Arquivo da categoria: Diário íntimo de um velho repórter

¨bafos e desabafos de um véio repórter…

Fonte da eterna juventude? Nem pensar. Envelhecer é um grande barato

Acho que as pessoas – eu, inclusive –, novas e/ou velhas, não estão preparadas para conviver bem com o passar dos anos. As pessoas mais novas vivem entre a impaciência e a pena com os velhos. E os mais velhos travam uma guerra contra a velhice. É como se recusassem a ordem natural das coisas. A velhice, a decadência física e mental, são tão necessárias e maravilhosas quanto o nascimento de um bebezinho lindo.

Mas como enxergar a velhice dessa forma se ela carrega consigo e em si a proximidade da morte? Não é fácil, não. Ninguém quer morrer. Nem jovem e nem velhos. Jovens sequer pensam na morte. Os velhos fazem o possível para não se lembrarem que tem encontro marcado com ela. E que esse encontro está a cada dia um pouco mais próximo.

Caramba! Isso é mesmo arrepiante.

O sonho da humanidade durante a eternidade de sua curta existência até aqui é encontrar a tão sonhada quanto inexistente fonte da juventude. Já pensou se existisse essa poção mágica que fizesse o tempo retornar ou não passar mais?…

Peralá. Pensando bem, seria ruim pra caramba. Isso nos tiraria a essência da grandeza humana, que é a possibilidade de viver cada etapa da vida. É bom demais ser criança e conversar com amigos do peito e imaginários, brincar de esconde-esconde, viver a irresponsabilidade saudável de não pensar em tantas coisas. Mas, imaginemos por um momento apenas que viver fosse somente isso. Seria um saco, uma condenação infernal e eterna.

O carinhoso beijo da inocência, sem hormônios, sem apelo sexual.

O carinhoso beijo da inocência, sem hormônios, sem apelo sexual

Não, a vida é boa na infância, e também é boa na adolescência, quando surgem desafios imensos, intransponíveis e que a gente nem percebe que eles são superados e imediatamente substituídos por outros tão grandes e impossíveis quanto os anteriores. E o que dizer do primeiro amor para sempre que geralmente a gente encontra nessa fase? Uma sensação que jamais é esquecida.

O beijo da timidez, da descoberta, do início de todas as emoções

O beijo da timidez, da descoberta, do início de todas as emoções

E aí acho que volta a pergunta: já imaginou se a vida fosse restrita às crianças? Como seria péssimo não descobrir a vida adolescente… Séria trágico.

E a gente nem percebe o exato momento em que a adolescência vai se embora levada pelo tempo e a juventude se instala. Uau! Que fase iluminada. É quando a gente se percebe forte, já adulto, novo, cheio de vida, mas sem compreender exatamente como e por que as coisas acontecem. É como se a vida fosse apenas um ensaio quando criança e quando adolescente. O auge é aqui, na juventude. Não é? Não.

O beijo emocionante da paixão, dos hormônios efervescentes, do apelo sexual

O beijo emocionante da paixão, dos hormônios efervescentes, do apelo sexual, das promessas

A juventude é um aprendizado, uma fase inigualável para se adquirir conhecimento sobre nós mesmos, sobre a vida, sobre os sentimentos. Mas seria ruim demais ser eternamente jovem. Seria uma vidinha incompleta, falha, que se tornaria enfadonha demais da conta. Insuportável. É uma fase ótima, como as anteriores, mas ainda bem que não é eterna.

E aí vem o auge da vida humana: a vida pós-juventude. É nessa fase, geralmente, que outras pequenas vidas nascem, que os sentimentos se estabilizam, que os hormônios se comportam melhor. É onde mais se equilibram e se equivalem a força física, a capacidade mental e de compreensão. Mas também é a época da pressa, do tempo que passa rápido demais, dos dias com poucas horas para o tamanho do mundo a ser abraçado. É também a definitiva preparação que a vida nos oferece para a velhice.

O beijo das emoções estabilizadas, dos hormônios controlados, da paixão e da entrega. E da competição

O beijo das emoções estabilizadas, dos hormônios controlados, da paixão e da entrega. E da competição

Novamente a pergunta: não seria a vida perfeita se o tempo parasse de nos incomodar quando chegamos nessa fase? Acho que não. Isso nos tiraria o direito de ser um pouco mais transcendental, de conseguir enxergar e sentir coisas que só a sequência nos permite. Se o tempo parasse, nos roubaria o grande barato que é viver a velhice. A calma, a possibilidade de observar, amar sem cobranças, de  finalmente poder assistir a vida fluir.

