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Impressões do cotidiano

Internação do governador ocorre no melhor momento de seu governo até aqui

Eleito já no 1º turno, no final do ano passado, com 60% dos votos válidos, o governador Ronaldo Caiado enfrentou todos os problemas possíveis desde sempre. As primeiras dificuldades foi evitar a instalação de “feudos políticos” dentro da administração estadual, e para isso ele convidou e deu posse a número recorde de secretários “estrangeiros”.

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Já em janeiro, optou pelo pagamento salarial do seu período administrativo e apresentou um plano de escalonamento – comunicado erradamente como parcelamento, o que de fato nunca ocorreu – das folhas de pagamento ainda referentes ao ano de 2018, especialmente os salários de dezembro e parcelas do 13º. O episódio, mal encaminhado em termos de comunicação, gerou terríveis desgastes na imagem do governo como um todo.

Se isso não fosse encrenca suficiente, ele ainda questionou o formato da política de incentivos fiscais do Estado, que a CPI que está sendo realizada na Assembleia Legislativa confirmou excessos que estão sendo praticados.

Por fim, e concluindo o escalonamento dos pagamentos pendentes, o governo finalmente se livrou do peso da pressão dos servidores, mas com o caixa raspado até as últimas moedas, recorreu ao Supremo Tribunal para carimbar, com autorização da Corte, um calote temporário das dívidas do Estado com bancos oficiais.

Nas últimas semanas, o governador vinha colhendo uma boa safra administrativa. É claro que não é, e nunca será, um jardim do Éden, mas após sofrer humilhantes derrotas no plenário da Assembleia Legislativa, ele conseguiu reverter a situação. É uma base suficiente para importantes votações, embora ainda não completamente testada quanto à sua fidelidade e estabilidade.

Diante de tantas dificuldades desde o início, e mesmo logo após a vitória eleitoral quanto à modelagem de seu secretariado, Ronaldo Caiado tem vivido seus melhores momentos. Seus familiares e ele próprio sabem que o preço foi um altíssimo nível de stress permanente.

Sírio-Libanes

Mal súbito, de origem não diagnosticada totalmente, leva Caiado à internação em São Paulo

A primeira suspeita foi que o governador Ronaldo Caiado sofreu um enfarte no início da tarde de ontem, quarta-feira, 9. A suspeita, que chegou a ser veiculada pela Veja online, se deveu principalmente pelo sintoma: uma forte dor na região do tórax. Deslocado com urgência para o Hospital do Coração, no setor Oeste, uma das maiores referências do centro-oeste brasileiro, realizou-se os primeiros exames e a hipótese inicial de enfarte foi descartada. E aí surgiu a pergunta: se não foi enfarte, o que teria provocado uma dor tão forte no peito do governador? Nenhum dos exames complementares foi conclusivo.

Sírio-Libanes

Diante da dúvida, e também levando-se em consideração a idade do governador, quando ocorre, conforme declarou o secretário estadual de Saúde, Ismael Alexandrino, um envelhecimento natural das artérias coronarianas, a médica e cientista Ludhmila Hajjar, uma das mais respeitadas profissionais da ciência médica do país, desembarcou em Goiânia no início da noite para apresentar o seu diagnóstico. Ela recomendou a imediata transferência do governador para São Paulo.

Ronaldo Caiado, embora se apresente fisicamente bastante forte, tem sofrido com alguns problemas com sua saúde. No ano passado, ele se internou em São Paulo para tratar uma “infecção no aparelho urinário”. No início de agosto, apresentou um forte quadro febril, que o levou a cancelar alguns compromissos agendados, e causou alarme no senador Jorge Kajuru, um amigo do círculo íntimo, que chegou a publicar nota em sua conta no Twitter quando afirmou que o governador passava por uma “doença séria”. Kajuru conclui o post pedindo orações pela recuperação do amigo.

Nova informação da Veja online diz que o governador tem 70% de uma coronária entupida, e ele terá que se submeter a uma cirurgia – não muito complicada – para instalação de um stent (uma espécie de minúsculo tubo de metal – geralmente de cobalto ou aço inoxidável – que se expande como uma pequena rede para reduzir ou mesmo eliminar entupimentos coronários). Esse procedimento é conhecido como angioplastia, mas ainda não foi confirmado pelo Hospital Sírio-Libanês, de São Paulo.

