Arquivo da categoria: Diário íntimo de um velho repórter

¨bafos e desabafos de um véio repórter…

O que é pior: eu ser um pokebobo ou você ser tão enxerido?

Tava demorando. Com a febre do joguinho de smartphone Pokémon GO, começa a febre dos incomodados. É incrível isso, e sinceramente, não sei qual febre é pior. Depois de mais de meio século de perambulâncias neste planeta, minha tendência é achar que a febrezinha pseudointelectualizada dos incomodados seja pior. Muito pior.

pokemon-go

Vamos lá. Eu confesso sem nenhum constrangimento: baixei o jogo para saber qual era, gostei e continuo jogando. Isso incomoda alguém? Dane-se, ué. Vá ler o seu livro, ver seu filme, sair, namorar, ouvir seus “roquezinhos massa”. Se preferir, vá se lascar. Eu vou continuar jogando Pokémon. E garanto: você não tem nada a ver com isso. Portanto, não se incomode comigo. Quem vive a minha vida sou eu, e não você, ok? Viva a sua vida sem tentar dirigir a minha, uai.

Tá, eu sei que você me acha um pokebobo, um pokealienado, um pokedébilmental. Mas posso te garantir uma coisa: você nem imagina o tantão de defeitos que tenho. Esses aí são quase elogios.

Ahh, mais tarde, se quiser, podemos voltar a conversar sobre isso ou qualquer outra coisa, tá? Vou ali pegar mais um bichinho virtual. Aproveite esse tempinho e encontre algo pra fazer, mas que seja algo melhor e mais gostoso do que ser enxerido.

Plenário do STF

Não ganha uma: Dilma sofre goleada no Supremo

A pretensão era ousada: o governo Dilma Roussef, através da AGU, queria “zerar” o processo de impeachment no STF, ao pedir a anulação do relatório aprovado pela Comissão Especial da Câmara dos Deputados. Na prática, caso a tese fosse aceita, a votação marcada para este domingo, 17, ficaria inviabilizada. Dei tudo errado, mais uma vez. Por 8 votos a 2 – Marco Aurélio Mello e Ricardo Lewandovski – o governo foi goleado e o processo de impeachment vai continuar.

Plenário do STF

Plenário do STF

O advogado geral da União, José Eduardo Cardozo, alegou que a presidente Dilma Roussef teve a sua linha de defesa cerceada dentro de comissão de impeachment. Os ministros do STF entendem que esse procedimento foi correto na exata medida, e a defesa vai ser feita oportunamente, caso os deputados, neste domingo, aprovem a admissibilidade do impeachment e passem a questão para o Senado. Somente nessa etapa é que será aberto um processo formal legislativo, é a exatamente nessa instância que a defesa é plenamente exercida.

sérgio moro

Ainda é possível acreditar?

A frase provavelmente é do genial Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo do jornalista Sérgio Porto, mas também é creditada com certa variação a Rui Barbosa, em discurso no Senado há mais de um século: “Ou se restaura a moralidade, ou locupletemo-nos todos”. É claro que o que menos importa aqui é a certeza da autoria. Certamente, Lalau e Rui foram tão imensamente grandes que não são diminuídos ao se “furtar” de um ou de outro a autoria dessa emblemática frase.

frases-de-grandes-pensadores-16-728

A verdade é que o brasileiro sempre foi leniente com a corrupção. Ademar de Barros, que governou o principal estado do Brasil, São Paulo, venceu eleições seguidamente mesmo sob o slogan de “rouba, mas faz”. A “porcavergonhice” explícita e aceitável é um esporte nacional. Mesmo nas ruas, quando se ouve o cidadão comum, não é incomum ouvir a frase taxativa: “qualquer um que estivesse no lugar dele, roubaria também”. Esse espírito leniente com a “esperteza” malandra e sem caráter foi retratada até na publicidade de uma marca de cigarro nos anos de 1970: levar vantagem em tudo.

manifestante

Não faltam exemplos desse comportamento que nos é típico. No futebol, por exemplo. Torcedores muitas vezes comemoram com muito mais entusiasmo o título conquistado com um gol flagrantemente irregular, de mão, aos 45 minutos do 2º tempo, do que aquele conquistado a duras penas.

Sempre fomos assim, essa é a nossa verdade.

