Arquivo da categoria: Conexões Goiás/Brasil

Análises e comentários sobre os principais fatos de Goiás e do Brasil

Na foto Ronaldo Caiado
Crédito: Fernando Leite

Romper o isolamento: O grande desafio de Ronaldo Caiado

Se dependesse apenas da popularidade medida pelas pesquisas atuais, o senador Ronaldo Caiado já teria garantido a sua candidatura ao governo do Estado. O problema dele é a falta de estrutura partidária

Senador democrata lidera as pesquisas, mas tem fraquíssima estrutura partidária | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Embora pesquisa não tenha poderes para vencer eleições, é claro e inegável que aparecer na dianteira é sempre muito positivo. Os números credenciam os humores tanto da parcela do eleitorado engajada previamente a favor como nos círculos do poder partidário. Mas as tabelas dos institutos de pesquisa também sinalizam para os adversários, principalmente daqueles que aparecem na frente. E é exatamente esse o quadro que se tem em relação à candidatura do senador Ronaldo Caiado, presidente regional do DEM, partido situado entre os grandalhões da política nacional, mas totalmente desidratado no Estado.

De um lado, a base aliada, apesar de algumas notas dissonantes de algumas lideranças isoladas, está coesa em torno do nome do vice-governador José Eliton (PSDB). Ele é quem estará no comando do Palácio das Esme­raldas durante processo sucessório, o que potencializa a sua candidatura à reeleição. A esmagadora maioria da base aliada estadual sabe que Eliton tem ampla possibilidade de disputar a eleição com plenas condições de vencer. Não apenas por tudo o que conseguiu absorver ao acompanhar Marconi Perillo nos últimos sete anos, mas também pela força representativa do maior, mais forte e numeroso eixo político estadual.

Na outra trincheira está o presidente regional do PMDB, deputado federal Daniel Vilela, filho do ex-governador e ex-prefeito de Aparecida de Goiânia, segundo maior colégio eleitoral do Estado, Maguito Vilela. Dentro das dinastias que se tem na estrutura dos partidos no Brasil, Daniel vai se impondo com farta utilização das armas que dispõe internamente. O PMDB é o partido com maior número de filiados em Goiás, e isso coloca os peemedebistas como principal força antagônica do status quo do poder atual, liderado por Marconi Perillo.

Em condições normais, José Eliton e Daniel Vilela tem exatamente aquilo que faz uma falta danada para Ronaldo Caiado: estrutura partidária. Em compensação, pelo menos neste momento, Caiado tem a popularidade, de acordo com os institutos de pesquisa, que os dois adversários vão ter que trabalhar para conseguir. E aí se chega a uma encruzilhada de análise futura: quem realmente será candidato a governador?

José Eliton só não estará na disputa se não quiser. Além do apoio e confiança do governador Marconi Perillo, ele conta com maciço apoio na base aliada e, por último, estará com a caneta mais poderosa do Estado nas mãos, o que gera evidente perspectiva de poder.

Daniel Vilela tem passado apertado na disputa contra a estratégia de Ronaldo Caiado de conseguir maioria no PMDB em apoio ao seu nome. Observando-se à distância, embora com filtro nos bastidores — que vão muito além de declarações oficiais pela imprensa —, flagra-se um constante vai e vem interno. Algumas vezes tudo leva a crer que o democrata está prestes a derrotar Daniel. Logo em seguida, é Daniel quem demonstra que está muito longe de entregar ao rival de trincheira o direito à valsa com a noiva, a tal da candidatura. E esse sobe e desce nas cotações tem obtido uma velocidade impressionante.

Do início ao fim da semana passada, por exemplo, mudou todo o panorama dessa disputa. Caiado saiu na frente com várias declarações de apoio do grupo dos prefeitos, o trio Ernesto Roller, de Formosa, Adib Elias, de Catalão, e Paulo do Vale, de Rio Verde. Na quinta-feira, Daniel promoveu um encontro com a presença de 18 prefeitos do interior, que não integram a órbita do grupo dos três prefeitos, com o prefeito Iris Rezende. Mais do que isso, o prefeito de Goiânia sinalizou, segundo alguns participantes, que vai apoiar o candidato do PMDB ao governo do Estado, qualquer que seja ele. Isso representou a virada da semana pró-Daniel.

Esse jogo, porém, está ainda muito longe do final, e é impossível apostar racionalmente em possível vencedor.

Embora tenha sistematicamente negado até aqui que poderá se lançar candidato sem apoio do PMDB, é possível que o respaldo de uma parcela do partido o incentive a entrar na disputa assim mesmo, e contando somente com apoio de partidos nanicos. É jogada de altíssimo risco. Esses partidos todos que declaram apoio a ele, incluindo o DEM, se somados não apresentam um resultado animador em termos de presença no interior. São partidos pequenos e sem grande representatividade.

Essa é a grande dificuldade e maior desafio do senador Ronaldo Caiado para entrar na disputa com chances de vitória, como indicam as pesquisas atualmente. A falta de estrutura partidária tem sido uma pedra nos dois sapatos de muitos candidatos populares ao longo da história. A tendência é que o crescimento, por menor ou maior que seja, dos adversários, desidratem os números atuais. Essa desidratação pode ser minimizada exatamente pela composição da base de apoio. Sem ela, nada é fácil. Ao contrário, para vencer sozinho é necessário antes derrotar praticamente o impossível. Em todo o caso, eleição é eleição, e tudo pode acontecer, como já se disse tantas e tantas vezes. Ninguém vence ou perde eleição na vésperas. Apenas melhora ou piora o conjunto de chances de ganhar

Marconi-Perillo-Cidade-de-Goiás-GO-070-Foto-Marco-Monteiro-05

Reta Final: No embalo das inaugurações

Governador Marconi Perillo corre o Estado nos próximos meses para participar da inauguração de obras do Programa Goiás na frente

Governador Marconi Perillo inspeciona obra em
rodovia: realizações dão impulso ao projeto governista

O governador Marconi Perillo (PSDB) tem passado menos tempo na capital. Praticamente todos os dias, inclusive nos finais de semana, ele tem percorrido as regiões do Estado para participar da entrega de obras nas cidades, principalmente rodovias. A lista é imensa, e faz parte do conjunto de obras do Programa Goiás na Frente, que começou em meados do ano passado. Através de convênio, os prefeitos indicaram quais as obras que as suas populações mais querem de imediato, e receberam o dinheiro suficiente para que o serviço fosse feito. A assessoria do Palácio Pedro Ludovico informa que esse rush de inaugurações vai até o início de abril, e beneficiará quase 60 cidades, a maioria delas governadas por prefeitos do PSDB e do PMDB, consequência natural para o fato de que foram esses partidos que mais elegeram prefeitos em 2016.