Goiás: PP no governo, ex-petebistas no MDB. No rearranjo político-partidário, onde ficará o PSDB?

Era previsível que o tsunami eleitoral liderado pelo agora governador Ronaldo Caiado no ano passado geraria um vendaval de mudanças no posicionamento das principais forças políticas do Estado. É o que sempre acontece desde a redemocratização, em 1982, quando Iris Rezende e o PMDB assumiram o comando estadual, e se seguiu em 1998, com a derrota dos emedebistas e a ascensão do que se convencionou chamar de “Tempo Novo”, grupamento oposicionista que teve Marconi Perillo como governador. Chegou a vez de Ronaldo liderar essas mudanças.

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O governo não começou muito bem. O chororô de herança maldita criou uma imagem ruim, que não atraiu. Ao contrário. Caiado esteve praticamente meio ano isolado com o cheque em branco recebido nas urnas de maneira estrondosa, já no 1º turno, sem atrair nada mais que meia dúzia de deputados estaduais em começo de mandato. Pior do que isso: politicamente, com grupo extremamente pequeno e sem grandes expressões, “importou” boa parte de seu secretariado para dar peso técnico ao comando das pastas. A maioria dos “importados” tem atuado de forma positiva, mas também há algumas decepções.

A situação hoje já é muito diferente. Caiado tem falado muito mais sobre a realidade atual do Estado e o que pretende fazer no futuro. E isso se reflete nas alterações do quadro partidário global que se está vendo. O PP, que era oposição, se abriga no governismo. O PTB também foi para o leque palaciano, mas com consequências: seus principais nomes estaduais migraram para o MDB maguitista. Aliás, em relação ao MDB é necessário registrar que o partido segue dividido entre duas grandes forças, o representado pelo presidente regional Daniel Vilela e a sua maior estrela, o prefeito Iris Rezende.

Levando-se em conta o histórico de polarização do poder em Goiás entre duas grandes forças, cabe a pergunta sobre o ex-poderosíssimo PSDB. Para onde o ninho tucano vai migrar? Sabe-se, de antemão, que o PSDB vai continuar na oposição a Caiado. É natural que isso ocorra. Mas em algum momento os tucanos vão ter que encontrar um reposicionamento no grande tabuleiro político-partidário do Estado. Grosso modo, o partido está praticamente isolado. PP e PTB, antigos aliados, acabaram de ir embora. O DEM, de Caiado, caiu fora desde 2014. Só resta, dos grandes ex-aliados, uma posição mais clara do PSD, que já tem um dos pés na cozinha das Esmeraldas.

O MDB, derrotado e esmigalhado em 1998, conseguiu atravessar sozinho o deserto durante 20 anos. Isso foi possível por sua permeabilidade estadual orgânica. O PSDB não tem essa característica. E isso é um problema. Sozinho, isolado, o PSDB “morrerá” na próxima esquina eleitoral. O partido ainda conta com várias boas lideranças no interior, mas isso não será suficiente. O PSDB precisa encontrar seu destino. Até para ter um destino. O problema é descobrir qual é o caminho para não terminar o meio dele.

Lúcia Vânia leva qualidade à equipe do governo Ronaldo Caiado

Conexão: Ao comemorar um ano de sua espetacular vitória nas urnas, governo Caiado se vê “travado”

O tempo passa rápido, ao contrário do que se imagina na adolescência. E passa ainda mais apressado quando se fala de governos. A máquina pública brasileira é, como regra, extremamente lenta. Quando  não para de vez nas múltiplas gavetas de burocracia insana – e que se realimenta diariamente até como forma de se perpetuar.

Lúcia Vânia leva qualidade à equipe do governo Ronaldo Caiado

Lúcia Vânia leva qualidade à equipe do governo Ronaldo Caiado

Agora mesmo, a presidente da CCJ da Câmara Municipal de Goiânia, vereadora Sabrina Garcez, ouvida pela coluna Giro, a mais importante e lida do mercado editorial do Estado, e assinada pelo jornalista Caio Henrique Salgado, em O Popular, disse que 6 meses é um prazo muito curto para se discutir, votar e iniciar a implantação do plano diretor de Goiânia – a ser implementado pelos próximos 10 anos. Nada contra a vereadora, que vê o tema com muita importância, o que é correto, e que precisaria de pelo menos 1 ano de discussões – e não 6 meses.