De certa forma, e em certa medida, estamos mais uma vez vivendo essa realidade em meio ao turbilhão que se tem visto na exposição da maior bandalheira da história brasileira: ainda somos lenientes.

A maioria de nós, esmagadora maioria, diga-se, apóia a derrubada constitucional do governo que aí está. Há razões para isso? Inúmeras, bilhões e bilhões de razões. Não há mais qualquer motivo verdadeiramente republicano e cívico para que os atuais governantes sejam mantidos. Por que mantê-los? Não em nome da moralidade democrática, certamente. Se há algo que não existe hoje é um governo moralmente aceitável.

titanic21br

Mas a essência da leniência com a corrupção se mantém mesmo com a justíssima luta e esforço da maioria para se livrar de um governo que se esbaldou no crime para se locupletar em seus vários escalões. A quem cabe neste momento a principal trincheira de luta para colocar porta a fora esse governo? Eduardo Cunha. E para quem ele passará o bastão logo em seguida? Renan Calheiros. São dois generais da queda via impeachment indefensáveis.

Renan Calheiros

Renan Calheiros

A pergunta é se os meios, Cunha e Renan, justificam o fim do governo. Por que aceitamos que Cunha e Renan comandem uma queda na qual eles também deveriam cair?

EDUARDO CUNHA/ENTREVISTA

Ora, respondem os favoráveis ao impeachment, primeiro temos que tirar essa organização criminosa que se apossou do Estado. Depois, vamos pegar os demais bandidos. Faz sentido, sem dúvida. Guerras são vencidas com a conquista da capital inimiga, e não com a ocupação de aldeias periféricas. É preciso derrubar o QG para invadir os quartéis.

Mas esta não e a primeira vez que os brasileiros se levantam armados apenas de indignação contra aqueles que lhes roubam. A história do Brasil é recheada de episódios assim. Na década de 1990, para citar um fato histórico recente, derrubou-se um governo ilhado pela corrupção, mas ficou nisso. Os demais corruptos se esconderam na alegria popular e se safaram. Aliás, não apenas se safaram como muitos deles estão aí até hoje. Portanto, quem nos garante que desta vez será diferente, e que o serviço de limpeza será realmente concluído?

Capa da revista Veja

Capa da revista Veja

É óbvio que a total desconfiança do histórico leniente dos brasileiros é pertinente, mas não é justificativa para deixar tudo como está. Simplesmente, não da. Acabou. Este governo acabou. Nos altos escalões, como dizem os governistas, há uma luta pelo poder. Isso também é verdadeiro, mas nos escalões inferiores, dos cidadãos comuns, a luta é pela sobrevivência. Um país não sobrevive sem governo. E não há mais governo. O que há é somente uma estrutura de poder.

Há tempos, neste mesmo espaço, eu disse que se fosse jovem iria embora do Brasil. Não pelos problemas atuais, mas pelo conjunto da obra. Não tenho tantas esperanças assim de que ainda verei um país com o qual todos sonham ver erguido. Não nesta encarnação. Continuo pensando a mesma coisa. Mas uma frase acendeu uma pequena, tênue centelha na minha incredulidade.

sérgio moro

E ela veio de fora. De um veículo da imprensa dos Estados Unidos. A revista Fortune, ao colocar o juiz Sérgio Moro como o 13º cidadão mais influente do planeta, encerrou uma curta justificativa para essa escolha afirmando que o mais importante é que “a coexistência passiva com a corrupção endêmica na América Latina está se tornando um hábito do passado”.

E antes que me condenem sem direito de resposta, explico. Não é o Moro um salvador da pátria. Nem herói. Nem nada parecido. Corajoso, sem dúvida ele é. Mas Sérgio Moro só existe porque a “a coexistência passiva com a corrupção endêmica está se tornando um hábito do passado”.

É preciso acreditar nisso pra não desistir do Brasil.

Observâncias e implicâncias de um velhote

Tô velho demais para mudar algumas coisas em mim. Mudo muito todo dia, mas algumas coisinhas, não mudo, não. Mas não sei direito se quero mesmo mudar certas coisas. Não me incomoda que elas sejam como são, e que permaneçam exatamente da mesma forma.

bla-bla-bla-620x450

Por exemplo: o cara chega e faz discurso contra a desigualdade social e a favor da melhor distribuição de renda. Eu olho, presto atenção, acho até “bunitim”, mas num boto uma pitada de fé.

