Arquivo da categoria: Pos.-Principal(0)

iris_rezende-18

PMDB: A agonia do ex-gigante

Em nível nacional, já foi considerado o “maior partido do mundo ocidental”. O de Goiás, era tido como o mais forte PMDB do país, mas pode nem ao menos lançar candidato próprio ao governo em 2018

Iris Rezende, com seu completo domínio do PMDB goiano, é a redenção e também a condenação da sigla | Fernando Leite/Jornal Opção

Quem nasceu da década de 1980 para cá não tem a menor noção, a não ser pela pouca literatura a respeito, do que o PMDB representou para o Brasil na fase de redemocratização. O partido não tinha bandeiras. Era ele próprio a bandeira da maioria esmagadora da população brasileira. Um extraordinário fenômeno partidário jamais alcançado por outra agremiação.

Nem o PT dos velhos tempos, no auge, conseguiu sequer se aproximar da quase unanimidade nacional que o PMDB foi. Quem olha hoje para esse PMDB que aí está, liderado por figuras como Michel Temer (SP), Valdir Raupp (RO), Renan Calheiros (AL) ou Eduardo Cunha (RJ), provavelmente não percebe o que era o PMDB de Ulysses Guimarães (SP), Tancredo Neves (MG), Mário Covas (SP) ou Franco Montoro (SP). E isso para ficar em nomes um pouco mais frescos na memória. O PMDB era a elite máxima da política brasileira, e graças àquela elite a democracia se tornou um fato irreversível. O Brasil, enquanto nação democrática, deve muito ao velho PMDB. Não a esse PMDB dos dias atuais. Esse, não.

O partido era tão hegemônico com sua grandeza que seus líderes diziam que era o “maior partido do mundo ocidental”. Provavelmente, não era, não. Em outros países, como no México do PRI, provavelmente existiram partidos maiores. Mas por aqui ninguém ousava contestar a frase um tanto quanto prepotente e extremamente ufanista.

Nessa mesma época, não de ouro, mas de diamantes, do partido em nível nacional, os peemedebistas goianos cunharam a própria frase: o PMDB de Goiás é o mais forte do Brasil.

Ninguém foi conferir se a frase realmente era verdadeira ou não. O PMDB goiano era forte demais da conta para alguém duvidar. Tanto que nas eleições de 1986, a segunda para governador do Estado após o retorno das eleições diretas, a disputa aconteceu entre dois peemedebistas, Henri­que San­tillo e Mauro Borges. A oposição não tinha um só nome com representação abrangente, e por isso abraçou de imediato a candidatura de Mauro, que havia deixado o PMDB. Aliás, Mauro deixou o partido, mas o PMDB jamais saiu de dentro dele.

Nunca.

Foi um tempo em que o PMDB ganhava praticamente tudo o que disputava, do governo aos vereadores. Ganhou inclusive a Presidência da República, com Tancredo Neves, na eleição indireta de 1985. Por sinal, nas eleições de 86, a oposição conseguiu vencer em apenas um Estado. Em todos os demais, em todas as cinco regiões do país, só deu PMDB.

O tempo passou e o PMDB de antigamente perdeu sua enorme identificação com boa parte da população brasileira. Em Goiás, não foi nada diferente. Em 1998, em uma virada histórica, os peemedebistas co­meçaram o atual calvário. Ao contrário do que ocorre em nível nacional, onde o partido ainda consegue maioria aqui e acolá, em Goiás a si­tuação é bem ruim. Para alguns o­bservadores da cena política estadual, Iris Rezende e seu completo domínio do PMDB no Estado, é sua redenção e também a sua condenação.

Tanto uma avaliação quanto a outra faz sentido. Sem a enorme liderança e presença de Iris, o PMDB não seria tão grande como foi, e de certa forma ainda é, embora incomparavelmente menor do que nas décadas de 1980 e 1990. Mas também por essa liderança ser tão abrangente dentro do fora do PMDB, o partido jamais conseguiu se renovar, e envelheceu juntamente com Iris. E isso é um fator inexorável. A pegada já não é a mesma. Nem do partido e nem de Iris.

Pode ser o ocaso do ex-gigante da política goiana? Sim, pode ser. Por sinal, existem sinais evidentes de que isso já está em curso. Do jeito que as coisas estão acontecendo nas entranhas do PMDB, é pouco provável que o partido consiga lançar candidato próprio ao governo do Estado em 2018. O nome mais viável é obviamente, e sempre, o de Iris. Mas enfrentar mais uma disputa após duas derrotas consecutivas é dose cavalar até mesmo para um líder como ele. A solução seria o irismo aceitar que outra corrente interna entrasse no jogo. Mas quem, a não ser um integrante do chamado grupo maguitista. O PMDB hoje se resume a esses dois grupos. Como existe um veto aos maguitistas, a saída é encontrar nome externo. É onde entra Ronaldo Caiado (DEM), única liderança bastante expressiva em nível estadual que é aceita pelo irismo.

Em resumo, o PMDB, o outrora gigante da política goiana, agoniza publicamente, e pode chegar ao ponto de nem ao menos lançar candidato próprio ao governo do Estado em 2018. Difícil perspectiva para o partido que há 36 anos iniciou a conquista política de Goiás, e que aos poucos vai se tornando cada vez menor.

impostos

Brasil: Quanto mais impostos, mais corrupção

Nas últimas décadas, a insaciável fome de impostos dos governos transformou o país numa fabulosa máquina de arrecadação e de corrupção

pocoA lógica diz que há dois caminhos distintos na moderna arte dos povos de governarem a vida social: com grande ou com quase nula participação do Estado. Os exemplos mais conhecidos desses dois modelos são os países europeus e os Estados Unidos. Reino do conceito da social democracia, a Europa que vive bem é administrada por governos que cobram altíssimos impostos, mas que oferece serviços gratuitos que asseguraram uma vida toda, da infância à velhice, com certa tranquilidade e segurança. Já na pátria da livre iniciativa, os EUA, os impostos são muito mais baixos, quase irrisórios se comparados aos padrões europeus, mas em compensação cada cidadão tem que dar seus próprios pulos para conseguir se agarrar nos galhos da grande árvore da vida.

Parafraseando o saudoso ministro Sérgio Motta, do governo de Fernando Henrique Cardoso, “masturbações sociológicas” e ideológicas de lado, os dois modelos são muito bons. São o que existe de melhor no planeta hoje em dia. Nos Estados Unidos, o que o cidadão pagaria de impostos a vida toda fica no bolso, e assim ele depende muito pouco de uma previdência estatal, e pode optar pelo plano que assegure o seu futuro da maneira que quiser. Ou seja, ele tem condições de governar a sua própria vida. Na Europa, os governos pegam pesado nos impostos, mas acabam oferecendo garantias futuras comum a todos.