Essa é a regra do jogo que se joga no Brasil. É como se o velho ditado (“calma que o Brasil é nosso”) fosse a tônica. Essa tramitação na Câmara de Goiânia é bem isso. E por que é necessário tanto tempo para montar um conjunto de regras para a cidade? Veja a agenda para esta 2ª feira da própria Câmara: Sessão especial às 7 e meia da noite para comemorar o Dia do Professor. Sim, os professores merecem que seja comemorado um dia, mas não seria muito melhor debater e aprovar mecanismos para aliviar a barra que eles enfrentam nos outros 364 dias do ano?

Esse é o Brasil, e aqui se chega a um dos fatos mais importantes na história recente: a retumbante vitória eleitoral do governador Ronaldo Caiado em outubro do ano passado. Portanto, é o marco de 1º aniversário de uma reformulação do quadro político-administrativo de Goiás feita, como deve ser, através da legítima manifestação e desejo dos eleitores.

Costumeiramente, não é o momento mais adequado para se analisar um balancete do primeiro ano do governo de Ronaldo Caiado – até porque entrou-se há uma semana no 10º mês. O que se pode, e se pretende nesta Conexão, é comparar Ronaldo Caiado candidato e Ronaldo Caiado governador. E a conclusão é que o candidato era muito melhor do que o governador.

Alguma novidade nessa conclusão? Nenhuma. Bolsonaro era melhor candidato do que presidente, Marconi também foi. Idem para FHC, Lula ou Dilma. É sempre dessa forma sem tirar nem por: o país – e Estados e cidades – das campanhas eleitorais são inspiradores, e os candidatos seguem o modelo da vida nos jardins do Éden. Empossados, é como governantes que eles precisam administrar uma infernal máquina pública lotada de regras amontoadas ao longo de décadas – como na burocracia – que se realimenta na movimentação do caos.

Pode-se questionar se os candidatos vitoriosos conseguiriam vencer caso os eleitores soubessem exatamente como estaria a unidade administrativa um ano depois no momento do voto. Pode ser que sim. Pode ser que não.

No caso afirmativo, sem dúvida há o peso da empatia que certas lideranças políticas conseguem despertar – e muitas vezes incendiar – na massa eleitoral. Sem qualquer espírito crítico, mais das vezes. No caso negativo, a empatia por um e o ódio pelos adversários já se perderam ao longo do tempo e dos sofrimentos que a máquina pública impõe a todos que se situam nos andares inferiores da grande pirâmide. É a realidade muito além dos “Édens” das campanhas.

Na sexta-feira, 4, ao dar posse à sua nova secretária de Assistência Social, a ex-senadora Lúcia Vânia, que de imediato deve ser alçada à condição de melhor e mais denso currículo político da equipe de governo, o próprio governador reconheceu, indiretamente, que precisa – como ele disse aí, sim, diretamente – destravar o governo.

É verdade, precisa, sim, colocar o governo para rodar mais rapidamente. Observando-se o desempenho do governo Alcides Rodrigues, há uma flagrante e preocupante semelhança com a administração atual: o boeing consegue taxiar, registra alguns bons tripulantes, mas não chega à cabeceira da pista. E sem chegar lá, jamais vai decolar – ou destravar, como preferiu afirmar Ronaldo Caiado.

Não chega a ser um retrato do caos absoluto, embora essa figura esteja presente em áreas restritas do governo. Há, inclusive, fatos muito positivos, como a excelente recuperação dos salários atrasados – e herdados do governo anterior -, além de parcelas do 13º salário referente a 2018. Vá lá que o governo recorreu a um calote aos bancos oficiais temporariamente, mas também esse é um fator positivo: não interessa a maneira que se consegue dinheiro extra desde que seja pelas vias possíveis.

Há, portanto, setores do governo desorientados e setores que vem funcionando relativamente bem diante das naturais e permanentes dificuldades. E há ainda certos fatos – como a relação com OS da saúde – que merecem maior atenção pelo clima não exatamente saudável, embora isso não signifique que há algo errado acontecendo nas entranhas da administração. Captar rapidamente sinais de fumaça pode ser extremamente importante para evitar grandes incêndios.