É bom ser velho? É. É tão bom quanto ter sido criança, adolescente, jovem e adulto. Tem suas limitações, suas frustrações? Claro que tem. Mas a vida, em todas as fases, tem limitações, frustrações e prazeres. Diferentes, é óbvio, mas identicamente harmoniosos e incríveis.

Os saborosos últimos beijos. Sem pressa, sem a  necessidade de sexo para se tornar um carinho completo

Os saborosos últimos beijos. Sem pressa, sem a necessidade de sexo para se tornar um carinho completo, sem cobrança

O que pode ser mais completo do que viver e decair a cada dia? Significa, no mínimo, que o apogeu que os mais jovens só agora vivem, nós, os mais velhos e decadentes, já vivemos. Esse mesmo auge, o mesmíssimo apogeu, que ultrapassado. Já atingimos o último patamar. Chegamos lá. E precisamos curtir cada momento que ainda resta até que nosso ciclo se feche.

Já pensou como a vida seria uma chatice se não existissem as crianças, ou os  adolescentes, ou os jovens, ou os adultos, ou …  os velhos?

Não, não vou repetir a pergunta. Acho que nem é necessário responder que seria um saco beber a poção, que felizmente não existe, que me obrigaria a ficar eternamente jovem ou adulto sem poder ser a soma de todas as idades. Não gostaria de paralisar o processo natural da vida. Não aceitaria roubar de mim mesmo a gostosa sensação de envelhecer. É um grande barato viver a decadência enquanto a vida acontece naturalmente. Dia após dia, cada vez mais intensamente.

Perceber e aceitar serenamente que já não tenho o mesmo pique, que meu corpo está mais flácido, que sou facilmente superado pelas pessoas mais novas em inúmeros aspectos e tarefas físicas, e que posso ter a ousadia de me manter calado quando quero, e de falar se acho necessário. Sem me cobrar tantos resultados ou pelo menos um pequeno recorde pessoal. A vida competitiva não tem mais o antigo valor supremo que tinha. Não preciso ser melhor em nada, e tenho direito de ser o pior, ou apenas mediano.

O que virá depois? Não tenho absoluta certeza de nada. Apenas acredito que existam outras formas de viver além desta, a humana, no Cosmos da Luz. Acho que é para lá que eu irei. Mas não tenho nenhuma pressa. Tá bom demais ser decadente, ranzinza, paciente, menos apressado, observador. É divertido. Tanto quanto ser criança.

PS – Chegou até aqui? Então repare novamente as fotos desta página do Diário. Alguma consegue encantar mais do que as outras? Não sei sua resposta, mas tenho a certeza que a sequência emociona bem mais. Comigo foi assim.

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O afago aos bandidos cheios de direitos

 Sabe duma coisa? Tenho saudades, sim, dos tempos idos. Era muito mais seguro. O Brasil nunca foi um mar de tranquilidade, paz e amor, mas havia menos possibilidade de se topar com um bandido a cada esquina como é hoje.assalto_autodromo

Tá feia a coisa. Você desce do carro e sabe que poderá ser assaltado pelo motoqueiro que apontou na rua. Ou pelos rapazes que vem andando em sua direção batendo papo. Ou pelo casalzinho de mãos dadas. Por qualquer um. assalto-flagrante-550x308O crime em sua embalagem crua, cruel, de armas na mão. 24 horas por dia, 7 dias por semana, o ano todo, sem feriados, dias santificados, sábados ou domingos. É o período integral do império da violência sem limites.

Tava aqui pensando: quando isso começou? Não sei dizer. Talvez porque não exista uma data específica. Foi uma escalada. Pouco a pouco no início, muito a muito agora.

Existem mil teorias a esse respeito. Um dos argumentos que mais recebe apoio é sobre a péssima educação pública. Faz sentido, sem dúvida. Mas não consigo compreender bem essa coisa… O que falta agora sobrava antes?

aula escola anos 70

Não creio. Aliás, não mesmo. Lá atrás, há 30, 35 anos, não havia vagas para todo mundo. Hoje, tem. A única reclamação que eu escuto é que algumas vagas ficam distantes de onde o estudante mora, mas elas existem, sim. Então, nesse ponto, melhorou muito.

Então, se pelo menos existem vagas nas escolas que não existiam antigamente, por que o Brasil se transformou num dos lugares mais insanos do planeta no que se refere à segurança de cada um de nós?

Ahh, e existem mais vagas nas faculdades, nos cursos técnicos… Não, não, não. Essa conta aí não bate. Não no meu entendimento.

