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Análises e comentários sobre os principais fatos de Goiás e do Brasil

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PMDB: Guerra declarada

Maguito Vilela (esquerda) não gostou quando Ronaldo Caiado (direita) estabeleceu critérios que claramente prejudicam Daniel Vilela como pré-candidato Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Logo de cara vale lembrar que uma das características históricas mais marcantes do PMDB de Goiás é a disputa interna. Algumas ve­zes, na base do empurra-empurra político de ocupação de espaços. Noutras, guerra aberta, declarada e sem limites até a queda de um dos lados envolvidos. Sempre foi assim, reafirma-se aqui. Desde a década de 1980, quando o PMDB atingiu o apogeu, e se estende até os dias atuais.

E foram inúmeras as disputas. Mauro Borges contra Iris Rezende, logo na primeira metade da década de 1980. Iris Rezende contra Henri­que Santillo na segunda metade da mesma década. Iris Rezende contra Nion Albernaz nos anos seguintes e o golpe final que marcou o fim da hegemonia peemedebista no Estado, entre Iris Rezende e Maguito Vilela, no final dos anos 1990.

Diante da derrota surpreendente de 1998, quando o jovem deputado federal santillista Marconi Perillo, contra todos os prognósticos, derrubou o mito da invencibilidade de Iris Rezende nas urnas estaduais, deveria selar definitivamente a paz e a harmonia interna que desaguassem numa união total e indissolúvel. Por fora, foi exatamente o que aconteceu. Nos bastidores, o pau continuou cantando de todos os lados, especialmente com os iristas insistindo que a derrota em 1998 ocorreu por falta de empenho daquele que, no momento, era a sua grande estrela eleitoral, Maguito Vilela, eleito para um confortável mandato de senador com um pé nas costas.

A consequência imediata desse desentendimento estrutural entre maguitistas e iristas veio na sequência, nas eleições de 2002. Exatamente um ano antes da eleição, em outubro de 2001, pesquisas mostravam um quadro altamente favorável a Maguito Vilela, que ainda surfava nas últimas espumas da onda de sua popularidade. Ele tinha praticamente 17 pontos de vantagem contra o governador Marconi Perillo. De quebra, Iris Rezende liderava a corrida para renovar seu mandato de senador, que vencia naquele ano. Na segunda posição aparecia a deputada federal Lúcia Vânia, seguida pelo colega de chapa de Iris, o também senador em fim de mandato Mauro Miranda.

Enquanto Marconi Perillo passou o ano da eleição em disparada pelo Es­tado todo, arrumando espaços dentro da base para conciliar tantos e tão difusos interesses pessoais e partidários, o PMDB deixou aflorar o tamanho exato de suas diferenças internas. As campanhas de Maguito para o governo e Iris/Mauro para o Senado foram colocadas em raias separadas, sem formar o coeso grupo da chapa majoritária. Pra se ter uma ideia, até nas cores de identificação das candidaturas houve divergência. Marconi, como se sabe, faturou a eleição logo no primeiro turno, e a chapa para o Senado, com Lúcia Vânia e o estreante Demóstenes Torres igualmente saiu-se vencedora. O PMDB perdeu naquela eleição a barba, o cabelo e o bigode.

Em 2006, Iris Rezende estava no comando da Prefeitura de Goiânia, após ter sido eleito em 2004 contra a tentativa de reeleição de Pedro Wilson, do PT. Marconi, reeleito em 2002, estava impedido de disputar mais uma vez o governo e foi para a eleição tranquila de senador. O caminho estava mais uma vez franqueado para a vitória do PMDB, com a candidatura de Maguito Vilela, que largou com enorme vantagem sobre Alcides Rodrigues, vice de Marconi e candidato à reeleição. Era outra oportunidade sem igual para o PMDB retornar ao comando do principal cenário político do Estado.

O que aconteceu foi mais uma etapa da guerra interna. No comando da maior prefeitura do Estado, Goiânia, com liderança sobre cerca de 21% do eleitorado de Goiás, Iris Rezende era apontado como principal cabo eleitoral do PMDB. Foi mesmo um ótimo esteio, mas apenas para a candidatura dos iristas, especialmente dona Iris, campeã de votos como candidata a deputada federal. Quanto à candidatura de Maguito ao governo, necas de empenho total. No final, em uma virada espetacular, Alcides saiu do quase anonimato para a vitória no primeiro turno e confirmação no segundo turno.

Em 2010, nessas voltas que o mundo dá inclusive nas disputas políticas, Iris deixou a Prefeitura de Goiânia após ter sido reeleito em 2008. Em Aparecida de Goiânia, segundo maior colégio eleitoral do Estado, quem dava as cartas na prefeitura era Maguito Vilela, eleito em 2008. Os iristas dizem que Maguito só se empenhou mesmo na candidatura de seu filho Daniel, que foi eleito deputado federal. Um quadro, obedecidas as proporções, bastante parecido com o que havia acontecido quatro anos antes, com Iris e dona Iris.

Marconi, traído politicamente por Alcides, enfrentou naquela eleição todas as máquinas administrativas, a federal, nas mãos de Lula em estado de graça com o eleitorado, a estadual, com o antigo aliado, e a municipal, com Paulo Garcia, PT, herdeiro como vice eleito em 2008 juntamente com Iris. Marconi sofreu barbaramente, mas conseguiu vencer todos eles somados, inaugurado assim uma nova temporada da base aliada no Palácio das Esmeraldas.

Esse mesmo quadro se repetiu em 2014, quando da reeleição de Marconi. Iris repetiu a dose e buscou mais uma vez a vitória para governador. Maguito permanecia no comando de Aparecida de Goiânia, reeleito em 2012. No PMDB, pelas mãos dos maguitistas e com aval do comando nacional do partido, via Michel Temer, Júnior Friboi travou guerra total para impedir a candidatura de Iris e ele próprio disputar o governo. Não foi uma disputa qualquer, e as feridas do PMDB ficaram definitivamente expostas de forma peremptória. Os maguitistas declararam apoio a Friboi abertamente, aceitando o confronto com os iristas em praça pública. O resultado foi que Iris ganhou internamente, mas conduziu seu PMDB para uma derrota que incluiu também a reeleição de dona Iris para a Câmara dos Deputados.

Na base aliada estadual, Marconi comemorou a vitória majoritária dos candidatos do PSDB e aliados na Câmara dos Deputados e a mais avassaladora maioria na Assembleia Legislativa. Apenas o deputado federal Ronaldo Caiado, recém-aliado de Iris, sobreviveu na disputa para o Senado.

A consequência da vitória de Caiado com apoio dos iristas em 2014 dá as caras na guerra entre maguitistas e iristas agora em 2018. Uma disputa que acaba de se tornar pública e explícita após um pronunciamento de Caiado durante as comemorações do aniversário de Rio Verde, cidade comandada por um dos três prefeitos que formam um tripé politicamente importante no atual PMDB: o rioverdense Paulo do Valle, o catalano Adib Elias e o prefeito de Formosa, Ernesto Roller.