Enfim, está-se corrigindo, e muito graças ao trabalho da Assembleia legislativa na CPI dos incentivos fiscais, a política de atração de empreendimentos que vigora em Goiás desde o primeiro governo de Iris Rezende, em 1983 – de quem Caiado era ferrenho adversário e hoje é seu mais importante aliado. Ao longo de décadas, é natural que a máquina se contamine até nas boas iniciativas. Nesse sentido, renovar é sempre muito bom. E pode-se renovar até aquilo que é recente. A mexida quase geral que Ronaldo Caiado deu na semana passada apresenta saldo positivo, mas talvez não seja grande o suficiente para atingir o que ele pessoalmente deseja, destravar o governo.

sede STF

Decisões de alguns ministros do Supremo representam a resiliência da corrupção no Brasil

A mera discussão sobre uma normatização a respeito da sequência que se deve adotar nos processos em que figuram réus delatores e réus delatados pelo Supremo Tribunal Federal se transformou numa última fronteira de resiliência do poder corrupto que esmaga a grande maioria dos brasileiros. Com direito a direito a declarações explícitas que implicam na anulação pronta, imediata e total de tudo o que se fez na operação Lava Jato, como defendeu Ricardo Lewandowisk e até o decano Celso de Melo sob a justificativa de nulidade processual.

sede STF

O ministro  Gilmar Mendes, por sua vez, divagou beligerância incontida e mergulhada num ódio inacreditável contra o ex-juiz Sérgio Moro, a quem indiretamente chamou de torturador. O mais estúpido nessa relação unilateral de Gilmar com Moro é que não foi o juiz que acabou flagrado numa ligação telefônica com algum corrupto. Quem caiu nessa foi Gilmar, que chegou a dizer que tentaria interceder junto a outro ministro, Dias Toffoli, para aliviar a barra do ex-governador do Mato Grosso, Sinval Barbosa. Não adiantou nada a interferência de Gilmar. Sinval terminou preso, condenado a mais de 13 anos de cadeia por corrupção.

O Supremo é presidido atualmente por aquilo que mais se aproxima de um mero piadista. Ontem, mais uma vez, e do alto de todo o seu farto conhecimento do direito – que apesar de imenso não foi suficiente para ele ser aprovado em concurso para juiz – afirmou que não haveria combate à corrupção no Brasil se não fosse o STF. A verdade muito além da piada é que sem a operação Lava Jato jamais se escancararia as entranhas do sistema sofisticado de corrupção que esmaga os brasileiros há dezenas e dezenas de anos.

A Lava Jato está, sim, sob severo ataque, e pode vir a sucumbir, mas não por erros de procedimento ou excessos que possam ter sido praticados. A Lava Jato está sendo destruída pelos seus acertos, e parte da resiliência da corrupção emana de alguns ministros do próprio Supremo.

Marco Aurélio Mello, com seus votos sempre didáticos – e muitas vezes irritantes aos olhos do público leigo – foi visceral com as palavras ao defender a Lava Jato, dando à operação o devido reconhecimento no maior combate à corrupção da história do país.

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Diário íntimo… O presente de grego dos comemores de lagostas e bebedores de vinhos premiados aos velhos aposentados

Lá vou eu em mais um “Diário íntimo de um velho repórter”…

Semana de comemoração dos idosos. E eis que aquela turminha de comemores de lagostas e bebedores de vinhos premiados concede um presente de grego aos velhos e velhas aposentados do Brasil. Na semana passada, em meio ao tiroteio bagunçado sobre o episódio Janot-Gilmar Mendes, eis que suas excelências confirmaram que os aposentados e aposentadas que seguirem trabalhando – seja porque precisam complementar a renda, seja por se sentirem em condições de atividade – devem pagar INSS. A decisão veio no bojo de uma explicação exdrúxula: trata-se de um engajamento em nome da solidariedade com o sistema.

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Faria algum sentido se essa continuidade após a aposentadoria gerasse algum benefício para o contribuinte. O problema é que não gera nada. Então, não é uma contribuição, mas um imposto. Nesse caso, o imposto da solidariedade.

Como são as coisas… Os togados ganham quase 40 mil pratas por mês, se aposentam com salário integral – e portanto não precisam trabalhar para compor renda -, enquanto na ativa gostam de lagostas e vinhos importados e… falam em solidariedade dos aposentados das merrecas.