O Brasil não segue nem um modelo nem outro. É uma abominação em matéria de diretriz de governança. O país é um dos campeões mundiais em arrecadação e um dos campeões em prestação de serviço ineficiente e ineficaz, quando não simplesmente ausente. E para piorar o que é péssimo, a fome de impostos é absolutamente tanto irracional quanto insaciável. Não há um só governo capaz de formular um plano, ainda que de longo ou longuíssimo prazo, que vislumbre um planejamento que vise reduzir a carga tributária. Aliás, o país não tem plano nenhum para o futuro. É a pátria da injustiça social e do improviso governamental.

Nas últimas décadas, o país iniciou uma trajetória absolutamente insana na escalada dos impostos. Saiu de patamares que jamais foram baixos para a estratosfera europeia. E a única contrapartida real e palpável que se obteve para esse aumento de impostos foi a… corrupção. Sim, há uma estreita linha paralela traçando os caminhos percorridos pela carga tributária de um lado e a roubalheira de dinheiro dos cidadãos do outro lado. De forma que quanto mais se arrecada, mais ainda se rouba.

E esse roubo se da de todas as formas e em todos os níveis da administração. De câmaras municipais de cidades minúsculas às prefeituras de pequenas, médias e grandes, dos Estados mais pobres da Federação aos portentosos detentores dos melhores índices econômicos, da repartição pública federal que pouca gente sabe sequer que existe, aos mais luxuosos gabinetes da República. Não é a toa que os impostos no Brasil são tão elevados e nunca sobra dinheiro para devolver serviços de qualidade para quem os paga.

Talvez fosse o caso de se quebrar a arrecadação de um momento para o outro pela metade. Numa paulada só. É óbvio que isso quebraria os governos. Todos eles. Não sobraria um só em pé. Mas em compensação talvez o povo conseguiria sobreviver, e quem sabe até viver com melhor qualidade, sabendo de antemão que não poderá contar com a máquina administrativa para nada.

É claro que não seria nada razoável colocar em prática uma ação como essa, de reduzir imediatamente a arrecadação pela metade de um dia para o outro. O que se tenta passar aqui, e as­sim utiliza-se essa figura de retórica, é uma diretriz de raciocínio. O país precisa se libertar desse modus operandi da vida nacional, onde a cada eleição os candidatos sempre dizem o que vão construir a mais e jamais falam em quanto vão deixar de arrecadar para que o cidadão possa viver melhor, com o dinheiro que é dele, no próprio bolso.

A verdade é que se os governos brasileiros arrecadam demais e gastam de menos com a aquilo que verdadeiramente interessa à população, então sobra dinheiro aos montes. E ao sobrar, o Estado se torna perdulário, irresponsável. Não é por outra motivação que o Brasil, que jamais entregou qualidade de vida sequer mediana em comparação com a Europa ou com os Estados Unidos, pratica devaneios desnecessários e de certa forma insanos ao patrocinar eventos como a Copa do Mundo, no ano passado, e as Olimpíadas, no ano que vem. Ou ao investir os impostos pagos pelos esfolados brasileiros em países sem a menor identidade cultural com sua população. E, para fechar esse ciclo de gastança sem justificativa racional, some-se a rede de corrupção presente em cada repartição do país. Nenhum povo do planeta conseguiria pagar por tanta bandalheira e irresponsabilidade administrativa.

Vazando um bocado para a tal “masturbação” a qual se referiu Sérgio Motta, mas resvalando no aspecto ideológico, existem os doutores que a tudo tentam explicar como se fosse perfeitamente fácil compreender a dimensão da encrenca em que nos metemos cada vez mais. Tudo isso seria, nessa visão maniqueísta do confronto entre direita e esquerda, resultado da desigualdade social que separa ricos e pobres.

Faz sentido, sem a menor sombra de dúvidas. Faz todo sentido. O Brasil é mesmo um dos países mais desiguais do planeta. Só comparável aos piores lugares do mundo para se viver em sociedade. O problema, e é aqui que a discussão ideológica ganha dimensões de tragédia, nem governos de tendência de esquerda nem de direita fazem ou fizeram alguma coisa para quebrar essa trajetória da desigualdade.

Para ficar em um só exemplo, diante de zilhões deles, basta citar os rendimentos pagos para os pequenos poupadores, os mais pobres, pela caderneta de poupança e o FGTS, que é uma parcela de salários que o trabalhador deixa de receber mensalmente para teoricamente acumular como se fosse um seguro indenizatório em caso de demissão. Essas duas modalidades estão entre as de piores rendimentos do imenso mercado dos capitais do país. Na outra ponta, a dos grandes capitalistas, dos fundos de renda fixa aos demais pacotes de investimento, há um extraordinário ganho financeiro diário. Na prática, se um pobre consegue economizar míseros reais ao fim de cada mês, e sabe-se lá como consegue fazer isso, e deixa seu dinheiro na caderneta de poupança ao longo da vida, no final vai ter muito menos poder de compra do que deveria. Ou seja, apesar de poupar, ele fica mais pobre. É o oposto do que ocorre com o rico e sua vasta carteira de rendimentos. Ele sempre fica um pouco mais rico.

O atual governo diz que seus programas sociais estão promovendo uma revolução para melhor quanto às desigualdades sociais. É mentira. Agora mesmo, com o tal ajuste fiscal, mais uma vez o pobre ficará bem mais pobre, e nada indica que os ricos não conseguirão se proteger. Que se veja o que se faz com o aposentado, que passa a vida toda pagando sobre dez salários mínimos, e ao se aposentar recebe a cada ano muito menos para não “quebrar a Previdência”.

Sim, a desigualdade social é realmente um sério problema brasileiro. Mas esse problema não será resolvido com mais impostos e bolsas famílias. Isso só aumenta a franquia sobre as máfias corruptas e provocam uma catarse coletiva entre os eleitores mais penalizados pela desigualdade. E, mais uma vez, deixando de lado os pruridos da masturbação ideológica, no caso brasileiro, quanto menos governo houver, mais povo haverá. Essa é uma conclusão óbvia porque os mais graves problemas do Brasil não são o seu povo, mas seus governos.

papa:morales

E se fosse um nazista presenteando um judeu com a suástica…

Os mais elementares ensinamentos da doutrina comunista pregam que a religião é o ópio do povão. Ou seja, entorpece e deixa os pobres humanos como se fossem uma massa de zumbis sem vontade definida. Em todos os países que os comunistas golpearam a liberdade e se impuseram as igrejas e os crentes sofreram. Não que nessas nações tenha se atingido a plenitude do Estado laico. Não, longe disso. A religião para os comunistas é droga pesada e a mão do combate a ela deve ser mais pesada ainda.

papa:morales

Pulando dos confins da história do século passado para os dias atuais, o boliviano Evo Morales, um comunista declarado, conseguiu unir as duas coisas: o catolicismo e a doutrina da ditadura do “proletariado”. Durante visita de cortesia do papa Francisco à Bolívia, Evo o presenteou com uma “arte” que soou quase como um acinte, para ser ameno quanto à interpretação de suas intenções: Um crucifixo entalhado numa foice e martelo, símbolo do comunismo.