Ao garantir que ficará sempre ao lado do PMDB, desmentindo assim qualquer possibilidade de vir a disputar o governo do Estado no ano que vem em voo solo, Caiado acabou atiçando os ânimos, sempre a flor da pele, dos maguitistas. O democrata pregou que o candidato a ser ungido por todos será aquele que reunir “as melhores condições” de vencer as eleições. Os maguitistas entenderam na frase que o parâmetro dessa sugestão é a pesquisa pré-eleitoral, e reagiram. O próprio Maguito abandonou momentaneamente a diplomacia e atacou diretamente, dizendo que ele próprio já liderou pesquisas antes, assim como Caiado, e perdeu a eleição depois.

Esse posicionamento chamou mais a atenção de todos, mas outro momento do discurso de Ronaldo Caiado foi muito mal recebido pelos que preferem a candidatura de Daniel Vilela. Foi quando Caiado, ao se referir ao seu rival interno, chamou-o de “este jovem”. Para os maguitistas, o termo não foi genérico, e teve objetivo prático. O tal jovem, afinal de contas, lembram os maguitistas, é o presidente do PMDB de Goiás.

A reação de Maguito mostra que a estratégia dos maguitistas ganhou contornos mais agressivos. Caiado não é um adversário fácil de ser vencido. A grande prova disso é que mesmo sendo do DEM ele consegue rivalizar com Daniel Vilela dentro do PMDB. O que virá de agora em diante fica para o futuro responder, mas é pouco provável, pelo menos neste momento, acreditar que os ânimos vão ser completamente serenados até se transformarem em unidade ampla, total e absoluta. A guerra está declarada.

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Iris 2018: Incertezas dominam cenário oposicionista

O que parecia perfeito para a oposição em 2018 começa a se transformar em pesadelo. A reação administrativa do governo embaralha o destino de candidaturas ao governo entre os opositores. Pode sobrar para Iris Rezende?

Iris Rezende deixaria a prefeitura com pouco mais de um ano para disputar o governo estadual em 2018? | Foto: Fernando Leite

Na fase de ajustes em 2015 e 2016, as principais lideranças da oposição em Goiás, principalmente no maior partido, o PMDB, disputaram poder interno palmo a palmo visando reforçar o posicionamento de seus candidatos potenciais. O irismo apostou no senador Ronaldo Caiado, e chegou a sonhar com a possibilidade de ele abandonar o DEM e ingressar no PMDB, o que respaldaria ainda mais a sua indicação pelos caciques do grupo. O maguitismo jogou as fichas que dispunha numa candidatura do deputado federal e presidente regional do partido, Daniel Vilela. E a fome era imensa porque o governo estadual atravessava o duríssimo período de rearranjo da estrutura da máquina administrativa, atingida pelo tsunami da pior recessão da economia brasileira de toda a história.

O clima mudou. Com os ajustes fiscais e financeiros, o governo voltou à condição de principal protagonista do investimento do Estado, e o programa Goiás na Frente, que prevê aplicação direta de recursos acima de 6 bilhões de reais até o final de 2018, se tornou uma grande vitrine. Além disso, no campo político propriamente dito, a base aliada evitou turbulências futuras ao definir imediatamente a natural candidatura do vice-governador José Eliton, que estará no exercício pleno do governo durante o processo eleitoral como candidato à reeleição. Essa escolha, anunciada pelo governador Marconi Perillo, ocorreu no momento certo. Já havia aliados sassaricando em torno da possibilidade de se lançarem candidatos à sucessão. O nome de José Eliton, respaldado por Marconi desde já, provocou mudanças nos planos dos pretendentes, e pacificou pelo menos a cabeça de chapa.

Tudo somado, o cenário imaginado pela oposição para 2018 se alterou completamente. Nem o senador Ronaldo Caiado nem o deputado Daniel Vilela vivem mais aquela certeza interna que tinham quanto à facilidade de enfrentar a eleição do ano que vem. Eles sabem que a chapa governista irá com força máxima para a disputa, e isso significa que a maior e melhor azeitada máquina eleitoral entrará na guerra pelos votos com ótimo posicionamento.

Com cenário incerto para os opositores, que perderam dois anos numa disputa à beira da fogueira de vaidades em vez de discutir propostas alternativas de governo, o PMDB começa a perceber que existem dois veteranos que podem entrar no processo eleitoral do ano que vem exatamente por terem um recall bem maior que os demais: Iris Rezende e Maguito Vilela. O problema de Maguito é exatamente seu filho Daniel. Se sai um e entra o outro como candidato, ficará a impressão que a família faz qualquer coisa para alcançar o poder.

Mas, afinal, Iris Rezende será mais uma vez candidato a governador e, para isso, abandonará de no­vo mandato de prefeito de Goiânia? Inicialmente, não. Essa tal­vez seja a candidatura mais complicada para o PMDB no ano que vem. E essa complicação começa em casa. Dona Iris Araújo não cabe no tradicional traje a rigor de primeira-dama. Ela se sente muito mais a vontade com o uniforme de combatente eleitoral. O sonho imediato dela é exatamente voltar a ser deputada federal. Em 2014, a dupla Iris-Iris acabou perdendo as eleições nas duas pontas: para o governo e para a Câmara dos Deputados. Embora cada eleição reúna uma porção de fatores inéditos que se entrelaçam para se formar um quadro de definição, é certo que fazer a mesma coisa em 2018 pode ter o mesmo resultado negativo. Em outras palavras, entrar na disputa com a dupla
Iris governador/Iris deputada é dar muita sopa pro azar. Ou é um, ou é outra.

Apesar de tanta encrenca à vista, ainda assim há peemedebista sonhando com a possibilidade de Iris Rezende refazer seus projetos pessoais e se lançar candidato a governador. No entendimento desse grupo, em 2018 será a melhor chance de Iris finalmente conseguir retornar ao Palácio das Esmeraldas. Pode ser, mas talvez o que motive esses peemedebistas seja a falta de ânimo em torno de Daniel ou de Ronaldo. O PMDB chega à véspera do ano eleitoral sem candidato. Isso é inédito.

Para matar logo qualquer possibilidade de a bola ir parar em seus pés, o prefeito Iris Rezende teria que se posicionar imediatamente de maneira convincente de que não deixará a Prefeitura de Goiânia em abril do ano que vem, e reafirmar seu compromisso de concluir seu mandato no tempo certo. De outra forma, do jeito que as coisas estão indo, e na falta de rumos que se apresenta, a candidatura do PMDB ao governo pode, sim, sobrar para Iris. Difícil? Sim, muito difícil, mas impossível não existe no dicionário político.

