Arquivo da categoria: Diário íntimo de um velho repórter

¨bafos e desabafos de um véio repórter…

Pacto com meus cabelos…

Há alguns anos, milhares de fios de cabelo começaram a me abandonar. Pensei que ficaria careca. Depois de um alguns anos, eles pararam de pular, e desde então só fizeram afinar. Eram fios muito mais grossos. Agora são finos. Gostava deles antes, gosto deles agora.

Me lembro que na época dos tombos um amigo me falou sobre remédio para os cabelos pararem de pular.

–       Você tem que usar. É ótimo. Alguns fios até renascem.

–       E pra que que eu vou fazer isso?

–       Você quer ficar careca?

–       Não, mas se eles desistem antes que eu desista, tudo bem. Vou reencontrá-los daqui a um punhado de anos. É meu pacto com eles.

–       Você tá brincando…

–       Tô não. Meus cabelos me acompanham há mais de 40 anos. Foram bacanas comigo. Se eles se cansaram e querem partir antes, respeito cada fio, os que se vão agora e os que vão me esperar para irmos juntos. Depois a gente se encontra de novo.

É claro que o tal amigo deve pensar até hoje que eu estava brincando. Mas não estava. Não caí em nenhuma beberagem para forçar meus cabelos a ficarem onde estão. Eles continuam comigo, ajudando a compor uma aparência que já foi bem melhor. E como quero ficar por aqui ainda por algumas dezenas de anos, sei que só vai piorar o conjunto. Fazer o que? Esse é o preço, uai.

Acho que me lembrei dessa história dos meus cabelos por causa de tantas moças novas que entram na faca para arrancar algumas gordurinhas, e que acabam indo embora cedo demais da conta. Dia desses, foi mais uma garota lindona, de 20 e pouquíssimos anos.

Desde sempre as pessoas procuram fontes da eterna juventude. Acho que eu também queria uma fonte dessas, se elas existissem. Não existem. É certo que a inteligência humana consegue melhorar na faca a parte externa, mas internamente, não.

Ilustração publicada no site benoliveira.com

Ilustração publicada no site benoliveira.com

Coração, pulmões, fígado, rins, estômago, intestino, músculos, cérebro… É como se as rugas deles fossem imunes à intervenção humana. Pode-se endurecer um peito aqui, tirar ou amenizar uma ruga ali, arrancar uma gordurinha e tal, mas a essência vai continuar a mesma. Ou melhor: pior a cada dia.

injeção de botox

Algumas pessoas não convivem bem com a ideia de que a aparência piora. E fazem plásticas, esticam as peles, cortam pedaços, se injetam de toxinas… Não condeno de forma alguma quem faz isso. Cada um faz aquilo que achar melhor. Mas não gosto da cobrança que existe em relação à aparência. Soa a mim como um desprezo à velhice embalado em vários nãos: não às rugas, não à flacidez, não à natural decadência humana.

Há alguns dias, amigos me perguntaram se não voltarei à TV. Por mim, disse, não. Passou meu tempo, ué. Nada contra quem permanece. Mas hoje gosto mais de ler, escrever e falar. Gosto muitíssimo das novas gerações ocupando um espaço que antes eu e tantos outros já ocuparam. Penso que nós fizemos isso antes, lá atrás: renovamos o estoque que existia. Agora, somos nós aqueles veteranos que substituímos. Isso é realmente lindo. É vida.

Começa da vida

¨Ora, mas você não está velho¨, ouço muitas vezes. Como não? Claro que estou. Sou véio, uai. Não estou acabado. Ser velho não é ser acabado. Ser velho é… ser velho, uai. Não ser novo. É já ter vivido o auge e viajar agora rumo à decadência que corre em direção contrária. Temos um encontro marcado pela Vida: por mais que a gente pense e faça, vamos ao encontro da decadência. Deprimente isso? É nada. É maravilhosamente humano.