Desrespeito? Provavelmente, não. Evo não parece ter inteligência e sutileza suficientes para isso. Foi algo debilóide. Grosso modo, seria o mesmo que presentear um judeu com uma suástica nazista. E o que é pior: acreditar que está agradando o presenteado. Definitivamente, Evo não é um sujeito que deve ser levado a sério. Aliás, ele não é levado a sério por ninguém no mundo.

bolivianos na petrobras

Mas, espere, ninguém, vírgula. Nos últimos 12 anos, os inquilinos do Palácio do Planalto não apenas o levaram a sério como o ajudaram, inclusive abrindo mão, sem reclamar, de investimentos da Petrobras na Bolívia, tomados por ordens dele pelo exército boliviano. Ele também é levado a sério pelos seguidores do passarinho Chavez, da Venezuela, outro arremedo de regime comunista que, como os demais, acaba não tendo competência nem ao menos para colocar comida suficiente ao alcance da população. E, claro, como não poderia faltar, Morales também é levado a sério pelo castrismo, a elite ditatorial cubana incrustada desde a década de 1950 no poder.

Lula-Evo-Chavez

Enfim, tem gente que não apenas leva Morales a sério como gosta dele e de seu modo de pensar e agir. Gosta inclusive por ter ele presenteado o papa com o símbolo máximo da opressão ao catolicismo. Pena o papa não ter sacado do bolso uma réplica da estátua da Liberdade para devolver a gentileza. É mesmo uma grande pena.

cadeias abertas

Maioridade: Reduzir é mesmo a solução?

O aumento sistemático da criminalidade tornou o endurecimento das leis penais um tema permanente na sociedade brasileira

Plenário da Câmara dos Deputados aprova redução da maioridade penal: mais polêmica para um problema grave | Foto: Luis Macedo/Câmara dos Deputados

A Câmara dos Deputados aprovou na semana passada, ainda não definitivamente, a redução da maioridade penal. O que isso muda? Na prática, talvez a mudança seja para um quadro geral muito pior do que esse que aí está, e que é péssimo. Trancafiar menores de 18 anos nas penitenciárias não vai conseguir reduzir a criminalidade ou ampliar a sensação de segurança. Mas a grande verdade é que também não dá mais para deixar tudo como está, com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) promovendo em sua aplicação um autêntico culto à impunidade. Simplesmente, essa fórmula não funcionou.

Mas, então, qual seria a saída para essa autêntica carnificina que ocorre no Brasil atualmente, e que colocou o país na lista dos lugares com maiores possibilidades de ser assassinado? É uma pergunta sem resposta unânime. Ao contrário, esse tema talvez seja o que ais abriga opiniões, inclusive antagônicas. Para muitos, provavelmente a maioria da população, a redução da maioridade penal é, sim, uma das saídas.

É difícil combater essa linha de raciocínio diante de um dantesco quadro de violência como se vê no país todo. Ao ano, mata-se mais no Brasil do que em países em guerra. E a criminalidade só tem aumentado ano após ano. É por isso que o endurecimento das leis penais, e não apenas no caso dos menores de 18 anos, passou a ser um tema corriqueiro na pauta nacional. A esmagadora maioria entende que a violência só vai ceder caso a punição cresça na outra ponta. A aplicação de uma política branda nessa área acabou fazendo do Brasil um país “sem” lei.

Não são apenas os menores de 16 a 18 anos que cometem crimes bárbaros. A crueldade está incrustada na ação de uma significativa parcela de criminosos contumazes de tal forma que parece haver uma disputa entre eles para saber quem é o mais cruel. E não importa a idade. Vai de mamando a caducando. Se é assim, e assim realmente é, então a redução pelo menos vai punir uma faixa etária um pouco mais ampla.

Só que isso, a redução da maioridade penal, não é uma garantia de que a criminalidade irá cair a níveis civilizados. Mas também não vai ser combustível para ampliá-la, ao contrário do que dizem os defensores da manutenção da punibilidade a partir dos 18 anos. A redução é simplesmente ineficaz nas duas situações, tanto na diminuição como no aumento da criminalidade. É uma varinha de condão ou um caldeirão de bruxa má, dependendo do ponto de vista de quem aborda o tema, sem nada dentro, sem poder algum.

A saída também não é deixar tudo como está, evidentemente. O ECA, um conjunto de leis que sempre foi saudado como uma das legislações para crianças e adolescentes mais avançado do mundo, se revelou impraticável num país que ainda precisa amadurecer bastante o seu próprio conceito de cidadania. Se a redução é ineficaz e a manutenção de tudo o que há gera mais insegurança, o mais produtivo seria uma discussão mais aprofundada a respeito do próprio ECA. Não é o caso de revogá-lo no todo ou em parte, mas é absolutamente imprescindível mudá-lo em alguns pontos.

O limite de reclusão dos menores infratores deve ser ampliado de forma que atenda às intenções razoáveis de punibilidade e reedução e reinserção social. Outro ponto que precisa ser discutido é a recuperação da primariedade ao se atingir a maioridade sem que se leve em conta sequer a gravidade do delito cometido. Esse aspecto do ECA não tem como não ser compreendido como impunidade absoluta. Matou e estuprou aos montes? Sem problemas, conforme está hoje no ECA, o Estado esquece tudo. Vida nova sem que se tenha qualquer garantia de que os mesmos crimes não vão ser novamente praticados e, aí, sim, punidos como prevê a lei criminal para os cidadãos acima de 18 anos.

Enfim, embora o debate esteja centralizado no endurecimento da aplicação das leis por causa do emocional coletivo abalado pela escalada do nível de criminalidade crescente, e aparentemente sem solução, ele é secundário enquanto solução. Muito mais importante e vital é garantir pelo menos que as leis sejam aplicadas, que a legislação tenha efeitos práticos. A certeza da punição pode inibir, sim, o cometimento de um crime, especialmente os mais violentos. A legislação que o Brasil tem “sabe” como punir e reprimir, mas não usa esse seu “conhecimento”. Então, não adianta nada endurecer a lei se ela não será, como não tem sido, aplicada de forma rigorosa. Esse é o primeiro passo: aplicar a lei. Depois disso, e se ainda for necessário, que se endureça.

 

lula Opção

Crise Até o Lula reclama

Quatro anos e meio após “inventar” a candidatura de Dilma Rousseff em sua sucessão, ex-presidente Lula reclama do governo da companheira

Ex-presidente Lula da Silva: sem poupar críticas ao seu partido e  à presidente que ele inventou

Em meados de 2009, quando já se encaminhava para o fim do segundo mandato como presidente do Brasil, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva começou a enfiar a candidatura de Dilma Rousseff à sua sucessão goela abaixo do PT. Inicialmente, ela era um dos nomes menos prováveis. Primeiro em função do seu histórico partidário. Dilma era brizolista quando da formação do PT, e só assinou a ficha no partido da estrela vermelha em 2001. Para os petistas mais fervorosos, esse era um pecado bastante grave na ordem hierárquica interna.

Mas como manda quem pode e obedece quem tem juízo, Dilma virou a mãe do PAC e candidatou-se com o apoio do PT. Pois agora, após a reeleição no final do ano passado, até o Lula está reclamando do governo de sua escolhida.

