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¨bafos e desabafos de um véio repórter…

Diário íntimo de um velho repórter: minha declaração de voto não diz nada

Vá lá: dentro da minha insignificância, se eu voto em um ou em outro não mexe bulhufas. É somente a minha escolha diante de um mar de quase 150 milhões de outras. Então, se penso dessa forma, por que, diabos, estou aqui escrevendo isso?

Em primeiro lugar, por mais que me procure em respostas, que meus neurônios pacificados por anos que já se contam em dezenas não processam como antes, creio que a razão é, de fundo, uma só: escrever é só o que faço. É meu único ofício, mas aqui, neste específico momento, não escrevo por dever, mas por prazer desabafo. Narcisista, de certa forma, confesso. Vamos lá, então: em quem vou votar para presidente?

Com toda a certeza, minha opção não será contra ninguém. Será, digamos assim, a favor. A favor da minha descrença de que os anos que ainda me restam por aqui – e desejo bastante que se estendam por mais algumas décadas – não sejam piores do que os atuais. Não tenho mais a ilusão de que o Brasil é o tal “slogado” país do futuro. É nada. Nunca foi.

calendário futuro

Vejo tantas coisas que considero erradas, grotescas, que provocam crenças tão absolutas nas multidões, que muitas vezes questiono se não sou eu que envelheci e me “ranzinei” demais. Talvez seja isso. Aliás, é isso, certamente. Acumulo, após 42 anos com os pés nas redações de jornais, rádios e televisões, mais dúvidas do que certezas. Acredito nas minhas soluções, mas estou permanentemente pronto para encontrar outras pessoas com soluções muito melhores. E piores também.

Meu voto nesta eleição vai externar na ponta dos meus dedos o resultado de todo o processo que moeu parte dos meus neurônios ao longo das décadas que vivi. Nenhuma ilusão de paraíso próximo, nenhuma crença no futuro lindo, nada de nirvana nos meus horizontes. Apenas meu voto. Não tenho a mínima confiança absoluta de que um ou outro é a solução para tudo. Eu me permito duvidar até das minhas escolhas. Portanto, não as recomendo a ninguém. Não por omissão, mas por respeito.

Diário íntimo de um velho repórter… 30 anos de democracia, e ainda somos aborrecentes

Desde a primeira eleição para presidente, em 1989, logo após o regime militar instalado em 1964, já se passaram 30 anos. Diante da história humana, um lapso de segundo apenas. Em nossas mundanas e curtas existências, é tempo pra caramba. É só comparar com o que aconteceu com crianças que nasceram em 1989. Eram bebezinhos. Hoje, homens e mulheres. E a nossa vida democrática, o que houve com ela? Tornou-se adulta também?

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Não, né? Tenho a tentação nesta analogia de dizer que nossa atual democracia está muito mais para aquela fase aborrecente do que para adulta. Ficamos passionais demais da conta. Vá lá que a nossa latinidade tem dessas coisas, mas normalmente quando a emoção transborda, a razão encolhe. Talvez, envergonhada.

“Ahh, mas isso é ‘culpa’ da mega exposição nas redes sociais”, ouço claramente o inconsciente bradar em meus velhos miolos. Não me convence. Creio, sim, que o espelho ficou muito maior que nossos narcisos com a ultra divulgação nas redes sociais. Mas apenas isso não explica nada. Ou explica muito, mas não explica tudo.

Haddad ou Bolsonaro? É óbvio que existem muitas diferenças entre eles. E é natural que uma parcela de nós se identifique com um, e a outra parcela de nós se identifique com se veja melhor com o segundo. Mas quem tem bola de cristal para saber realmente o que será um e outro depois que tudo isso passar. Pode-se imaginar, mas jamais ter a mínima certeza. O futuro, esse tempo que ainda virá, só nos permite uma certeza. Só uma. Nada mais além disso.

E ouso afirmar que nossa vida democrática está mais para aborrecente do que para adulta porque vivemos dias como se tivéssemos todas as certezas da existência. Alguma semelhança com as deliciosas experiências da puberdade? Vejo muitas.