Na foto Iris RezendeCrédito: Renan Accioly

Baixo Astral: Tristeza castiga governo Iris

Além de não conseguir debelar a crise econômico-financeira da prefeitura, a atual administração da capital tem enredo triste, sem ânimo e ritmo lento

É visível o descontentamento geral da população com o atual desempenho da administração da Prefeitura de Goiânia. Em análise rápida, talvez boa parte dessa frustração seja resultante da enorme esperança que Iris plantou durante a campanha eleitoral, ainda bastante fresca na cabeça de todos. Ele dizia que conseguiria quebrar a negatividade que havia abatido o governo de Paulo Garcia (PT) logo nos primeiros dias após a posse. Chegou a dizer também que iria se aposentar, mas que tinha resolvido se candidatar mais uma vez porque a crise precisava ser debelada rapidamente. O eleitor da capital, que majoritariamente gosta do jeitão do prefeito, confiou mais uma vez no discurso à la Sassá Mutema, de salvador da pátria goianiense, e lhe entregou o trono do Palácio do Cerrado Venerando de Freitas.

Na foto Iris Rezende Crédito: Renan Accioly

O buraco imaginado por Iris Rezende ao fazer tantas previsões otimistas na campanha, principalmente quanto à instantaneidade das soluções, é muito maior. A questão não estava na condução administrativa de Paulo Garcia, mas num enorme leque de questões. Além disso, a recessão econômica impede soluções tradicionais que ele sempre adotou nas vezes anteriores em que assumiu mandatos, o aumento de impostos. Como cobrar mais alguma coisa de um povo que não está conseguindo pagar o que já é cobrado?

Vieram então as promessas pós-posse de solução ao longo dos meses. Em janeiro, após perceber que não havia dinheiro pra quase nada, deu a ele mesmo prazo de que no final de fevereiro a casa estaria em ordem. Em março, adiou para abril. Em maio, reformulou para junho. Julho está no fim e nem se fala mais em prazo algum. É mesmo o mais prudente — e inteligente a ser feito.

A prefeitura tenta vender imagem positiva, mas não consegue enganar a ela própria. Os governos de Iris Rezende sempre venderam otimismo, mas o atual não consegue se desgarrar do pessimismo. Iris não tem 100% de apoio nem dentro do PMDB. No início do mandato ele teve inclusive que debelar crise entre vereadores do seu partido. A bancada estadual peemedebista na Assembleia Legislativa também não dá a menor “pelota” para o desempenho do prefeito e para as dificuldades da administração. Em determinados momentos, a impressão que se tem é que Iris está sozinho, cercado de gente aliada que está muito mais preocupada com a eleição do ano que vem.

Esse isolamento reflete no ambiente administrativo ma­cam­búzio. Enquanto líder carismático que sempre foi, Iris precisa recuperar o seu otimismo e, assim, contagiar o restante de sua equipe. Com exceção de pouquíssimos amigos, como o secretário Paulo Ortegal, ele talvez tenha recebido mais apoio do governador Marconi Perillo do que de seu partido e demais aliados. O próprio PSDB na Câmara Municipal, embora na oposição, tem amenizado bastante em todos os posicionamentos críticos.

O inferno astral do prefeito neste mandato é, com o devido perdão pelo emprego dessa surrada frase, um ponto fora da curva. Esse que aí está, abatido por perceber que a enrascada administrativa da Prefeitura de Goiânia é muitas vezes pior do que ele e todos os demais imaginavam, não é o Iris de sempre. Ele passa a impressão, certamente falsa, de estar profundamente cansado e desanimado. Frustrado sem dúvida ele está, mesmo que não admita.

E não há outra forma de escapar do momento atual se ele não conseguir se recuperar nesse aspecto. Para corrigir os gravíssimos problemas estruturais e conjunturais vividos pela Prefeitura de Goiânia, Iris precisa muito voltar a apostar no otimismo, na articulação política e de resultados. Na mesma linha adotada pelo governador Marconi Perillo, que aliás se prontificou a ajudar no que for possível — apesar dessa iniciativa nem sempre ser bem vista por seus aliados. Uma ajuda, por sinal, que a maioria dos peemedebistas e demais aliados jamais ofereceu.

É claro que otimismo só não paga a conta, mas lamentar as dificuldades diante do espeto igualmente não livra das brasas. E o tempo conta bastante contra Iris. Dezembro está logo ali na esquina, e clima de eleição sempre provoca incêndios. Iris ficará então ainda mais sozinho, e corre o sério risco de viver o pior e mais inimaginável constrangimento: ser evitado por candidatos do seu próprio arco de alianças. Mais ou menos como ocorreu com Paulo Garcia no ano passado

 

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Marconi e Iris: Republicanos

Governador Marconi Perillo e prefeito Iris Rezende: parceria em prol de benefícios para a população| Foto: Léo Iran

O primeiro domina a cena política estadual desde a década de 1960, quando foi eleito prefeito da capital pela primeira vez. O segundo explodiu em nível estadual ao se eleger governador em 1998. Ambos começaram em patamares mais baixos. O primeiro foi ve­reador e deputado estadual antes de chegar à prefeitura. O segundo foi de­putado estadual e deputado federal.

Quis o destino que ambos se encontrassem em campos opostos na histórica eleição de 1998. O primeiro, Iris Rezende, foi derrotado pelo segundo, Marconi Perillo, na mais fantástica virada eleitoral de toda a história de Goiás. Jamais um candidato tão favorito quanto Iris perdeu daquela forma. Desde então, aquela derrota inicial deu início ao formato atual da política no Estado, sob as lideranças de Iris e Marconi. Ao ponto de a disputa entre adversários políticos por vezes ter praticamente descambado para inimizade pessoal não apenas entre eles, mas também dentro dos respectivos grupamentos.

Na semana passada, os goianos não foram surpreendidos pelo encontro oficial do prefeito de Goiânia com o governador de Goiás. Surpresa foi no início do ano, quando aconteceu o primeiro encontro entre eles. Uma grande surpresa após quase 20 anos de intensa rivalidade política e administrativa. Vá lá que essa aproximação começou ainda no ano passado, quando Iris dizia se manter disposto a “pendurar as chuteiras” e abandonar assim uma vida dedicada à política. Encontro entre pessoas muito próximas de ambos, e depois com participação do próprio Marconi, racharam o iceberg existente entre os dois líderes. Marconi se declarou, inclusive, disposto a apoiar uma nova eleição de Iris para a Prefeitura de Goiânia.

Não deu certo, obviamente. Majoritariamente, os militantes dos dois grupamentos não estavam preparados psicologicamente para uma distensão nesse nível. Ainda agora é possível encontrar bolsões isolados de um lado e do outro que não conseguem encerrar a “guerra fria” que se estabeleceu em 1998 e levantou um muro de Berlim entre os dois grupos. Mas, a persistência de ambos pôs fim à guerra e o muro caiu. Há, sim, convivência pacífica política e administrativamente entre Iris Rezende e Marconi Perillo. E isso não significa que um lado ou o outro capitulou. Não houve rendição. O que aconteceu é que o império do mal querer entre eles deu lugar aos ares republicanos da soma em prol de resultados. Isso, tudo é, sim, fazer acordo político-administrativo, muito embora se mantenha o antagonismo eleitoral.