A primeira avaliação dos observadores do cenário político nacional é de que Lula está procurando uma maneira de se afastar da presidente Dilma para não ser contaminado pelo mau humor da população em relação aos rumos deste início de segundo mandato. Há um ou dois meses, Lula teria admitido que uma possível candidatura dele à Presidência em 2018 só seria viável se o governo Dilma se recuperasse. De duas, uma: ou ele chegou a conclusão que o governo é um caso perdido, ou Dil­ma criou uma rota de colisão com os interesses do ex-presidente na es­fera administrativa. Como hipóteses, as duas teses fazem sentido.

Embora ainda restem três anos e meio de mandato, dificilmente o governo Dilma vai conseguir recuperar completamente o prestígio que já teve antes. O tranco que foi dado na economia com um todo não apenas levou o país para uma recessão, que o próprio governo admite que será acima de 1% este ano, como também liquidou com qualquer esperança de melhora a curto prazo. Economia, como se sabe, nem sempre precisa estar tinindo, mas deve passar otimismo. Recessão temperada com forte dose de pessimismo cria uma espécie de moto-contínuo de complicadíssima e demorada solução. Em tese, é isso o que está acontecendo.

Por outro lado, Dilma pode ter chegado à conclusão que os escândalos que explodiram em seu governo, e que ajudaram muito a baixar ainda mais a sua popularidade, são na verdade uma bomba de efeito retardado que vinha desde os governos de Lu­la, mas que explodiram somente agora. Além disso, o próprio ajuste fiscal é uma necessidade gerada muito mais nos governos anteriores, quando a crise mundial foi desdenhada como simples marolinha, do que nas gas­tanças atuais. Daí, provavelmente se extrai o enredo da tese de que Lula e Dilma estão em rota de colisão.

Por uma razão ou pela soma de vários motivos, a verdade é que o ex-presidente tem reclamado de tudo, até do seu próprio partido, a quem acusou de estar mais preocupado em manter cargos do que com projeto. As críticas diretas ao governo Dilma também foram em tom pesado.

Mas, como sempre fez, Lula critica, bate em vários pontos, e não apresenta sugestões. Qual é a saída para a crise que está se agravando com o ajuste fiscal? O que ele acha que pode ser feito para que a tempestade passe o mais rápido possível? Se o Lula sabe o que fazer, ele não disse pra ninguém.

O pacotaço de Dilma para conter a crise de caixa do governo é mesmo problemático. Ele atinge somente a parcela dos impostos, taxas e contribuições pagas pelos cidadãos brasileiros, sem diminuir em nada a mastodôntica estrutura do próprio governo, que é, por sinal, onde estão os problemas mais sérios. O governo do Brasil, apesar de oficialmente afirmar que está tentando debelar uma crise fortíssima, continua sendo campeoníssimo em número de Ministérios. São quase 40 pastas de primeiro escalão. E ainda assim há descontentamento geral tanto no PT como também no principal aliado, o PMDB.

Como está completamente abalado e enfraquecido, o Palácio do Planalto perdeu as condições de fazer política, e caminha muito rapidamente para abrir oficialmente um varejão dos votos no Congresso Nacional. Embora a prática não seja exatamente inédita na política brasileira, pode ser que a proporção desse autêntico escambo de votos por cargos aumente até o sangramento final do governo Dilma.

Ao se afastar da presidente e do seu governo, e até do PT, esfrangalhado em sua popularidade por causa do envolvimento de tantos petistas nos muitos escândalos, do mensalão ao petrolão, Lula quer mesmo evitar alguma contaminação mais grave. A imagem dele já foi afetada. O Datafolha, em recente pesquisa temporã, revelou que o senador tucano Aécio Neves estaria com 10% a mais do que Lula numa eventual disputa pela Presidência da República. É lógico que uma pesquisa como essa tem muito pouco do conceito eleitoral e muito mais da conjuntura de desgastes atual. Em outras palavras, essa pesquisa tem muito pouca importância em relação a 2018, mas revela que, sim, a imagem do ex-presidente Lula foi bastante danificada. Talvez não seja o caso de se dizer que o “rei está nu”, mas é certo afirmar que ele já não possui aquele manto real que exibia quando terminou seu segundo mandato, em 2010.

Esse é hoje mais um dilema para Dilma. Se Lula realmente continuar esse caminho como opositor a ela e ao seu governo, cria-se um quadro geral absolutamente incerto. Não só para ela e seu mandato, mas também para ele, como padrinho. Embora não seja de dar tapas ou murros na mesa, Dilma pode, num último gesto, se abraçar a Lula e, assim, levar a ambos para o mesmo buraco.

saude

Brasil Improvisado: Qual é o plano pós-ajuste?

Ao contrário do que seria razoável, os governos brasileiros são marcados pelo improviso e falta de programa de metas

Caos nas unidades de saúde da rede pública mostra o descaso com o planejamento por parte do governo federal | Pedro Dias

Basta reparar bem sobre o passado, olhar com alguma atenção para o presente e tentar apontar um rumo que esteja sendo planejado para o futuro para perceber que o Brasil é um país governado desde sempre pelo improviso. Pra fazer justiça com esta observação, talvez o único período em que o país teve um roteiro planejado para o futuro foi durante o recente — nem tão recente assim… — período ditatorial. Havia planos, metas a serem perseguidas, embora não exatamente um planejamento global e continuado. Cada general de plantão no Palácio do Planalto estabelecia seu próprio planejamento, geralmente abandonando o plano anterior. Depois dos militares, e antes deles, quase sempre imperou a tática do improviso, do socorro imediato.

As nações mais desenvolvidas têm metas estabelecidas para os próximos 10, 20 e até 30 anos. O Brasil trabalha pela manhã para garantir o almoço e volta ao batente à tarde para ter o que comer no jantar. A prova maior dessa marca dos governos brasileiros é o pacote de ajustes fiscal. Não há qualquer referência para o futuro. Não existe plano algum.

O mais acabado exemplo de improvisação do país é a previdência social. Agora mesmo, o Congresso Nacional resolveu acabar com um sistema penduricalho, o tal fator previdenciário, e inventou uma fórmula que soma idade e tempo de contribuição. Aí, a equipe econômica, embora respeitando esse modelo, acrescentou um ano a cada ano. Por que não se pode planejar para que, num futuro próximo, a previdência oficial seja tão funcional e transparente quanto as previdências privadas? Não é coisa tão complicada assim, basta planejamento. Imagine como seria muito diferente se o cidadão possuísse um cartão desses dos bancos e, com ele, pudesse saber quanto contribuiu ao longo do tempo, quanto esse dinheiro rendeu e qual é o saldo de sua poupança. Isso faria com que todos pudessem fiscalizar o que o governo vem fa­zen­do com o seu dinheiro e com o seu futuro. Com essas fórmulas im­provisadas e milagreiras aplicadas na previdência social brasileira, as aposentadorias que estão sendo poupadas agora só serão efetivadas no futuro se o cidadão tiver um filho que trabalhe e contribua para a previdência. É por essa razão que a cada par de anos se anuncia que a previdência vai quebrar se não houver novo achatamento nas aposentadorias.