Marconi vai encerrando assim seu segundo ciclo de sete anos e seis meses como governador. Eleito em 1998, ele administrou o Estado entre 1999 e início de 2006. Em 2010, voltou a ser eleito governador, e foi reeleito em 2014. Na primeira semana de abril ele deve se desincompatibilizar para disputar uma das duas vagas de senador que vão estar em jogo nas eleições deste ano.

Sob todos os aspectos, o saldo extremamente positivo do Programa Goiás na Frente traz reflexos administrativos e também, obviamente, influência político-eleitoral. Lideranças oposicionistas foram surpreendidas e fizeram a aposta errada, de que as obras não gerariam impacto porque o Estado não conseguiria bancá-las. Na campanha eleitoral, é claro que o tema vai ser explorado pelos candidatos, especialmente aquele que carregar o estandarte da base aliada estadual — o vice-governador José Eliton, que assumirá o governo em abril com a desincompatibilização de Marconi, está consolidado como candidato à reeleição, e só não irá disputar o cargo se não quiser.

O candidato governista vai tentar pegar carona muito favorável no desempenho do Goiás na Frente — que segundo o palácio só foi possível por causa da forte reforma administrativa iniciada no final de 2014 e concluída em 2015, que manteve o nível fiscal do Estado num patamar suportável e bem melhor financeiramente do que três das quatro unidades mais ricas da Federação: Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Até por falta de definições e, além disso, total ausência de debates internos, os dois principais candidatos da oposição, o deputado federal Daniel Vilela, do PMDB, e o senador Ronaldo Caiado, do DEM, vez ou outra apresentam argumentações que não levam tão em conta assim a realidade. Mais ou menos como ocorreu no governo anterior, quando foi implantado a cogestão dos grandes hospitais públicos através de organizações sociais, e que teve rápida aprovação da maioria das populações atendidas.

Essa descontextualização pode levar os oposicionistas a fazer uma campanha restrita e genérica ao mesmo tempo, podendo atingir mais o eleitor da capital e não chegando ao eleitorado do interior. É claro que esse curso pode ser corrigido antes que a campanha comece. Ou seja, antes que o erro grave seja cometido. Para se ter melhor ideia do que ocorre em situações assim, basta relembrar a campanha de 2006. Na liderança em todas as pesquisas, o pai de Daniel, Maguito Vilela, virou chacota dos eleitores da região sul ao prometer asfaltar uma rodovia que já tinha sido asfaltada. O governista Alcides Rodrigues, que disputava a reeleição após receber o governo de Marconi Perillo, que disputou a vaga de senador, explorou a falha. É impossível dimensionar exatamente quantos eleitores deixaram de votar no emedebista por causa dessa descontextualização entre o discurso e a realidade, mas certamente não foram poucos. Alcides venceu os dois turnos e se manteve no Palácio das Esmeraldas.

A questão, porém, não é tão simples. O governo tem formatada a sua plataforma com base naquilo que a população percebe como positivo, e com aquilo que ainda falta fazer — e sempre faltará muito. Os oposicionistas vão bater no que consideram errado, mas vão ter que sair dessa zona natural e de conforto para quem faz oposição. É necessário estruturar um discurso que possa ser apresentado como alternativa ao que se tem, e não exatamente apenas de mudanças de nome.

O eleitor, bem mais antenado do que muitos imaginam, até vota contra, mas desde que tenha alguma oportunidade para acreditar que uma mudança radical nos rumos vai oferecer a possibilidade de melhorar. Essa mensagem tem que ser bem formatada e muito bem apresentada para gerar esse resultado. De outra forma, e muitas vezes é o que se vê, a pancadaria verbal de campanha serve somente para deleite popular e muito pouco se transforma em voto.

Irapuan-Costa-4

Segurança Pública: Zé Eliton escala o xerifão

O trabalho realizado pelo secretário Ricardo Balestreri foi importante, mas há necessidade de se endurecer o jogo contra a insegurança. Irapuan Costa Junior surpreende ao aceitar o desafio

Ex-governador Irapuan Costa Junior: sim ao novo desafio

É certo que o tema segurança pública vai estar na campanha eleitoral deste ano. Não somente em Goiás, mas como pauta obrigatória em todo o Brasil. Aliás, um dos fatores que têm impulsionado o nome do deputado federal Jair Bolsonaro na bolsa de especulações sobre a Presidência da República é justamente o endurecimento do jogo contra a criminalidade que assola o país em todos os seus quadrantes. No caso extremo, o Rio de Janeiro, nem a polícia está segura. Ao contrário, os policiais se transformaram em alvo. A população que se acumula nos morros tem falado cada vez mais em guerra civil na cidade.

Não é só o Rio de Janeiro, ou Alagoas, outro Estado que igualmente vive situação de caos absoluto, que enfrenta essa realidade. É o país todo, Goiás incluído. Em cada região, há razões localizadas. No Centro-Oeste, a principal causa para a deterioração da segurança pública tem forte ligação com a expansão da economia, que gerou inúmeros impactos extremamente positivos, mas também provocou um rápido crescimento demográfico interno, especialmente através da migração de populações inteiras de praticamente todo o país, criando assim um caldo de culturas inimaginável e necessidades sociais novas. Nos últimos anos, a localização geográfica, especialmente de Goiás, fator que sempre serviu como atrativo para instalação e ampliação de empreendimentos com alcance nacional, também passou a chamar a atenção dos grupos organizados do crime nacional e internacional.

É diante desse cenário extremamente complexo que Marconi Perillo e José Eliton mapearam também eleitoralmente. Até aqui, o trabalho desenvolvido pelo secretário Ricardo Balestreri coleciona elogios em todas as áreas do governo e setores da base aliada. Ele é um dos maiores teóricos do país e demonstrou, no dia a dia, que consegue passar a teoria para a prática. O problema é entabular tais questões na efervescência de uma campanha. É onde entra num figurino perfeito o ex-governador Irapuan Costa Junior.

