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Impressões do cotidiano

Mexa-se, Dilma. O Brasil está derretendo

A greve, parcial ou não, dos caminhoneiros do Brasil é mais um lance no jogo de crises que aí está. Crise que começou no 2º mandato do presidente Luiz Inácio, que tratou os evidentes sinais de piora no cenário mundial de forma prepotente e irresponsável. Ele pensou que o Brasil passaria por uma marolinha. Ou ele mentiu ou não tinha o menor conhecimento sobre o fato. Em ambos os casos, revela exatamente a real dimensão do mito: os pés de barro.

caminhoneiros

Era mais que previsível que a crise mundial levaria a uma queda rápida e intensa dos preços de commodities. O Brasil é uma, digamos assim, grande fazenda, e sua pauta de exportações vive de commodities. A China bem que tentou se manter em ritmo acelerado, mas nem para o gigante asiático foi possível, e isso se transformou em fator preponderante para colocar as commodities de volta aos patamares normais de mercado.

PRESIDENTE LULA PASSEIA NA PRAIA NO PIAUI

Tudo isso foi ignorado no 2º mandato de Lula e durante todo o 1º governo da presidente Dilma Roussef. Para evitar uma leve recessão, eles optaram por desonerar de forma grotesca setores produtivos, quando deveriam ter atacado os problemas estruturais da economia brasileira. Criaram uma fantasia, a máscara caiu e a realidade está na cara de todos.

Fora, Dilma? – A solução imediata é trocar a presidente Dilma? Poderia ser, mas trocar por quem? Aécio e qualquer outro tucano raciocina a crise da mesma forma que o governo atual. Algum democrata, então? Bobagem, o partido está se tornando especialista em barulho e pouca efetividade prática na busca de soluções. A verdade, muito ruim, é que a oposição brasileira é pequena quanto ao aspecto da formulação de alternativas. Ser contra a crise todo mundo é, mas os opositores não formulam nada palpável em relação às soluções possíveis.

Fernando Henrique Cardoso

FHC poderia ser uma alternativa? Sem dúvida. O ex-presidente é o único político de expressão nacional oposicionista que, pelo menos, certo ou errado, pensa com relativa facilidade. Além disso, ele poderia abrir as portas do mundo atrás de soluções para os problemas internos. Tem estatura e escopo para debater internacionalmente, e convencer. Mas também, além do aspecto meramente técnico, FHC não é a solução. O país está conflitado demais para trilhar um caminho prático dentro de uma sucessão extra-calendário.

poste quebrado

Resta a única saída que aí está: Dilma Roussef. E esse é o grande problema. Sempre se desconfiou que a presidente era um poste eleitoralmente falando. Agora se percebe que ela é um poste também como governante. Ela não se mexe, não vai atrás, não procura caminhos e parece tatear no escuro sentada no trono palaciano. E se ela não se mexer, não há saída para o país que ela deveria liderar.

Charge: jornaldototonho.com.br

Charge: jornaldototonho.com.br

O Brasil está derretendo rapidamente. Este ano, a recessão econômica deve fechar acima dos 3%. No ano que vem, mesmo em comparação com esse patamar negativo, vai piorar mais. No mínimo, preveem os bambambãs da economia, entre 2 e 2 e meio por cento. A equipe econômica defende aumento dos impostos para aliviar a pressão sobre as contas negativas do governo. Mas como arrecadar mais se as empresas e as pessoas estão falindo? Só há um setor nadando de braçadas largas no país: o bancário. No meio desse turbilhão negativo, o maior banco brasileiro anunciou lucro de 5 bilhões de reais em apenas 1 trimestre. É o maior lucro da história. Nenhum país aguenta uma coisa dessas. Nem no maior mercado e maior potência econômica do planeta, Estados Unidos, bancos são tão rentáveis.

dolar e euro

Não há solução doméstica. Dilma terá que se mexer lá fora, e encontrar capitais, mesmo que isso signifique um retorno ao mercado financeiro internacional, para recompor as contas. Por que ela não faz isso? Talvez porque isso provoque uma perda temporária da liberdade de agir com irresponsabilidade fiscal na administração das contas públicas, como vem acontecendo desde o 2º mandato do presidente Lula. Ninguém é maluco para emprestar dinheiro para irresponsáveis. E o Brasil, se quiser ajuda externa, terá que mudar a forma de se comportar.

Mas é melhor esquecer essa alternativa. Postes não se mexem.

Ajuste Fiscal: Feliz ano novo? Talvez, mas em 2017…

Previsão do governo de que a crise seria superada rapidamente se revelou completamente errada. Quadro recessivo não muda antes de 2017

Afonso Lopes

Quem não se lembra do início deste ano, quando o governo anunciou que faria um grande ajuste fiscal para colocar as suas contas sob controle, mas que seria um “aperto” passageiro, com previsão de melhora geral já no segundo semestre? Pois é, não há quem possa se esquecer porque o problema de janeiro e fevereiro estava subdimensionado. O buraco nas contas do governo da presidente Dilma são terrivelmente maiores, o segundo semestre está no fim e ninguém consegue prever um ano razoavelmente melhor em 2016. Ao contrário, se não piorar, certamente haverá até motivos para comemorar alguma coisa apesar dos pesares.

buraco-negro-de-dinheiro

O governo colheu e plantou apenas más notícias ao longo deste ano. Começou elevando as taxas de juros referenciais a patamares elevadíssimos, alterou alíquotas de impostos, retirou completamente as desonerações fiscais, inclusive as existentes para baratear o calamitoso custo do emprego, mudou a regra do seguro desemprego exatamente no momento em que a economia caiu em recessão e cortou quase completamente as verbas destinadas à saúde, educação e programas sociais. Nem com esse conjunto de “maldades” as finanças do governo se equilibraram. Des­cobriu-se depois que havia esqueletos no armário das contas públicas na casa dos 50 e poucos bilhões de reais, fruto da gastança desenfreada do ano passado — coincidentemente, período eleitoral.