Restando uma semana para a eleição, ainda não tenho irreversível definição sobre em quem votar. Neste momento, meu voto não iria nem para Bolsonaro e nem para Haddad. Tenho me esforçado na tarefa de não permitir que meu senso prevaleça dentro de uma bola de cristal – votar neste para ajudar aquele ou contra o outro. É, sim, uma tentativa de ser adulto, de responder como um velho com mais de meio século de caminhada – velho, não velhinho. Não tá fácil, não.

No fundo, ainda somos pouco além de crianças.

Diário íntimo de um velho repórter: nunca vi uma eleição começar e terminar do jeito que começou

Gosto muito deste espaço, o “Diário íntimo”. A primeira vez que ele surgiu foi como pequena coluna dentro de uma colunona de página dupla no Jornal Opção. O inesquecível Herbert de Morais Ribeiro é quem me incentivou a fazê-lo: “escreva você sobre você”. Mas qual a linha editorial? Política ou comportamento? “Impressões pessoais”.

Muitos anos se passaram, o velho e precursor “Diário íntimo” desapareceu numa mudança editorial do jornal, e só retornou neste site, já com o acréscimo do “velho repórter”. Sim, o tempo passa – ainda bem.

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O tal “velho” é a única atualização da ideia original. Talvez por essa razão eu curta pra caramba me espraiar por aqui.

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Mas vamos ao tema, desta vez essencialmente político: nunca vi uma eleição como esta. Aliás, o correto seria situar como campanha e não exatamente eleição – que acontece num único dia, ou em dois em caso de necessidade legal.

Ahh, e cabe aqui, aos puristas da velha, bela e complicada flor do lácio a respeito da reafirmação/repetição de palavras que quase sempre constam em meus textos. São intencionais na maioria das vezes. O título deste momento “Diário íntimo” é uma desses. “Nunca vi uma eleição (campanha) começar e terminar do jeito que começou”. Poderia encurtar pra ficar mais direito, mais jornalístico. Mas o “Diário” é íntimo, não exatamente jornalismo.

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Mas o fato é que a campanha deste ano está absolutamente inusitada. Tenho adoração pela ciência estatística que são o alicerce das pesquisas eleitorais. Me interessei, e fiquei completamente apaixonado, através de leituras sobre o primeiro a sintetizar as pesquisas, o americano George Gallup, na década de 1930. Por aqui, elas se popularizaram no final dos anos 80, e atingiram o apogeu na década seguinte. Depois disso, como filão econômico – inúmeras vezes subterrâneo – tornaram-se complicados. A ciência perdeu muito para os cifrões graças à influência que as tabelas de percentuais dos candidatos exerceu sobre o eleitorado menos comprometido com o processo de escolha. E até isso foi avacalhado de tal forma que o poder das pesquisas despencou mesmo entre a parcela que restou de eleitores que votam para “não perder o voto”.

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Mas chega de desviar o foco. Vamos ao ponto. Acompanho as campanhas em Goiás desde a redemocratização, em 1982. E nunca vi uma só começar e terminar exatamente com a mesma formatação, sem alterações. Algumas, poucas, é verdade, até com viradas inusitadas.

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E neste momento eu me pergunto se vou viver a primeira eleição/campanha sem qualquer alteração. Com toda a sinceridade, tenho dúvidas se isso irá mesmo acontecer. De qualquer forma, e ainda assim, já há um fato diferente a ser registrado: nunca, até então, um quadro geral se manteve tão espantosamente estático como o atual. Há um ano, Ronaldo Caiado liderava as pesquisas mais ou menos com os mesmos índices exibidos atualmente. Muitos fatos políticos aconteceram em torno dele – e quase todos no sentido de enfraquecê-lo – como a falta de densidade representativa de sua enorme coligação de partidos chamados de nanicos.

Nenhuma análise jornalística séria concluiria que nada iria mudar. Pois nada mudou até aqui. E não foi por falta de esforço dos seus dois principais adversários, José Eliton e Daniel Vilela. E nem por falta de qualidades deles.

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Me confesso absolutamente curioso sobre o futuro próximo desta campanha/eleição em Goiás. Será uma novidade na história das eleições do Estado ou somente um caminhar diferente durante um certo tempo com emoções mais fortes na fase final como sempre aconteceu até hoje? Não sei. Nunca tive bola de cristal, mas curiosidade tenho de monte.