O vice-governador José Eliton fez
uma escolha surpreendente e certeira | Foto: Renan Accioly

Engenheiro por formação, Irapuan escalou todas as esferas da vida pública no Estado. Foi presidente da Celg, prefeito de Anápolis, governador, deputado federal e senador. É dono de uma visão administrativa privilegiada. O Distrito Agroindustrial de Anápolis (Daia), que se tornou a porta escancarada para a industrialização do Estado, é criação dele. E nesse ponto, Marconi e Irapuan têm afinidade. Após sair do governo, em 1979, o Daia foi sistematicamente desprezado por todos os governadores que o sucederam até 1999. Sob o comando de Marconi, a retomada e priorização do Daia redimensionou a iniciativa, e o que era no passado uma imensa área reservada a futuras indústrias tornou-se pequeno, necessitando inclusive de novas expansões.

Outra característica de Irapuan é sua paixão pela leitura. É um devorador de livros. Isso lhe conferiu ao longo dos anos uma extraordinária capacidade de interpretação dos fatos históricos e da realidade. Some-se a esse escopo cultural a vivência política. E é esse somatório que está sendo levado em conta. Irapuan, além de tudo, é um grande debatedor, e certamente será acionado para abordagem do tema segurança pública sempre que necessário.

Não se sabe exatamente como se deu o seu convencimento para ocupar a espinhosa tarefa de assumir a Secretaria de Segurança Pública em plena campanha eleitoral. É provável que tanto Marconi como José Eliton tenham se dedicado o suficiente para tirá-lo de sua “aposentadoria” através do desafio que ele terá pela frente. Irapuan é o que se pode chamar de linha dura, que não faz concessões que extrapolem suas convicções. Certa­men­te sua convocação passou pelo fato de que o Estado, e o governo, particularmente a base aliada e seu projeto administrativo, necessitam de al­guém com a sua experiência administrativa e política para o en­fren­tamento da in­segurança e também dos debates e­leitorais que vão ser travados du­rante a campanha. Mais do que qualquer outro nome que possa vir a integrar o governo de José Eliton a partir de abril, Irapuan Costa Junior é o que melhor representa a linha que se pretende adotar, e quebra o discurso dos dois prin­cipais adversários, Ro­nal­do Caiado e Da­niel/Maguito Vilela.

lixo_crimeia_leste-5

Por que Iris não consegue consertar a “casa”?

Resposta está no gigantismo da Comurg. Sem corrigir as distorções na empresa de limpeza urbana, contas da Prefeitura não vão fechar

Lixo acumulado em vários bairros de Goiania atesta a crise administrativa na Prefeitura | Foto: Arquivo / Jornal Opção

Prefeito da capital no final das décadas de 1980 e meados de 1990, Nion Al­bernaz estabilizou as fi­nanças da Prefeitura de Goiânia. De tal modo que a cidade viveu um “boom” de obras estruturantes e altamente impactantes na melhoria da qualidade de vida dos goianienses. A cidade era limpinha, praticamente sem bu­racos e se deleitava com canteiros de flores, e não de folhagens como se viu depois disso até se tornarem uma raridade, além de manter uma boa rede de creches conveniadas, programas sociais inclusivos, como o Tra­balhando com as Mãos e o Banco do Povo, além de ter mar­cado pela municipalização da saúde. De quebra, foi nessa época que os servidores municipais começaram, pela primeira vez na história, a ter data certa pa­ra receber salários, e sempre no último dia do mês trabalhado.

O que se vê, e não é uma qua­dra nova na administração de Goiânia, é uma situação tão diferente que se torna difícil acreditar tratar-se da mesma cidade um pouco mais crescida. Nion deixou a Prefeitura pela última vez em 2000. Não tem tanto tempo assim que possa significar uma alteração tão grande pelo ritmo normal da economia brasileira.

Nesse mesmo período, o Estado de Goiás, por exemplo, experimentou uma realidade exatamente oposta à trajetória financeira da capital. Até o final da década de 1990, os soldados da Polícia Militar recebiam um complemento mensal nos salários para se atingir o mínimo legal, que hoje é de 954 reais. Já os policiais civis deixavam de atender muitos pedidos de socorro da população porque as viaturas, além de mal conservadas, quase sempre eram encostadas por falta de gasolina.

Isso sem falar na situação da saúde, que viu se transformar em manchete o desespero de um médico do Hugo, que abandonou seu plantão para registrar ocorrência em um distrito policial para denunciar que o aparelho de raios X estava quebrado havia mais de seis meses. Isso em um hospital de urgência. De quebra, os salários dos servidores muitas vezes se acumulavam sem quitação, e todos os finais de ano eram marcados por adiamentos na liberação do 13º salário. Enquanto todas essas situações foram corrigidas no Estado, a Prefeitura mergulhou em crises até chegar ao ponto em que se encontra hoje.

Isso é uma prova inconteste de que as finanças da Prefeitura não se deterioraram em consequência da situação econômica nacional, mas por problemas administrativos internos. E o que houve desde o fim da era Nion Albernaz em relação ao que se tem atualmente em Goiânia? De um lado, a falência na prestação de serviços essenciais e rotineiros, como o recolhimento de lixo doméstico, hospitalar e industrial, do outro, o retorno de um gigantismo que estava sob controle, a Comurg.

Nion Albernaz gastou dois mandatos para conseguir reverter uma situação muito ruim da empresa, que perdeu o status de mamute devorador de recursos e ganhou prestígio como empresa moderna e necessária, vocação natural da Comurg dentro da ótica administrativa de Goiânia.

Para isso, o professor apostou alto na terceirização de serviços que sempre custam muito mais caro quando administrados diretamente pelos governos, como a totalidade da varrição e o recolhimento, transporte e depósito final dos rejeitos urbanos. Ao invés de se ocupar dessas tarefas, a Comurg passou a exercer plenamente a sua tarefa de urbanização de Goiânia, o que limitou o seu peso dentro da execução orçamentária da Prefeitura.

Depois que Nion deixou o comando do Palácio do Cerrado Venerando de Freitas Borges, a empresa foi aos poucos voltando a ser como era antes. Em 2004, quando Iris Rezende venceu a eleição, a pá de cal veio repentinamente: a Prefeitura, através da Co­murg, adquiriu uma frota inteira de caminhões de recolhimento de lixo e passou a administrar o serviço diretamente. A promessa era de uma economia anual de 5 milhões de reais. Isso realmente aconteceu no primeiro momento, já que a compra da frota de caminhões foi feita através de empréstimos, mas a empresa teve que se agigantar novamente. Como esses veículos têm uma vida útil bastante dura e curta, a frota teve que ser renovada antes mesmo de o empréstimo anterior ter sido inteiramente quitado. Daí em diante a situação só piorou.