  • Escuta aqui: já que você é favorável à melhor distribuição de renda, vamos começar a coisa.
  • Isso, “companhêro, vamu juntu”.
  • Quanto é que você ganha?
  • Como assim, quanto é que eu ganho?
  • Ué, eu tenho que saber pra gente começar esse negócio. Você ganha aí, digamos, uns 5 paus por mês?
  • Tá me gozando?
  • Claro que não, uai. Ao contrário, tô tentando te levar a sério. Você e seu discurso.
  • Nós temos que pegar é esses magnatas, donos de grandes fortunas…
  • OK, você sabe de algum desses caras que também é favorável à melhor distribuição de renda?
  • Claro que não. Eles são todos contrários.
  • Mas aí num vai rolar. Nós temos que começar com quem é favorável. Você que é favorável não topa, o outro que é contra vai topar?
  • Você é um reacionário, neoliberal do cacete…
  • Tá, se eu sou tudo isso e mais uma porrada de outras coisas, eu já sei, uai. Você está falando de mim. De mim eu sei tudo, pode ficar tranquilo. O que eu queria saber é quem vai puxar a fila nesse negócio de distribuição da renda.
  • Larga de ser hipócrita.
  • Uai, tô tentando te ajudar a botar em prática o seu discurso, cara. O que você tá propondo é arrancar a renda dos outros na marra. Vai dar rolo. O cara num vai querer. Então é mais fácil começar a distribuir a renda entre aqueles que querem isso. Na minha lista você é o primeiro. Topa puxar a fila?
  • Isso é hipocrisia.
  • Imagine só, cara, daqui uns cem anos, quando a renda estiver bem distribuída, as pessoas vão se lembrar: “E tudo começou com aquele cara…”. Vai ter gente que vai te chamar de “santo”.
  • Vai te catar (*) (na verdade, censurei o xingamento. Ele me mandou ir prum lugar com minha mãe e tal. Como sou órfão e o texto é meu, preferi a censura)

É claro que esse diálogo aí nunca existiu. E dificilmente vai existir. Aliás, não vai existir mesmo. Não tendo eu como um dos protagonistas. Eu olho os discursos desse naipe e tal e penso exatamente o que está na essência desse diálogo imaginário, mas guardo comigo. Cada um fala as bobagens que quiser. Eu falo as minhas, então num tenho que sair patrulhando as bobagens dos outros. Só não acredito nos discursos sem práticas.

só observando

E não é só nas questões políticas, não. Vale pra tudo e mais um pouco. O melhor palco para perceber essas coisas são as redes sociais. Show. Já fui bem ativo nas redes. Hoje, assumidamente, sou quase completamente voyeur. Sabe aquelas velhas que ficavam nas janelas das salas de suas casas olhando para a rua nos finais do dia, observando tudo e todos? Pois é, sou a versão masculina e digital, falsamente moderna, das velhinhas de antigamente. A única diferença é que não curto muito esse lance de espalhar as coisas pela vizinhança.

O cara escreve um catatau de lindas e revoltadas linhas contra os cacetetes das polícias brasileiras. Me empolgo e penso comigo: tá certim, num tem que bater mesmo, não. Aí eu dou uma vasculhada no perfil do meu mais novo “herói” e… tem uma postagenzinha lá no canto com a fotinha do Maduro, aquele maluco venezuelano que jura ter visto o Chavez encarnado num passarim. Viu e conversou com ele. Passaram falante… E não era um papagaio.

Foto-montagem: www.r7.com

Foto-montagem: www.r7.com

Me empolgo e continuo vasculhando o arquivo pra achar o momento em que o “herói” das palavras em defesa da liberdade e do respeito às manifestações populares trucidou a polícia venezuelana, que dispensou o caceteie e matou até miss durante um protesto contra o governo, em Caracas. Neca. Nem uma vírgula… Caraca mesmo, meu “ex-herói” não quer saber de cacetete aqui, mas se lixa para o fuzil de lá.

Ficar zapeando as redes sociais é uma diversão.