A outra tese que tenta explicar a atual situação é a desigualdade social. Então, tá: quer dizer que antigamente a gente era uma sociedade mais justa e igualitária? Regredimos???

O que, afinal, nos remeteu aos poucos para esta situação de morte eminente a cada momento, em cada rua, em casa saída nas ruas ou mesmo em nossas casas?

Tento recorrer mais uma vez a alguma coisa que tinha ou que não tinha antes e que tem agora. Talvez consiga ao menos vasculhar alguma pista que possa, mesmo que vagamente, apontar para o início da guerra diária que estamos vivendo, e perdendo…

Guerra cruel. Algumas pessoas começam a devolver a violência na mesma dose. Absolutamente insano, sem nenhuma dúvida. Me lembro bem do primeiro caso dessa onda recentíssima de reação das pessoas.assaltante com trava no poste

Foi contra um menor de idade, no Rio de Janeiro, flagrado furtando pessoas. Juntou uma turma, deram catiripapos no rapaz, e o prenderam com uma traquitana antifurto de bicicleta. Ganhou manchetona nos jornais, destaques nas TVs e rádios, temas de debates intermináveis sobre a barbárie.

Uma jornalista, a Rachel Sheherazade, fez um comentário dizendo que ¨compreendia¨ a reação das pessoas. E chamou o rapaz de ¨bandidinho¨.

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Vixe Maria! Foram quilos de papel jornal, horas de rádio e TV debatendo o comentário da jornalista. Virou febre, inclusive ideológica. Teve até uma deputada federal que denunciou a jornalista na Justiça.

Será que não houve uma inversão absurdamente grotesca de valores? Eu acho que sim, e sem nenhuma dúvida. A deputada condenou quem estava trabalhando, e nem reclamou de quem estava roubando. Uai???

Será que não foi isso que mudou do velho passado menos inseguro para os tempos atuais de absoluta certeza de segurança zero, a inversão de valores? Sim, pode ser por aí.

Antigamente, ladrões eram presos, ficavam presos e eram desprezados pelas pessoas. Hoje, quando presos, e sempre são presos, ficam quase nada na cadeia, voltam para cometer os mesmos crimes novamente, e são debatidos como se fossem as vítimas. Tô véio demais pra me acostumar com esses novos tempos.

cadeia

Sinceramente? Eu prefiro a moda antiga: bandido é bandido. É bandido por opção, e não por falta dela. Não estamos no Brasil que retira a maior legião de cidadãos da miséria e da pobreza? Não somos o Brasil do pleno emprego? Uai, e por que tem cada vez mais bandidos, e eles são cada vez mais violentos, cada vez mais cruéis, assassinos?

Quando estão barbarizando nas ruas, bandidos são bandidos. Quando são presos, e quase sempre eles são presos, repita-se, começa a mudar a coisa. De bandido o sujeito passa a reeducando. De um sujeito que mutila, mata sem nenhuma forma de remorso, que estraçalha dezenas e dezenas de vidas em nossas ruas, ele se transforma em vítima. De uma hora para outra. Basta ser preso. É como se houvesse um choque de amnésia: tudo o que o sujeito fez, todo o sofrimento que ele causou, de repente passa a ser consequência, e não a causa da sua prisão.

É por isso que a deputada condenou a trabalhadora e não o marginal… É por isso que muitos chegaram a defender que a trabalhadora fosse impedida de trabalhar. Deve ser por isso, mas posso estar enganado, claro. Talvez eu mesmo tenha que se reeducado para estes novos tempos. Mas não tenho certeza se daria muito certo comigo. Acho que o melhor no meu caso seria a doutrinação. Isso. Teria que ser doutrinado nesses novos tempos.

(blog santigermanchamavioleta)

(blog santigermanchamavioleta)

Quer saber? Sou um caso perdido. Reeducação não funcionaria comigo, e doutrinação também não. Acho que nestes tempos novos, eu mereço ser condenado. Quanto aos bandidos que afligem a mim e a todos nós, são dignos e humanos. Eles merecem direitos.

Os péssimos leitores torram o saco. Saco.

Não sei se tem alguma coisa a ver com a idade ou se é saco cheio mesmo, mas não tenho paciência com péssimos leitores. Quem são eles? São aqueles que leem uma coisa, entendem outra e concluem como querem, sem qualquer ligação com o que foi escrito.