Plenário Câmara Federal Luis Macedo_Câmara dos Deputados

Ao longo dos meses, além dos problemas em sua base de sustentação, que saiu das urnas fartamente majoritária, as autoridades econômicas também se perderam em previsões. Chegaram a falar, em tom pessimista, que o superávit primário esperado para este ano seria equivalente a 0,7% do PIB. Depois, essa previsão caiu para 0,5%. Agora já se sabe que não haverá superávit coisa nenhuma, mas um rombo ora orçado em 50 bilhões de reais — inicialmente, seria de “apenas” 30 bilhões – ora atingindo 110 bilhões, caso o gasto a descoberto do ano passado, as tais “pedaladas”, tenha que ser finalmente coberto ainda este ano. É pouco? Não, mas o governo também errou, ou não falou a verdade, ao dizer que haveria uma pequena recessão para controlar o ritmo de crescimento da taxa inflacionária. O recuo na produção de riqueza no Brasil já bateu nos 2,8%, e os economistas fora do Palácio do Planalto entendem que a recessão deve fechar o ano acima dos 3 pontos.

2017
Não há um só economista, no governo ou fora dele, que não admita que no ano que vem as coisas vão, na melhor das hipóteses, permanecer como estão. mas nem isso é unanimidade entre os acadêmicos e profissionais do mercado. Na visão pessimista, o pior da crise ainda não mostrou as caras.

Se 2015 representou o início dos piores problemas, cujos sintomas apareceram por volta de 2008, 2009, não há nada a se esperar positivamente em 2016. Além de todos os problemas no caixa, o governo perdeu completamente a sua base de apoio no Congresso Nacional, e qua­se todas as semanas perde votações de matérias consideradas importantes, inclusive com votos contrários de alguns parlamentares do próprio PT, da presidente Dilma. Sozinha, é pouco provável que a presidente consiga levar o país se não para um porto seguro, pelo menos para fora da tormenta. E não faltou quem tentasse ajudar, como o vice-presidente Michel Temer, do PMDB, e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

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É certo que a sensação de crise é maior por causa dos sucessivos escândalos levantados nas Operações Lava Jato, principalmente, e Zelotes, mais recentemente. Mas essa sensação não é abstrata. Ela se revela real no dia a dia da população, que viu suas despesas cotidianas explodirem desde as compras no supermercado até na luz e na água, que dispararam. E isso também pesa bastante na queda da credibilidade do governo Dilma. Foi ela quem, há três anos, ocupou rede nacional de rádio e TV para anunciar redução de 20% nas contas de energia. Era uma medida absurda e fantasiosa porque não havia qualquer forma de redução no custo de geração, transmissão e distribuição do setor. Isso criou um rombo que desequilibrou todo o setor elétrico e a conta chegou para todos, para o consumidor e para o próprio governo.

Há unanimidade quanto a um as­pecto nessa crise toda: não há como tirar o país desse atoleiro monstruoso sem a força extra de im­postos. O go­verno, equivocadamente, in­siste em re­criar a famigerada e detestada CPMF, apesar de perder sistematicamente votações muito menos polêmicas no Congresso. É teimosia de­mais para votos de menos. Até porque existem mecanismos fiscais que cau­sam o mesmo efeito e que não de­pendem de votação, como no caso da CIDE, que incide sobre os combustíveis. E vai ter que ser por aí. O lado ruim desse “imposto” é que ele se reflete imediatamente nas ta­xas de in­flação. Para quem está numa “pi­tan­ga” danada, como é o ca­so do go­ver­no, um pouco mais ou um pouco menos não vai fazer tanta di­ferença as­sim no péssimo conjunto da obra da popularidade. E pode não ha­ver ou­tra saída. E se não houver, o “feliz ano novo” poderá ser adiado para 2018.

Dinheiro na Suíça: explicações de Cunha são surreais

O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, falou sobre a grana preta que existe no exterior e que seria dele. É o que todo mundo esperava, que ele explicasse o que tanto dinheiro que dizem ser dele estava fazendo lá fora, de onde veio e por que não foi declarada à Receita Federal no Brasil. Ele explicou tintim por tintim, mas o que ele disse é surreal.

Surreal 1 – Cunha garante que ganhou entre 2 milhões e 2 milhões e meio de dólares durante dois anos como comerciante internacional. Seria esse o tal dinheiro da Suíça. Ele comprava e vendia produtos, como carne enlatada, e revendia para países africanos. Ou seja, nessa sua aventura como comerciante ele ganhou uma média de 125 mil dólares por mês. carne enlatadaCá entre nós: por que, diabos, alguém com um rendimento como esse abandonaria de uma hora para a outra o negócio para se dedicar à vida pública? O salário bruto de um deputado federal é de 25 mil mil reais. Por outro lado, para quem ele repassou essa “mina de dólares”? Sim, qualquer comerciante em seu juízo perfeito vende o seu ponto ou a empresa que tem se quiser mudar de ramo ou se aposentar. Cunha não disse, e nem lhe foi perguntado, se passou o negócio de 1 milhão de dólares anuais para frente ou se “fechou as portas” simplesmente.

Surreal 2 – O sujeito trabalha 2 anos, ganha uma baba de dólares e joga tudo para o alto para ser político no Brasil. OK, pode ser uma opção de vida. Simples assim. E a grana? Ele entregou tudo, cent por cent, para um trust. trustE perdeu o poder de gastar como quisesse. Cunha garante que não mentiu ao dizer que os dólares na Suíça não são dele porque pertencem ao trust. Ele é usufrutuário e não proprietário da pequena fortuna. Opção de vida novamente? Vai entender…

Surreal 3 – Um dos delatores da operação Lava Jato disse que repassou 1 milhão de dólares para um deputado ligado a Cunha a pedido dele. Seria parte da propina da Petrobras por um contrato de exploração num país africano. Explicação de Cunha: ele emprestou essa grana preta para o tal deputado amigo dele. canecaamigao-800x800Faz sentido? Claro que faz, mas essa operação deveria ter sido declarada à Receita Federal. Foi? Mas a sequência dessa história é ainda mais, digamos, curiosa. O deputado-amigo-devedor morreu em 2009, e para Cunha a dívida morreu com ele. Cunha não cobrou a dívida do espólio. Isso nem é coisa de irmão para irmão, mas de pai para filho.

Surreal 4 – A Suíça mostrou que 1 milhão e pouco de dólares foram depositados na tal conta da Suíça. De onde surgiu tanto dinheiro, da carne enlatada novamente? Não. Cunha disse que não sabe que dinheiro é esse. Simplesmente, disse ele, não conferia os extratos bancários. Só ficou sabendo que 1 milhão de dólares foram depositados em sua conta (ops, na conta que não é dele) Chuva+de+dólaresno balanço anual apresentado pelo tal trust, que também não soube explicar de onde veio essa chuva de dólares. Da carne enlatada é que não foi. Cunha disse que o dinheiro ficou paradinho na conta porque esperava que alguém o reclamasse. Continua lá até hoje.