Essa delimitação nem sempre é compreendida totalmente mesmo por setores políticos. Alguns bolsões peemedebistas que ainda vivem a “guerra fria”, não aceitam que houve um acordo político-administrativo entre Marconi e Iris. Dizem que o entendimento é somente no campo administrativo. Não é, a não ser que se entenda a política somente como uma disputa eleitoral.

Em janeiro de 2011, quando o então prefeito Maguito Vilela, de Aparecida de Goiânia, foi ao Palácio das Esmeraldas cumprimentar Marconi Perillo pela vitória nas eleições de 2010, seu gesto foi apontado como mera formalidade entre dois governantes, com base principalmente na máxima de que governo não faz oposição a outro governo. Ou não faz ou pelo menos não deve fazer. Mas como não reconhecer a circunstância política daquele encontro? E nem por isso pode-se dizer que Marconi e Maguito não são, ainda hoje, antagonistas nas disputas eleitorais. Vide Daniel Vilela, filho de Maguito, que é hoje um dos nomes badalados da oposição para a eleição de 2019.

Então, o que se tem hoje é exatamente o grande acordo político-administrativo entre Marconi e Iris, e isso é republicano. Uma aula de ambos para seus liderados de como as coisas devem ser em uma democracia. E o resultado que se espera é que os dois possam, o mais breve possível, entregar benefícios para a população de Goiânia resultantes dessa soma republicana de trabalho. Assim como em quase todas as 246 cidades do Estado de Goiás — apenas três prefeituras ainda não assinaram convênio dentro do programa do governo estadual Goiás na Frente. Tomara que assinem e igualmente possam levar benefícios estaduais para suas populações.

MARCONI ELITON

Goiás 2018: Governo põe o pé na estrada, oposição se perde no caminho

Por mais boa vontade que alguns opositores têm apresentado na proposta de ampliação dos debates internos sobre propostas de governo, a maioria permanece atrelada à fulanização do processo, principalmente entre Daniel Vilela, deputado federal e presidente regional do PMDB, e Ronaldo Caiado, senador e presidente do DEM em Goiás. No outro lado da trincheira, os governistas percorrem o Estado todo levando na bagagem benefícios para todas as cidades do interior, inclusive onde os prefeitos integram partidos de oposição, com o Programa Goiás na Frente, que prevê a aplicação de mais de 6 bilhões de reais de agora até o final de 2018.

É óbvio que politicamente a fulanização de processos internos de escolha de candidaturas faz parte do jogo. O problema está no tempo em que isso está se dando entre os oposicionistas. Normalmente, essa fase se inicia no final do ano anterior à eleição, até se consolidar nas proximidades do calendário das convenções partidárias. Os opositores estão em guerra de nervos entre apoiadores de Daniel Vilela e de Ronaldo Caiado há um ano, e o processo não anda, evidentemente.

Já os governistas surfam numa onda altamente favorável. E conseguem espalhar esse bom astral com as prefeituras, o que acaba se transformando em positivismo ampliado e com grande repercussão. E o programa tem colhido resultados tão impactantes graças à relação republicana com todos os prefeitos, sem distinção. Isso de certa forma impede, por exemplo, que as lideranças estaduais da oposição ataquem com a velha temática da atividade meramente eleitoreira. Como argumentar que o Programa Goiás na Frente é eleitoreiro se também lideranças oposicionistas municipais estão dele se beneficiando?

MARCONI ELITON

Também por essa razão, os opositores deveriam iniciar a difícil caminhada dos debates internos a respeito da elaboração de uma proposta alternativa de governo a ser apresentada no ano que vem para o eleitorado goiano. E é uma caminhada complicada porque nunca existe unanimidade nem no formato das ideias administrativas e nem na forma e conteúdo. Caso contrário, se mantendo apenas a disputa em torno de nomes, o risco que existe para qualquer candidato ao governo pela oposição é chegar ao período de maior efervescência eleitoral com discurso superficial e, portanto, sem envergadura suficiente para embasar a proposta de troca de comando do grupo político dirigente de Goiás. Em outras palavras, a oposição corre o risco de apresentar novamente o chamado “mais do mesmo”, atitude que sempre resultou em retumbante fracasso eleitoral desde 2002. Já o governo pode se dar ao luxo de simplesmente aplicar a máxima da continuidade, sem deixar, no entanto, de acrescentar novidades que agradem os ouvidos da população e motive o eleitor.

Há ainda as informações sobre pesquisas de intenção de voto que mostram boa performance do senador Ronaldo Caiado, e participação de José Eliton e Daniel Vilela. Entre os especialistas no tema, esses levantamentos tão distanciados do processo eleitoral, sem a emoção contagiante da disputa, não servem para grande coisa. Quando muito, criam debates no meio político, mas não repercutem muito além das militâncias político-partidárias. Há inúmeros exemplos que comprovam essa tese.

Em 2011, todas as pesquisas indicavam que o então prefeito-herdeiro Paulo Garcia — que foi alçado à condição com a renúncia do titular, Iris Rezende, para disputar o governo do Estado, em 2010 — amargava insignificantes pontos porcentuais. Alguns petistas, inclusive do alto comando, tinham sérias dúvidas se Paulo teria fôlego político-eleitoral para alcançar os adversários e disputar a eleição com boas condições e alguma chance de vitória. Ele nem sequer era conhecido pela maioria da população, diziam as tais pesquisas extemporâneas. Um ano depois, Paulo Garcia não apenas foi reeleito como nadou de braçada ao vencer já no primeiro turno, sem dar qualquer oportunidade de polarização para os adversários.

Com base nisso, é claro que não se pode falar que existe favoritismo deste ou daquela possível candidato ao governo do Estado no ano que vem. O que existe, e é absolutamente real, é potencialidades específicas que podem ou não se transformar em dividendos eleitorais. José Eliton, se a base se mantiver unida, representa um segmento bastante forte, que é o conjunto do governo. O senador Ronaldo Caiado é o mais conhecido e também tem apelo eleitoral. Daniel Vilela integra a renovação dentro do grupo maguitista, e carrega a capilaridade que o PMDB detém em todo o Estado. Qualquer um deles poderá vencer a eleição do ano que vem, mas quem estiver a bordo de barco sem leme e sem vela, sem propostas, dificilmente atingirá o nirvana eleitoral.

