelos culpados. Majoritariamente, e inclusive com algum viés ideológico, a empresa Samarco, do grupo Vale, é apontada como responsável direta e única. No máximo, o que se tem visto é alguma gestão de culpa resvalar no inonimado campo da fiscalização. Provavelmente, a responsabilidade é de todo o amplo espectro que envolve o complexo extrativista de Mariana, em exata igualdade, e até de forma ampla desse importante segmento produtivo do Brasil. Vejamos.

As barragens foram fiscalizadas. Constatou-se, nos laudos oficiais, que as barreiras de contenção apresentavam problemas estruturais. Ao contrário de se determinar imediatamente a suspensão da atividade da empresa, recomendou-se que fossem providenciados os reparos. Ora, mas se já tinha problemas, a continuidade da produção aumentou a quantidade de rejeitos a serem contidos por essas barreiras problemáticas. Por que não se determinou a paralisação até que as obras necessárias fossem realizadas? Esse foi um erro determinante para q queda? Sim, foi, mas não o único.

cascata de lama

A empresa, mesmo tendo conhecimento de que as barreiras estavam com sérias falhas de segurança, não agiu de maneira responsável. Teve gestão claramente temerária ao manter a produção e não verificar, por ela própria, através de técnicos capacitados para tal, se o laudo da fiscalização era apenas um dos alertas criados exageradamente pela burocracia estatal – o que é prática no Brasil, conforme inúmeros relatos de empreendedores de todos os tamanhos, desde os micro até os grandes conglomerados, que são sufocados por legislações grotescamente tão pormenorizadas que se tornam um emaranhado quase indecifrável -, ou se realmente o alarme tinha razão de ser.

bombeiro e boi morto

São dois erros fundamentais para a ocorrência do maior crime ambiental do Brasil? Sim, sem dúvida, mas não são os únicos erros dessa magnitude e importância.

Sabendo que as barreiras de contenção estavam com problemas, e sem a determinação de paralisar a produção de modo a parar de aumentar o volume a ser contido, a população deveria ter sido avisada e treinada para possíveis emergências, como a queda dessas barreiras. Os cidadãos foram surpreendidos. Covardemente surpreendidos. Não sabiam que estavam vivendo cada dia sob o risco eminente de ter toneladas de lama descendo montanha abaixo. Nenhum alarme foi instalado. desabrigadosNada foi feito, e foi isso que matou tantas pessoas. Se houvesse um plano de evacuação rápida, talvez nenhuma vida humana tivesse sido perdida, embora o crime ambiental fosse inevitável pelos dois erros fundamentais acumulados antes. Onde estavam as autoridades que não se atentaram para o fato de que populações próximas de empreendimentos que ofereçam risco precisam ser treinadas para que consigam se proteger de acidentes? Um erro na exata medida dos anteriores, e desta vez contra a vida humana diretamente.

O que se pode tirar de Mariana, senão corpos e sofrimento? Lições para que jamais tenhamos que chorar por outras Marianas. E elas são centenas num país tão rico em minerais.

André Trigueiro: Marco Regulatório da Mineração é retrocesso

André Trigueiro: Marco Regulatório da Mineração é retrocesso

Há dois jornalistas no Brasil que estão entre as maiores autoridades do mundo quando o assunto é meio ambiente: Washington Novaes e André Trigueiro. O primeiro tem uma visão planetária extraordinária, e o segundo fala sobre questões brasileiras com uma propriedade inigualável. Trigueiro, em sua participação semanal na rede CBN de rádio, no último sábado, chamou a atenção para o Marco Regulatório da Mineração, que está sendo preparado pelo senador Romero Jucá. Ele afirma que esse Marco cria o pior dos mundos num país que tem uma das mais equivocadas legislações para o setor. Se a população e a imprensa querem mesmo que Mariana jamais seja repetida, então é melhor começar a agir, e o ponto de partida é o Marco Regulatório da Mineração.

Rio Doce. Desta forma, só em fotos antigas

Rio Doce. Desta forma, só em fotos antigas

Mariana e demais cidades diretamente afetadas pelo maior crime ambiental da história brasileira precisam, sim, de solidariedade e apoio da população. Mas se ficar apenas na compaixão, no choro pelo rio Doce, então nem as mortes de pessoas e do meio ambiente serão respeitadas. O sofrimento de Mariana não tem como ser totalmente reparado jamais, mas pode-se evitar que populações de outras cidades tenham idêntico destino mais ou mais tarde. É a única forma de, pelo menos, honrar as memórias de todos os que morreram ou tiveram o curso de suas vidas carregadas por rejeitos de erros múltiplos. E se a população e a imprensa não agirem agora, então que pelo menos tenham a decência  de não procurarem culpados depois. O alerta foi dolorido demais para ser ignorado.