Conclusão real – Falta muito a explicar. Cunha não disse sequer os nomes das empresas dele que compraram e venderam carne enlatada na África durante os dois anos em que se meteu a ser um bem sucedido comerciante internacional, apesar de ter sido perguntado a ele. Também não entrou em detalhes sobre seus fornecedores, de quem ele comprava a carne em lata.

EDUARDO CUNHA/ENTREVISTA

Cunha também não fez qualquer referência às despesas de sua esposa nos Estados Unidos, que foram quitadas através de cartões de crédito suíços. Teria ela também vendido carne enlatada lá fora?

Ele disse muito pouco, e não explicou nada. Não de maneira absolutamente convincente. E pelo menos em uma frase ele repaginou o já célebre mantra de Paulo Maluf: “o dinheiro não é meu”.

Quem atrapalha o Brasil é o governo

A Folha de S. Paulo trouxe hoje, 5, uma entrevista com o professor José Alexandre Scheinkman, que precisa ser lida e estudada nos mínimos detalhes por todos os políticos brasileiros sem distinção, economistas, estudantes e população em geral. Esse sujeito, formado pela Universidade de Rochester, é economista da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, e agride ponto por ponto, de maneira clara, acessível e objetiva todos os gargalos que atiram o Brasil na lona de tempos em tempos. Numa só frase, o conjunto dos problemas é um só: somos muito mal governados.

José Alexandre Scheinkman

José Alexandre Scheinkman

A entrevista do professor americano é riquíssima no atacado, mas na conceituação histórica e não no varejo das discussões meramente político-partidárias. Talvez seja esse o grande mérito da reportagem da Folha de S. Paulo. Como única falha, faltou conhecer mais a visão desse cara sobre o ajuste fiscal que o governo Dilma tenta impor no país, questão abordada rapidamente, e que se sedimenta sobre juros referenciais estratosféricos, o que sangra definitivamente o caixa já estourado do próprio governo, e derrota a economia como um todo pela brutal recessão econômica que está se observando, estabelecendo uma especial de moto-contínuo de efeitos negativos generalizados.

O professor Scheinkman não nomina governos, e por isso escapa elegantemente da disputa partidária. Abaixo, alguns dos principais problemas e soluções apresentadas por ele na reportagem da Folha de S. Paulo (leia a íntegra em http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2015/11/1702336-maior-ameaca-a-economia-sao-os-problemas-internos-diz-economista.shtml).

luz de vela

  • Os problemas atuais nasceram em 2010, quando se adotou uma prática continuada que quebrou o setor elétrico e inviabilizou a capacidade de financiamento da Petrobras. Além disso, o BNDES promoveu uma expansão de crédito em coisas que não renderam nenhum resultado positivo, mas prejudicaram ainda mais o volume da dívida pública.
  • Charge de risanet.com.br

    Charge de risanet.com.br

  • O tamanho do Estado é um problema menor em relação a quão ruins são as intervenções dele. O Estado aumenta a sua participação do mercado, mas sem alterar o quadro na infraestrutura. E não há segurança jurídica para que as pessoas possam suprir essa falha de gerenciamento do Estado.
  • Petróleo
  • E  o pré-sal? Já era, pelo menos neste momento em que o preço do petróleo voltou ao curso natural da oferta e procura. Ou seja, não compensa financeiramente gastar tanto dinheiro para tirar o petróleo de onde ele está. Além disso, com os sérios problemas atuais, a Petrobras não tem capacidade financeira e de financiamento para atingir poços tão profundos e que geram um produto tão caro. O pior é que a participação obrigatória da Petrobras no pré-sal não pode ser sequer revista. Neste momento, não há nenhum interesse econômico na exploração de poços dessa natureza. Perdeu-se uma excelente oportunidade de negócios. Passou, e sabe-se lá quando surgirá novamente uma oportunidade.
  • impostos
  • Se há mesmo necessidade de se impor um aumento de impostos, a melhor saída é a CIDE (incidente sobre os combustíveis) e não a recriação da CPMF, que gera um impacto econômico muito ruim. O efeito colateral da CIDE é um reflexo imediato na taxa de inflação, mas é um imposto que faz mais sentido.
  • cortando-dinheiro
  • O déficit fiscal é problema agudo, mas além disso há um problema crônico: as despesas do governo crescem mais que o PIB desde a década de 1990, e isso tem que ser equacionado. Cortar gastos é necessidade básica, mas para fazer isso a principal demanda é um acordo político amplo, com um governo que tenha capacidade de encontrar aliados. Ainda assim, a resistência aos cortes sempre é muito forte.
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  • O Bolsa Família é um bom gasto social porque é barato e constantemente avaliado pela comunidade econômica. Não adianta se gabar por torrar bilhões de reais na saúde, por exemplo, se não se sabe o efeito positivo que essa despesa gerou.
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  • A produtividade brasileira cresceu pouco com o dólar alto e com o dólar baixo. O Brasil não se integra ao mundo, e fica fora dos grandes e importantes acordos do comércio internacional.
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  • A adoção da política de concessão de dinheiro fácil e barato para grandes empresas, já consolidadas, não favorece o país. A melhor política nesse caso é adotar medidas que leve todas as empresas a ter acesso a dinheiro mas barato. A competição entre as empresas é saudável e bem-vinda. Se os Estados Unidos tivessem elegido a Motorola uma campeã nacional, então as pessoas ainda estariam usando aqueles antigos celulares flip. Como o governo americano não fez essa opção, o mundo ganhou smartphones Apple ou Google.
  • rorovia esburacada
  • Havia recursos abundantes, mas o último governo criou regras muito complicadas para concessões na área de infraestrutura. Os rendimentos nesse setor são de longo prazo, e é isso que todo mundo quer para investir. Com regras boas, as pessoas vão ter interesse de fazer esse tipo de investimento no Brasil.
  • foto rede Globo
  • A classificação de risco do Brasil pelas grandes agências balizadoras do mercado é porque a situação está realmente muito ruim, mas também porque elas, as agências não querem repetir os erros do passado, quando concederam notas muito elevadas para países e empresas que não mereciam. Agora, essas agências radicalizaram no sentido oposto. E não é o caso de se acreditar ou não nesse sistema. Ele vai continuar, e se a classificação do Brasil continuar caindo, o país e as empresas vão ter que pagar taxas de juros mais altas se tentarem pegar dinheiro emprestado.