Em 1998, campanha de Marconi usou o humor para críticas

Estratégia: Campanha agressiva é sempre arriscada

Em Goiás, desde a redemocratização no início da década de 1980, somente uma eleição foi vencida por candidato agressivo

Bater ou não bater no adversário é sempre uma decisão complicada nas campanhas eleitorais em Goiás. O histórico é amplamente favorável para candidatos que apresentam propostas e entabulam questionamentos político-administrativos contra seus adversários sem partir para a pancadaria verbal. Apenas uma vez na história recente do Estado é que uma duríssima e agressiva campanha eleitoral foi vitoriosa. Em 1982, Iris Rezende venceu Otávio Lage. E só. Depois disso, quem mais agrediu o adversário sempre terminou derrotado.

Em 1998, campanha de Marconi usou o humor para críticas

Em 1998, campanha de Marconi usou o humor para críticas

Em 1986, Mauro Borges, que se tornou inimigo político de Iris Rezende, e fez uma campanha avassaladora contra o então governador. Enquanto isso, seu adversário, Henrique Santillo, que não era absolutamente franco favorito, foi “comendo” pelas beiradas, apresentando propostas e temas de debate. Enquanto Mauro surrava o governo de Iris, a marca de Santillo naquela campanha era o par de botinas que ele usava para caminhar principalmente nos bairros de Goiânia, que era o principal reduto eleitoral de Mauro, e de onde se esperava que ele conseguiria uma vantagem de 200 mil votos. No final, Santillo venceu também na capital por meia dúzia de votos.

Em 1990, o então senador Iram Saraiva, que tinha trocado o PMDB pelo PDT para disputar o governo, iniciou o processo eleitoral dividindo a preferência majoritária do eleitorado com Iris. Iram foi demolidor contra Iris, que sacudia o chicote contra o seu ex-companheiro Henrique Santillo. Por fora, e cantando uma musiquinha-chiclete que dizia que ele estava certo, Paulo Roberto cresceu sem parar. E sem bater também. Ele apresentava propostas e apontava questionamentos absolutamente pertinentes. Foi para o segundo turno, enquanto Iram caiu para a quarta posição, atrás até mesmo de Luiz Antonio, candidato do PT. Paulo Roberto perdeu o turno decisivo, além de outros motivos, porque sua estrutura partidária era muito menor que o então hegemônico PMDB.

Em 1994, Ronaldo Caiado e Lúcia Vânia se apresentavam como favoritos, enquanto o peemedebista Maguito Vilela começou a campanha com porcentuais insignificantes. Os dois opositores, Caiado mais, Lúcia um pouco menos, se cansaram de bater em Maguito. O peemedebista respondeu aos ataques muito mais como defesa do que contra-ataque. Caiado, que às vésperas da eleição, estava ligeiramente à frente de Lúcia nas pesquisas, ficou fora do segundo turno. Maguito foi o primeiro colocado e garantiu a vitória no turno final contra Lúcia Vânia.

A campanha de 1998 foi atípica. O favoritismo de Iris Rezende diante de uma pequena oposição composta por somente quatro partidos, PSDB, PP, DEM e PTB, levou o peemedebista a capitanear uma campanha eleitoral sem empenho, que gerava uma perspectiva de poder tão avassalador que a eleição parecia ser somente uma questão de calendário. O adversário, Marconi Perillo, se apresentava de forma bem humorada, e levou esse bom humor para a campanha. Rresultado: a mais impressionante virada eleitoral de todos os tempos no Estado. Assustado com a vitória de Marconi no primeiro turno, Iris trocou o marketing da campanha e partiu para a pancadaria. O contra-ataque era impiedosamente bem humorado, com um quadro feito pelo humorista Pedro Bismarck e suas panelas. Marconi venceu, como se sabe.

Em 2002, Maguito surgiu na véspera, no final de 2001, com vantagem superior a 15% sobre Marconi. E liderou uma campanha, ao contrário de 1994, em que contra-atacava como forma de defesa, bem mais agressiva. Candidato à reeleição, Marconi fez uma campanha ressaltando ações administrativas de seu governo. Na TV, um dos momentos mostrava um trator desenhando um grande coração com o arado. Maguito não apenas perdeu a boa vantagem que tinha como a própria eleição, que foi decidida já no primeiro turno.

Em 2006, mais uma vez Maguito foi para o ataque contra o então inexpressivo vice-governador Alcides Rodrigues. Ao lado dele, e ainda mais agressivo, o então senador Demós­tenes Torres fez uma campanha absolutamente demolidora. Ao final, Alcides virou a eleição e venceu os dois turnos. Demóstenes ficou em quarto lugar, o último entre os grandes candidatos daquela disputa.

Em 2010, ao tentar seu retorno ao Pa­lácio das Esmeraldas, pancadaria de todos os lados contra ele. De Brasília, com o PT nacional comandado pelo pre­sidente Lula. Da praça Cívica, através do governador Alcides e de seu se­cretário da Fazenda, Jorcelino Braga. E de Goiânia, nas mãos do prefeito Pau­lo Garcia. Resultado: contra tudo e con­tra todos, Marconi ganhou novamente.

A campanha de 2014 durou quatro anos. E nesse período, Marconi Perillo apanhou em tempo integral. Primeiro, ao encontrar terra arrasada no governo em 2011. Depois, sob influência de Lula, enfrentou uma duríssima campanha na CPMI do Congresso que visava inicialmente apenas o senador Demóstenes Torres, mais duro opositor dos governos petistas. Em seu livro, “Assassinato de reputações”, o ex-delegado da Polícia Federal Romeu Tuma Júnior acusou Lula de ser o autor intelectual dos ataques contra Marconi. Na campanha propriamente dita, Iris e Antonio Gomide se revezavam nas pancadas. A linha de defesa de Marconi era, mais uma vez, ações administrativas. Venceu os dois turnos.

Esse histórico eleitoral de Goiás desde 1982 mostra que o conjunto de propostas e questionamentos político-administrativos obtêm grande receptividade no eleitor goiano. A pancadaria até diverte e chama a atenção, mas não resulta em vitória. Isso não significa, porém, que será sempre assim. Revela apenas que a decisão de montar uma campanha agressiva é conviver com o risco. É uma arma muito mais complicada de se usar e obter êxito do que qualquer outra.

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Cenário: Oposição é uma torre de Babel

Será possível às oposições em Goiás se unirem em uma só candidatura ao governo do Estado? Possível é, mas é improvável que isso aconteça. Já na outra trincheira, na base aliada estadual, co­mandada pelo governador Marconi Perillo, o quadro é exatamente o o­posto: há unificação praticamente to­tal em torno do vice-governador José Eliton. No máximo, o que se percebe é somente movimentação deste ou daquele grupo se reposicionando internamente, sem afetar ou colocar em risco o conjunto unificado.

Esses dois cenários tão diferentes na política estadual passa por um outro campo de visão. A base aliada tem comando definido e aceito por todos, que é o governador. A oposição, ao contrário, não tem uma liderança colocada nem mesmo dentro do maior partido, o PMDB. Se antes as disputas internas eram travadas entre dois grupos, agora piorou. Há três forças com poder equivalente dentro do PMDB: os iristas, os maguitistas e a trinca municipal, formada por Adib Elias, de Catalão, Paulo do Vale, de Rio Verde, e Ernesto Roller, de Formosa. E o que é pior: nenhuma dessas forças se entende com as outras duas. É uma autêntica torre de Babel.