O cara diz que quem gosta de um tipo de música é um idiota e tal e coisa. E é claro que o tipo de música preferida para a cacetada é o sertanejo, ou “sertanojo”. Aí, lá pelas tantas, talvez para dar uma envernizada politicamente correta no preconceito musical, diz que gosta de sertanejo de raiz. Música caipirona mesmo.

Engraçado, uma música caipira de raiz é Cabocla Tereza. Conta a história de um sujeito que, traído, matou a mulher. E aí o cara, que é vanguardista na defesa da igualdade de gênero, desce a lenha no sertanojo Cristiano Araújo, cujo principal sucesso diz: “Foi ela quem pegou na minha mão quando você deixou. Foi ela quem enxugou as minhas lágrimas”. Pois é, as duas músicas tem corno na história. Na caipira, de raiz, o corno vira assassino. Naquela do nojinho, o corno chorou, caiu, mas deu a volta por cima. E a mulher continuou vivinha da silva.

Mas o pior das redes sociais são as patrulhas de toda ordem. Ainda falo delas qualquer dia desses. Por hoje, chega. Este véio vai sair da janela. O show tem que continuar. Amanhã, não hoje.

Insegurança e Fé

Existe uma velha anedota (de gosto duvidoso) que graceja daquela senhora extremamente religiosa, mas que receia, quase histericamente, a própria morte – Ora, se a pessoa crê tanto, porque temeria mais ainda iniciar a viagem para encontrá-Lo?

Esse é um exemplo extremo, pois fala de morte e coisas posteriores, todavia, há casos mais simples em nosso cotidiano, ações e reações desprovidas de um mínimo confiar no poder daquele Deus em que se crê.

São pessoas que perderam seu trabalho e desanimam na busca por outro, as doenças que parecem invencíveis aos nossos olhos já cheios de lágrimas sentidas, aquela responsabilidade pessoal que nos parece gigante e superior às nossas forças, às vezes é só a falta de uma vaga nos estacionamentos lotados dessa vida.

Quantas e quantas vezes, tantas e mais tantas pessoas, que em situações normais se consagram fiéis à sua crença, se assustam ao menor sinal de dificuldade, choram e gritam como se estivessem abandonadas eternamente? Entretanto, basta o problema passar e voltam a louvar gloriosamente como se nunca tivessem se desesperado: isto também é falta de fé !

Não há vergonha em sentir medo, não é desonroso pedir colo quando vem aquele arrepio de insegurança. Todavia, esses sentimentos, embora normais e saudáveis, não podem ser a regra, não devem ditar nosso comportamento e nossa resposta aos problemas. São pequenos espinhos que não conseguem esconder a beleza da rosa – nossa certeza na proteção divina.

Em tudo dai graças, essa é a lei !

Se temos fé, se acreditamos no poder onisciente, onipresente e onipotente de Deus, não há espaço para desespero. Não há necessidade, pois estamos sob os cuidados absolutos de um Pai amoroso.

Não se trata aqui de afirmar não existir tristeza para quem crê. Trata-se de aceitar a tristeza e reduzi-la à sua condição puramente emocional, passageira e abstrata porque se está ancorado em um porto mais que seguro, se está amparado por colunas mais que concretas – as tristezas, preocupações, irritações, medos, são e sempre serão simples distrações momentâneas.

Por isso, você que é mãe e teme pelo futuro de sua cria, você que é pai e julga não ser capaz de alimentar sua prole, você que é gente e se aprisiona com medo do mundo, se vocês têm Deus nos corações e bocas, abracem quem espera o que você prometeu, se entreguem nas mãos do seu Senhor. Abram o seu melhor sorriso e creiam, sequer pensem que seus problemas são insolúveis, pois não são. O tempo e Deus te provarão isso – dêem graças por seus dias de maior trabalho, eles valorizam os dias de paz !

Ter fé durante a bonança nada significa. É justamente no meio da provação que a fé deve prevalecer. Caso contrário, somos um barco sem águas para navegar, logo, inúteis. (Olisomar Pires – escritor/olisoblog.com)

Classificados: Troco urgente cidadania do país do futuro

Lá pelos idos da minha adolescência, que ainda trago na lembrança, sempre ouvia alguém dizer que o Brasil era o país do futuro. Os mais velhos falavam isso cheios de esperança.

paisdofuturo1

País do futuro… Essa frase me acompanha há mais de meio século de vida. Sou um cidadão do tal país do futuro. Mas agora, ao contrário daqueles tempos ainda jovens e imorredouros das minhas lembranças, um velho cidadão do país do futuro. Cansado, devo confessar. Um velho cidadão cansado do país do futuro.