Nexus: Prefeitura de Goiânia não pode se omitir diante de suspeitas reveladas pelo Jornal Opção

Reportagem publicada pelo Jornal Opção neste domingo, 1º de novembro, a respeito das suspeitas que existem nos laudos de impacto sobre a construção de complexo de torres no cruzamento das avenidas 85 e D, no setor Oeste, em Goiânia, é absolutamente inquietante. Assinada por Alexandre Parrode e Sarah Teófilo, a reportagem procurou dados detalhados sobre o estudo de impacto da vizinhança, EIV, mas acabou se deparando com uma inacreditável rede de silêncio e falta de esclarecimento (leia a íntegra da matéria – http://www.jornalopcao.com.br/reportagens/com-nexus-investigado-responsaveis-por-estudo-de-impacto-de-vizinhanca-desaparecem-50154/ ).

Maquete eletrônica/Nexus

Maquete eletrônica/Nexus (clique para ampliar)

Não há uma só prova concreta e irrefutável de que o estudo de impacto tenha sido uma fraude. Ainda assim, as suspeitas inundam o princípio da transparência que a legislação exige. Essas suspeitas, inclusive de possibilidade de assinaturas falsas no estudo de impacto da vizinhança, com alguns moradores negando que tivessem sido entrevistados na pesquisa de opinião, foram minuciosamente apuradas pela reportagem.

Maquete eletrônica, shopping center Nexus

Maquete eletrônica, shopping center Nexus (clique para ampliar)

Não há dúvida de que o impacto causado pela construção do Nexus naquele local, um complexo de torres com pelo menos uma delas chegando a 31 pavimentos, é estarrecedoramente real. A região já apresenta um quadro de trafegabilidade tão esgotado que há alguns anos a própria Prefeitura se decidiu pela construção de obra de arte, trincheira, para aliviar a pressão.

Maquete  eletrônica, centro de convenções Nexus

Maquete eletrônica, centro de convenções Nexus (clique para ampliar)

Mesmo assim, no rush os engarrafamentos tanto na avenida 85 como na avenida D, exatamente o endereço do Nexus, são insolúveis. Esse complexo, que reunirá salas comerciais, andares corporativos, hotel e um shopping center, inevitavelmente ampliará o caos hoje existente.

Maquete eletrônica, hotell Nexus

Maquete eletrônica, hotel Nexus (clique para ampliar)

Por tudo isso, além de uma questão de bom senso, é imperativo que o prefeito Paulo Garcia determine aos órgãos responsáveis, e que estão sob o seu comando, a suspensão imediata das obras para que o quadro seja reavaliado. Uma medida como essa não causaria prejuízos financeiros relevantes diante do custo que se projeta para a construção de um complexo como o Nexus, e abriria um viés de segurança imprescindível, não apenas legal, mas também moral, para a sua execução. Além desse aspecto, que por si só já justifica tal medida, a suspensão das obras para a realização de novos estudos causaria efeito sobre a transparência com que uma obra de tal envergadura deve ser tratada.

Maquete eletrônica, Nexus: heliponto para aeronaves com até 5 toneladas

Maquete eletrônica, Nexus: heliponto para aeronaves com até 5 toneladas (clique para ampliar)

A falta de ação da Prefeitura no caso Nexus é absolutamente constrangedor, e pode, por essa omissão, permitir que se perpetue o que talvez se revele futuramente como um dos piores crimes ambientais urbanos da história. Qual interesse, além do lucro esperado pelos empreendedores, pode justificar tal possibilidade? Paralisar as obras imediatamente, ao menos até que novos estudos sejam realizados e se tenha o mínimo de segurança de que o Nexus não foi projetado em local inadequado, não é nada além do que uma autêntica declaração de que o interesse que deve prevalecer é o da cidade e dos seus cidadãos. Uma prova de que o dinheiro não pode tratorar as leis para beneficiar alguns em detrimento de todos.

Liberação das armas: sim ou não?

Enquanto debate, sim e não. Aliás, não apenas enquanto debate. Na prática também deve-se levar em conta essa dualidade. Sim e não, ao mesmo tempo e sobre o mesmo tema.

Do jeito que está, não da. O Brasil é campeão mundial absoluto em assassinatos. São 60 mil a cada ano, e essa população de defuntos está em franco crescimento. Nesse campo de jogo, a Alemanha leva não de 7 a 1, mas de 1000 a zero. Os americanos também perdem de goleada. Matamos muito mais do que eles. Aliás, vamos inverter isso: morremos muito mais do que eles.

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Então, olhando para essa guerra civil, ou bang-bang cotidiano, liberar geral ou não faz pouca diferença. Hoje, 60 mil morrem por ano. Dizem que se liberar as armas vão ser 150 mil. Ué, e alguém dúvida que na toada em que estamos vai levar muito tempo para quebrar essa meta, e dobrá-la depois? Claro que não.

Qual a vantagem, se é que existe, em liberar as armas? Os que defendem a tese dizem que os bandidos vão ficar com medo da reação da vítima. Faz sentido? Faz, sim. Marginal  não tem medo de ser preso porque tem certeza de que será uma passagem rápida. A única coisa que ele teme mesmo é a morte. Hoje, em tese, o cara mete o revólver na cara de qualquer um e a possibilidade de o ameaçado estar desarmado é quase de 100%. Se liberar geral, vai saber…

Arma ilegal no porta-luvas do carro: inúmeros adeptos

Arma ilegal no porta-luvas do carro: inúmeros adeptos

Mas não é só o bandido que tem essa certeza, não. Qualquer sujeito que mantém uma arma, ilegal ou não, sabe que provavelmente terá uma vantagem definitiva sobre qualquer outra pessoa. E se essa certeza deixar de existir? É nessa onda que o “sim” se encaixa. Será a certeza de que o outro tem o direito de andar com um trabuco na cintura. Então, se for usar o seu, seja muitíssimo rápido e certeiro, porque a rebordosa poderá ser fatal.

Essa teoria do “sim” é imbatível, não é? Não, não é. Vá lá. Devemos todos nós ter consciência de que como estão as coisas, qualquer situação não será pior. É apenas uma questão de tempo. O problema é quando se vai um pouco mais além. É aí que surge o “não” como tese legítima. Legítima defesa do “não”.