Como explicar esses fatos? Talvez seja a parte mais fácil de toda a equação. A base aliada tem bandeiras/discurso que a unifica, a oposição tem fogueiras de vaidades infladas. Nada além disso. Falta à oposição uma bandeira, um elo que vá além dos egos. E em tese deveria ser muito mais complicado manter a união dentro de uma base tão imensa e multifacetada em termos partidário do que no eixo central da oposição, formado por um único partido.

Isso fica claro ao se analisar o po­sicionamento das candidaturas colocadas até aqui pela oposição. Qual é a bandeira que diferencia o deputado federal Daniel Vilela do senador Ronaldo Caiado, protagonistas de ponta dessa disputa interna? Alguém saberia dizer qual seria o ponto diferente num hipotético governo de Daniel em comparação de Caiado? Não. Por quê? Porque não é isso o que está em jogo no PMDB. As candidaturas de Daniel e Caiado sintetizam somente a personificação da disputa entre os vários grupos: maguitistas contra iristas, iristas contra maguitistas, e a trinca municipal contra a hegemonia de ambos.

A base aliada, ao contrário, tem, sim, e claramente definida, uma bandeira. E olha que ela nasceu quase por acaso na campanha eleitoral de 1998 como mero slogan publicitário inserido numa música temática, o tempo novo. Assim chamado para diferenciar o que seria o velho tempo do PMDB no poder estadual. Ao longo dos anos, essa bandeira foi permanentemente renovada, e por isso continua funcionando muito embora o termo tenha caído em desuso.

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O que a oposição chama de “velho tempo novo” não tem nada de velho. E não envelheceu com o passar dos anos porque essa renovação, capitaneada nos governos comandados por Marconi, sempre avança administrativamente em relação aos antigos métodos e costumes da oposição. Não seria nenhum exagero afirmar que quando a oposição está indo, a base aliada de Marconi já está voltando. E não há aqui qualquer referência política, mas apenas administrativa.

A oposição, por não debater propostas alternativas de governo e somente fulanizar o processo, acaba sempre ficando a reboque nas campanhas eleitorais. O que Daniel Vilela ou Ronaldo Caiado vai propor ao eleitorado no ano que vem? Passe-livre estudantil? Negativo. Já foi implantado. Am­pli­ação dos beneficiários no interior do Estado? Já está sendo ampliado. Que tal então Daniel ou Caiado propor moradias populares? O governo da base aliada já está voltando antes de a oposição ir ao te­ma. As casas não apenas foram e es­tão sendo construídas, como passaram a contar até com energia solar. Talvez a oposição possa pregar na campanha uma relação re­publicana com os prefeitos. Não vai funcionar porque mais uma vez o governo avançou sobre o tema e o colocou em prática. Vide as frequentes declarações dos prefeitos, inclusive dos peemedebistas, do caráter republicano das parcerias estabelecidas através do mais recente programa adotado, o Goiás na Frente.

Não é por outro conjunto de fatores que a base aliada estadual é vitoriosa desde 1998. E a oposição sempre afirmou antes das eleições que a fórmula governista tinha se esgotado. Sim, uma metodologia de governo pode se tornar obsoleta, mas não como um voo cego. O eleitorado jamais troca o comando administrativo se não perceber que a alternativa pode ser melhor e mais consistente. Esse é o fator que motiva o voto na oposição. E em Goiás a oposição apenas esquenta as mãos nas fogueiras de vaidades, e não formula absolutamente nada a não ser como passar a rasteira no grupamento adversário, inclusive interno. Enquanto o governo se renova, reinventa e avança no campo das propostas, a oposição se perde nas velhas práticas.

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Sustentação: Assembleia assegura tranquilidade

De todos os períodos administrativos comandados pelo governador Marconi Perillo, o atual é o mais seguro e tranquilo

Governador Marconi Perillo com sua equipe e base aliada | Foto: Lailson Damasio/Gabinete de Imprensa

Desde 1999, quando assumiu o governo do Estado pela primeira vez, jamais o governador Marconi Perillo viveu um momento de sustentabilidade política como agora.

Administrativamente, é claro que muita dessa tranquilidade tem a ver com o programa Goiás na Frente, que atende os pedidos de todos os prefeitos de Goiás independentemente do partido ao qual estão filiados. Esse procedimento republicano tem merecido elogios até de arqui-rivais do tucano. Mas nem tudo se explica em relação à estabilização política da administração apenas com esse programa administrativo. A Assembleia Legislativa é de onde emana essa boa maré. E isso é resultado imediato da liderança interna exercida pelo deputado José Vitti, empossado na Presidência em fevereiro deste ano.

O próprio governador destacou esse fato em solenidade promovida pelo Clube dos Repórteres Políticos de Goiás. Para Marconi, Vitti conseguiu pacificar as demandas políticas na Assembleia Legislativa, não apenas internamente como também na base aliada estadual. Pode-se alegar, e com inteira razão, que Marconi liderou a maior vitória eleitoral de todos os tempos, em 2014, com a base aliada saindo das urnas com maioria absoluta. Mas uma rápida comparação com a agitação que havia antes mostra que quanto maior é a base, maior a dificuldade de sua administração.

É onde entrou o presidente José Vitti. Ele passou os dois primeiros anos do atual período administrativo como líder do governo. E foi exatamente como líder que ele conquistou a segurança e o respeito inclusive dos deputados oposicionistas. Essa é a pacificação que se vê, sem anular a atuação dos deputados e sem delimitar o espaço de atuação política de cada um, seja governista ou opositor.

O resultado é que a Assembleia Legislativa se transformou num fator de equilíbrio político que reflete no astral do próprio governo. E, particularmente, José Vitti viu seu prestígio pessoal disparar no alto tucanato estadual. Hoje, não há praticamente nenhuma grande decisão que não passe por ele. O que aconteceu foi o preenchimento de um vácuo que existia dentro da base e fora do Palácio. Antes, apenas Marconi e o vice-governador José Eliton enfrentavam as tematizações críticas tanto no campo administrativo como político apresentadas pelos opositores. Desde a sua chegada à Presidência, Vitti também entrou nesse jogo, e fechou assim um elo que parecia aberto há muito.

Qual será o futuro dessa ação do presidente da Assembleia Legislativa? Inicialmente, ele é candidato à reeleição, e apóia candidatura de José Eliton à sucessão de Marconi. Ou seja, a vaga preferencial na chapa da base aliada é, sim, do vice-governador, que deverá exercer o governo em plena sucessão. Mas há comece a observar que se for necessário uma alteração estratégica nesse planejamento, Vitti se tornou a alternativa viável a ser trabalhada.