Escrevo que ¨fulana de tal é bonita¨. O tal péssimo leitor lê isso, mas entende que eu não levei em conta que a ¨beltrana é muito mais bonita¨, e conclui que tenho segundas, terceiras e ocultas intenções de beneficiar ¨fulana¨ e sacanear ¨beltrana¨. Na cobertura política, então, péssimo leitor tam mais que mato em terreno baldio… Catzo, vai ler nas tais entrelinhas assim na PQP!. Ops…

mal-humor-1024x914Nunca tive muita paciência com esse tipo de leitor. Acho simplesmente um saco. Por mim, eu os proibiria de ler qualquer coisa, e os obrigaria a escrever dia e noite sem parar. Trabalhos forçados. Juro que ainda teria um ou outro orgasmo – não múltiplo e nem constante, por razões óbvias – ao perceber que esse tipo de leitor sentiria dores nos dedos e calor nos miolos. Seria minha vingança. Aliás, acho que muitos outros jornalistas gostariam de condenar esses péssimos leitores a queimar nesse eterno fogo… Escrever, escrever e escrever mais e mais.

carta-do-leitor

Jornalistas escrevem por paixão e por não saberem fazer outras coisas. Pelo menos, os jornalistas que gosto de ler são assim: só sabem escrever. Quanto muito, sabem também beber umas e outras e trocar ideias – debater, né? – com bons amigos e amigas. Em tempos idos, a maioria também sabia fumar feito chaminé. As redações eram ambientes horrivelmente enfumaçados. Felizmente, fumar é coisa fora de moda. Melhor assim.

cigarro amassado

Qualquer pessoa razoavelmente alfabetizada consegue escrever. Algumas, com enorme clareza, sabedoria, pertinência e bom senso. Adoro ler o que escrevem. O que as difere dos bons jornalistas é volume da obra. Uma coisa é passar uma semana ou mais elaborando um bom texto. Outra coisa é fazer a mesma coisa em escala profissional.

Acho que, paralelamente ao dinheiro curto, a única coisa que ainda me estressa no jornalismo é o péssimo leitor. No mais, é muitíssimo melhor agora do que era antes. Somente um jornalista sabe o que é o turbilhão devorador edos fechamentos diários nas redações de rádio, jornal e TV. Ninguém consegue imaginar a pressão invisível que existe, e a insana cobrança que os jornalistas se fazem a cada momento do dia para produzir um texto extraordinário e com informações diferenciadas, embaladas por enfoques absolutamente perfeitos. E bastam algumas horas para recomeçar novamente da estaca zero. O grande texto de ontem é antigo. A grande obra está morta e enterrada. É necessário fazer nascer novamente um grande texto, uma informação privilegiada e enfoques perfeitos. E mais um par de horas e.. tudo sempre igual. E de novo, e de novo, e novamente.

jornalista e textos

Quem não é jornalista deve imaginar que o jornalismo é um demoníaco devorador de mentes e esforços. Num é, não. O jornalismo é a única grande e insuperável paixão da vida de um jornalista. É amor. E é o maior barato quando se ama desde as instâncias da alma.

É claro que nem todos os jornalistas são assim. Alguns colegas tão velhos quanto eu, ou mais, acham que esse jornalismo das antigas, romântico até a medula, não existe mais. Que o jornalismo ficou plastificado demais, bitolado em alguns conceitos meramente mercadológicos. Se tornou mecanizado, automatizado e inodoro. Que o glamour da paparicação que a popularidade pode causar se transformou em objetivo das novas gerações de jornalistas.

Também acho que isso acontece. Mas nem de longe é uma regra sem exceções. Vejo montes de jornalistas jovens alucinadamente perdidos e levados pela velha paixão pelo jornalismo, pelo texto de qualidade, pela informação, pelo enfoque. Tão talentosos, e talvez melhor preparados, do que os jornalistas da era romântica. Não estão jornalistas pelo possível glamour ou pela grana que as massivas audiências ou relações proporcionam atualmente. Nasceram com o gene dessa doença que provoca amor e adoração pelo jornalismo. Acho isso fantástico.

ranzinza

Bem, mas e os tais péssimos leitores? Eles que se lasquem. Tô véio demais pra mudar. E não mudaria se estivesse novo. Só queria mesmo ser menos ranzinza… Nem tudo é perfeito, fazer o que.

Os botões tem os melhores ouvidos

Me pego às vezes em pleno delírio de pensamentos. Sei lá se isso é uma coisa normal. Deve ser. Não me acho doido. Um pouquinho, talvez. Mas isso é normal, ué. Todo mundo é um pouco doido.

E falo sozinho. Não absolutamente sozinho. Converso com meus botões. Isso, sim, acho que é mais grave. Mas muita gente faz isso desde criança. Para os adultos é engraçado ver criancinhas batendo o maior papo com coleguinhas imaginários. Bobagem. A gente faz a mesma coisa, só que escondido. Quer dizer: eu faço. Algumas pessoas também fazem. É só ficar de olho nos motoristas na hora que o sinal fecha. Vidros fechados, ar condicionado ligado, música e tal e aquele blábláblá sem fim.