Sabe duma coisa? Topo trocar minha cidadania. Não tenho mais tanto futuro assim. Já dobrei o cabo da boa esperança. Não aceito vender minha cidadania porque apesar de qualquer outra coisa ainda é melhor ser cidadão desse país do que um apátrida. Mas, sinceramente, pra mim não da mais.

O país do futuro era uma tremenda ilusão. Durante décadas, nós acreditamos que acontecesse o que acontecesse, viveríamos um bom presente no futuro. Mas esse futuro, se realmente acontecer, nunca vai chegar. Pelo menos, não pra mim e para todos os de minha geração. Não temos mais tempo.

Qual será a ilusão de 2022 para 2032?

Qual será a ilusão de 2022 para 2032?

Me enganaram, e me enganei, essas dezenas de anos todos que vivi. É isso que me leva a propor a troca da minha cidadania no país do futuro por uma cidadania em algum país do presente. Quem topar fazer essa troca, saiba previamente, levará prejuízo. Imenso.

Que futuro tem um país como este? O que se tem feito hoje para futuramente alcançar uma vida melhor para todos? Nada. Não fizemos antes, não estamos fazendo agora. Aliás, fizemos, sim: pioramos.

Criamos o Estado das relações absolutistas, que se mete a resolver tudo, mas não resolve coisa alguma. Um Estado que diz que saúde é direito de todos, e o que oferece é o abandono e a morte em corredores de hospitais caindo as pedaços. Um Estado que promete educação gratuita e universal, mas que não consegue educar ao menos para evitar que professores sejam espancados por alunos.

Futuro? Com esse presente?

Futuro? Com esse presente?

Um Estado que diz garantir a segurança de todos, mas que não consegue proteger nem o dinheiro que ele próprio arrecada aos montes através dos impostos. Aliás, um Estado tão falso e mentiroso que cobra impostos sobre serviços que não presta e disfarça essa cobrança com nomes alternativos, como contribuições, taxas e licenças. Isso tem algum futuro? Se tiver, não é o futuro que eu passei boa parte da minha vida acreditando que um dia chegaria.

O Brasil não tem futuro. É muito ruim dizer isso, mas é a única verdade. O futuro nada mais é do que a soma de todos os presentes. E quais são esses presentes que estamos vivendo nas últimas décadas? É isso.

Previsões: Do mimimi sobre o Chico à solução com Dilma no comando

Pronto, desde a suspensão do WhatsApp e da Fabíola o Brasil não tinha tanta diversão nas redes sociais e nos bate papos descolados e/ou indignados. Já tem. É o cantor e compositor Chico Buarque. Ou seja, o Brasil voltou ao normal. Quer dizer, voltou ao seu padrão atual de normalidade.

Para quem costuma, como eu, ficar alheio a esse tipo de coisa – tive que procurar no Google… – um resumão em uma só frase: Chico tem defendido a presidente Dilma Roussef contra o “golpe”/impeachment. E aí, como uma escancarada maioria já se definiu contra o governo, basta uma frase para botar fogo em nossa Roma tupiniquim.

chico

Qual a capacidade de Chico Buarque ou qualquer artista influenciar a opinião pública contrária? Zero. As posições estão cristalizadas demais para sofrerem abalos por apoios deste ou daquele. O bolso pesa mais do que qualquer outra coisa. E o bolso brasileiro está furado, vazio.

Fabíola no motel

O problema é que as pessoas se imaginam o centro do universo quando estão tuitando ou facebucando. É como se o sol perdesse o centro do sistema para o indivíduo. É obviamente uma bobagem sem tamanho. Bastaria se lembrar que o sujeito ou a sujeita escreve para ele/ela mesmo e para mais dúzia e meia de transeuntes de seu relacionamento virtual. Mas também é bobagem minha falar sobre isso. Isso é coisa para os especialistas. Os sociólogos explicam esse negócio muito melhor do que eu conseguiria. Melhor, então, deixar isso para eles.