Reminiscências de um velho repórter…

Tava conversando ontem com um velho amigo véio. Aliás, mais véio do que eu. Conversa vai, conversa se espalha, contei a ele sobre minha paixão por Montevideo, pelo modo de vida dos uruguaios. Um jeito de vida sem muita pressa nova-iorquina que contagiou quase o mundo todo, cultura em cada rua, paz de espírito em cada praça.

Confessei também que Montevideo seria a única cidade em que gostaria de morar se pudesse deixar Goiânia. Não posso. Certamente, no Brasil, nenhuma cidade me caberia. Mas Montevideo não tem as pessoas que conheço, meus amigos e amigas. Não tem a minha vida. Então, falei a ele, não tenho idade e nem a menor disposição de construir tudo novamente.

– Perto de mim você é ainda um garotão. Com 65 anos, eu estava me casando novamente.

– Ué, e nem por isso ficou mais moço. Casou véio. Só isso.

Claro que acabamos caindo na gargalhada.

Não me caso mais. Chega. Me casei duas vezes com as duas mulheres mais fantásticas que conheci na minha vida.

Com a primeira, vivi uma crise conjugal e, nesse período, ela sofreu um acidente e me tornei viúvo, aos 28 anos.

2 anos depois, me casei novamente. E me tornei pai. A única vez. Valeu por centenas.

Mas um dia chegou ao fim, e nos divorciamos. E concluí que não iria me casar novamente. Chega. Foi ótimo viver casado durante 18 anos, 4 com a primeira, 14 com a segunda.

Costumava brincar: 4 + 14 é igual a 18. Pronto, maioridade. Então, posso viajar sem autorização, entrar em filme proibido para menores de 18 e tals.

Lyceu Salesiano, Campinas-SP

Lyceu Salesiano, Campinas-SP

E o jornalismo? Caramba, esse é um casamento muito mais longo. Acho que nasci jornalista. Aos 12 anos, publiquei meu primeiro texto num jornal: o Ecos do Lyceu, do Lycey Salesiano Nossa Senhora Auxiliadora, de Campinas, São Paulo. Aos 16, na minha Frutal, Minas Gerais, pelas mãos do saudoso e pioneiro jornalista frutalense Paulo Goulart, pisei definitivamente no chão da redação. De lá pra cá, só não vivi jornalismo durante pouco menos de 2 anos.

Em Goiânia, meu primeiro emprego foi na rádio Anhanguera, atual Daqui-AM, em fevereiro de 1981, após ser aprovado pelo Luiz Jayme num exame interno. Era redator. Duas colegas me ajudaram demais da conta: Ivone Cabral e Valbene Bezerra.

ivone cabral Valbene Bezerra

 

Não falava perto de microfone nem com reza. E o engraçado é que muitos amigos e amigas imaginam que comecei no rádio e migrei para jornal e TV. Pois é, não foi. Nasci no jornal, migrei para o rádio e depois fui também para a TV.

Amir Sabag, Bordoni e Luis Cesar, o Leleco em programa esportivo da Band local

Amir Sabag, Bordoni e Luis Cesar, o Leleco em programa esportivo da Band local

Televisão foi um teste de fogo alto: em pleno Goiânia Urgente, ao lado de feras consagradas como Luis Cesar Leleco, Luiz Carlos Bordoni, Rachel Azeredo, Libório Santos, Carlos de Souza, o homem da gravata branca… O diretor que me levou pra lá foi o Mazim, Lorimá Gualberto.

 

Luiz Carlos Bordoni

Luiz Carlos Bordoni

 

Rachel Azeredo

Rachel Azeredo

Época louca demais. Sucesso absoluto de audiência, que chegava a piques de participação no horário de até 70%.

Lorimá Gualberto, o Mazim

Lorimá Gualberto, o Mazim

Época louca demais e grana de menos. Hoje, a TV paga fortunas aos apresentadores. Nesse ponto, muitíssimo melhor hoje do que antes. Terminávamos o dia encharcando o esqueleto e a alma no boteco do Marcos das Neves, o Tucano, que ficava ao lado da sede da TV Goyá, na praça Tamandaré.