Com estátua eu nunca falei. Parece ser coisa de doido

Com estátua eu nunca falei. Parece ser coisa de doido

O duro é quando você tá ali, na maior prosa, e percebe que outros motoristas estão observando curiosos, tipo ¨esse maluco ali está conversando com quem?¨. Quando levo um flagra desconcertante desse uso algumas técnicas pra disfarçar. Pra não ficar parecendo doido. Bato com as palmas das duas mãos no volante ritmamente, dou umas tamboriladas com as pontas dos dedos e, de vez em quando, até balanço a cabeça levemente e dirijo imaginariamente uma orquestra. Arrá: tenho certeza que o curioso do lado pensa na hora: ¨Pô, o cara não está falando. Tá só empolgado com alguma música¨.

Ainda bem que o sinal abre rapidinho. É um saco essas pessoas que impedem meu diálogo com… meus botões. É isso, carambas: eu falo com meus botões. As crianças, inocentes, falam com seres que existem apenas na imaginação delas. Só não acho muito certo quando eu falo e eu mesmo respondo. É como se fosse aqueles desenhos de anjinho de um lado e diabinho do outro. Um fala e o outro atenta.

Diabinho_Anjinho

Às vezes tenho vontade de perguntar para amigos e amigas se eles também conversam com os botões deles. Mas fico com medo de me acharem tantã.

Por que será que a gente se incomoda tanto com aquilo que os outros pensam – que nós imaginamos que pensem – a nosso respeito? O tempo todo a gente fica se policiando: ¨Opa, será que vão pensar que eu sou isso ou sou aquilo?¨. Saco. Com tanta coisa pra conversar com nossos botões e ainda temos esse tipo de preocupação.

botãoorelha

Bom mesmo são os botões. Eles são ótimos ouvintes. Nunca falam nada. E quem cala, consente.

PS – e se por acaso me ver em algum sinal fechado tamborilando dedos ou balançando a cabeça no carro, vá te catar. Não sabe que é falta de educação ficar ouvindo a conversa dos outros? Então.

Pacto com meus cabelos…

Há alguns anos, milhares de fios de cabelo começaram a me abandonar. Pensei que ficaria careca. Depois de um alguns anos, eles pararam de pular, e desde então só fizeram afinar. Eram fios muito mais grossos. Agora são finos. Gostava deles antes, gosto deles agora.

Me lembro que na época dos tombos um amigo me falou sobre remédio para os cabelos pararem de pular.

–       Você tem que usar. É ótimo. Alguns fios até renascem.

–       E pra que que eu vou fazer isso?

–       Você quer ficar careca?

–       Não, mas se eles desistem antes que eu desista, tudo bem. Vou reencontrá-los daqui a um punhado de anos. É meu pacto com eles.

–       Você tá brincando…

–       Tô não. Meus cabelos me acompanham há mais de 40 anos. Foram bacanas comigo. Se eles se cansaram e querem partir antes, respeito cada fio, os que se vão agora e os que vão me esperar para irmos juntos. Depois a gente se encontra de novo.

É claro que o tal amigo deve pensar até hoje que eu estava brincando. Mas não estava. Não caí em nenhuma beberagem para forçar meus cabelos a ficarem onde estão. Eles continuam comigo, ajudando a compor uma aparência que já foi bem melhor. E como quero ficar por aqui ainda por algumas dezenas de anos, sei que só vai piorar o conjunto. Fazer o que? Esse é o preço, uai.

Acho que me lembrei dessa história dos meus cabelos por causa de tantas moças novas que entram na faca para arrancar algumas gordurinhas, e que acabam indo embora cedo demais da conta. Dia desses, foi mais uma garota lindona, de 20 e pouquíssimos anos.

Desde sempre as pessoas procuram fontes da eterna juventude. Acho que eu também queria uma fonte dessas, se elas existissem. Não existem. É certo que a inteligência humana consegue melhorar na faca a parte externa, mas internamente, não.