A questão bem mais importante do que opinar sobre a opinião do Chico é debater como estamos neste país e como vamos ficar no futuro até onde a vista alcança. Estamos mal e não tem previsão de melhora, não. O governo diz que vamos melhorar, mas para quem não acertou uma única vez no alvo este ano é difícil acreditar em qualquer coisa que venha dos bambambãs da república petista.

recesasaãO BC

O que o governo disse durante o ano sobre a recessão? Em março, a previsão de recuo na produção de riquezas seria de 0,5%. Em junho, o buraco cresceu para 1,1%. Em setembro, bateu em 2,7%. No início de dezembro, o rombo foi para 3,6%. Pois acredite: quatro pênaltis, quatro bolas na arquibancadas. A recessão deve fechar em 3,8%.

E na previsão sobre a inflação? Nem precisa detalhar que nesse caso a bola foi parar fora do estádio… Em dezembro de 2014, a previsão oficial era de uma taxa de 6,1% este ano e 5% no ano que vem. Veio ajustando a pontaria ao longo do ano e… saiu a previsão atual: 10,8% agora e outros 6,2% de inflação no ano que vem.

Já que o governo da dona Dilma não demonstra ter o menor preparo para fazer previsões, me sinto no direito de também fazer a minha: errou todas em 2015 e vai errar tudo de novo em 2016. A única vantagem nesse confronto de previsões é que se eu errar a minha a gente fica no lucro.

mais-inflação

Se a gente discutisse esses assuntos muito mais pertinentes do que opinião/declaração de artistas, talvez fosse mais produtivo. O mimimi nas redes sociais auxilia o governo. Ficamos quase todos nós brigando aqui quando o inimigo continua lá. Sairemos da crise mais grave de toda a história do Brasil com a Dilma no comando? Que nada. Se não conseguiu evitar o agravamento do problema como acreditar que ela vai conseguir resolvê-lo? Ahh, tá: essa é mais uma previsão que faço.

... e ela não acerta uma dentro

… e ela não acerta uma dentro

A Dilma disse que não pode ser impichada porque não roubou dinheiro da população. Ela tem razão, até onde se sabe. Dilma jamais foi acusada de roubar nosso dinheiro. O que ela “roubou” foi nossos sonhos, nossas esperanças, nosso futuro. Ela alega que não cometeu crime de responsabilidade fiscal. Não sei se ela tem razão nesse ponto também, mas ela cometeu um “crime” muito mais grave: o de irresponsabilidade administrativa.

Brasil maluquete

Não tem o menor cabimento: no mesmo dia em que o Brasil é apontado par o mundo todo como possível caloteiro, a grande nação brasileira fica indignada com… a suspensão do zapzap.

Quem disse que a Justiça é lenta? Não é, não.

whatsapp-hero (1)

O zapzap saiu do ar à meia-noite. A Justiça abriu as portas às 8 da manhã do dia seguinte. Ao meio-dia, portanto apenas 4 horas depois, saiu decisão de desembargador reabrindo o zapzap… Felicidade geral da nação.

Quem disse que a Justiça não é lenta? É, sim.

Dia desses, em Goiânia, um pedreiro foi preso. Crime dele: ter nome idêntico a de um capixaba fugitivo condenado pela Justiça do Espírito Santo. Era a única coincidência, o nome. Idade, origem, aparência, filiação, tudo diferente do xará criminoso.

cadeia

Um advogado pediu a sua imediata libertação em Goiás. Não teve jeito. O coitado teve que mofar 15 dias na cadeia até que o Tribunal do Espírito Santo se pronunciasse.

Aliás, por falar em Justiça…

O ex-senador mineiro, e ex-governador das Gerais, Eduardo Azeredo, foi condenado a 20 anos de cadeia por causa do chamado mensalão mineiro – ou mensalão do PSDB.

Eduardo-Azeredo-mensaleiro

A roubalheira aconteceu em 1998, durante o processo da reeleição dele ao governo estadual, mas só agora, 17 anos depois, saiu a condenação.

Só que no Brasil, ser condenado a passar uma porção de tempo na cadeia não significa que o sujeito vai parar no xilindró. Ele continua livre, leve e solto porque tem direito de reclamar da condenação. Ou seja…

E o ex-presidente Luiz Inácio? Viu o que ele falou sobre a Operação Lava Jato que vem apurando a roubalheira recorde que jogou uma das maiores petroleiras do mundo na loba? Para ele, é uma operação que tem por objetivo “criminalizar o PT”.