Paris – O que houve em Paris não foi um crime contra os franceses. O que aconteceu na noite de sexta-feira foi um ato selvagem e covarde contra a forma como se elegeu viver neste lado do planeta, com raras exceções. É por isso que causa tanta indignação em boa parte do mundo. Ninguém, em lugar algum, está completamente a salvo da ação assassina de terroristas. A intenção deles é matar a esperança e a vida como se tem. O que eles querem é que se viva sem liberdade, sem igualdade e sem fraternidade, triunvirato da fé perseguida por bilhões de pessoas em todo o mundo.

bandeira francesa

No Brasil, nas redes sociais, melhor dizendo, enquanto milhares de pessoas oravam por Paris, com sinceras condolências ou não, e outra grande parcela se postava dentro de seu mundinho contra o terrorismo, outras tantas se plantaram na indignação pela falta de atenção com Mariana e os sofrimentos de tantas pessoas. E ousaram sacrificar inclusive a liberdade individual e coletiva daqueles que se permitiram dirigir um olhar marejado para Paris. A esmagadora maioria dos “vingadores de Mariana” se descobriram repentinamente mineiros patriotas, e se lembraram então do maior crime ambiental da história do Brasil dez longos dias após a sua ocorrência. Quase a totalidade – sim, com inúmeras exceções – passou todos os dias postando sobre fofocas, bobagens cotidianas, versos poéticos, cartazes de shows de final de semana e questões políticas contra e a favor do governo. Mariana nunca esteve nessas pautas antes do start provocado pela bandeirinha e cores francesas na timeline.

Como o Brasil é hoje um berço esplêndido e sonolento de briguinhas ideológicas, e até religiosas, um grupo desenvolveu uma tese só aplicável, certamente, nesse caso. Não se pode seguir a mesma linha de raciocínio para outras questões, o que seria recomendável perante a coerência. Veja-se, como exemplo, a versão de que os terroristas atacaram Paris porque foram atacados antes. Seguindo, sem desvios de conduta, essa linha de raciocínio, poderia se justificar a ação do agressor tarado pelo tamanho da saia da vítima. É absolutamente impensável algo assim.

liberdade

A França e Estados Unidos, principalmente, atacam, sim, esses terroristas no Oriente Médio em que vivem e barbarizam. E muitas vezes acabam matando milhares de inocentes por atingirem o alvo errado. Nem sempre, porém. Maioria das vezes, ou no mínimo de vez em quando, esses cidadãos mortos nos ataques são colocados nos alvos certos para servirem de “escudos humanos”. Um ato insano de total desapego à vida de inúmeras pessoas, e também uma arma no vasto arsenal de terror.

As populações desses países conflitados sofrem uma vida em que muitas vezes o único desejo e esperança é viver o suficiente até que a paz se estabeleça. Ainda assim, essas populações sabem que a qualquer momento bombas e tiros podem matá-las. Tudo completamente às claras. A violência brutalizada ao extremo pelo seu próprio povo e por estrangeiros.

Tudo que essas populações querem é viver em paz, e sem o jugo de quem quer que seja. E exemplos disso são belíssimos. O Líbano é um retrato dos povos do Oriente Médio. Bastam alguns anos de paz para os libaneses reconstruírem fisicamente o país, e sonharem todos os seus bons sonhos.

Creditam a instabilidade daquela região às potências estrangeiras. Em parte, a acusação é por demais consistente, mas mesmo que todos os estrangeiros saíssem de lá, ainda assim não se mataria o desejo do povo de se governar sem o domínio de uma ou outra casta. A composição social do Oriente Médio existe dentro de uma das mais complicadas e intrigantes cotas tribais de orientação religiosa, e que são completamente incompreensíveis para os chamados ocidentais, apegados aos Estados laicos e às liberdades individuais. Ainda que não houvesse interesse externo de qualquer natureza, ainda assim dificilmente o Oriente Médio seria uma região completamente pacificada.

IGUALDADE

Mas também não há como evitar o interesse do mundo todo naquela região que tem a primazia da maior reserva energética do planeta. O ser humano é dependentemente demais da energia para que supere seus interesses imediatos pelo Oriente Médio. O que se pode tentar, e muitas vezes isso é feito, é conciliar todos os interesses envolvidos, das populações de lá e das demais populações daTerra. E nesse jogo, o terrorismo e as diferenças lancinantes das posturas religiosas quebram qualquer forma de convergência no jogo das conveniências comuns a todos.

É nesse terreno minado que o terrorismo extravasa da dominação para a imposição de sua forma de pensar, o que para os ocidentais é absolutamente insuportável. O convarde ataque do terror em Paris, que se abateu sobre cidadãos desavisados, dói mais ao ocidente porque foi lá que floresceu a prática democrática e a liberdade como se tem como rotina de vida de bilhões de pessoas.

fraternidade-blog

Se os gregos inventaram a democracia em uma praça pública, Ágora, foram os franceses que conseguiram legar para os ocidentais a possibilidade democrática. Se as antigas religiões nos deram o conceito da ajuda aos mais próximos, foram os franceses que nos entregaram a conceituação maior da fraternidade como norma natural da vida em sociedade. Os franceses deram ao nosso mundo o sonho e a esperança da vida em liberdade, em que os cidadãos se medem e se igualam enquanto cidadãos, independentemente de qualquer outra questão de fundo. É por isso, e tantas outras razões, que o terror em Paris parece ser tão insuportavelmente mais dolorido para tanta gente no mundo todo.