O prefeito Iris Rezende, eleito em 2016 para novo mandato, passou 2017 inteiro tentando tapar o buraco que encontrou nos cofres da Prefeitura. Não conseguiu. A cidade enfrenta sérios problemas para manter mal e mal a pavimentação, enfrenta problemas ainda mais sérios no recolhimento de lixo, e a saúde perdeu-se completamente com Cais sendo fechados e fornecimento de insumos básicos constantemente em falta.

Iris já identificou o problema, que é exatamente esse gigantismo na Comurg, que voltou a devorar recursos com fome de ontem. O plano dele para começar realmente a consertar as finanças da Prefeitura é devolver à companhia sua tarefa mais nobre, que é a urbanização da cidade. O problema é que nunca é tão simples fazer algo assim. Nion precisou de dois mandatos para fazer com que a Comurg deixasse de ser problema para ser um orgulho.

iris-foto-alberto-maia-camara

Iris Rezende: A solidão do velho timoneiro

O que na administração de Goiânia teve pelo menos a solução dos muitos problemas encaminhada neste primeiro ano? Numa análise,  rigorosa deve-se admitir, nada de nada. Iris vive na solidão de um palácio de poder cercado por interesses eleitorais e eleitoreiros

Foto: Alberto Maia / Câmara Municipal

Todas as vezes que foi governador ou prefeito de Goiânia, Iris Rezende, um dos maiores líderes político-administrativo de Goiás, sempre teve um ou mais auxiliares diretos da mais restrita confiança pessoal. Olvanir Andrade, Mauro Miranda, Otoniel Machado e até Maguito Vilela, de certa forma, eram ombros amigos, de apoio total e dispostos muitas das vezes a se sacrificarem pessoalmente pelo sucesso de Iris Rezende. Cada um à sua maneira, eles cuidavam dos detalhes para que nada pudesse escapar do prumo e se perder de tal forma até criar problemas.

Olhando agora para o Palácio do Cerrado Venerando de Freitas Borges o que se vê é um poder isolado, solitário, ocupado por um líder órfão de liderados ao mesmo tempo que minado pelo extenso e infiel jogo dos interesses pessoais eleitoreiros e eleitorais. Iris não exerce nem mesmo o poder da caneta real que o poder lhe confere. Suas nomeações não são suas, mas de quem as indica. Há gente dentro do Palácio que parece exercer muito mais poder do que o próprio Iris. O prefeito que aí está não é nem de longe o líder que sempre foi, e que a população queria para corrigir os rumos errados da administração da cidade. Talvez seja exagero afirmar até que o Iris que ocupa o palácio é um velho esboço desbotado do líder que ele era antes. Que sempre foi, mas deixou de ser. Infelizmente, diga-se.

Iris era a grande esperança da maioria do eleitorado goianiense de que a sua vasta experiência administrativa, capacidade política e têmpera forjada ao longo das muitas dificuldades que teve que enfrentar, e superar, era uma aposta melhor do que tentar algo novo, ainda não totalmente conhecido. Iris venceu a eleição. No 1º e no 2º turnos, foi diplomado, empossado e… só. Aquele Iris Rezende da campanha desapareceu ali, entre a vitória – mais uma, em sua longa lista de sucesso eleitoral – e o início do governo.  Forçado ou não, induzido a isso ou não, cansado ou não, a verdade é que o Iris que ganhou a eleição não é esse que ora governa. Aliás, quem governa não é ele. Vários governantes. Uns que mandam muito, outros que mandam menos, mas Iris não manda nada. E dessa turma toda de mandarins de um governo de trono abdicado, ele era o único que realmente sabia o que fazer e como fazer. O resto era só adereço, e os adereços tomaram da estrutura.

Iris algumas vezes ainda apresenta algum lampejo de outrora, mas desanima tão rápido a efêmera luz de um fósforo. A melhor forma de constatar tudo isso é acompanhar os detalhes e o encaminhamento de suas entrevistas mais longas para os diversos veículos de comunicação do Estado. Em outros tempos, nas mesmas circunstâncias, Iris faria um rápido balanço positivo, mesmo que calcado no exagero desmotivado, para então descrever com euforia e otimismo contagiantes o que estava sendo plantado para colheita em breve. Era muitíssimo difícil, mesmo para oposicionistas empedernidos, não se deixar empolgar por tamanho vigor. E hoje? Os mesmos temas que antes desencadeavam, mesmo diante das dificuldades, otimismo, recaem sobre lapsos de memória saudosista. Iris fala mais sobre os feitos notáveis que contabilizou ao longo de sua vida do que sobre o que se deve esperar dele agora. Administrativamente, ele não parece mais viver nos tempos atuais, mas nas saudades de sua época de ouro na política de Goiás. Aquele Iris acabou, ficou para trás engolido pelo tempo, e não há um atual para substituí-lo.

E se Iris não governa, governam por ele. E governam da pior maneira que se pode governar, com objetivo máximo e foco total somente nas urnas que estarão à disposição do eleitorado estadual dentro de mais alguns meses. É um governo que se encerra em si mesmo enquanto administração, e não consegue ir além da próxima e imediata eleição. Servem-se do poder para tentarem se banquetear com a mesa farta de votos.

Ao encerrar o primeiro ano deste governo, provavelmente o único grande desejo coletivo do goianiense para 2018 seja: volte, Iris, assuma o controle, comande a recuperação. Essa é a única e última esperança de Goiânia.

Vilmar Rocha 001

Declaração polêmica: Quando os governos se exaurem?

Do alto de sua vasta experiência, o ex-deputado federal e presidente regional do PSD, secretário Vilmar Rocha, entrou num caldeirão de polêmica. Segundo ele, a base estadual se exauriu. É uma percepção sensorial ou mero palpite?

Secretário Vilmar Rocha defendia que seu partido compusesse a chapa majoritária da base que ele diz agora ter se exaurido

O secretário de Meio Ambiente e Cida­des, ex-de­pu­tado Vilmar Rocha, fez uma declaração perturbadora do ponto de vista da base aliada estadual comandada pelo governador Marconi Perillo, e que se mantém no comando político-administrativo do Estado desde 1999. Entre outros pontos de vista, Vilmar decretou a pena de morte para o programa de governo que conduz o Palácio das Esmeraldas. “A base aliada se exauriu”, assegurou ele. Ou seja, morreu, acabou.

Vilmar não explicou o que o levou a pensar dessa forma de maneira repentina. Até muito recentemente, ele defendia que seu partido pudesse participar da composição da chapa majoritária dessa mesma base que ele diz agora ter se exaurido. Mais do que isso, desde o ano passado ele insiste que será candidato a governador ou a senador da República.