Esse exemplo de improviso não é exceção, infelizmente. Em todos os setores da vida tupiniquim essa é a prática. Veja o caso da capacidade energética do Brasil. Não há espaço para crescimento econômico porque não existe energia elétrica suficiente para garantir o funcionamento de mais máquinas. Se o país, a despeito da falta de planejamento dos governos, conseguisse se expandir economicamente fatalmente o risco de apagão se concretizaria. E o improviso não está somente na capacidade de geração de energia, mas até nas mais óbvias metas imediatas. Existe no país inúmeras falhas no sistema que impedem até mesmo o aproveitamento de alguma energia gerada por falta de linhas de transmissão. Ou seja, improvisadamente foram erguidas fontes de geração, mas ninguém pensou em como tirar essa energia de lá e espalhar pelo mercado consumidor.

Outro exemplo de improviso? São tantos que é até difícil escolher um tema para isso. Estradas, então. Quantas vezes o cidadão brasileiro se deparou com a informação de que existem pontes que ligam nada a coisa alguma no meio das matas. É uma coisa absolutamente maluca essa. Pontes que não tem estradas nem antes e nem depois. São verdadeiros monumentos da insensatez da improvisação dos governos brasileiros.

A coisa é tão improvisada no Brasil que nem a terceirização das rodovias é resultado de algum planejamento, de um plano de metas. Nadica de nada. Chegou-se à terceirização por um único motivo: os governos não têm dinheiro suficiente, apesar de bater recordes de arrecadação a cada ano, para ao menos manter a capa asfáltica em boas condições de uso. Nem se fale quanto ao aumento da capacidade de tráfego porque aí seria pedir demais diante da enorme capacidade de se improvisar.

Mais exemplos? Saúde pública. O Brasil tem um dos modelos mais sensacionais do planeta, de atendimento universal da população. No papel e nos discursos apenas. Na prática, no dia a dia, os hospitais e demais postos de atendimento de saúde são um caos permanente. São câmaras de horrores, com pessoas estendidas no chão e sem qualquer forma de tratamento.

Os profissionais da área, médicos e enfermeiros, vivem dizendo que o principal trabalho deles é separar os pacientes com melhores chances de sarar daqueles que o tratamento seria mais complicado, e por isso, embora sejam as pessoas que mais necessitam de ajuda, recebem uma “condenação” à morte. Cena grotesca: morrem à míngua dentro de hospitais que são cobertos pelo melhor modelo de saúde pública do mundo, mas que funciona apenas no papel.

A falta de planejamento no Brasil é tão grande que nem seria necessário citar esses casos extremos na saúde. Bastaria ver quantas vezes a imprensa denuncia por ano a falta de remédios nos postos de saúde espalhados pelo país inteiro. Tem posto de saúde sem esparadrapo, desinfetante, comprimidos para aliviar pequenas, mas incômodas dores e sofrimento ou controlar a febre. E quando se ouve a “autoridade” sobre essa carência tão elementar, invariavelmente a resposta é uma só: houve atraso, mas o remédio vai chegar brevemente. E esse brevemente pode significar alguns dias ou meses. Por que isso ocorre? Por falta de planejamento correto de necessidade de demanda. Seria justificável a falta de remédios tão elementares se, e quando, enfrenta-se um surto epidêmico. Mas não. No Brasil, isso é rotina.

O ajuste fiscal que está sendo implantado atualmente é mais um momento de improviso total. É o caso, por exemplo, do aumento das alíquotas de vários impostos. OK, é uma emergência, mas por acaso alguém informou sobre o tempo que esse “remédio” será aplicado? Quando as alíquotas maiores não serão mais necessárias? E as taxas de juros, quando voltarão aos patamares de um país economicamente forte? Generica­men­te, as autoridades da área econômica sinalizam que este ano a coisa vai ser feia, mas que a partir do ano que vem a situação vai começar a melhorar. Acredite quem quiser.

pedro-wilson

Goiânia: Eleitorado gosta de triângulo forte

Ao contrário do que historicamente ocorre nas disputas estaduais, goianiense quase sempre leva eleição para concentração entre três nomes, o que deve se repetir em 2016, e nesses casos não há favoritismo

Desde a redemocratização do Brasil, no início da década de 1980, as elei­ções no Estado de Goiás sempre tiveram forte polarização entre dois grupamentos políticos. A única exceção foi em 1994, mas mes­mo assim dois dos três candidatos que disputaram voto a voto o go­verno do Estado pertenciam ao mes­mo tipo de eixo político. Já a capital adotou uma linha diferente, criando a concentração em torno de três nomes em alguns anos. Esse, por sinal, pode ser o destino da eleição de 2016, com três candidatos relativamente em igualdade de condições para chegar ao segundo turno.

Foram nove eleições para o governo de Estado desde 1982. Iris Rezende venceu duas vezes, em 82 e em 90, derrotando diretamente Otávio Lage e Paulo Roberto Cunha (ambos falecidos). Henrique Santillo ganhou de Mauro Borges Teixeira (ambos também falecidos) em 1986. Alcides Rodrigues bateu Maguito Vilela em 2006, e o mesmo Maguito ganhou em 1994 numa disputa intensa contra Lúcia Vânia e Ronaldo Caiado. Essa concentração entre os três candidatos se deu porque um dos eixos políticos, o de oposição, rachou na fase de pré-campanha, quando existiu inclusive a possibilidade de união entre eles. No final, eles disputaram os mesmos eleitores, que retira da eleição o caráter de disputa tripla. As outras quatro eleições foram vencidas por Marconi Perillo, em 1998, 2002, 2010 e 2014.

Já em Goiânia o cenário mudou bastante. A primeira eleição direta após redemocratização ocorreu apenas em 1985. Nela, PMDB e PT protagonizaram uma disputa bastante intensa, com vitória de Daniel Antonio contra Darci Accorsi (falecido). Em 1988, Goiânia inaugurou a tríplice disputa, vencida por Nion Albernaz contra o petista Pedro Wilson e Maria Valadão, do PDS. Em 1992, mais uma disputa em torno de três candidatos destacados, com vitória de Darci Accorsi contra Sandro Mabel e Sandes Júnior. Quatro anos depois, em 96, Nion ganhou novamente em nova eleição triplamente centralizada contra Luiz Bittencourt e Valdi Camárcio. Em 2000, o eleito foi Pedro Wilson, que bateu Darci Accorsi e Lúcia Vânia. Em 2004, deu Iris Rezende, que derrotou Pedro Wilson e Sandes Júnior. Em 2008 e 2012, não houve segundo turno, e Iris Rezende e o atual prefeito Paulo Garcia venceram com tranquilidade. Em resumo, nas oito eleições, em três apenas a disputa não aconteceu entre três nomes: na primeira e nas duas últimas.