Ilustração publicada no site benoliveira.com

Ilustração publicada no site benoliveira.com

Coração, pulmões, fígado, rins, estômago, intestino, músculos, cérebro… É como se as rugas deles fossem imunes à intervenção humana. Pode-se endurecer um peito aqui, tirar ou amenizar uma ruga ali, arrancar uma gordurinha e tal, mas a essência vai continuar a mesma. Ou melhor: pior a cada dia.

injeção de botox

Algumas pessoas não convivem bem com a ideia de que a aparência piora. E fazem plásticas, esticam as peles, cortam pedaços, se injetam de toxinas… Não condeno de forma alguma quem faz isso. Cada um faz aquilo que achar melhor. Mas não gosto da cobrança que existe em relação à aparência. Soa a mim como um desprezo à velhice embalado em vários nãos: não às rugas, não à flacidez, não à natural decadência humana.

Há alguns dias, amigos me perguntaram se não voltarei à TV. Por mim, disse, não. Passou meu tempo, ué. Nada contra quem permanece. Mas hoje gosto mais de ler, escrever e falar. Gosto muitíssimo das novas gerações ocupando um espaço que antes eu e tantos outros já ocuparam. Penso que nós fizemos isso antes, lá atrás: renovamos o estoque que existia. Agora, somos nós aqueles veteranos que substituímos. Isso é realmente lindo. É vida.

Começa da vida

¨Ora, mas você não está velho¨, ouço muitas vezes. Como não? Claro que estou. Sou véio, uai. Não estou acabado. Ser velho não é ser acabado. Ser velho é… ser velho, uai. Não ser novo. É já ter vivido o auge e viajar agora rumo à decadência que corre em direção contrária. Temos um encontro marcado pela Vida: por mais que a gente pense e faça, vamos ao encontro da decadência. Deprimente isso? É nada. É maravilhosamente humano.

Reminiscências de um velho repórter…

Tava conversando ontem com um velho amigo véio. Aliás, mais véio do que eu. Conversa vai, conversa se espalha, contei a ele sobre minha paixão por Montevideo, pelo modo de vida dos uruguaios. Um jeito de vida sem muita pressa nova-iorquina que contagiou quase o mundo todo, cultura em cada rua, paz de espírito em cada praça.

Confessei também que Montevideo seria a única cidade em que gostaria de morar se pudesse deixar Goiânia. Não posso. Certamente, no Brasil, nenhuma cidade me caberia. Mas Montevideo não tem as pessoas que conheço, meus amigos e amigas. Não tem a minha vida. Então, falei a ele, não tenho idade e nem a menor disposição de construir tudo novamente.

– Perto de mim você é ainda um garotão. Com 65 anos, eu estava me casando novamente.

– Ué, e nem por isso ficou mais moço. Casou véio. Só isso.

Claro que acabamos caindo na gargalhada.

Não me caso mais. Chega. Me casei duas vezes com as duas mulheres mais fantásticas que conheci na minha vida.

Com a primeira, vivi uma crise conjugal e, nesse período, ela sofreu um acidente e me tornei viúvo, aos 28 anos.

2 anos depois, me casei novamente. E me tornei pai. A única vez. Valeu por centenas.

Mas um dia chegou ao fim, e nos divorciamos. E concluí que não iria me casar novamente. Chega. Foi ótimo viver casado durante 18 anos, 4 com a primeira, 14 com a segunda.

Costumava brincar: 4 + 14 é igual a 18. Pronto, maioridade. Então, posso viajar sem autorização, entrar em filme proibido para menores de 18 e tals.

Lyceu Salesiano, Campinas-SP

Lyceu Salesiano, Campinas-SP

E o jornalismo? Caramba, esse é um casamento muito mais longo. Acho que nasci jornalista. Aos 12 anos, publiquei meu primeiro texto num jornal: o Ecos do Lyceu, do Lycey Salesiano Nossa Senhora Auxiliadora, de Campinas, São Paulo. Aos 16, na minha Frutal, Minas Gerais, pelas mãos do saudoso e pioneiro jornalista frutalense Paulo Goulart, pisei definitivamente no chão da redação. De lá pra cá, só não vivi jornalismo durante pouco menos de 2 anos.

Em Goiânia, meu primeiro emprego foi na rádio Anhanguera, atual Daqui-AM, em fevereiro de 1981, após ser aprovado pelo Luiz Jayme num exame interno. Era redator. Duas colegas me ajudaram demais da conta: Ivone Cabral e Valbene Bezerra.

ivone cabral Valbene Bezerra

 

Não falava perto de microfone nem com reza. E o engraçado é que muitos amigos e amigas imaginam que comecei no rádio e migrei para jornal e TV. Pois é, não foi. Nasci no jornal, migrei para o rádio e depois fui também para a TV.