Diário íntimo de um velho repórter… Por que tanta pressa em ser ridículo nas redes sociais?

É sempre assim. A cada acontecimento extraordinário, as redes sociais, principalmente as abertas, como Facebook e Twitter – que escapam dos grupos fechados, como o WhatsApp -, são inundadas por uma pressa absurda de zilhões de usuários ávidos por postarem suas posições e convicções definitivas. irreparáveis, irrefutáveis e geniais. A velha e antiga máxima do “apressado come cru” é solenemente esquecida, superada instantaneamente por dedos que ganham vida própria independente, e que agem sem qualquer ordenamento do cérebro.

“Isso é próprio da idade (no caso, pouca idade)”, alegam alguns mais velhos. Não, não é. A pressa pela exposição da genialidade do eu endeusado é comum a todas as idades. Dos mais jovens, e naturalmente apressados, aos mais velhos. E também não obedece qualquer princípio lógico de atuação profissional. Até jornalistas,  muitas vezes contaminados pela ideologia cidadã, se apressam em deixar os dedos fluírem ávidos pelos teclados, e inibem qualquer possível reação lógica do cérebro.

Sim, é a maioria dos usuários das redes sociais que se esbalda na intelectualidade rasa do dedo célere e do cérebro silenciado. Sim, há uma minoria que resiste à tentação da celebridade instantânea que os dedos falsamente provocam ao entorpecer as sensações abominadas por Narciso e seus iguais. Felizmente a vida ainda insiste em desafiar a morte em rede do sentimento humano primário. Não é necessário ser melhor, não é necessário ser mais inteligente. Basta seguir vivendo, e deixar viver.

Ao general Mourão: somos malandros e indolentes, mas a “culpa” pode ser dos brancos, né?

O general da reserva Mourão, candidato a vice-presidente na chapa liderada por Jair Bolsonaro, lascou o pau da goiaba: o brasileiro é um povo indolente e malandro. Sim, general, o senhor, ao meu ver, tem razão. Temos, majoritariamente, esse tipo de comportamento  deplorável. Só não concordo com o senhor quando aponta para a causa. Para o senhor, general Mourão, a malandragem é herança dos pretos e a indolência vem dos indígenas. Eu fico aqui me perguntando como essas duas minorias conseguiram “contaminar” a maioria branca… Não seria mais coerente imaginar que seria o inverso, os brancos é que influenciaram negativamente? Não tenho a menor ideia, general.

Aliás, é difícil encontrar unanimidade nesse tema mesmo entre aqueles que passaram a vida toda ralando nos bancos escolares. Alguns, por exemplo, chegam a dizer que isso tem a ver com o clima tropical – quente e úmido. Pode ser, mas sei lá se é isso ou qualquer outra coisa.

Entendo, general Mourão, que muito mais importante do que apontar para esta ou aquela causa é manter um comportamento melhor. Acredito que o senhor faça isso. Então, que tal passar a sua boa influência aos demais ao invés apontar o dedo. O dedo apontado não muda nada, general, acredite. Provavelmente, só faz piorar o que já é péssimo.

Caramba, hora de entrar na fila dos “velhinhos” do INSS…

Lá atrás, 12 dias após completar 18 anos, tive meu primeiro registro na carteira de trabalho. E lá se foram 40 anos de estrada… No total, 42 anos de redações de jornais, rádios e TVs.

Sem essa de que “parece que foi ontem”. Parece que faz um tempão. E faz mesmo. Do jovem com barba rala, à beirinha dos 60 com barba grisalha. A aposentadoria finalmente chega. Longe de ser uma notícia ruim, embora saiba que muita gente não goste. Eu adorei receber a informação do INSS: oficialmente aposentado.

Máquina de escrever Olivetti portátil. A primeira a gente nunca esquece... (meu pai tinha uma)

Máquina de escrever Olivetti portátil. A primeira a gente nunca esquece… (meu pai tinha uma)

Não vou parar de trabalhar. Acho que só vou parar quando não puder fazer mais. Por enquanto, da pra levar as coisas. Num ritmo menos intenso, claro. Mas como deixar de ser jornalista depois de 42 anos? Não tem jeito.