Cena de filme do velho-oeste: não adianta ter uma arma, é necessário ser mais rápido

Cena de filme do velho-oeste: não adianta ter uma arma, é necessário ser mais rápido

Vejamos, por exemplo, como será o porte de armas generalizado. O sujeito que quiser andar com um trabuco para cima e para baixo poderá demonstrar para os possíveis adversários que está armado ou não? Provavelmente, sim, porque de outra forma não faria muito sentido a tal tese de que não seria bom negócio meter a arma na cara de alguém porque ele “pode estar armado”. Ou seja, se a liberação geral tem também um caráter preventivo, ainda que indireto, o sujeito teria que expor a sua arma. Tipo… na cintura, abertamente. Num coldre de fácil acesso. Como nos tempos do velho oeste americano. Como se fosse uma placa: “cuidado, hein, olha só o meu trabuco”.

Sim, porque não faria muito sentido o sujeito ir armado a um bar e deixar o trabuco no carro estacionado a 100 metros. O outro continuaria com vantagem se estivesse com a arma escondida sob a camisa. O sujeito morreria a 100 metros da arma que poderia “salvá-lo”. Nesse caso, a tal lei da liberação geral só poderia beneficiá-lo se o cara estivesse aberta e publicamente armado.

Bom, pode-se argumentar, que isso é uma situação entre cidadãos comuns, e não um confronto contra bandidos. É verdade, mas os tais 60 mil defuntos que os brasileiros produzem a cada ano, e em ritmo crescente, não é obra de terror edificada apenas por bandidos. Ao contrário. Grande parte desses assassinatos são cometidos por bobagens que chocam a todos pela torpeza de motivos. A estatística não separa os assassinatos cometidos no Brasil de modo que é impossível afirmar qual é a quantidade de assassinatos cometidos pelos criminosos e aqueles praticados por cidadãos comuns. Teoricamente, apenas pelo grosso modo revelado pelos noticiosos, a maioria dos que morrem é vítima dos bandidos.

E é exatamente aí que se concentra a discussão: o cidadão tem direito de se defender dos bandidos. Claro que tem. Isso é inegável. Mas é muito mais razoável acreditar que esse cidadão será muito melhor defendido por um braço armado que ele próprio sustenta para a sua segurança. Isso acontece agora e não vai mudar se liberar geral.

Se a polícia prende ou mata estes, outros ocupam seus lugares imediatamente. Por que?

Se a polícia prende ou mata estes, outros ocupam seus lugares imediatamente. Por que?

Essa segurança deve ser garantida pelo Estado. E aqui é que a coisa começa a pegar. O Brasil teorizou demais a questão da segurança. O maior problema que temos é a impunidade. Criamos a falsa imagem de que é possível recuperar delinquentes sem punição. Não é. Nenhuma nação conseguiu fazer isso.

A pena é para punir quem quebra as mais elementares regras de convivência social e servir como advertência permanente incrustada no inconsciente coletivo de que não vale a pena quebrar essas regras. Achar, como se acha, que amor e educação recuperam um transgressor encharcado em ódio é acreditar em milagre divino. Não, definitivamente, não. Se há alguma coisa que pode conter esse ódio é a certeza de que a sua explosão trará consequências definitivas e dramáticas para a vida desse transgressor antes mesmo que isso ocorra.

A Suécia fecha prisões agora, mas as construiu antes porque eram necessárias

A Suécia fecha prisões agora, mas as construiu antes porque eram necessárias

Cita-se muito por estas bandas do mundo o exemplo da Suécia, que tem fechado penitenciárias por falta de presidiários. Mas será que não se percebe que se elas estão sendo fechadas agora, foram construídas antes porque eram necessárias. E também se desconhece que as leis suecas são duríssimas, inclusive com a previsão de pena de morte. Não é por outro motivo que a Suécia é um lugar absolutamente seguro para a convivência humana. A regra é clara por lá: não transgrida, porque se você transgredir, nós vamos te punir de tal forma que outro possível transgressor vai pensar um milhão de vezes antes de fazer a mesma coisa.

Estudantes na porta de escola no Brasil: como desincentivar a violência entre eles?

Estudantes na porta de escola no Brasil: como desincentivar a violência entre eles?

Agindo assim, durante muitas gerações, os suecos chegaram ao ponto em que estão, podendo fechar presídios porque o número de transgressores é cada vez menor. E não é apenas lá que isso ocorreu. Inglaterra, França, Alemanha e demais países europeus, embora com situações particulares inclusive no campo cultural, também vivem dessa forma. E o melhor e mais acabado exemplo é a Itália, que mudou muito, embora ainda esteja em um estágio bastante inferior em relação aos seus vizinhos, depois que atacou durante os chefões mafiosos. A Itália estava sendo devorada pelas máfias até que decidiu se tornar um estado predador e não apenas vítima.

Essa realidade brasileira inibe ou incentiva a violência?

Essa realidade brasileira inibe ou incentiva a violência?

A liberação das armas no Brasil nem de longe vai resolver ou minimizar a violência cotidiana. Portanto, a tese do “não” é absolutamente legítima. Porém, se bandidos e transgressores continuarem sendo tratados como “curáveis” e não como exemplarmente “puníveis”, então vamos viver de forma cada vez pior, e aí a tese do “sim” ganha sentido. Sim, o cidadão tem o direito de tentar se proteger, mesmo que não consiga.

Estudante assassinado no pátio da escola

Estudante assassinado no pátio da escola

Pra finalizar, num país em que professores são espancados em salas de aula, e estudantes se esbofeteiam e se matam nas portas das escolas sem serem punidos com rigor suficiente para inibirem futuros e eventuais agressores, não será com a construção de escolas que vai se combater a violência de crianças, adolescentes e adultos atuais e futuros, mas com a construção de presídios. A Suécia fez assim e deu certo, e hoje pode fechar presídios e melhorar ainda mais as escolas.

As mudanças que vão ser implantadas pela Prefeitura

Mudança na praça do relógio poderá agravar problema de trânsito

A decisão do governo municipal de eliminar a praça do relógio (ou rotatória, como alguns preferem) não é tecnicamente comprovada quanto aos seus objetivos de desafogar ou minimamente amenizar os congestionamentos na região. A conta não bate. O engarrafamento na avenida Jamel Cecílio não é provocado ou sequer levemente agravado pela praça do relógio, no alto do Jardim Goiás. Ao contrário, a eliminação dela poderá inclusive agravar o problema ao estendê-lo para outras vias.