Lula língua

Não ria, leitor, não ria. Olha o respeito com o ex-presidente…

O Luiz Inácio falou ainda que o Vaccari, o tesoureiro do PT que está passando uma temporada no xilindró, é inocente. Engraçado é que ele não falou a mesma coisa a respeito do Delúbio Soares, o outro tesoureiro do PT que também pagou cadeia por causa do rolo do mensalão…

Vai entender.

Há seis meses, talvez fosse uma boa jogada tirar o Levy da Fazenda e colocar alguém que pudesse injetar um certo ânimo na economia. Dilma, teimosa como sempre, preferiu manter o cara lá.

Levy rindo

Agora, que a vaca está enterrada no brejo, o Levy seria a melhor opção para sinalizar que pelo menos o objetivo fiscal do governo seria mantido. Resultado, a Dilma não consegue segurar o ministro…

A Dilma não erra umazinha só: é uma no cravo e a outra, na ferradura.

E o novo ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, já chegou inventando a roda: criou o superávit primário com banda pra lá ou pra cá.

roda invenção

É um troço tão maluco que tem tudo para ser um desastre total.

Eduardo Cunha: falou demais

Cunha faz gato e sapato da decência

Parece não existir nenhum limite ético no cidadão Eduardo Cunha em suas ações como deputado federal e presidente da Câmara dos Deputados. Não que decência, ética, dignidade e honestidade de princípios sejam normas de conduta comprováveis à simples e mera observação externa. Claro que não. Assim, inúmeros outros políticos podem ser não apenas iguais ou eventualmente até muito piores do que Cunha, embora seus lados perversos ainda não tenham sido expostos à comprovação visual, se assim se pode dizer. De qualquer forma, dificilmente vai se encontrar alguém com tamanha cara de pau. Me escapa neste momento qualquer termo mais apropriado para descrever a atuação de Eduardo Cunha na Presidência da Câmara dos Deputados.

Já houve quem o descrevesse como psicopata. Talvez seja psicopata também, mas não sei se é. Nesse caso, me falta completamente alguma noção médica que me leve à essa conclusão de maneira técnica e peremptória. Quando muito,  e de forma grosseira e leigamente, concordaria com o termo no sentido de ele ser esquisito. Muito esquisito, e de ter um comportamento que se assemelha em alguns aspectos a um psicopata.

Eduardo Cunha: falou demais

Uma coisa é se deparar com um político ladrão do dinheiro dos impostos pagos com tanto sacrifício de sonhos de todos os brasileiros. Aliás, gente assim tem aos montes e não apenas entre os políticos. Há empresários mafiosos, funcionários públicos em todos os níveis, do guarda da esquina ao alto executivo de estatais, até cidadãos comuns. Mas Cunha é um caso raríssimo. Além de ser acusado formalmente de gatunagem, ele espanca a decência minimamente exigida para a ocupação de um cargo como o de presidente da Câmara dos Deputados. Não há qualquer limite para ele, nem imposto por algum tipo de valor pessoal e nem em cumprimento do mais elementar padrão de comportamento como presidente.

Uma coisa é usar todos os muitos e excessivos subterfúgios regimentais para manobrar seus interesses. Isso, obviamente, é próprio de pessoas com estatura moral inexistente, mas Cunha tem ido muito além desse ponto. Hoje, 9, após tentar e perder no Supremo Tribunal Federal, determinou a troca do relator do processo movido contra ele na Comissão de Ética da Câmara. Isso dimensiona exatamente como age Eduardo Cunha.

EDUARDO CUNHA/ENTREVISTA

No Congresso Nacional, os que defendem honestamente o impeachment de Dilma Roussef suportam Cunha na Presidência da Câmara como se fosse uma espécie de efeito colateral de um remédio que combate efetivamente o mal maior. Talvez fosse o caso de se rever essa situação. Cunha não é remédio. É veneno. Se o objetivo a favor do impeachment é honesto, compactuar com a desonestidade das ações de Cunha contamina a boa intenção tornado-a desprezível. Nenhuma alegada razão para se manter Cunha e dar respaldo à sua permanência é maior do que a necessidade de decência.