Cansado? Demais da conta. Ser jornalista/comunicador é viver em estresse permanente. É ver “pautas” sempre, nas noites mal dormidas ou nas mesas de bares. É saber que não existe fim do expediente. É ter a certeza que o final do dia pode ser somente o início de jornada extra diante de um fato repentino. Quantas vezes isso aconteceu nesses 42 anos dentro de redações? Muitas. Não sei quantas vezes, mas foi uma porção.

E como deixar o jornalismo para ser somente um aposentado se a comunicação é o oxigênio. O pique, evidentemente, não é mais o mesmo. O corpo vive o apogeu da grande corrida desabalada da decadência. Os neurônios, surrados por tanto tempo, escravizados pelo funcionamento em tempo integral, igualmente decaem. Mas ainda funcionam. Se não é mais possível enfrentar a loucura intensa do dia a dia nas redações de diários, que exige absurdamente, adequa-se às limitações para continuar jornalista. Aposentado, sim, mas jornalista como sempre.

O jornalista nasce jornalista. A academia ensina a técnica, mas a essência é condição natural. Ninguém “vira” jornalista. Ou nasce jornalista, ou jamais será um.

Certa vez, convidado por um amigo professor de comunicação, falei para turma de alunos sobre o dia a dia da profissão, deste ofício. Depois, ao final, um pequeno grupo me rodeou e perguntou: “vale a pena ser jornalista?”.  Tive um  momento de dúvida sobre o que responder. Vale a pena ou não? Sei lá se vale. Até hoje eu não sei. Acho que nunca saberei se vale a pena ou não. E dentro das minhas dúvidas, respondi: se você algum dia se imaginou fazendo outra coisa de agora até o fim da sua vida, mude seu curso imediatamente. Se jamais pensou em alternativa, então é porque você nasceu jornalista, e não há nada que possa fazer. Quem não é jornalista até conseguirá viver algum tempo como jornalista, mas nunca será jornalista em tempo integral.

Talvez por isso eu comemore a chegada da aposentadoria. É pouco, mas é o resultado de uma vida inteira. E igualmente comemoro por jamais ter sido questionado judicialmente por calúnia, infâmia e difamação. Não condeno colegas profissionais que passaram por esse dissabor, mas igualmente não me condeno por não ter sido. Permitam a este velho repórter esta dupla comemoração.

Novas observâncias e implicâncias de um velho repórter

A internet revolucionou a vida humana no planeta. Não há como escapar desse novo mundo, dessa nova Terra.

Mas ela, a internet, também nos mostrou carentes. Somos carentes de carinhos, afetos, relações humanas. Ao longo das últimas décadas, seja pela pressa mundial, seja por qual motivo for – e eles são muitos – tornamos nossos mundos cada vez menores. Nossas órbitas emocionais se reduziram. Quando muito, nos relacionamos realmente com meia dúzia de pessoas.

As redes sociais de certa forma substituíram, mas não supriram, essa redução social de cada indivíduo. Nos tornamos assim, embora ilusoriamente, cidadãos de enormes comunidades virtuais. E para nos mostrarmos perante todos, na frenética atividade de sobrevivência em grupo, criamos convicções sobre tudo e todos os modos.

Foto: site 50emais.com

Foto: site 50emais.com

Mas onde foi parar o manancial da argumentação? As redes sociais se bastam em convicções, mas as pessoas, no mundo real, precisam mais de argumentação. Em qualquer atividade humana. São os argumentos que nos diferenciam enquanto animais terrestres.

Mas sabe duma coisa? Talvez eu esteja com convicção em demasia sobre tudo isso que falei até aqui. Ou seja saudosista demais da conta. Não me incomoda nem um pouco ficar com essa dúvida. Convivo razoavelmente, ou pelo menos tento conviver, com minhas dúvidas. Tento argumentá-las comigo mesmo, e nem sempre consigo.

Desesperanças? Muitas. Uma porção mesmo. Mas depois de mais de meio século de perambulâncias pela vida, a única boa esperança, já dobrada ao cabo, é seguir vivendo. Absolutamente convicto de que viver a própria vida é o único argumento que realmente importa. Quanto aos demais das imensas comunidades virtuais, que vivam como acharem melhor, ou como julgarem ser o ideal. Não tenho argumentos fortes e embasados suficientemente para mudar a mim mesmo. Então, seria demasiadamente pretensioso tentar mudar alguém. Já disse uma vez que não sou exemplo de coisa alguma para pessoa nenhuma. Ninguém é. Isso basta.