A hipótese é extremamente remota. Não há outro caminho para o vice-governador que não seja uma candidatura ao governo. Ou então ele teria que abrir mão de qualquer disputa em 2018. Coisas da regra sobre a reeleição. Um governador pode disputar um segundo mandato consecutivo, mas se quiser mudar para qualquer outro cargo público, ele tem que desincompatibilizar. Como Marconi deverá fazer no primeiro semestre do ano que vem, quando deixará o comando do Estado para buscar uma das duas vagas de senador ou um vôo nacional, como candidato a vice-presidente ou mesmo presidente da República.

Nesse caso, José Eliton assumirá o governo, e somente poderá disputar a eleição como candidato à reeleição. A hipótese Vitti só faz sentido se José Eliton abandonar a sua candidatura ao governo, e disputar, por exemplo, vaga na Câmara dos Deputados. Nesse caso, o comando do Estado passaria para José Vitti, como segundo na linha sucessória estadual, recompondo assim a estrutura de reeleição dentro da base aliada. Convenha-se, é muita ginástica política para se chegar a esse ponto.

Vitti não está preocupado com essas questões, que ficam muito bem dentro de bolas de cristal sobre previsões e possibilidades futuras. Ele ganhou espaço e atenção dentro do núcleo central do governo exatamente por se comportar sempre dentro da linha cooperativa para o conjunto. Ele não discute nem mesmo a possibilidade de disputar a Câmara dos Deputados. Se tudo se desenvolver sem uma enorme surpresa no meio do caminho, ele deve disputar novo mandato de deputado estadual. É para isso que ele tem atuado politicamente. Sem mosca azul voando ao se redor.

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PMDB em chamas: O eterno drama do ex-gigante

Crise é uma palavra que parece estar incorporada definitivamente no PMDB de Goiás. Desde a redemocratização do país, na década de 1980, o partido vê alas internas em guerras políticas

A trinca de prefeitos Adib Elias, de Catalão, Ernesto Roller, de Formosa, e Paulo do Vale, de Rio Verde, começam a desequilibrar o jogo a favor de Ronaldo Caiado | Foto: Y. Maeda (Adib), Marcos Kennedy (Ernesto) e Divulgação

Não chega, obviamente, a ser uma bagunça generalizada, mas a verdade é que o PMDB de Goiás nunca foi exatamente harmônico. Desde a redemocratização do país, na década de 1980, o partido é sacudido por disputas homéricas entre suas lideranças. Durante todo esse tempo, o grupo irista sempre conseguiu levar a melhor sobre os “adversários”. Desde meados de 2014, porém, o grupo maguitista tem conseguido dominar o diretório estadual, embora sem fôlego para estabelecer uma hegemonia estável.

O deputado federal Daniel Vilela, filho do ex-governador Maguito Vilela, ganhou o comando estadual, no que parecia ser o início do declínio final de Iris Rezende e seu grupo. Esse jogo está estabilizado, com o prefeito de Goiânia dominando completamente o diretório metropolitano. O que o grupo maguitista não esperava é um levante de parte da bancada estadual na Assembleia Legislativa com inspiração nos principais prefeitos do PMDB no interior, como Adib Elias, em Catalão, Paulo do Vale, em Rio Verde, e Ernesto Roller, em Formosa.

Esse trio tem enorme poder interno, embora não exatamente em nível estadual individualmente. A força deles está na atuação conjunta. É difícil antecipar tendências internas no PMDB exatamente pela instabilidade interna na correlação de forças, mas o trio poderoso certamente vai ser bastante impositivo no processo de escolha do candidato do PMDB ao governo do Estado, em 2018. Se não por vários outros motivos, também pelo fato de que comandam uma parcela representativa do eleitorado governado pelo PMDB no interior.

Em tese, isso enfraquece a posição de Daniel Vilela e, por consequência, de todo o grupo maguitista. Os três prefeitos não têm qualquer preconceito contra o fato de que o partido poderá, em 2018, ser caudatário na chapa que vai disputar o governo do Estado. Em outras palavras, eles podem, sim, apontar o nome do senador Ronaldo Caiado, presidente regional do DEM. Neste momento, inclusive, essa seria a tendência. Mas é claro que Daniel e os maguitistas ainda não queimaram todo o arsenal, e devem permanecer na luta. Os iristas assistem a tudo de camarote, mas também vão ter participação decisiva no processo de escolha em 2018.

Esse dilema peemedebista, eternizado internamente, não interferiu na enorme capacidade eleitoral do partido até 1994. E de 82 a 94 foi um período bastante conturbado, com inúmeras crises. A primeira delas ocorreu exatamente no retorno das eleições diretas para governador, logo após o início da abertura democrática que encerrou o período ditatorial iniciado em 1964. O partido tinha três pretendentes ao governo, e a preferência majoritária era do então senador Henrique Santillo. Mauro Borges, como presidente, também liderava uma corrente numerosa. Já Iris, que retornava ao gozo pleno dos direitos políticos cassados na ditadura, acabou sendo o escolhido dentro de um grande acordo que garantiria a candidatura de Santillo quatro anos depois.

No governo, Mauro Borges e Iris quebraram o pau feio. Mauro queria, evidentemente, maior espaço para seu grupo, mas os iristas estavam com fome de ontem e não permitiram. Mauro deixou o PMDB como dissidente do Palácio das Esmeraldas, e se tornou o principal líder da oposição. O grupo irista foi reforçado no primeiro momento pelo ex-governador Irapuan Costa Júnior e sua ala do PDS, o partido que sucedeu a Arena. Essa chegada do ex-adversário teria sido o estopim de intensas disputas entre Santillo e Iris, mas não durou muito tempo. Irapuan percebeu que não teria espaço necessário junto aos iristas, e se aproximou de Santillo.

Nova guerra precedeu a eleição de 1990. Iris, que era ministro no governo de José Sarney, chegou a disputar a convenção nacional do PMDB que escolheu Ulysses Guimarães como candidato a presidente da República. Santillo, que integrava outra ala do PMDB, não votou a favor de Iris na convenção, mas também não votou contra ele já que permitiu que um suplente irista de carteirinha votasse na convenção. O cenário, então, estava criado, e Iris acabou vencendo Santillo.

Em 94, já sem ser incomodado pelos santillistas internamente, Iris enfrentou a segunda estrela dentro do seu grupamento, Nion Albernaz. Ex-prefeito de Goiânia, ele havia encerrado o mandato dois anos antes com grande popularidade, e era o candidato natural do PMDB à sucessão de Iris. Entre eles, velhos companheiros, tudo foi mantido acima da linha d’água, mas os iristas ferveram o caldeirão até o veto ao nome de Nion ser cozido em banho-maria. Não deu outra. Vetado, Nion deixou o PMDB e desembarcou no PSDB.