Para os bacanas togados, que usam carros pagos pela população, com gasolina idem e motoristas também, até lagostas e vinhos tem seus custos espetados nos impostos de todos. Impostos como esse aí, o da solidariedade, conforme decisão das excelências excelentíssimas. Aliás, aposentados que também pagam imposto de renda quando recebem alguma coisa além do piso jamais reajustado devidamente do Imposto de Renda. Os mesmos aposentados que, quando não tem condições de comprar diretamente, buscam remédios que muitas vezes não existem nas farmácias dos postos de saúde.

 

 

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Decisão do Supremo sobre sentenças na Lava Jato: “o mecanismo” em ação

A operação Lava Jato está sob ameaça? Sim, está. Enquanto a força tarefa flagou doleiros, diretores de estatais e empreiteiros, Brasília se mostrou atenta aos movimentos nas ruas. Como a operação evoluiu e chegou aos corredores do poder nacional e gerou filhotes nos Estados, batendo inclusive às portas das cortes superiores, a coisa mudou de figura. Jamais a frase, captada durante conversa entre corruptos do alto escalão brasiliense, “é preciso estancar a sangria”, foi tão premonitória. “O mecanismo” está em ação com o objetivo de moer a operação Lava Jato.

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Inúmeras ações contra as investigações capitaneadas inicialmente pela força tarefa de Curitiba, mas que hoje estão em andamento em inúmeros Estados do país, foram desfechadas para “estancar a sangria”. Até hackers foram contratados, conforme suspeita a polícia federal, para invadir celulares de procuradores e juízes. Agora, no Supremo Tribunal Federal, mais um passo é dado. Conforme entendimento da maioria dos ministros, réus delatores devem apresentar suas argumentações de defesa antes dos réus delatados. Essa norma é novíssima, e terá reflexos – se imensos ou não é uma outra história a se conferir em breve: dezenas de condenações em 1ª instância relacionadas com os crimes de corrupção apurados e julgados pela Lava Jato, retornam para novo julgamento, invertendo-se, portanto, a ordem de argumentação final dos réus.

O argumento principal que sedimentou a decisão majoritária do Supremo é de que o réu delatado deve se manifestar por último e não ao mesmo tempo que os réus delatores. É óbvio que isso faz algum sentido, mas não completamente. A acusação ao réu delatado não é acrescentada na argumentação final de um réu delator. Isso ocorre durante o processo. A peça de acusação é do Ministério Público. É isso que um juiz pode levar em conta ao formular uma sentença. As argumentações finais de delatados e delatores tem como único propósito a defesa dos réus contra a acusação do Ministério Público. Se um réu delator acrescentar uma acusação/delação nova contra o réu delatado ela não poderá ser levada em conta pelo juiz.

Se a decisão da maioria do Supremo causa arrepios nos defensores da operação Lava Jato, some-se a ela as demais ações que colocaram o tal “mecanismo” em movimento para “estancar a sangria”. A aprovação da lei de abuso da autoridade e a derrubada de 18 vetos pelo Congresso Nacional não é café fora desse bule. E a resistência ao pacote anticrime e anticorrupção também no Congresso estão na receita. Como tempero, há ainda a ação contra o antigo Coaf e o afastamento de funcionários da Receita Federal, que investigavam as contas de esposas de magistrados.

O “mecanismo” está em ação.

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Conexão: Se há tantos indicativos excelentes, por que a economia não está bombando?

No final da semana, mais um dado consolidado do panorama econômico do Brasil revelou que o quadro geral é extremamente positivo. O risco Brasil, índice internacional que avalia o grau de risco de o país deixar de pagar suas contas, chegou a bater em 116 pontos – o que seria um recorde histórico desde a década de 1990 – e fechou em 123 pontos, melhor desempenho desde 2013.

Isso se soma a outros fatores absolutamente palpáveis, como a mais baixa taxa de juros da história do país, 5,5%, o que coloca o país, pela primeira vez, frise-se, entre as economias civilizadas.