Foto: O Popular online

Foto: O Popular online

É certo que a avenida Jamel Cecílio é um dos pontos mais estrangulados do tumultuado trânsito goianiense na hora do rush. Em extensão, talvez esteja entre os trechos mais longos com problemas de trafegabilidade de Goiânia, iniciando ainda na avenida 136, no setor Marista, se estendo por toda a avenida Jamel Cecílio e terminando somente após os primeiros quilômetros da GO-020.

Adensamento recente no alto do Jardim Goiás/Parque Flamboyant

Adensamento recente no alto do Jardim Goiás/Parque Flamboyant

Ocorre que a região tem pelo menos 5 grandes demandas de fluxo: o Shopping Flamboyant, os hipermercados Walmart e Carrefour, a região dos condomínios horizontais luxuosos localizados na GO-020 e o recente adensamento desmedido dos setores Jardim Goiás e Alto da Glória. Isso provoca uma demanda insuportável para a avenida 136 e também na avenida E, ambas localizadas no Jardim Goiás.

De um lado, o hiper Carrefour...

De um lado, o hiper Carrefour…

No trecho em questão, onde estava a praça do relógio, a Prefeitura promete diminuir o engarrafamento, permitindo uma maior fluidez no trânsito, com a instalação de um semáforo e eliminação de duas conversões no cruzamento das avenidas E – via alimentadora – e avenida Jamel Cecílio – via receptora. A solução seria mesmo técnica se houvesse ali, na praça, um cruzamento, mas não há. Ele será criado.

...do outro, o hiper Walmart

…do outro, o hiper Walmart

Nessa praça, existem apenas duas pequenas ruas além da avenida Jamel Cecílio, e apenas uma delas recebe veículos. A outra é saída da praça em direção ao parque Flamboyant, onde por sinal ocorreu um rápido e intenso adensamento nos últimos anos. Além disso, a rua que termina na praça (ou rotatória) tem um fluxo de veículos absolutamente insignificante, mas será agora carregada com a eliminação das conversões anteriores.

As mudanças que vão ser implantadas pela Prefeitura

As mudanças que vão ser implantadas pela Prefeitura

Portanto, como o engarrafamento monstruoso e longo ocorre antes, durante e depois da praça, com ela ou sem ela a situação poderá ser rigorosamente a mesma. Para piorar, a instalação de um semáforo é um fator agravante, já que forçosamente esse equipamento terá que parar de vez o fluxo de veículos na avenida Jamel Cecílio de tempos em tempos, e permitir assim o fluxo das tais ruas secundárias que chegam à praça. Ou seja, o que “anda” devagar, com o semáforo terá que parar de vez. Será o quarto equipamento desse tipo em um curto trecho da Jamel Cecílio.

Condomínios de alto luxo, GO-020

Condomínios de alto luxo, GO-020

Já existem dois semáforos logo acima da praça do relógio, no sentido cidade-Flamboyant. E, estes, sim, é que pioram o problema. O primeiro é uma saída do Flamboyant que cruza a avenida Jamel Cecílio, e permite o tráfego nas duas direções. O segundo é no cruzamento entre os hipermercados Walmart e Carrefour, que trava completamente o trânsito na avenida. É nesse ponto que ocorre o pior e mais grave estrangulamento. A solução poderia ser a eliminação da saída do shopping, na altura da unidade do MacDonald’s, e um estudo realmente sério a respeito do cruzamento Walmart/Carrefour, cuja solução é muito mais complicada. Mas será que mudanças assim agradam aos empreendedores?

Flamboyant Shopping Center

Flamboyant Shopping Center

Eliminar a praça do relógio, portanto, além de não resolver e nem sequer minorar o problema poderá, ao contrário, agravá-lo. Talvez fosse exatamente isso que a Prefeitura tenha concluído há seis meses, quando ao invés de acabar com a praça do relógio, promoveu a sua total reformulação, com remodelagem do formato e replantio total da área gramada e dos relógios. Para finalizar a situação, além de ter aparentemente mudado completamente a sua visão sobre o local, a Prefeitura teve uma inusitada pressa: em apenas uma semana, trabalhando inclusive sábado, eliminou completamente uma praça que era, de certa forma, uma referência, sem permitir assim uma discussão a respeito.

Em uma cidade com 80 e poucos anos, a eliminação da praça do relógio, uma referência que completava 20 anos, pode ser considerado um disparate. A pracinha/rotatória não incomodava as pessoas. E nem o trânsito.

Foto: O Popular online

Goiânia: Prefeitura reforma praça em abril para destruí-la em outubro

A Prefeitura de Goiânia revigorou totalmente a rotatória da avenida E, no Jardim Goiás, que ficou conhecida como praça do relógio das flores, em meados de abril deste ano, após longo período de abandono no local, que se encontrava à época tomada pelo matagal. A reforma incluiu a troca de todo o gramado, movimentação de terra e replantio das folhagens que compunham os números. Também nessa reforma, a Prefeitura abandonou de vez os ponteiros do relógio, cujo mecanismo necessitava periodicamente de manutenção preventiva e, algumas vezes, corretiva, com troca de peças ou não.

Em abril deste ano, a Prefeitura refez totalmente a praça do relógio das flores

Em abril deste ano, a Prefeitura refez totalmente a praça do relógio das flores

Agora, apenas seis meses depois dessa pequena obra de paisagismo, a Prefeitura resolveu destruir completamente a praça do relógio das flores para a instalação de um semáforo. Oficialmente, a ideia é permitir que o trânsito na região seja desimpedido e possa fluir mais rapidamente, evitando assim engarrafamentos na região.

Foto: O Popular online

Foto: O Popular online

O problema está exatamente no confronto de objetivos da Prefeitura nesse local. Em abril, recuperou-se o espaço da forma como foi concebido originalmente. Apenas seis meses depois há uma total reformulação, que implica inclusive na sua destruição. É absolutamente improvável que em apenas seis meses o fluxo de veículos na região tenha aumentado de tal forma que se encontre uma razão para tamanha mudança. Indo além, também é difícil imaginar que a ação radical de agora tenha se dado para evitar um possível problema de tráfego no futuro. Essas condicionantes não se modificaram ao longo dos últimos seis meses.

Acabou...

Acabou…

Então, se era para destruir agora, por que se reformou antes a praça do relógio das flores? Planejamento insustentável ou falta de previsibilidade administrativa?