Mas, afinal, governos se exaurem? A resposta é sim, governos podem eventualmente perder o entusiasmo. Mais ou menos como ocorre com as pessoas. Com o passar dos anos, o ímpeto juvenil dá lugar a um certo comodismo. Mas também como ocorre com as pessoas, tem velhinhos e velhinhas por aí que esbanjam jovialidade, mais até que muitos jovens. Isso vale também para os governos, que dependem de constante renovação de ideias e de práticas de ação administrativa. Seria o caso de se perguntar ao secretário se ele acha que todos estão desanimados e acomodados ou se apenas ele está.

Por outro lado, a troca de grupamento político é sempre uma equação bem mais complicada. O eleitor topa trocar governos com os quais não se identifica plenamente sem maiores problemas, mas não pula no escuro. Antes de mudar, o eleitor procura saber o que lhe é oferecido como alternativa àquilo que ele tem. Ou seja, normalmente, o curso das mudanças de comando passa pela exaustão do grupamento que está no poder e das propostas que os grupos adversários conseguem oferecer como alternativa.

Uma pergunta pertinente é: o governo atual ainda se renova em termos de ação administrativa e comportamento político? A resposta é simples, fácil e direta: sem nenhuma dúvida. Para ficar em um exemplo do atual período administrativo, basta observar o programa Goiás na Frente. Há inovação na proposta? A base da ideia é idêntica, erguer obras que atendam aos interesses dos cidadãos. A forma como isso está se fazendo é, sim, absolutamente inédita. Qual outro governo adotou o repasse da verba diretamente para os prefeitos para que o próprio município faça a obra de acordo com seu projeto ideal? Até então, a prática era outra. O prefeito subia os degraus do Palácio, pedia a obra, e o Estado ia lá e fazia tudo sozinho. Agora, é a própria cidade quem faz.

E houve alguma mudança na prática política? Os próprios prefeitos filiados a partidos da oposição garantem que sim. Nenhum deles declarou se sentir discriminado pelo governo do Estado por não pertencer a um dos muitos partidos que integram a base aliada que governa o Estado. Como era antes? A obra saía, mas a ficha de filiação sempre antecedia a ordem de serviço. Até mesmo o arquirrival Iris Rezende, um dos maiores líderes políticos da história estadual, teve qualquer forma de constrangimento para ir ao Palácio, e depois receber o governador na Prefeitura, acertar parceria administrativa. Isso seria algo impensável há alguns anos.

Na trincheira do outro lado, o que se vê até agora é somente uma guerra sem quartéis entre os dois principais postulantes ao governo estadual, o deputado federal Daniel Vilela, presidente regional do PMDB, maior partido de Goiás em número de filiados, e o senador Ronaldo Caiado, presidente regional do DEM. Sobre propostas, ambos defendem pontos de vista praticamente idênticos: é hora de mudança ou de mudar. É óbvio que eles sabem que vão ter que construir uma plataforma de governo que supere o que o eleitor tem recebido. Só falar em mudança não muda nada. É um discurso que agrada apenas ao já convertidos, sem capacidade de convencer eleitores fora desse círculo.

Também o governo terá que apresentar um leque de propostas que avancem em relação ao estágio que está inserido na percepção do eleitor. Adotar o discurso do “mais do mesmo” é tremendamente arriscado, vide o resultado de 1998, que decretou o fim da era peemedebista no Palácio das Esmeraldas. O PMDB, naquela eleição, cometeu o erro terrível, e que se revelou fatal, se manter tudo como sempre esteve. As propostas do Tempo Novo avançaram e a então oposição, um pequeno exército mambembe de apenas quatro partidos, virou uma eleição improvável.

Talvez por todo esse conjunto de determinantes é que a declaração de Vilmar Rocha tenha gerado um enorme mal estar para ele dentro da base aliada. Vozes discordantes foram ecoadas em vários setores, mas não se ouviu um só curto comentário de apoio a ele. Ao final, a imagem que ficou é que Vilmar se virou contra a base aliada porque percebeu que a sua postulação, governador ou senador, não encontrou eco. Não parece ter sido percepção sensorial ou palpite. Soou como mero desabafo de alguém que não teve acolhida a sua pretensão.

urna eletrônica. Foto: Nelson Jr./ ASICS/TSE

Pesquisas um ano antes: O que 20 anos de eleição revela?

Na semana que passou, foi dado o start para as pesquisas pré-eleitorais. É quase uma tradição na política estadual. Mas, afinal, esses levantamentos indicam alguma coisa real para a futura eleição?

Urna eletrônica. Foto: Nelson Jr./ ASICS/TSE

Pesquisas eleitorais realizadas com um ano de antecedência projetam de certa forma alguma tendência para a eleição? Em termos de resultado, a resposta é não. Pelo menos é o que se pode perceber muito claramente observando as pesquisas realizadas em período semelhante nas últimas duas décadas, em Goiás. Em praticamente todas as cinco eleições que nesse período, os números iniciais das pesquisas não se confirmaram nas eleições. Em alguns caso, nem ao menos como tendência futura. Se é assim, como tem sido, por que as pesquisas causam tanta fervura no caldeirão político. Ora, porque o assunto sempre incendeia o lado mais humano e latino das campanhas políticas: a emoção. Pro bem e para o mal.

E não é só na disputa para o governo estadual que pesquisas temporãs são destruídas pelos resultados das urnas. Isso já ocorreu várias vezes tanto na disputa pela Presi­dência como na corrida pela Prefeitura de Goiânia. Em 1994, na eleição de Fernando Henrique Cardoso, as primeiras pesquisas mostravam Luiz Inácio Lula da Silva bem à frente dos demais adversários. No final, FHC ganhou os dois turnos. E Lula também havia largado na dianteira nas duas eleições anteriores, em 1989, que acabou vencida por um candidato até então muito pouco conhecido, Fernando Collor, que nem era citado nos primeiros levantamentos.

Em Goiânia, esse fenômeno acontece em menor escala, mas algumas vezes são incríveis. Em outubro e novembro de 2011, o então prefeito Paulo Garcia (falecido recentemente), herdeiro do cargo em 2010 com a desincompatibilização de Iris Rezende para disputar o governo do Estado, aparecia com porcentuais tão insignificantes que petistas de sua própria corrente interna não botavam a menor fé em sua candidatura. Um ano depois, Paulo não apenas derrotou todos os adversários como conseguiu a proeza de fazer isso já no primeiro turno, tornando-se assim o segundo prefeito da história a liquidar a eleição em turno único — o primeiro foi Iris Rezende, na eleição anterior.