Como todas as previsões possíveis neste momento para a disputa do ano que vem não apontam para um favorito destacado, nem mes­mo Iris Rezende, é tendência que a concentração retorne ao seu eixo favorito, entre três candidatos. Essa característica garante fortes emoções ao longo da disputa e muitas vezes ocorrem viradas fenomenais na reta final de campanha.

Em 96, por exemplo, Nion sempre apareceu na frente, mas o segundo turno só foi decidido entre Bittencourt e Valdi Camárcio por uma margem apertadíssima, com vantagem do peemedebista de apenas 1,5% dos votos. Em 2000, Lúcia Vânia aparecia quase o tempo todo na segunda posição, mas na reta final ela e Darci Accorsi foram surpreendidos por uma extraordinária arrancada de Pedro Wilson, que pulou do terceiro lugar para a vitória. Também em 2004 a centralização em torno de três candidatos provocou alegrias e decepções de última hora. Iris Rezende sempre liderou, mas Darci Accorsi aparecia com alguma folga na segunda posição, seguido de perto por Sandes Júnior e Pedro Wilson. No final, Pedro ultrapassou Darci e Sandes, e disputou e perdeu o segundo turno para Iris Rezende.

Essa dança imprevisível das posições durante a campanha é uma das mais marcantes características das eleições focadas em torno de três candidatos fortes. E isso poderá acontecer mais uma vez no ano que vem em Goiânia. É certo que o PSDB e seus aliados da base estadual comandada por Marconi Perillo irá lançar algum candidato. E ele nasce forte, naturalmente. O ex-candidato ao governo do Estado e ex-prefeito de Senador Canedo Vanderlan Cardoso é outro nome bastante cotado. Se Iris Rezende for candidato mais uma vez, pelo PMDB, o cenário da centralização tripla estará montado. O PT, neste momento, não parece ter forças suficientes para contrapor a esses nomes. De qualquer forma, mesmo que supere a fase atual, dificilmente a disputa tenderá a ser entre quatro nomes. Isso jamais ocorreu em Goiânia.

E o que poderá resultar numa eleição triplamente centralizada no ano que vem em Goiânia? Está aí uma pergunta que não tem resposta com um mínimo de segurança. É comum ocorrem surpresas em eleições assim. Inclusive na reta de chegada. No Rio Grande do Sul, na disputa pelo governo do Estado, o então governador Germano Rigotto liderou as pesquisas até na boca de urna. Apurados os votos, Rigotto nem chegou ao segundo turno. E nem seria necessário buscar o exemplo gaúcho para demonstrar que centralização com três candidatos pode terminar com surpresas. Pedro Wilson, em 2000, na eleição que terminou por vencer, apareceu o tempo todo em terceiro lugar durante a campanha no primeiro turno. Contados os votos, ele ganhou os dois turnos.

Mas tripla concentração sempre pode ter surpresas? Sempre, não, mas quase sempre, sim. E é fácil entender porque isso acontece. Não é manipulação de pesquisas e nem nada parecido. O que acontece é que a divisão do eleitorado em três partes torna essas parcelas muito semelhantes porcentualmente. Então, uma pequena variação, nem sempre possível de ser captada nas pesquisas, pode lançar quem estaria em terceiro lugar diretamente para a liderança. Por fim, a última característica de eleição triplamente centralizada é que o candidato que confirma as expectativas no primeiro turno ou quem consegue surpreender na apuração, geralmente vence também o segundo turno.

Tudo isso, inegavelmente, joga uma nuvem espessa sobre as possibilidades de cada eixo político para a sucessão do prefeito Paulo Garcia, no ano que vem. Quaisquer que sejam os candidatos desses eixos políticos estabelecidos na capital têm chances. Menos o PT, pelo menos por enquanto.

 

filas eleição

Brasil: A democracia dos passivos

O conceito de democracia no Brasil se resume em votar de dois em dois anos e deixar o barco rolar depois. Não pode dar certo

Brasileiros votam, o que é obrigação, mas não questionam os eleitos depois, o que enfraquece a representação | Foto: Mariama Correia

É um ditado meio ufanista repetido à exaustão por dezenas de anos: o brasileiro é um sujeito pacífico. Isso é apenas uma frase bonitinha, mas de conteúdo falso e, portanto, ordinário, inadequado. O brasileiro nunca foi pacífico. Ao contrário, hoje está entre os que mais matam no mundo. Sem contar as brigas que resultam em ferimentos entre leves e graves aos milhares e por motivos quase sempre banais. Isso não é ser pacífico. Ao contrário, é ser violento pra caramba.

Essa autofama de bom e cordato sujeito talvez tenha ligação com o fato de que o Brasil não tem guerras contra seus vizinhos há mais de 100 anos, e somente entrou na 2ª Guerra Mundial após ser atacado em suas enormes costas marinhas. Em relação aos vizinhos, essa paz aí é garantida pelo tamanho do país que nos foi entregue pelos portugueses, que abrange quase todo o continente sul-americano e fala a mesma língua, embora com sotaques regionais. A vizinhança, deixada pelos espanhóis, é uma colcha de retalhos. A única coisa em comum é a língua espanhola. O resto é rivalidade o tempo todo, e históricas briguinhas por causa de um morro aqui e outro ali. Então, é uma paz naturalmente proveniente do tamanho da encrenca que qualquer vizinho teria se crescesse os olhos pra cima do país. E nós já somos grandes demais para cobiçar algum morro na vizinhança.

Mas no dia a dia o brasileiro é qua­se um bárbaro. E o “quase” aqui é uma maneira sutil de amenizar a palavra. O sujeito aqui se vangloria de chamar pra briga por qualquer coisinha de nada. E os que estão em volta, assistindo, ainda consideram o cara “bravo pra caramba”. Bravo nada. É, sim, um troglodita. E esse caráter violentíssimo não respeita nem idade. As escolas estão aí para nos jogar na cara essa verdade, com meninos, meninas e adolescentes de ambos os sexos trocando tapas e pescoções, quando não facadas e tiros, por discussões absolutamente fúteis e superficiais. É apenas violência como fator cultural.

E, pra fechar, o pacífico ou pacifista é nada mais que um “frouxo”. Ou “frouxo” ou um “santo”, embora seja tão somente um sujeito perfeitamente civilizado, que vê a violência como última fronteira e não como primeira opção para oprimir ou se firmar.

Mas quando o assunto é a de­mocracia, aí até os “machões” se transformam em passivos, cordeirinhos humanos na fila silenciosa do abate. O brasileiro só é agente ativo na democracia quando, mesmo reclamando, entra na fila pra votar de dois em dois anos. E mesmo assim, se mostra passivo.

Veja, por exemplo, a tal identificação biométrica. Os bancos já adotaram esse sistema em muitos casos nos caixas eletrônicos. É muitíssimo difícil falhar. O cidadão chega, bota o dedão no lugar certo e, se tiver saldo, o dinheiro pula na mesma hora. Nas urnas eletrônicas é o caos. O sujeito põe um dedo, põe outro, passa uma gosma no dedo, tenta de novo e… necas. Aí ele saca o título eleitoral que não tem nenhum valor como documento pessoal de identificação. Apela então para a carteira de identidade e, apesar de tudo o que se gastou de dinheiro de impostos, despreza-se a máquina das digitais e vai no canetão mesmo.