Bonecos e bonecas de natal: a ideologia de gênero é semântica ideológica (às vezes, interesseira)

Virou um deus-nos-acuda, um sarará geral. Bonecas e bonecos, fabricados com pepequinha e pipiu se transformaram em tema de debates acalorados. Alguns, sinceros, embora equivocados. Uma boa parcela, criada artificialmente para atender somente interesses não confessados e abertamente eleitorais. Afinal de contas, onde está a tal questão colocada: no pipiu dos bonecos, na pepequinha das bonecas ou nas cabeças de quem entra no jogo.

Onde está a ideologia: no pipiu, na pepequinha ou na cabeça de quem vê

Onde está a ideologia: no pipiu, na pepequinha ou na cabeça de quem vê

Essa é uma discussão antes de tudo de semântica ideológica. Biologicamente, os humanos nascem com pipiu ou com pepequinha. Uma parcela ínfima, sim, surge de uma eventual falha nos cromossomos. Comportamento, tendências e preferências da sexualidade são outra coisa. A maioria das pessoas é bastante radical, burramente radical, e não aceita as zilhões de possibilidades que a sexualidade das pessoas humanas permitem. É onde entra a tal diversidade, que acabou colocada sob o holofote das discussões com o radicalismo da ideologia.

Um boneco muito popular e querido da década de 1970, o Marrequinho tinha pipiu, cabelos compridos e lábios vermelhos

Anos 1970: Marrequinho tinha pipiu, cabelos compridos e lábios vermelhos. Sem polêmica, não havia a ideologia de gênero. Representava um bebê masculino

Diretamente, em relação aos bonecos e bonecas, pode-se acusar a exploração da ideologia de gênero? Somente se atender ‘topeiras” religiosas ou sociais e políticos interessados em provocar.

O pipiu e a pepequinha talvez atendam menos a tal ideologia do gênero do que as bonecas assexuadas, lisinhas onde deveria estar a diferença externa entre homens e mulheres. Basta lembrar de uma coisa: bonecas e bonecos são uma representação de crianças humanas para o entretenimento de crianças reais. Ou seja, são “bebês”. Se estão separados entre bonecos com pipiu e bonecas com pepequinha, é óbvio que a mensagem que passam é muito mais próxima da genética do que da tal ideologia da polêmica. As bonecas e bonecos assexuados representariam, no outro extremo, que o humano não nasce homem ou mulher, que é onde está o cerne da ideologia de gênero. É só uma questão de ponto de vista.

Queremos deputados noruegueses, mas nos comportamos como brasileiros…

É para se pensar. A renovação de nomes de parlamentares nas eleições brasileiras gira em torno de 50%. Em alguns anos essa diferença é menor, mas quase sempre gira em torno disso. Ou seja, metade dos parlamentos brasileiros, em todos os níveis, é repovoado a cada eleição. E o resultado dessa renovação de nomes é desolador. A cada legislatura a sensação é de que a situação só faz piorar constantemente.

Noruegueses: se eles conseguiram, nós também podemos conseguir

Noruegueses: se eles conseguiram, nós também podemos conseguir

Aliás, me lembro de uma frase do saudoso Ulysses Guimarães, um dos maiores políticos da história recente do Brasil, quando da época da Constituinte de 1988. Durante entrevista, um repórter perguntou a ele por que a composição da Câmara era tão pior em termos qualitativos do que a anterior. Ulysses respondeu calmamente do alto de sua vasta vivência: “Você acha que este Congresso é ruim? Espere para ver o próximo”.

E de lá pra cá, seguimos piorando a cada eleição. E, não, não é o caso de se execrar a democracia. Ao contrário, o caminho é dentro dela. A democracia não é a culpada. Os culpados somos nós, população brasileira.