Amir Sabag, Bordoni e Luis Cesar, o Leleco em programa esportivo da Band local

Amir Sabag, Bordoni e Luis Cesar, o Leleco em programa esportivo da Band local

Televisão foi um teste de fogo alto: em pleno Goiânia Urgente, ao lado de feras consagradas como Luis Cesar Leleco, Luiz Carlos Bordoni, Rachel Azeredo, Libório Santos, Carlos de Souza, o homem da gravata branca… O diretor que me levou pra lá foi o Mazim, Lorimá Gualberto.

 

Luiz Carlos Bordoni

Luiz Carlos Bordoni

 

Rachel Azeredo

Rachel Azeredo

Época louca demais. Sucesso absoluto de audiência, que chegava a piques de participação no horário de até 70%.

Lorimá Gualberto, o Mazim

Lorimá Gualberto, o Mazim

Época louca demais e grana de menos. Hoje, a TV paga fortunas aos apresentadores. Nesse ponto, muitíssimo melhor hoje do que antes. Terminávamos o dia encharcando o esqueleto e a alma no boteco do Marcos das Neves, o Tucano, que ficava ao lado da sede da TV Goyá, na praça Tamandaré.

… … …

Peralá: este diário está íntimo demais, e saudosista mais ainda. Sabe duma coisa: isso cansa. Detesto essa coisa de véio ficar falando ¨no meu tempo…¨. Fica parecendo que o tempo agora não é dos véios. É, uai. É de todos nós: crianças, moços, moças, jovens que estão construindo a vida, véios que a estão vivendo. Tempo bom é agora. O antes é apenas tempo vivido.

Tá certo o tal velho amigo véio que se casou aos 65 anos.

… Opa, mas nem sempre faço o que é certo. Vou continuar descasado hehehe

Bons tempos…

Bons tempos… Todo véio costuma, se não dizer, pelo menos pensar nisso. Mas que droga de tempo bom é esse? Tinha tempo bom e tinha tempo ruim. Hoje, também é assim.

¨Ahh, no meu tempo a gente ficava num canto do salão, paquerava a menina e criava coragem pra chamar pruma dança¨. É verdade, era assim mesmo. Os garotos de um lado, lotados de autoconfiança entre eles, superpoderosos, mas morrendo de medo de se aproximarem da ¨presas¨ indefesas que se encontravam sentadinhas nas mesas. E, quando criavam coragem, caminhavam dando uma olhadela pra trás, pro seu grupo. Era uma forma de se auto-incentivar, de reencontrar o tal superpoder perdido em poucos passos.

As ¨brincadeiras dançantes¨ surgiram um pouco antes dos bailinhos

As ¨brincadeiras dançantes¨ surgiram um pouco antes dos bailinhos

¨Quer dançar comigo?¨… Vixi, que frase difícil de sair. Era mais problemático falar isso pra menina do que confessar pro padre que tinha, de novo, se divertido sozinho no banheiro… O padre não iria sair espalhando isso por aí, e se a menina dissesse não, todo mundo ficaria sabendo. Ali, sentença instantânea, no meio do salão… Na época, o não da garota se chamava ¨levar tábua¨.

Mas, e quando a ¨cantada¨ funcionava? Sim, cantada. A cantada era desse jeito. Chamava pra dançar e a coisa andava.

Um sonho que duraria até o próximo sábado. No início da música, os corpos ficavam a menos de meio palmo um do outro. Aos poucos, se o clima realmente fosse químico, se aproximavam até que se colavam um no outro.

E o vexame? Deusducéu… A música acabava e tinha que descolar um da outra. A evidência saliência denunciava a situação. Ficava difícil até andar cada um pro seu lado. A menina, não, ia toda donzela pra sua mesa. O garoto colocava as mãos nos bolsos pra tentar disfarçar o que todo mundo tava vendo…

Mas tinha o supremo vexame. Esse era terrível. No rala-rala, os hormônios explodiam e criavam aquela mancha molhada na calça. Rapaz, aquilo era a pior coisa do mundo, e também a melhor, é claro.

Bons tempos, sim…

Hoje a coisa degringolou, mas teve um tempo melhor que esse antigamente relatado. Não o vivi inteiramente. Peguei uma beirada, e só.

boate

Já não era necessário atravessar o salão  cheio de vergonha. As luzes, pouquíssimas das boates, escondiam quase tudo. Então, era encostar na presa, e jogar o olhar pra cima. Olho no olho, um aceno de cabeça e pronto. Se, sim, pro meio do salão. Se, não, cadê aquela outra garota que estava ali no canto?…

E algumas até topavam chegar ao máximo. Uma ou outra se recusava a perder a integridade. Então, recorriam à alternativa, de costas.