Cumprida a formalidade mais banal do ritual democrático, que é o ato de votar, o brasileiro deixa de ter papel ativo e volta à passividade em relação à democracia. Só acorda novamente dois anos depois, para mais uma vez cumprir um direito que aqui é obrigação, um dever. Os eleitos e o sistema de funcionamento da democracia não são questionados pra valer. O brasileiro se conforma com o fato de que ao eleger alguém está lhe concedendo um cheque em branco, um salvo-conduto com duração prevista para quatro ou oito anos, como no caso dos senadores.

Sem falar no excessivo respeito que se tem para com as chamadas au­toridades. O brasileiro não percebe que sua passividade democrática pro­voca uma inversão de valores. A maior autoridade numa democracia é o povo. Os poucos escolhidos só são intocáveis como aqui em ditaduras.

É óbvio que não ter tamanha adoração pelas ditas “autoridades” não significa cair na vala comum da violência cotidiana. Não se trata de espancar nas ruas os eleitos que decepcionam, mas de questioná-los de forma civilizada e… democraticamente. Essa passividade total do brasileiro em relação ao poder constituído é que alimenta uma das piores anomalias para a vida social de uma nação: a eterna espera de um salvador da pátria. O problema é que esse príncipe encantado simplesmente não existe na vida real, na vida democrática. Os salvadores da pátria não são heróis engravatados, mas cada cidadão. E só há um caminho para isso: ser ativo democraticamente em tempo integral.

Opção-31:05

Ajuste Fiscal: Aumento dos impostos será permanente

É prática dos governos brasileiros, em todos os níveis, elevarem alíquotas em tempos de crise e nunca mais recuarem

Dilma Roussef impõe ajuste fiscal com medidas duras, enquanto a saúde pública vai de mal a pior no País | Foto: Roberto Stuckert Filho/ PR

No pacotaço da presidenta Dilma Roussef para debelar o desequilíbrio fiscal estão inseridos inúmeros aumentos de impostos. Em tese, apesar de todos os custos diretos para a população em geral, não há nada de errado nessa medida. Aliás, não haveria nada errado, mas há, sim. A prática secular brasileira é a de que aumentos de impostos nunca mais retornam aos patamares anteriores mesmo após o fim das crises de caixa. E, assim, o Brasil deve se acostumar com mais esse brutal aumento na carga tributária já campeã do mundo.

E o grande paradoxo desse pacotaço é que mesmo elevando a carga tributária a possibilidade de a arrecadação se manter nos níveis atuais ou com aumento bem leve é absolutamente real. O país está mergulhando numa recessão, e certamente isso provocará uma queda na receita de impostos. Em todos os níveis. É a velha história da cobra mordendo o próprio rabo.

Mas, afinal, como a crise poderia ser debelada? Um dos caminhos, sem dúvida, é esse que está aí, que inclui recessão, inflação, cortes generalizados dos benefícios, paralização de obras. É claro que esse não é o único caminho que se conhece, mas é sem dúvida uma fórmula inúmeras vezes aplicadas no mundo todo e 100% eficaz. Não há crise que resista a uma paulada tão forte.

É também a mais dolorida das soluções. A população pode se preparar para aumentos de preços em tudo, de equipamentos domésticos a industriais, comida, remédio e seja lá mais o que for, inclusive luz e água, como já se percebeu. Some-se a esse quadro desolador um latente aumento do desemprego, um custo maior na administração das dívidas via aumento nas taxas de juros e a baixa perspectiva de melhora a curto prazo.

O Brasil vai sair dessa tragédia econômica melhor do que sempre foi? Nem de longe isso vai acontecer. Ao contrário, talvez fique pior. Principalmente porque a prática dos governantes é jamais reestudar para menos as alíquotas de impostos. O Estado brasileiros, em todos os níveis, é um devorador de dinheiro absolutamente insaciável.

Basta observar, por exemplo, o projeto de ajuste via pacotaço. Não há uma só vírgula que determine redução nos gastos da administração. O que se está cortando é apenas no retorno que a população deveria receber, e sempre recebeu bem menos do que se paga com os impostos. A saúde pública é um caos somente comparável aos hospitais de campanha da Segunda Guerra Mundial — claro que com pacientes menos estourados que aqueles. Em alguns hospitais públicos as pessoas não são medicadas nem mesmo em cima de uma improvisada maca. Muitos tomam soro se equilibrando sentados em cadeiras. Outros, ficam estirados no chão por falta até de macas e cadeiras.

Na segurança pública o caos não é menor. Aliás, há muito o País perdeu o controle nessa área.As penitenciárias, além de velhas e muito mal conservadas, estão lotadaças. Ao ponto de alguns juízes optarem pela pior solução possível, que é não prender mais ninguém, o que nos remete ao aumento da sensação de impunidade. O descontrole do Estado é tamanho que no Rio de Janeiro não se consegue pacificar bairros inteiros dominados por bandidos nem com a ajuda do Exército e dos fuzileiros navais. O Brasil é campeão mundial de mortes violentas mesmo não estando em guerra há mais de cem anos.

A Educação forma o tripé da incompetência do Estado brasileiro — em todos os níveis. No papel, é tudo maravilhosamente de primeiro mundo. Na prática, é desolador ver tantas carências. Que vai desde a qualidade até a quantidade. Mesmo em Goiânia, uma das melhores e mais aprazíveis capitais do País, não há unidades de ensino suficientes para atender ta odas as crianças. Estudantes chegam às portas das universidades sem ter conhecimento básico nem ao menos da língua portuguesa. E o pior é que boa parte sai dessas faculdades quase do mesmo jeito de quando ingressou.

O Estado brasileiro é um monstro esfomeado de dinheiro, gasta muito e gasta da pior maneira possível. A crise seria menos dolorida do que vai ser se trouxesse embutido no pacotaço de arrocho medidas de severas contenção de gastos com a própria máquina. Isso não será feito. O Brasil vai permanecer do jeitinho que está, com um corpo ministerial sem igual no planeta, e uma mastodôntica máquina que administra de maneira irresponsável, inconsequente e sem efetivo controle. A crise do ajuste nas contas seria menos dolorida se parte dos custos dela fosse paga com redução na própria máquina administrativa. Como isso não será feito, a crise será vencida, sim, mas nem por isso o Brasil vai melhorar. É mesmo uma pena.

iris_rezende-18

Goiânia: Jogo “japonês”?