A indicação peemedebista ficou entre o deputado federal Naphtali Alves e o vice de Iris, Maguito Vilela. De perfil mais independente, e contando com força partidária no interior, Naphtali se bancava sem necessitar das bênçãos do núcleo central do irismo. Já Maguito conquistou exatamente esse núcleo. Foi ele o indicado, com Naphtali na vice.

Já com a reeleição instituída, em 98 Maguito deveria ser candidato naturalmente e sem maiores dificuldades inclusive para vencer com grande folga as eleições. Os iristas não aceitaram porque viam no Palácio das Esmeraldas o surgimento de um grupo maguitista. Iris, que mais uma vez era ministro — agora no governo de FHC —, abandonou Brasília e atropelou internamente a candidatura à reeleição de Maguito. No final, como se sabe, o oposicionista Marconi Perillo, principal, mas não único, herdeiro do santillismo, derrotou o grande mito Iris Rezende.

É assim, de disputa em disputa, que o PMDB se comporta no Estado. E está sendo assim mais uma vez, embora com a novidade da terceira via interna — essa liderada pelos prefeitos. Com Iris Rezende previamente fora da disputa pela candidatura ao governo, o caminho de Daniel Vilela parecia absolutamente tranquilo. Parecia. Pelo que se vê, o PMDB vai quebrar o pau internamente mais uma vez. É a sina do partido.

Daniel e Caiado

PMDB: Daniel Vilela tenta sobreviver à avalanche Caiado

Atingido em cheio por delação dos executivos da Odebrecht, deputado federal e presidente regional do PMDB Daniel Vilela ensaia reação ao crescimento de prestígio do democrata Ronaldo Caiado

A denúncia nem foi contra ele diretamente, mas a delação dos executivos da Odebrecht resvalou feio. O pai de Daniel Vilela, então prefeito de Aparecida de Goiânia, Maguito Vilela, teria negociado com a empresa repasse para as campanhas eleitorais de 2012, quando Maguito foi reeleito, e de 2014, na eleição de Daniel para a Câmara dos Deputados. Ambos desmentiram os delatores, mas o estrago político nessas situações sempre são imediatos, e levam algum tempo para ser minimizado mesmo quando se comprova que nada errado tenha ocorrido.

Daniel e Caiado

O momento em que isso tudo aconteceu foi o pior possível. Daniel já enfrentava dificuldades para se firmar como candidato preferencial do PMDB ao governo do Estado no ano que vem. Seu nome, novidade para a esmagadora maioria do eleitorado, embora não necessariamente para o mundo político como indica sua eleição para a Presidência do PMDB em Goiás, perde feio em prestígio eleitoral para o senador Ronaldo Caiado, presidente regional do DEM, que é um dos políticos mais conhecidos no Estado.

Os problemas de Daniel não se resumiam à falta de densidade nas pesquisas internas. A vitória de Iris Rezende para prefeito de Goiânia no ano passado, ao mesmo tempo em que seu pai, Maguito, encerrou seu segundo mandato consecutivo como prefeito de Aparecida, representou outra pedrada em seu projeto de candidatura ao governo. Iris é não apenas o maior aliado de Caiado dentro ou fora do PMDB, como também um arqui-rival do grupamento maguitista. Desde sempre se sabe que o prefeito e velho comandante do PMDB fará tudo e mais um pouco para levar seu partido a enxotar as candidaturas de um dos Vilela – Maguito sempre foi o plano B do grupo para o caso de Daniel não se firmar – mesmo que para isso precise apoiar Caiado como candidato pelo DEM. Após cinco derrotas, Iris sabe que o PMDB continua sendo o maior partido da oposição à base aliada comandada pelo governador Marconi Perillo, mas ele sabe também que seu partido não detém mais o monopólio do protagonismo eleitoral e, por consequência, não é absurda hoje, como foi no passado, a tese de que o partido poderá ser caudatário de uma chapa ao governo liderada por algum opositor filiado a um aliado do PMDB. É o caso de Ronaldo Caiado com o seu Democratas.

Resta a Daniel Vilela um derradeiro fôlego para manter viva a sua pretensão. O grupo anti-irista dentro do PMDB sofreu algum abalo com as vitórias eleitorais de prefeitos como Adib Elias, em Catalão, e Ernesto Roller, em Formosa. Eles não tem arestas em relação a Iris Rezende e igualmente circulam sem problemas junto aos maguitistas. E essa condição faz desses prefeitos uma certa referência com bastante peso diferenciado na disputa entre maguitistas e iristas. Nas últimas semanas, ambos fizeram declarações que foram comemoradas pelos caiadistas, apesar de terem surfado na superfície das teses de 2018. Em jogo duro, até lateral é disputado a tapas e pontapés. Ou seja, mesmo com a bola no meio de campo a torcida vibra em qualquer lance.

Maguito: sem plano B

Maguito: sem plano B

De qualquer forma, o que se percebe, pelo menos numa visão fora dos bastidores do ambiente da alta cúpula dos dois grupos, é que Daniel tenta se recuperar da pasmaceira que abateu sobre sua pré-candidatura. Até por falta de opção no seu grupo. Se a delação não o atingiu diretamente, e ainda assim provocou estrago inegável, seu pai, Maguito, o plano B, foi pego no núcleo do incêndio odebrechtiano. A denúncia foi contra ele, diretamente. Não se sabe até que ponto esse fato o atingiu em termos de popularidade. Até então, seu nome sempre foi o de maior densidade estadual dentro do PMDB. Mais até de Iris Rezende, que é fortíssimo na capital, mas perde cada vez mais espaço além das fronteiras de Goiânia.

Daniel articula movimentos internos, especialmente com a boa bancada de prefeitos do PMDB – segundo maior contingente depois do PSDB. A esperança dele na sua disputa com Ronaldo Caiado é conseguir mexer com os brios históricos dos peemedebistas de raiz. Não é tarefa simples. Em outros tempos, os peemedebistas eram soberbos o suficiente para não aceitarem qualquer discussão sobre candidatura que não fosse com ficha de filiação do partido. A partir de 2014, com a eleição de Ronaldo Caiado na composição da chapa majoritária liderada por Iris Rezende, isso mudou bastante. Prova disso é que o democrata já teria superado as resistências quanto à sua filiação. Hoje, no PMDB, há quem defenda sua candidatura mesmo se ele continuar no DEM.

É exatamente esse o ponto que Daniel terá que quebrar. Ele sabe que o dano causado pela delação foi grande, mas não estrutural. A dúvida que fica é sobre a sua resiliência eleitoral, que jamais foi testada antes, mas que está em jogo logo numa pedrada como essa. Sua movimentação neste momento pode ser uma remontagem ou a etapa final da candidatura ao governo. E desta vez não há mais o tal plano B, o que pode ser bom para ele diante da falta de opção dos peemedebistas contrários ao eixo aliado Iris-Caiado, ou péssimo para os maguitistas se ele não conseguir ir além de onde está.