A praça do relógio das flores é mais um marco na vida goianiense que desaparece sob asfalto ou concreto. Sobre esse tema, leia o texto a seguir (Goiânia: tanto ódio às flores, tanto amor ao concreto).

Goiânia, tanto ódio às flores e tanto amor ao concreto

Goiânia, última década do século passado

O crescimento rápido e continuado do Estado em todos os setores da economia provoca uma explosão referencial para Goiás no país. Para o Brasil, além do drama do césio exposto na década de 1980, surgia uma capital apaixonante, cheia de canteiros de flores em meio às suas largas avenidas ainda não completamente entupidas de carros, ruas e calçadas limpas e relativamente bem conservadas. Uma cidade cheirosa, se assim se pode dizer.

Goiânia, dias atuais

Desordem administrativa avança sobre serviços essenciais. Ao lado das ruas e avenidas esburacadas e muito mal sinalizadas, pilhas e mais pilhas de lixo infestaram de mau cheiro e má fama a capital que antes enchia sua população de orgulho e deslumbrava  os olhos dos visitantes.

O abandono das flores: vandalismo voltou

O abandono das flores: vandalismo voltou

As flores, pobres flores, se transformaram em ilhas secas de gramado estéril. Canteiros centrais foram substituídos por cimento. Praças inteiras transformadas em corredores de asfalto isolando espaços antes verdes e floridos como se fossem ilhas de contenção do ambiente.

Avenida Araguaia antes da derrubada de árvores e construção de um túnel

Avenida Araguaia, Goiânia, última década do século passado

Goiânia sem encanto, sem canto, sem cantar. Goiânia envergonhada por incorporar tudo aquilo que os visitantes antes lamentavam existir em suas cidades de origem: 

Avenida Araguaia, Goiânia, dias atuais

Avenida Araguaia, Goiânia, dias atuais

trânsito pesado, privilégio total ao corre-corre das metrópoles sem coração, sem sentimento, sem tempo de olhar para flores, sem possibilidade de se sentir humano em meio ao concreto e asfalto.

Goiânia, última década do século passado

A grande crítica político-administrativa que se fazia era sobre o dinheiro da população que era gasto com a manutenção de canteiros de flores. Repercussão zero. Na realidade, o gasto era encoberto e relativizado por programas de integração social de pessoas idosas e adolescentes, hoje abandonadas sobre massa asfáltica em meio aos montes de concreto.

viveiro de flores

As flores eram de cultivo próprio da Prefeitura e desabrochavam nas carícias de pessoas idosas e adolescentes antes de serem transferidas para milhares de canteiros coloridos espalhados por toda a cidade. Não era uma operação de guerra, cara, que mantinha em alta a simbologia máxima do orgulho de se morar em Goiânia. Bastava a execução de um programa de integração social bastante simples, chamado Trabalhando com as mãos.

praça goiania flores

Os adolescentes, mais fortes e bem dispostos, entregavam os insumos aos mais velhos, que cuidavam de cada muda de flor, de cada pequena haste verde que brotava, crescia e desabrochava. É claro que havia também equipes de trabalhadores do Departamento de Parques e Jardins cuidando do viveiro, e produzindo a maioria das flores replantadas. Mas havia ali, naquele programa social, a declarada e assumida intenção de se responsabilizar e integrar idosos e adolescentes naquilo que se revelava o instante análogo à conquista do bem-querer do goianiense por nossa cidade.

A paixão por Goiânia inspirava os goianienses, como nesta tela de Gomes de Souza

A paixão por Goiânia e sua flores contra o concreto inspirava os goianienses, como nesta tela de Gomes de Souza

A praça do relógio das flores, na avenida E, no Jardim Goiás, era um dos símbolos desse tempo. Era um marco que atraía as pessoas para fotografias de lembranças eternizadas, seja do dia do casamento, nascimento ou simples lazer. Tempo em que os goianienses fotografavam-se tendo como cenário Goiânia pura, nua, florida. Cheirosa e cidadã.

Goiânia, dias atuais

A praça do relógio das flores, na avenida E, no Jardim Goiás, é um dos símbolos dos tempos atuais. Um marco que vai atrair apenas a velocidade dos carros impacientes, talvez até estimulando a irresponsabilidade de alguns madrugada adentro. Mais uma praça cortada pela massa asfáltica. Mais uma obra segregacionista da cidadania e sustentabilidade da vida contra o conforto da fluidez do tráfego intenso dos carros, e de efeito temporário até se fartar novamente de trânsito caótico.

Praça do Chafariz: hoje, apenas na lembrança. Em seu lugar foi construído um viaduto

Praça do Chafariz: hoje, apenas na lembrança. Em seu lugar foi construído um viaduto

Se a praça do relógio das flores é esse tipo de símbolo atual, não é o único no festival de atrocidades que se comete em nome de sabe-se lá qual visão do futuro.

O que se faz em Goiânia hoje vai de encontro às mais elementares bases da convivência humanizada. Os erros e equívocos anteriores, quando se permitiu a concentração de centros de moradias e serviços estrangulando tudo em volta, são agora multiplicados e até incentivados, com espigões de demanda incompatível com a estrutura existente. O Nexus, na praça do Ratinho – que por sinal nem existe mais, substituída que foi por uma obra de arte que prometia fluidez ao tráfego intenso – é o monumento mais evidente do que se está praticando contra o futuro imediato: que ninguém espere mais do que o caos urbano de toda uma região, ainda pior do que esse que já existe.

Hotel, shopping, salas comerciais: um monstro de concreto verticalizado (maquete eletrônica)

Hotel, shopping, salas comerciais: um monstro de concreto verticalizado (maquete eletrônica)

E uma visão assim, que permite matar todos os sonhos possíveis de uma cidade melhor para se viver, não poderia se manter sem fortes suspeitas de que nem tudo se mantém sem que interesses particulares possam ter extravasado os limites da legislação – vide denúncia de irregularidades na concessão de licenças que vem sendo apuradas e que foram tema de destaque de reportagem do Jornal Opção recentemente. (http://www.jornalopcao.com.br/reportagens/possivel-fraude-de-assinaturas-poe-em-xeque-empreendimento-no-setor-marista-47329/ 

A antiga Goiânia das pessoas que podiam parar para simplesmente contemplar a beleza de uma simples abelha beijando flores e recolhendo néctar em milhares de canteiros que priorizavam o romantismo de viver em meio ao urbanismo moderno, acabou em nossas lembranças. Esse é um passado que na visão atual não tem mais futuro.