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No mercado investidor mundial já há uma certa unanimidade em torno de elevação da nota do país na classificação de investimentos. Desde a depressão, iniciada com zero de crescimento em 2014 e quedas que somaram mais de 7% nos dois anos seguintes, a nota do Brasil conferida pelas três principais agências de avaliação colocaram o país com classificação C. Ou seja, a economia brasileira perdeu o status de investimento seguro e caiu para investimento com algum grau de risco. A sensação que se observa levando-se em conta o risco Brasil da última semana, é que a letra C deve voltar a subir para a B, a curto ou médio prazo.

Muitos outros “sintomas” mostram que a economia do país tem apresentado significativas melhoras. A reforma da previdência social, tão traumática em inúmeros países, está na boca para ser aprovada no Senado, e promulgada ainda este ano. Não será a redenção da lavoura, mas um bom conjunto para compor todo o quadro econômico futuro. Também a reforma fiscal, que inicialmente será somente um conjunto desburocratizante com a junção de vários tributos em um só, também está caminhando, embora ainda lentamente. No dia a dia, que é o que mais importa nas ruas, setores da construção civil – que impactam empregos e produção de riquezas imediatamente – deram sinais de que voltaram a respirar após o sufocante período recessivo. A mesma coisa tem se observado nos serviços, também grande gerador de empregos.

Tudo somando, é inegável que a estruturação econômica é muito favorável. Com números como os apresentados, qualquer país do mundo estaria passando por uma explosão bem alicerçada de crescimento acima de 3 ou 4 pontos percentuais. Então, por que as taxas deste ano e do ano que vem, entre 0,8 e 1% e 1,5% e 2% respectivamente, são tão pequenas? Por que o país continua com os pneus no atoleiro, avançando tão lentamente?

Se não há explicação lógica nas contas da economia, então deve-se olhar atentamente para a condução política. Esse é o problema, sem nenhuma dúvida.

Em seu imperdível comentário diário pela BandNews-FM ( em Goiânia, 90,7 no dial), Eduardo Oinegue, ao meio-dia, avançou sobre o problema político que segura os investimentos. Ele citou como exemplo uma explicação que ouviu de um grande empresário a respeito desse “adiamento” indefinido. “Como é que eu vou investir se eu não sei nem qual a tarifa de impostos terei que pagar no ano que vem?”. Bingo! A prudência se faz necessária.

O próprio presidente Jair Bolsonaro é um manancial de incertezas. Se ele acorda com a “pá virada” é quase sempre um deus-nos-acuda geral. A confusão internacional com as queimadas na Amazônia é um grande exemplo disso. Ele desacatou o chanceler francês ao desmarcar na última hora uma audiência oficial alegando compromissos. Logo depois, apareceu cortando o cabelo. Emmanuel Macron, às voltas com sérios problemas internos, pagou com a mesma moeda. Bolsonaro ainda assim poderia ter driblado o presidente francês se não tivesse amanhecido num daqueles dias. Tentou resolver com tapas e pescoções. Deu no que deu diante do mundo todo. Nem o aliado e destrambelhado Donald Trump conseguiu aliviar a barra do Bolsonaro.

É claro que seus eleitores, menos racionais e mais militantes, adoram os rompantes de Bolsonaro. Mas os investidores não gostam nem um pouquinho só dessas incertezas. Eles sabem, por exemplo, que Bolsonaro quer esmagar qualquer indício de militância pró-PT e demais partidos de sua órbita política dentro da administração pública. OK, isso é compreensível. O que os investidores não sabem, e precisam saber, é o que se quer construir. Nem em relação ao presidente Bolsonaro e nem sobre o Congresso Nacional.

E o Brasil precisa de definições claras e duradouras rapidamente. O mundo está ensaiando uma nova crise, que não deve nem lembrar a  quebradeira geral que se seguiu à explosão da bolha imobiliária nos Estados Unidos, em 2008, mas que ainda assim causará estragos. Se não se definir antes da crise bater mais forte, a economia brasileira não terá chance alguma depois que ela chegar.

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Ex de Dilma e atual de Bolsonaro, senador Fernando Bezerra é alvo de operação da Federal

Na pauta dos costumes, o presidente Jair Bolsonaro é radicalmente contra as práticas dos petistas que governaram o Brasil desde 2003. Aliás, essa é a única pauta que realmente tem sido desenvolvida no governo. Nesta quinta-feira, operação da polícia federal deixa exposto que politicamente as coisas continuam exatamente como dantes. O ex-ministro de Dilma Roussef e senador Fernando Bezerra tem seus endereços vasculhados em investigação sobre propina recebida por ele e seu grupamento político nas obras de transposição do rio São Francisco. Bezerra é o atual líder do governo Bolsonaro no Senado.