Nas eleições estaduais, as pesquisas temporãs revelam quadros que na realidade produzem algumas catástrofes para os tais favoritos de primeira hora. No início de 1998, quando seria natural a candidatura do então governador Maguito Vilela à reeleição, Iris Rezende resolveu abandonar o Ministério da Justiça de FHC para novamente disputar o governo, após ter sido eleito em 1982 e 1990. Nas primeiras pesquisas que incluíam o nome dele, sua dianteira era tão grande que a planície adversária não era povoada. Diante de mais de 70% de intenções de voto de Iris, a pequena oposição, composta por somente quatro partidos (PSDB, PP, DEM e PTB) correu o risco de perder por WO. Até que surgiu um nome disposto a disputar, e que acreditava naquilo que parecia ser absolutamente impossível: derrotar o até então invicto Iris Rezende. Marconi Perillo, então deputado federal, deixou uma reeleição considerada bastante tranquila para enfrentar a fera eleitoral. Os tais 70% de Iris, contra apenas 6% de Marconi, viraram fumaça. O peemedebista perdeu os dois turnos. No primeiro, somou 46,91% dos votos válidos, enquanto Marconi recebeu 48,59%. No segundo turno essa diferença aumentou: 53,28% contra 46,71%.

Um pulo até outubro de 2001, exatamente um ano antes da eleição. As pesquisas mostravam o senador Maguito Vilela com praticamente 17% de vantagem sobre a reeleição de Marconi.

Para o mundo fervilhante da política, a eleição de 2002 estava absolutamente perdida. Isso porque Maguito, apesar de ter passado quatro anos de seu mandato em Brasília, ainda tinha um recall fortíssimo de seu popularíssimo governo. Pois a eleição realmente foi perdida… por Maguito. Marconi, ao longo do ano, cresceu continuadamente e não apenas venceu a eleição, como conseguiu a vitória no primeiro turno. Até hoje, foi o único governador eleito em turno único, com 51,2% dos votos válidos. A frente de Maguito que era de 17% virou prejuízo de 19%, fechando a eleição com 32,7% dos votos válidos.

Em 2005 provando e comprovando que esse raio cai, sim, no mesmo lugar, e geralmente estraçalha pesquisas temporãs, Magui­to Vilela, Demóstenes Torres e Barbosa Neto era o trio que aparecia dividindo a bola da liderança rumo ao Palácio das Esmeraldas. Ocupando uma quarta e distante po­sição desse pelotão estava Al­cides Rodrigues, candidato à reeleição com a desincompatibilização de Marconi Perillo para disputar o Senado. Contados os votos um ano depois, Alcides cravou 48,22% dos votos contra 41,17% de Maguito, 6,56% de Barbosa Neto e 3,51% de Demóstenes. O se­gundo turno foi um passeio: Al­cides, o improvável um ano antes, bateu em 57,14% dos votos válidos, contra 42,86% de Maguito.

Em 2010, Marconi estaria de volta, mas o caminho estava bastante acidentado. Nas primeiras pesquisas os institutos registravam empate técnico, com Iris Rezende. Ele tinha as três máquinas administrativas contra ele: Prefeitura de Goiânia, nas mãos de Paulo Garcia, Governo do Estado, com o neoadversário Alcides, e o governo federal, com Lula. No primeiro turno, Marconi obteve frente de 10 pontos — 46,33% dos votos contra 36,38% de Iris. No segundo turno, com o empenho das três máquinas, a diferença caiu para pouco mais da metade, 6%.

Em 2014, já em meados do primeiro semestre, as pesquisas eram unânimes: Marconi, candidato à reeleição, corria algum risco. Todos os institutos mostravam Marconi na frente e Iris logo atrás, em empate técnico. Um instituto chegou a cravar, em julho, que o peemedebista tinha virado a eleição, com 34,5% contra 33,9% de Marconi, quadro de empate técnico. Computados os votos, Marconi tinha registrado uma vitória com nada menos que 7% de vantagem no primeiro turno — 45,86% contra 38,4% de Iris. A diferença ficou praticamente a mesma no segundo turno, com placar final de 57,44% contra 42,56%.

No resumo da ópera das pesquisas eleitorais temporãs, realizadas com grande antecedência e ainda sem condições de captar o emocional da campanha, fica o histórico de que esses levantamentos servem para mexer com a militância, para o bem e para o mal, mas nunca funcionam como parâmetro de previsão de resultado futuro.

Caiado Daniel e Eliton

Favoritos 2018: As “armas” dos principais candidatos

Quais são os pontos fortes eleitoralmente de José Eliton, Daniel Vilela e Ronaldo Caiado

Ronaldo Caiado (DEM), Daniel Vilela (PMDB) e José Eliton (PSDB): os três principais nomes na disputa para 2018

É claro que o quadro geral de 2018 em Goiás ainda não está definido, muito embora a situação seja considerada definitiva na base aliada estadual, com a candidatura do vice-governador José Eliton, que estará despachando no Palácio das Esmeraldas durante o processo eleitoral com a desincompatibilização do governador Marconi Perillo em abril para disputar, muito provavelmente, uma das duas vagas de senador que estará em jogo no ano que vem. PMDB e DEM, que ensaiaram bastante um casamento eleitoral, com o lançamento de apenas uma candidatura, parece que estão dando um tempo no noivado. Pode ser até que a união volte a frequentar as cercanias dos dois partidos, mas neste momento a distância entre eles é muito grande.

Quais são as potencialidades eleitorais de cada um deles? Antes de mais nada é preciso sempre levar em conta que não se vence eleições na véspera do processo eleitoral, nem se perde. Há, sim, candidaturas que se colocam no campo competitivo e outras que se apresentam com a nítida e indisfarçável função de somente marcar presença. Favoritismos existem, mas nem sempre o que parece ser inexorável ou apenas uma questão de tempo se confirma nas disputas eleitorais. Eleição são, provavelmente, o maior e mais sensacional cenário favorável à mudança rápida e surpreendente. De qualquer forma, candidaturas competitivas dificilmente são superadas pelas ações despretensiosas e sem embasamento político-partidário.

Assim, José Eliton, Daniel Vilela e Ronaldo Caiado se colocam acima da média geral das candidaturas até aqui ventiladas. Cada um ao seu modo e dentro de suas estruturas partidárias, eles se destacam. E todos eles têm potencialidades especiais, “armas” eleitorais que devem ser utilizadas à farta no ano que vem.