Hoje, vendo esses bailes funks por aí, fico imaginando se é melhor essa coisa meio canina, de cio explicitado algumas vezes até publicamente, ou se era mais gostoso antes, com muito mais malícia e sonho do que atos.

Shows. Nos palcos e nas ruas... Tempos atuais.

Shows. Nos palcos e nas ruas… Tempos atuais.

Sei lá. O que eu sei é que não é mais pro meu bico.

É assim em tudo. Faz parte da vida, ué. Algumas coisas eram muito boas, melhoraram e decaíram. Nada diferente das nossas próprias vidas: criança, menino, o auge e a decadência.

Catzo, pensando assim, a natureza é perfeita.

Diário íntimo de um velho repórter

Há alguns anos, no Jornal Opção, assinei uma coluna de página dupla que trazia uma subcoluna, criada pelo jornalista Herbert de Morais Ribeiro, intitulada ¨Diário Íntimo de um repórter¨. A intenção dele era que eu contasse fatos inerentes e curiosos a respeito da intimidade da reportagens. Desandou a coisa. Passei a falar de pescarias, churrascos, passeios e tal e coisa.

E não é que deu certo!? A coluninha no pé da página passou a ter tantos eleitores quanto a coluna-mãe que a pariu.

Bem, os tempos se foram, abandonamos o projeto da colunona dupla e optamos por uma coluna de análise política dedicada, essa que está ainda hoje como uma das principais do Jornal Opção, a Conexão. E aí, é claro que o ¨diário íntimo¨ perdeu espaço. Por incompatibilidade.

Mas é algo que sempre gostei de fazer: escrever sobre o cotidiano. O meu cotidiano. Alegrias, angústias, incômodos, preguiça, trabalhos, falta de dinheiro – desde aquela época e sempre, saco – e algumas conquistas. Então, ao conversar com as pessoas que tem ligação com o site, resolvi que era hora de voltar com o ¨diário íntimo de um repórter¨. Não como era, mas como agora eu sou. Tive que acrescentar o ¨velho¨ antes do repórter.

Achei apropriada esta charge de Clara Lúcia, publicada no Blog do Giu...

Achei apropriada esta charge de Clara Lúcia, publicada no Blog do Giu…

Então, e a partir de agora, além das Conexões sobre fatos políticos relevantes de Goiás e do Brasil, as matérias específicas sobre as eleições deste ano, o blog de generalidades e a Vida Boa, que destaca o mundo dos vinhos, você terá essas pequenas inconfidências minhas. Sem compromisso algum com pautas. Vamos lá?

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Pensei inicialmente em abrir a página com o velho chavão: Querido diário. Mas não da. Ficaria sonoramente adolescente demais da conta. Imagine só, um velho repórter abrindo um texto com o ¨querido diário¨… Além de não ser adolescente há muitos e muitos anos, acho que ficaria meio bichoso, né? Hahaha bicha velha. Curuiz.

Vai ficar sem bordão mesmo.

Tracoisa que de certa forma me incomodou: o que é um blog se não um diário? Especialmente, como é o caso, de um blog pessoal, como o que está aí no site, Blog do Afonso. Mas não é a mesma coisa. O Diário íntimo de um velho repórter são coisas minhas, e não sobre o que eu penso de outras coisas.

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Acho engraçado quando me dizem que não estou velho. Tô véio, sim, uai. Já foram 3 estaladas na idade: trintááá, quarentaáá, cinquentááá. Ainda vou dar algumas tragadas, mas sem essa de que não estou perto do guimba.

Também dou risada quando falam que a velhice é a tal melhor idade. É nada. Conversa fiada. Véio é véio, e é um saco ser véio. O problema é que a alternativa não agrada de jeito nenhum: morrer novo. Morrer novo é pior do que viver véio. É isso.

Ontem, entrei num elevador com uma família, pai, mãe e um garotinho que ainda não fala de tão novinho que é. E uma velhinha linda, sorridente com sua prótese bem feita. Ela também não fala mais. O pai apertou o botão do último andar. A velhinha olhou pra ele e apontou pro alto. ¨É, vamos lá pro céu, lá pra cima¨, disse o pai. A velhinha caiu na gargalhada. A criança, sem saber o que estava acontecendo, sorriu também. Fiquei pensando sobre as semelhanças entre a criança que não sabe ainda nem falar e a velhice que faz a gente se calar…

Quer saber se alguém é véio? Não precisa perguntar a idade. É só observar o papo. Se falar que está ¨sadiínho¨, que tem uma ¨saúde de ferro¨, que ainda ¨aguenta o rojão¨ e tal e coisa, pode ter certeza: é véio. A molecada não fala isso. Nem sabe o que é, na prática.