… … …

Peralá: este diário está íntimo demais, e saudosista mais ainda. Sabe duma coisa: isso cansa. Detesto essa coisa de véio ficar falando ¨no meu tempo…¨. Fica parecendo que o tempo agora não é dos véios. É, uai. É de todos nós: crianças, moços, moças, jovens que estão construindo a vida, véios que a estão vivendo. Tempo bom é agora. O antes é apenas tempo vivido.

Tá certo o tal velho amigo véio que se casou aos 65 anos.

… Opa, mas nem sempre faço o que é certo. Vou continuar descasado hehehe

Bons tempos…

Bons tempos… Todo véio costuma, se não dizer, pelo menos pensar nisso. Mas que droga de tempo bom é esse? Tinha tempo bom e tinha tempo ruim. Hoje, também é assim.

¨Ahh, no meu tempo a gente ficava num canto do salão, paquerava a menina e criava coragem pra chamar pruma dança¨. É verdade, era assim mesmo. Os garotos de um lado, lotados de autoconfiança entre eles, superpoderosos, mas morrendo de medo de se aproximarem da ¨presas¨ indefesas que se encontravam sentadinhas nas mesas. E, quando criavam coragem, caminhavam dando uma olhadela pra trás, pro seu grupo. Era uma forma de se auto-incentivar, de reencontrar o tal superpoder perdido em poucos passos.

As ¨brincadeiras dançantes¨ surgiram um pouco antes dos bailinhos

As ¨brincadeiras dançantes¨ surgiram um pouco antes dos bailinhos

¨Quer dançar comigo?¨… Vixi, que frase difícil de sair. Era mais problemático falar isso pra menina do que confessar pro padre que tinha, de novo, se divertido sozinho no banheiro… O padre não iria sair espalhando isso por aí, e se a menina dissesse não, todo mundo ficaria sabendo. Ali, sentença instantânea, no meio do salão… Na época, o não da garota se chamava ¨levar tábua¨.

Mas, e quando a ¨cantada¨ funcionava? Sim, cantada. A cantada era desse jeito. Chamava pra dançar e a coisa andava.

Um sonho que duraria até o próximo sábado. No início da música, os corpos ficavam a menos de meio palmo um do outro. Aos poucos, se o clima realmente fosse químico, se aproximavam até que se colavam um no outro.

E o vexame? Deusducéu… A música acabava e tinha que descolar um da outra. A evidência saliência denunciava a situação. Ficava difícil até andar cada um pro seu lado. A menina, não, ia toda donzela pra sua mesa. O garoto colocava as mãos nos bolsos pra tentar disfarçar o que todo mundo tava vendo…

Mas tinha o supremo vexame. Esse era terrível. No rala-rala, os hormônios explodiam e criavam aquela mancha molhada na calça. Rapaz, aquilo era a pior coisa do mundo, e também a melhor, é claro.

Bons tempos, sim…

Hoje a coisa degringolou, mas teve um tempo melhor que esse antigamente relatado. Não o vivi inteiramente. Peguei uma beirada, e só.

boate

Já não era necessário atravessar o salão  cheio de vergonha. As luzes, pouquíssimas das boates, escondiam quase tudo. Então, era encostar na presa, e jogar o olhar pra cima. Olho no olho, um aceno de cabeça e pronto. Se, sim, pro meio do salão. Se, não, cadê aquela outra garota que estava ali no canto?…

E algumas até topavam chegar ao máximo. Uma ou outra se recusava a perder a integridade. Então, recorriam à alternativa, de costas.

Hoje, vendo esses bailes funks por aí, fico imaginando se é melhor essa coisa meio canina, de cio explicitado algumas vezes até publicamente, ou se era mais gostoso antes, com muito mais malícia e sonho do que atos.

Shows. Nos palcos e nas ruas... Tempos atuais.

Shows. Nos palcos e nas ruas… Tempos atuais.

Sei lá. O que eu sei é que não é mais pro meu bico.

É assim em tudo. Faz parte da vida, ué. Algumas coisas eram muito boas, melhoraram e decaíram. Nada diferente das nossas próprias vidas: criança, menino, o auge e a decadência.