O vice-governador tem na base aliada o seu grande trunfo. É o mais significativo e azeitado exército eleitoral do Estado. Integrada por vários partidos grandes e também por pequenas siglas, cobre com folga cada centímetro habitável do Estado. É um poder avassalador, sem nenhuma dúvida. Ao ponto de vencer a mais improvável eleição das últimas décadas, em 2006. O então candidato, governador Alcides Rodrigues, iniciou a campanha à reeleição como se fosse um nanico qualquer. Além disso, seu raciocínio nos debates e entrevistas era tão lento que causava constrangimentos. Em um dos debates na TV (Anhanguera, mediado pelo repórter global José Roberto Burnier), Alcides se perdeu em anotações e quase não conseguiu formular uma pergunta. Foram os segundos de silêncio mais longos da história eleitoral no Estado, ao ponto de o mediador chamar a atenção de Alcides duas vezes – “Sua pergunta, candidato”, cobrou ele. No final do primeiro turno, Alcides, que havia iniciado a campanha com menos de 10% nas pesquisas de intenção de votos, surgiu à frente do até então líder absoluto, Maguito Vilela. Ele confirmou a vitória também no segundo turno.

Por aí se tem uma noção do que estará à disposição de José Eliton na campanha do ano que vem. Mas é óbvio que não é possível antecipar se esse experiente e bem-sucedido exército eleitoral continua com a mesma força de outrora. Mas é certo que José Eliton tem um discurso muito mais afiado do que Alcides, além de conhecer e participar ativamente da administração. Isso lhe dá um potencial informativo que embasa ainda mais seu conjunto de propostas, além de proporcionar uma boa convivência partidária.

O senador Ronaldo Caiado tem no seu enorme histórico eleitoral – sua primeira disputa foi em 1989, como candidato a presidente da República. De tradicional família ruralista e política, é herdeiro natural do potencial eleitoral desses segmentos, mas também conseguiu somar eleitores fora desses eixos. Ele tem fortíssima presença política em praticamente todas as cidades do Estado, e foi eleito e reeleito diversas vezes como candidato a deputado federal, e chegou ao Senado em 2014. Discursa com enorme facilidade e agressividade. Tem ainda grande penetração entre os eleitores que rejeitam mais radicalmente a esquerda, especialmente a representada pelo PT e seus aliados. Seu único grande aliado é o prefeito de Goiânia Iris Rezende. É o mais conhecido dos pretendentes.

O deputado federal Daniel Vilela é o mais jovem dos três candidatos. Isso não significa que ele seja desconhecido. Filho do ex-governador Maguito Vilela, significa que tende a surfar na administração do pai, entre 1995 e 1998, que teve fortíssima aprovação popular. Sua maior força vem do fato de que o PMDB permanece, apesar de estar longe do Palácio das Esmeraldas há duas décadas, o partido com maior número de filiados em Goiás. Costuma-se dizer, com certa razão, que não há um só quarteirão nas cidades e povoados do Estado que não tenha pelo menos um peemedebista. Tem discurso leve e rápido, e nesse aspecto é até melhor articulado, embora com menos conteúdo, do que seu pai. Ele vende a imagem de representante legítimo da renovação interna no PMDB estadual. Foi vereador, em 2008, deputado estadual, em 2010, e chegou a deputado federal em 2014. Em três disputas, venceu todas.

Pelo que se pode perceber, é impossível apontar um favorito absoluto. No quadro atual, um deles deve vencer as eleições do ano que vem, mas como foi destacado logo na abertura desta Conexão, ainda tem um mar inteiro de possibilidades para passar por baixo de ponte que liga ao Palácio das Esmeraldas.

Iris: como escapar do desastre total  na Câmara?

Massacre na Câmara: E agora, prefeito?

Câmara Municipal votou e aprovou projeto proibindo aumento continuado do IPTU. O prefeito vetou. A derrubada do veto se transformou em divisor de águas
Afonso Lopes
Na semana que passou, a Câmara de vereadores de Goiânia analisou veto do prefeito Iris Rezende sobre lei que proíbe o aumento continuado do IPTU. Após intensas discussões, veio o confronto dos votos, como reza as regras democráticas em vigor. O resultado foi uma formidável surpresa. O prefeito foi fragorosamente derrotado por 29 votos, contra quatro. Não, não é um placar normal em nenhuma circunstância: 29 a 4 é um marco, um divisor de águas. E o que é pior, o que restou dessas águas é um mar revolto como jamais se viu antes.
Talvez tenha sido a pior derrota legislativa de todos os seis mandatos de prefeito e governador exercidos por Iris Rezende. Nem como governador em dois mandatos e em nenhum dos três períodos como prefeito anterior ao atual mandato Iris enfrentou uma resistência tão grande. O que houve na Câmara de Goiânia foi nada menos do que um massacre político, um extraordinário levante.
Colocado sob a visão de um raio X, percebe-se que o descalabro político dessa votação é muito pior do que seu placar humilhante exibe. O prefeito não teve um voto, um único voto, de vereadores dos partidos que foram eleitos na sua coligação. Nem de seu próprio partido, o PMDB. Isso revela que o prefeito terá que recomeçar a formar de seu governo do zero. Se mantiver tudo com a formatação política que aí está, será agonizante a caminhada até o final de mandato, em 2020.

Iris: como escapar do desastre total  na Câmara?

Iris: como escapar do desastre total na Câmara?