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Num sentido mais amplo em seu antagonismo com os governos petistas, Bolsonaro é um oceano de incoerências. Ele trava sérias batalhas com temas como identidade de gênero, mas releva questões centrais da moralidade pública. Exemplos, e para citar apenas alguns, pulam aos montes: indicar o próprio filho para a principal embaixada do país, em Washington, ou ao dar apoio à decisão de Dias Toffoli de paralisar investigações policiais iniciadas a partir de alarme do Coaf, e com isso beneficiar diretamente outro filho, o senador Flávio Bolsonaro, principal envolvido nas denúncias contra Fabrício Queiroz.

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Diário íntimo de um velho repórter… Enquanto as tribos se odeiam, cúpulas conquistadoras copulam sobre o patrimônio de todos

Tente apenas observar. Não retruque, somente leia. Não lance uma dúvida, só acompanhe as “certezas” mesmo quando elas se antagonizam. É assim o tempo todo nas redes sociais. No Twitter é bem mais que no Facebook, mas no 2º há ainda mais profundidade nos ataques, na agressividade muitas das vezes chula.

dinheiros

Não, não é só nos temas políticos. É em “tudo quanto é assunto”. Até nas mentiras, que viraram modinha de nome pomposamente americanizado, fake news. As vacinas, por exemplo. Até as vacinas… Maravilhas da alquimia produzida na extraordinária capacidade humana de testar, observar e aprender, resultado de séculos de lento caminhar da ciência, agora são… vilãs. E, por mais estúpido que seja, há seguidores desses modernos profetas “Jim Jones”… Despreza-se o conhecimento e dá-se realismo à ficção.

Tudo por um clique? Provavelmente deve ser bem mais do que isso. O que antes se entendia como comportamento de certa forma adequado a adolescentes em suas “tribos sociais” adentrou o mundo adulto. Uma boa parcela protagonizar de alguma forma, e na falta de conhecimento suficiente cria-se uma mentira.

Confesso que está sendo muito chato envelhecer em um tempo como esse. Faz parte, mas que é chato, é.

É chato perceber que são tempos em que o barulho é mais importante e profundo do que a sinfonia, do que a harmonia.

Entre nós, particularmente, quase sempre escuta-se o poder apodrecido moralmente vociferar contra os que se esforçam para melhorar o ambiente, inclusive o político. E o que está se escutando é a degradação cada vez mais acentuada. Seja de um promotor de Justiça que diz receber um miserê cerca de 25 vezes maior que um salário mínimo, mas que feitas as contas embolsou 85 mil reais mensalmente nos últimos 4 anos, seja de ministros de um Supremo que não se pode investigar porque imagina-se que levantado o tapete a fedentina entorpecerá a todos.

Tempos degradados. Moralmente degradados. Desde as escolas com seus professores e professoras esmurrados e algumas vezes assassinados por alunos e alunas que nada querem aprender além da aborrescência da adolescência, até os bacanas que se formaram formidáveis patrimonialmente diante de milhares de pessoas assassinadas nos hospitais sucateados pela ganância e roubo do dinheiro que deveria sustentá-los.

No conjunto, não há nada que mereça ser salvo. Judiciário, legislativo e executivo não nos servem sequer como lata de lixo. Ao contrário, são o próprio lixo da deformação moral de um todo. O que escapa são honrosas excessões. Individualmente, há nobreza em poucos que ocupam os cargos mais elevados da hierarquia pública.

E tudo isso se reflete feito imagem no espelho nas redes sociais. Despreza-se o debate de ideias e se escancara o desacato, a grosseria como esteio da argumentação contra pensamentos não exatamente alinhados com a tribo social/política ao qual se pertence. “Nós e eles” em uma releitura de uma idiotice medieval da maquiavelice que governa a todos. E enquanto as tribos estridentes se agridem, se xingam e se odeiam, as cúpulas conquistadoras de inúmeras matizes copulam sobre o patrimônio de todos.

Tempos chatos.