A Goiânia de hoje e aquela que se pode projetar muito pior para o futuro é também de pessoas paradas, cinzentas, contemplando a impaciência dentro de carros, sem nada poder fazer a não ser assistir a sua própria vida se esvaindo ao lado de pequenas marcas de tinta nas laterais do asfalto apelidadas de ciclovias, cuja única função atualmente é ligar o nada a coisa alguma, resvalando esporadicamente como área de lazer e não como modal de transporte.

ciclofaixa

Resta apenas formular um pedido de desculpas à esperança. A maioria dos goianienses acreditou em outubro de 2012 que estava votando a favor da sustentabilidade da vida, mas talvez a maior sensação que se pode ter agora é a de que o que tem se sustentado é a política urbana do concreto armado e do asfalto contra o espaço físico e a convivência das pessoas.

Acabou...

Acabou…

Este é o grande caos do maior equívoco administrativo de toda a história de Goiânia. O goianiense jamais quis viver numa metrópole errada e falsamente dinâmica. Quer, sim, a simples vida de uma boa metrópole. Essa era a esperança, que ora jaz sob essa política administrativa do concreto armado verticalizado ao extremo e da massa asfáltica horizontalizada sob pouco que ainda nos restou de verde.

Pós-ajuste: Ainda há esperança para Dilma?

Corte de poucos ministérios será insuficiente para reverter impopularidade do governo da petista. Tese do impeachment não foi superada

Afonso Lopes

Num arranjo com a cara e o jeito do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a presidente Dilma Roussef anunciou um corte ministerial tão tímido que frustrou a expectativa que se tinha antes, e que já não era tão grande assim. De 39 ministérios, a Esplanada passa a abrigar a partir de agora nada menos que 31. Antes, a presidente sinalizou que iria cortar 10 ministérios, o que ainda resultaria numa supermáquina administrativa com 29 ministros de Estado, se mantendo como um dos recordes mundiais. Mas nem isso ela foi capaz de fazer. O corte ficou em apenas oito.

Dilma anunia cortes

E para dar uma espécie de verniz no plano, anunciou também corte no salário dela, do vice-presidente Michel Temer e dos ministros. Em vez de pouco mais de 30 mil reais por mês, esse pessoal passa a ganhar 27 mil, o que representa 10% menos. Seria melhor nem ter feito a tal redução. No plano de combate aos efeitos do desemprego crescente provocado pela recessão, os trabalhadores que aderirem vão perder 15% de salários para evitar a demissão sumária.

Tudo isso, evidentemente, vai ter um custo em termos de popularidade. Dilma certamente não vai conseguir escapar da faixa vermelha da impopularidade em que se enfiou juntamente com seu ajuste fiscal de cunho radicalmente recessivo. Ao mesmo tempo, e até para seus próprios aliados, passou a nítida impressão de que abriu mão do restante de governo que ainda estava em suas mãos, repassando o poder diretamente para Lula, que foi quem negociou com o PMDB nacional mais participação nos ministérios. Agora, o partido teve sua cota na Esplanada aumentada para sete ministros.

Metas

Ao que parece, a tal reforma pífia não objetivou realmente uma importante redução de custos na máquina pública mastodonte de Brasília e, assim, contribuir com o esforço nacional em favor do ajuste das contas do governo. Mas há, sim, um objetivo bastante óbvio. Aliás, dois. Primeiro, ampliar a fidelidade das bancadas do PMDB no Congresso Nacional e evitar o quanto for possível a tese do impeachment. Em segundo lugar, e talvez até de forma mais direta e imediata, convencer os peemedebistas a votarem a favor do retorno do famigerado imposto do cheque, a CPMF. Em outras palavras, além de não cortar pra valer os custos da máquina que administra, ou deveria administrar, a reforma anunciada por Dilma provavelmente vai aumentar os custos que a população já tem que arcar.

Lula

Indiretamente, a própria presidente se encarregou, por ato falho ou intencional, de esclarecer que as medidas de contenção carregam uma carga política e não financeira. Ela se referiu em determinado trecho de seu pronunciamento a uma tal de “estabilidade política da governabilidade”, seja lá o que isso realmente signifique. Numa situação normal, ou se tem a chamada governabilidade ou não. Associar isso à estabilidade é simplesmente admitir que não existe base governista consolidada, mas votos e apoios negociados na exata medida em que eles são necessários. Precisou, abre-se o balcão de negócios políticos. Não precisou, adia-se qualquer pacto realmente duradouro. É política no varejinho, e não no atacado.

Tudo isso leva a crer que a tese do impeachment não está definitivamente morta e enterrada. Provavelmente, o que se ganhou na sexta-feira, 2, foi um tempo extra. Isso não significa que o impeachment fatalmente voltará a rondar a pauta do dia no Congresso e os piores pesadelos da inquilina do Palácio do Alvorada. Tudo dependerá da cumplicidade política que se estabelecerá em Brasília a partir de agora, com Lula no comando. Além disso, a economia também precisa urgentemente de boas notícias, o que parecem estar cada vez mais distante.

placa minha casa minha vida

Além de todos os números francamente negativos, com aumento da carga fiscal ao mesmo tempo em que se registra queda na arrecadação, redução das atividades econômicas em todas as áreas da produção, e aumento da inflação, e ainda maior na percepção do custo de vida individual, o ajuste fiscal também cortou radicalmente nos programas sociais, incluindo nesta lista o admitido na mesma sexta-feira, 2, de que 500 milhões de reais vão deixar de ser gastos anualmente com o programa Farmácia Popular. Ou seja, Dilma não tem mais apoio, ou pelo menos o mesmo apoio que tinha antes, nem na faixa de eleitores que a elegeu no último domingo de outubro do ano passado.

O Congresso Nacional é obviamente sensível a isso, por mais distante que fique da opinião pública. Ao perceber que ganhar mais ministérios pode ter um custo excepcionalmente alto nas eleições municipais, que de resto forma sua principal base para as eleições estaduais e nacionais, o PMDB certamente irá repensar se fez um bom negócio com essa reforma. Se chegar à conclusão de que não vale a pena, o impeachment não apenas voltará aos sussurros nos corredores e gabinetes do Congresso, como poderá retornar com a força de um tsunami. Até porque marolinha sempre foi enganação.