Catzo, pensando assim, a natureza é perfeita.

Diário íntimo de um velho repórter

Há alguns anos, no Jornal Opção, assinei uma coluna de página dupla que trazia uma subcoluna, criada pelo jornalista Herbert de Morais Ribeiro, intitulada ¨Diário Íntimo de um repórter¨. A intenção dele era que eu contasse fatos inerentes e curiosos a respeito da intimidade da reportagens. Desandou a coisa. Passei a falar de pescarias, churrascos, passeios e tal e coisa.

E não é que deu certo!? A coluninha no pé da página passou a ter tantos eleitores quanto a coluna-mãe que a pariu.

Bem, os tempos se foram, abandonamos o projeto da colunona dupla e optamos por uma coluna de análise política dedicada, essa que está ainda hoje como uma das principais do Jornal Opção, a Conexão. E aí, é claro que o ¨diário íntimo¨ perdeu espaço. Por incompatibilidade.

Mas é algo que sempre gostei de fazer: escrever sobre o cotidiano. O meu cotidiano. Alegrias, angústias, incômodos, preguiça, trabalhos, falta de dinheiro – desde aquela época e sempre, saco – e algumas conquistas. Então, ao conversar com as pessoas que tem ligação com o site, resolvi que era hora de voltar com o ¨diário íntimo de um repórter¨. Não como era, mas como agora eu sou. Tive que acrescentar o ¨velho¨ antes do repórter.

Achei apropriada esta charge de Clara Lúcia, publicada no Blog do Giu...

Achei apropriada esta charge de Clara Lúcia, publicada no Blog do Giu…

Então, e a partir de agora, além das Conexões sobre fatos políticos relevantes de Goiás e do Brasil, as matérias específicas sobre as eleições deste ano, o blog de generalidades e a Vida Boa, que destaca o mundo dos vinhos, você terá essas pequenas inconfidências minhas. Sem compromisso algum com pautas. Vamos lá?

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Pensei inicialmente em abrir a página com o velho chavão: Querido diário. Mas não da. Ficaria sonoramente adolescente demais da conta. Imagine só, um velho repórter abrindo um texto com o ¨querido diário¨… Além de não ser adolescente há muitos e muitos anos, acho que ficaria meio bichoso, né? Hahaha bicha velha. Curuiz.

Vai ficar sem bordão mesmo.

Tracoisa que de certa forma me incomodou: o que é um blog se não um diário? Especialmente, como é o caso, de um blog pessoal, como o que está aí no site, Blog do Afonso. Mas não é a mesma coisa. O Diário íntimo de um velho repórter são coisas minhas, e não sobre o que eu penso de outras coisas.

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Acho engraçado quando me dizem que não estou velho. Tô véio, sim, uai. Já foram 3 estaladas na idade: trintááá, quarentaáá, cinquentááá. Ainda vou dar algumas tragadas, mas sem essa de que não estou perto do guimba.

Também dou risada quando falam que a velhice é a tal melhor idade. É nada. Conversa fiada. Véio é véio, e é um saco ser véio. O problema é que a alternativa não agrada de jeito nenhum: morrer novo. Morrer novo é pior do que viver véio. É isso.

Ontem, entrei num elevador com uma família, pai, mãe e um garotinho que ainda não fala de tão novinho que é. E uma velhinha linda, sorridente com sua prótese bem feita. Ela também não fala mais. O pai apertou o botão do último andar. A velhinha olhou pra ele e apontou pro alto. ¨É, vamos lá pro céu, lá pra cima¨, disse o pai. A velhinha caiu na gargalhada. A criança, sem saber o que estava acontecendo, sorriu também. Fiquei pensando sobre as semelhanças entre a criança que não sabe ainda nem falar e a velhice que faz a gente se calar…

Quer saber se alguém é véio? Não precisa perguntar a idade. É só observar o papo. Se falar que está ¨sadiínho¨, que tem uma ¨saúde de ferro¨, que ainda ¨aguenta o rojão¨ e tal e coisa, pode ter certeza: é véio. A molecada não fala isso. Nem sabe o que é, na prática.