Sempre se soube que o prefeito saiu das urnas com minoria eleita na composição partidária na Câmara. Portanto, não seria nenhuma novidade enfrentar alguns problemas. Mas nunca, jamais, ao ponto em que chegou, de perder apoio de “seus vereadores”, e até da bancada do seu velho PMDB de guerra. Não, passou muito da conta política. Tornou-se uma questão de governabilidade, palavra que traz em seu bojo uma outra, que se sabe fundamental para a obtenção política da primeira: habilidade.
É de se questionar seriamente essa tomada de posição, que transforma a Câmara Municipal numa espécie de República Independente. Por que chegou a esse ponto? o que poderia ter sido feito antes para evitar esse desastre com perda total? O que se deve fazer de diferente de agora em diante para causar um mínimo de normalidade na relação Prefeitura de Goiânia/Câmara Municipal? Essas são as perguntas sobre as quais o prefeito Iris Rezende deve se debruçar, juntamente com aquele que parece ser o único – e último – integrante do núcleo pensante e formulador do prefeito, o secretário Paulo Ortegal. É necessário avaliar e entender o que aconteceu e como evoluiu para refazer, desta vez corretamente, aquilo que foi feito de forma errada.
Iris Rezende, em sua primeira declaração pós-massacre, concluiu que terá que finalmente, quase um ano depois de sua posse, indicar um líder de governo. Sim, por incrível que possa parecer, o prefeito não tem nem líder na Câmara de vereadores. É errado, evidentemente. Esse cargo funciona como um parachoque, que recebe as pancadarias iniciais da bancada situacionista, ameniza os impactos e passa a intermediar diretamente com o prefeito as melhores e mais aceitáveis soluções. Sem essa figura, a Prefeitura passa a receber a carga bruta, a maré de onda cheia. O papel de líder de governo é exatamente o de ser o quebra-mar desse tipo de maré e onda, além de ser a figura central do agente identificador de problemas, que invariavelmente acabam explodindo em plenário quando não contido a tempo. Iris preferiu utilizar secretários municipais para resolver os impasses já dentro do plenário. Isso nunca funcionou antes, e jamais irá funcionar no futuro, especialmente em períodos administrativos de vacas mais do que magras, esqueléticas. Sem falar que o vereador tem ao seu lado, como constante ameaça, o voto do eleitor, enquanto o secretário precisa agradar apenas o dono da caneta palaciana. O segundo nunca consegue compreender exatamente a linguagem do primeiro por mais competente e experiente que possa ser.
Tudo isso coloca o prefeito Iris Rezende diante de seu maior desafio político-administrativo. E nesse caso ele não tem como terceirizar responsabilidades, como tentou fazer ao receber vereadores, entre os quais o inquieto Jorge Kajuru, nada menos que o campeão de votos nas eleições do ano passado. Ao tratar sobre a estrutura de saúde pública, todas as questões levantadas, segundo explicou o vereador depois, receberam idêntica resposta: “veja isso diretamente com a secretária”. Embora obviamente não seja, soa como se ele estivesse afirmando que esse não é um problema dele, mas da secretária. Kajuru afirmou nesse pós-encontro na Prefeitura que jamais voltará lá.
Essa citação vale como porta de entrada para o futuro da relação Prefeitura/Câmara. Se o governo Iris, que está, como se viu no resultado da votação, completamente atordoado e perdido, conseguirá se reciclar e reconstruir. Resta saber se o prefeito Iris Rezende ainda tem pique para governar como em outros tempos. Se tiver, ainda há tempo suficiente para mudar o curso dessa tétrica história administrativa. Se não, vai ser uma agonia infindável até 2020.

Posto_de_gasolina

Jogo duro: Governo e população abrem guerra contra cartel dos postos de combustível

Através do sindicato patronal, os postos de combustível de Goiânia afirmam que não praticam cartelização no mercado, mas alinhamento de preços é uma das  características da existência de cartel

Os consumidores de Goiânia sempre pagaram alto pelos preços dos combustíveis. Muito mais, inclusive, do que os moradores de cidades próximas da capital. Mas o que já era excessivo se tornou completamente abusivo. Aproveitando uma fase de reajustes determinados pela Petrobras, que adotou a prática de baixar ou aumentar os combustíveis de acordo com o mercado internacional do petróleo, os donos de postos de Goiânia passaram a vender a gasolina e diesel mais caros dentre todas as capitais do país. Não há nada, rigorosamente nada, que possa justificar tal cobrança. Mais do que isso, é uma prática antiga o alinhamento de preços, o que vai contra a legislação que regula o setor, e fere de morte a tal lei do mercado, que tem na livre concorrência um de seus pilares básicos e essenciais.

Posto_de_gasolina

Justificativas – Os donos dos postos inicialmente acusaram a cobrança de ICMS como causa do preço mais alto na bombas de combustíveis de Goiânia. A Secretaria da Fazenda, Sefaz, mostrou que o imposto não é mais elevado do que a média nacional. Diante disso, os postos passaram a acusar o custo do produto, que tem os preços administrados pela Petrobras. O único problema nessas justificativas é que a mesma gasolina, mesmo diesel e mesmo etanol vendido em Goiânia por preços extremamente elevados, custam mais barato nas cidades do interior. O preço pago por esses estabelecimentos do interior para a Petrobras e o ICMS são idênticos aos da capital. Além disso, o frente entre a central distribuidora localizado em Senador Canedo, dentro dos limites expandidos de Goiânia, é imensamente mais baixo do que em cidades mais distantes.

Diante do abuso praticado, duas frentes surgiram quase simultaneamente. Motoristas do Uber e consumidores comuns resolveram fechar as saídas dos caminhões com combustível na central de Senador Canedo. Ao mesmo tempo, por ordem direta do governador Marconi Perillo, o Procon estadual passou a estudar uma forma de ampliar a fiscalização nos postos, pegando notas fiscais e fazendo comparativos de preços dos últimos seis meses, com informações cirúrgicas fornecidas pela Sefaz, e calculou assim as margens de lucros praticadas pelos postos de combustível. A conclusão documental é que apesar do aumento nos preços da Petrobras, o que mais disparou foi mesmo a margem de lucro.

O caso agora vai para julgamento da Justiça. Na sexta-feira, 17, o Procon entrou com ação judicial contra 96 postos de combustível de Goiânia, pedindo que a Justiça determine a imediata redução no excesso de margem de lucratividade. Além disso, o órgão estadual quer que a medida seja extensiva a todos os demais postos.

A situação poderá ficar ainda mais complicada para os donos de postos de combustível caso o Ministério Público Estadual consiga formular uma ação civil que comprove a formação de cartel dos empresários, que seria coordenado pelo sindicato patronal. O tradicional alinhamento de preços pode caracterizar a prática da cartelização do mercado, notadamente quando esse alinhamento ocorre para o aumento e não para a queda nos preços, que foi exatamente o que aconteceu. Outro indício é que os preços subiram de repente em quase todos os postos ao mesmo tempo, como se houvesse alguma “senha” que sinalizasse nessa direção. Isso é mais um sintoma da cartelização do mercado.

Pela legislação em vigor, tal prática é insuportável para o consumidor, e quando atinge setores essenciais, como é o caso dos combustíveis, as penas são muito mais severas, e podem implicar em sanções administrativas e até penais – em situações extremas.

Por fim, na sexta-feira, 17, a Petrobras, dando prosseguimento normal à sua política de preços com base nos índices internacionais, anunciou queda na gasolina de 3,8%, quebrando assim uma sequência de pequenos solavancos para cima ao longo das últimas semanas. O diesel baixou 1,8%.