Ficamos babando de inveja de noruegueses, dinamarqueses ou holandeses quando ficamos conhecendo como se comportam os políticos daqueles países. Quem dera, suspiramos todos nós, pudéssemos ter políticos com a qualidade moral que eles tem…

Pena que esse sentimento não venha acompanhado de um questionamento coletivo: por que eles podem ter políticos tão bons e a gente esteja sempre renovando nomes sem renovar a prática política? Superficialmente, a sensação coletiva é de que os culpados são os nossos políticos. Quanto a nós, somos apenas as vítimas deles.

Mas quem os coloca lá em Brasília?, tenta-se aprofundar a questão. Na década de 1970, ainda na ditadura militar, quando se ensaiava a abertura democrática, Pelé sacramentou: “O povo não sabe votar”.

Será que não sabe, e ano após ano, eleição após eleição, desaprende ainda mais? Não, o problema não é simples dessa forma. A vida é bem mais complicada.

A renovação de 50% dos políticos em Brasília deveria resultar em injeção de sangue novo, não contaminado moralmente, mas isso não acontece. E nem é “tudo como dantes”. A sensação é de que pioramos ainda mais. Por que?

Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? Gato que nasce no forno é pão? De onde surgem aqueles 50% de deputados novinhos em folha que mandamos para Brasília? Duas perguntas do folclore e uma absolutamente apropriada, julgo eu: de onde saem os políticos?

Os políticos brasileiros não surgem de uma bolha imaginária. Nem vem da Lua ou de Marte. Eles saem do meio de nós e são exatamente como nós, coletivamente, somos. Aqui recorro mais uma vez à memória deste velho repórter. Volto novamente à década de 1970. Numa propaganda de cigarro, na TV, um famoso jogador dizia que o produto era bom e barato. E concluía: “Todos nós queremos levar vantagem em tudo, certo?”, e arrematava com o apelo de compra da marca.

Então, voltando ao cerne do raciocínio proposto nesta página do “Diário íntimo de um velho repórter”, se somos um povo que gosta de levar vantagem em tudo, e considerando que os políticos são parte desse povo, os representantes dele, a conclusão, ao meu ver, não pode ser outra: por mais que renovemos os rostos em Brasília, continuaremos mandado pra lá gente exatamente como nós, que gosta de levar vantagem em tudo. A única diferença é que o poder político permite o acesso a vantagens infinitamente maiores do que aquelas de livre acesso aos demais.

Enfim, não da para nos comportar como brasileiros e sonhar com eleição de deputados noruegueses. Temos que nos comportar como eles, e certamente elegeremos sempre com esse comportamento.

Qual é o seu preconceito?

Afinal, de  quantas raças é composta a humanidade? Nessa linha de separação por etnias, qual seria a raça dos asiáticos? Amarelos? Não sei, me parece um viés entorpecido. Não há, ao meu ver, cabimento nessa versão de definir raças dentro do universo humano por cores. Raça branca, raça negra, amarela, vermelha e por aí vai. E afinal, como se enquadraria um povo como os esquimós? Em minha modesta concepção, a raça, a nossa raça, é uma só. O gênero humano, e suas muitas cores de pele e comportamentos. Homens e mulheres feitos sob idêntica matriz genética.

Mas há preconceito entre as cores. Por mais incrível e estúpido que isso seja. Em algumas nações mais. Em outras, menos, mas em quase todas há alguma forma de preconceito de cor, de origem geográfica e até posição social na grande pirâmide em que todos nós estamos inseridos. E não somente contra os mais pobres, mas também em relação aos ricos.

ovos preconceito

No Brasil, país mutifacetado pela miscigenação originada nos colonizadores portugueses – que se casavam com pretas e índias, além de brancas – há uma porção de preconceitos, e não apenas relativo às cores. O social, por exemplo, é fortíssimo. Em menor escala, até preconceito religioso existe por aqui.

Como combater esses preconceitos todos? Talvez seja, a exemplo do que ocorre no planeta todo, acabar completamente com qualquer forma de preconceito. Mas uma coisa se sabe: quanto mais conhecimento, quanto maior o grau de escolaridade – e aqui se fala de educação básica de qualidade – menos preconceitos.

Discursos não vão mudar esse quadro lamentável da sociedade brasileira. A escola, sim, pode torná-lo menos feio, menos danoso e, assim, mais humano.