Bandidagem: O Brasil trata com flores quem gosta de sangue

Pensei em abrir esta página do diário de um velho repórter narrando pelo menos uns 3 ou 4 casos recentes de barbarismo. Imaginei que poderia usar dois casos registrados em Goiânia, 1 em alguma cidade do interior e o último numa capital ou grande cidade de outro estado qualquer. Estava totalmente convencido de que deveria seguir essa trilha-chavão do jornalismo/análise sobre a violência urbana brasileira. Só mudei ao abrir o processador de texto, e colocar o título. Julguei desnecessário fazer as tais citações sobre crimes. Banalizou demais da conta, e nem sintetizando 4 casos em um parágrafo eu conseguiria mexer um pouco com possíveis leitores.

bala-de-revolver

E o duro é que eu acho que este tema será um tópico com baixíssima audiência. Por esse ponto de vista, não deveria perder meu tempo e deste ou daquele leitor que se aventurar por aqui. Até porque não vou fazer nenhuma chamada com fotos ensanguentadas de crianças ou mocinhas vítimas de bandidos. Nada contra quem faz isso, mas esse jornalismo definitivamente não é o meu. Me vejo agredido em minha maneira de ser ao me deparar desavisadamente com fotos assim. Imagino que outros leitores também sintam a mesma coisa.

A questão aqui é a escalada da violência e do banditismo. Há muito já se ultrapassou qualquer limite suportável Não há um único lugar, uma única cidade brasileira que não seja terrivelmente violenta. Não há onde se esconder, para onde ir em busca de proteção. Cidade praiana? Esqueça. Nas montanhas? Também esqueça. Uma pequena aldeia de pescadores perdida nos confins do nordeste? Necas. Com ligeira alteração estatística, o Brasil é simplesmente um dos piores e mais inseguros lugares do mundo, mesmo quando se compara com países do nosso mundico sul-americano. Pior, muito pior que Argentina, Chile, Paraguai, Colômbia ou Peru.

Mas por que é assim? Eu não tenho dúvidas que nós estamos tratando bandidos com bom mocismo. Somos bonzinhos demais da conta com gente tão má. Isso é obviamente inquestionável, embora uma grande corrente intelectual insista que o sujeito é mau não por culpa dele, mas porque as estruturas sociais do Brasil são péssimas. E essa tese virou mantra nacional da intelectualidade. Como se o Brasil fosse socialmente o pior país do mundo. Não é, não.

revolver-1

O mais curioso é a guinada que se tem quando se intercala as questões e as remete para o mesmo centro nervoso. Quer ver só? Qual é o melhor sistema de saúde pública do mundo? O Sus com sua pretensão de atendimento universal. Um dos melhores programas de combate à miséria? O Bolsa Família. País onde sei-lá-eu quantos milhões de pessoas migraram socialmente da miséria para a pobreza e da pobreza para a classe média? O Brasil. Mas, caramba, se pensam dessa forma, por que, diabos, justificam a violência dos bandidos com o vitimismo das injustiças sociais?

“Ahh, mas tem o problema da educação”, até parece que essa frase ecoa nos meus velhos miolos. OK, mas a educação pública brasileira é pior do que a da Bolívia? Pois é, não é, mas a possibilidade de um brasileiro ser vítima de um assalto violentíssimo é infinitas vezes maior do que o risco que corre um boliviano.

A verdade é que bandido tem que ser tratado como bandido até para desincentivar aquele que ainda não é, mas está prestes a engrossar a bandidagem. “Violência não se combate com violência”, me vem à mente outro mantra bastante usado. E nesse ponto eu concordo plena e totalmente. Violência se combate com cadeia duradoura. Tão duradoura que puna e, mais do que punir, impeça que o violento volte a fazer as mesmas barbaridades.

“Bobagem, o Brasil é um dos países com maior população carcerária e a violência está aí”, repito mais um mantra do bom mocismo. É verdade, sim. O Brasil tem a quarta maior população carcerária do mundo. Mas alguém poderia explicar por que o líder dessa relação aí, os Estados Unidos, tem índices de violência muito próximos dos índices de países da Europa ocidental?

Não sei quantos anos ainda vou envelhecer. Espero que algumas dezenas. Mas mesmo que vivesse mais um século, tenho certeza que eu não conseguiria entender a lógica de se tratar com flores quem gosta de sangue.