Quadro sucessório goianiense ainda não ganhou contornos definitivos. Por enquanto, o que há é uma forte possibilidade de vários partidos lançarem candidaturas próprias

Iris Rezende: referencial na disputa, mas vai ter problema por ter sido cabo eleitoral de Paulo Garcia | Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Dentre as inúmeras possibilidades que existem para a sucessão de 2016 em Goiânia, apenas uma é certeza absoluta: o prefeito Paulo Garcia (PT) não será candidato à reeleição. Ele foi reeleito em 2012, e a legislação impede uma terceira candidatura consecutiva. Fora isso, tudo é possível. Mais do que isso, tudo está sendo discutido. Neste momento, PSDB, PSD e PTB, pela base aliada estadual, PT e PMDB, além do PSB, jogam seus nomes nos tubos de ensaio das articulações e especulações políticas para ver no que vai dar. Até o PP, de Sandes Júnior, se diz na onda pa­ra novamente surfar na campanha.

Vanderlan Cardoso: tem  apelo inicial que sempre cai | Foto: Fernando Leite

E o jogo poderá ser esse mes­mo, com uma multidão de candidatos oriundos de partidos fortes disputando a eleição. É um time “japonês” de qualidade inquestionável, mas sem pré-efeitos mirabolantes em termos de perspectiva de vitória. Com exceção de Iris Rezende (PMDB), não há um só nome que se apresente como referência na sucessão de 2016 na capital. Nem mesmo Vanderlan Cardoso (PSB).

Nem Vanderlan? Nem ele. É um nome que tem muito bom apelo inicial, mas não existe uma fidelização do eleitorado em torno de sua candidatura. Ou seja, potencial ele tem mesmo, mas daí a afirmar que ele vai compatibilizar isso com votação que se destaque é outra história. Vanderlan cai sempre na interminável questão da chapa que costuma liderar.

Em 2010, mesmo com o apoio oficial do Palácio das Esmeraldas, na época habitado pelo governador Alcides Rodrigues, Vanderlan não foi alicerçado por boas chapas proporcionais. Em 2014, o que já não era bom lascou de vez. Se repetir esse tipo de dose no ano que vem, é certo que não terá vida mansa, e poderá se decepcionar mais uma vez.

No PMDB, Iris Rezende é a eterna esperança. Não há qualquer outro nome à disposição dos peemedebistas para embalar o sonho de um retorno triunfal ao Palácio do Cerrado Venerando de Freitas Borges. É Iris ou Iris. E se for mesmo candidato a prefeito mais uma vez, o líder peemedebista, e única referência inicial do processo sucessório, poderá enfrentar problemas bastante sérios. O maior deles é o governo de Paulo Garcia. Em 2012, quando da reeleição de Paulo, Iris foi o grande cabo eleitoral, e empenhou seu prestígio na campanha do petista. Em que pese todos os méritos da ótima campanha que capitaneou, o aval de Iris foi fundamental.

Edward Madureira: prestígio, mas de pouca popularidade | Foto: Fernando Leite

E é aí que se concentra o problema que Iris terá em 2016. Seu aval em 2012 vai ser cobrado no ano que vem por eleitores que se decepcionaram com o governo de Paulo. A grande esperança de Iris e do PMDB era que o governo municipal recuperasse prestígio e virasse a página da impopularidade. Isso deveria estar ocorrendo, mas não está. As encrencas administrativas cotidianas, embora bastante amenizadas, continuam atazanando a vida e o humor dos goianienses. E num ano em que se prevê um fortíssimo enxugamento da liquidez monetária, é certo que não há tanto espaço assim para uma total recuperação.

Se for candidato, Iris terá que se confrontar com adversários que vão explorar esse seu ponto fraco. Aí, vai depender apenas da calibragem da mira. Se as campanhas oposicionistas acertarem o alvo, babau. Se não, e isso é uma possibilidade sempre real, as chances do peemedebistas disparam. Seu nome, apesar de tantos anos exposto, ainda consegue eletrizar boa parte do eleitorado, especialmente em Goiânia.

Mas e a famosa aliança PMDB e PT, como é que vai ficar? Sabe-se lá. Os petistas têm vendido um peixe que aparentemente não conseguem entregar, a de lançar candidatura própria. Já tem até nomes colocados no mercado político-eleitoral, como o do ex-reitor da UFG e ex-candidato a deputado federal Edward Madureira. O professor tem prestígio, sem a menor dúvida, mas daí a acreditar que ele é uma sumidade em popularidade é outra história. Outro nome colocado pelo PT é o da deputada estadual Adriana Accorsi. Ela tem força, sem dúvida, mas o fato de ter acabado de ganhar o primeiro mandato de sua vida em 2014, lança uma nuvem de incertezas sobre possível candidatura já no ano que vem.

Deputada Adriana Accorsi: estreante cercada por incerteza

Mas é na base aliada estadual que existe uma porção de possíveis candidatos. A questão é definir primeiro qual será o formato que a base pretende implantar desta vez para a batalha eleitoral de Goiânia. Inicialmente, há três caminhos: união total de forças em torno de um só nome, frente dupla ou multiplicidade de opções, com a maioria dos grandes partidos integrantes da base bancando candidaturas. Qual é a melhor estratégia? Está aí uma das chaves para a construção do sonho de vencer em Goiânia, onde a base apanha desde a eleição de 1996, quando venceu com o professor Nion Albernaz.

Caso opte por união total, como ocorreu em 1996, a briga de foice interna será muitíssimo intensa. A base aliada, além de tudo, tem pavão de sobra. Se, ainda assim, ocorrer um afunilamento total e pacificado, um candidato desse grupo desembarcará diretamente no centro da disputa. A base unificada terá a melhor e mais densa chapa proporcional e, muito provavelmente, o maior tempo de TV e rádio.

A opção por duas frentes de trabalho na eleição também não será tão pacífica assim. Um desses nomes fatalmente será o de Vanderlan. O outro, dos demais partidos, terá que se virar num corredor polonês que geralmente costuma ter tapas, pescoções e pancadas abaixo da linha de cintura. O sobrevivente geralmente chega à campanha debilitado.

A multiplicidade de candidatos pela base aliada facilita a vida pré-eleitoral porque as disputas individualizadas dentro de cada partido é muito menos intensa. O PSDB e o PSD são os partidos com maior número de possíveis candidatos, mas escolher um deles não é um bicho de sete cabeças. Afinal, o escolhido fica com a cabeça da chapa e o derrotado pode herdar a candidatura a vice. O problema nesse caso costuma ocorrer durante a campanha. Os pequenos grupos de candidatos começam a disputa quase colaborando com o colega ao lado, mas essa relação de boa vizinhança e camaradagem não dura muito tempo. Geralmente, começa a degringolar já nas primeiras pesquisas eleitorais. Quem aparece atrás tenta incrementar a própria campanha, e quem lidera no grupamento entende que os vizinhos devem abrir mão da pretensão e colaborar para que ele cresça ainda mais. É o início de uma guerrinha particular no grupo que geralmente resulta no afundamento de toda a frota.

Enfim, o quadro hoje favorece a multiplicidade de candidaturas exatamente pelo caráter “japonês” do jogo até aqui. Até o final deste ano, as coisas não devem sofrer grandes alterações. A partir daí é que o quadro perderá muito dessa nebulosidade e ficará bem mais claro. Será o início real do mercado eleitoral, e quem tem peixe pra vender terá que garantir a entrega.