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Marconi está pronto, as oposições, não

São brutalmente evidentes as dificuldades das oposições em Goiás. Não se consegue estabelecer nem mesmo uma estratégia para enfrentar a candidatura à reeleição do governador Marconi Perillo. E não existe indicativos de que pelo menos se adote o diálogo aberto e sincero entre os grupos. É uma torre de babel carregada de interesses conflitantes e de desconfiança ampla, geral e irrestrita. Enquanto isso, no Palácio…

Marconi-Perillo-pesquisa

Inicialmente, os principais líderes oposicionistas do PMDB e do PT pregavam a necessidade de coligação universal de modo a transformar a eleição num processo plebiscitário. Deu em nada. Desde o primeiro momento, Vanderlan Cardoso, do PSB do presidenciável Eduardo Campos, deixou claro que a ideia de candidatura única no campo oposicionista somente poderia se concretizar se tivesse ele próprio como candidato/beneficiário. Mas aí quem não toparia de jeito nenhum seria o PT, que trabalha pela reeleição da presidente Dilma Roussef.

O jeito, então, foi trabalhar com duas candidaturas. Não por estratégia, note-se, mas como consequência, como impossibilidade prática da candidatura única. Mas aí veio a candidatura avassaladora de Jr Friboi no PMDB e o PT caiu fora, mandando mais um nome para a já tumultuada praça da oposição. O prefeito Antônio Gomide, de Anápolis, viabilizou-se internamente, deixou 3 anos de mandato pela frente e está candidato ao governo. A situação dele só não se concretizará se Brasília determinar o recuo e composição com o PMDB. Fora isso, Gomide deve seguir em frente.

Em resumo, do cenário avaliado como ideal do ponto de vista dos grupos que fazem oposição ao governador Marconi Perillo, o de união total e candidatura única, não restou nada. Hoje, não são mais 2 os nomes, mas 3.

Era pra ser um só, mas são três

Era pra ser um só, mas são três

Há perspectiva de esse quadro múltiplo mudar até junho? No campo doméstico, não. Vanderlan, Gomide e Jr nem aceitam discutir recuos e recomposição de seus objetivos. É claro que essas posições radicalizadíssimas fazem parte do jogo jogado na política de construção de candidaturas. Quem é candidato a um determinado cargo e aceita pelo menos a possibilidade de concorrer a algum outro sai do jogo pelo cargo inicialmente pretendido na mesma hora. Ou seja, um candidato a governador que diz que numa composição poderá aceitar candidatura a vice, passa a viver dentro dessa nova perspectiva.

De qualquer forma, ainda que negar peremptoriamente seja regra não escrita desse jogo estratégico, a situação chegou a um ponto que não permite uma avaliação atual que leve em conta alguma mudança estrutural do quadro que aí está. E se houver mudança, o mais provável é que ela aconteça sob orientação de Brasília, portanto influenciada pela disputa presidencial.

Base aliada está pronta

Alheio a tudo isso, no Palácio das Esmeraldas está cada vez mais consolidado o processo de candidatura à reeleição do governador Marconi Perillo. Novamente com bom patamar nas pesquisas de intenção de voto – e sem a rivalidade de Iris Rezende que foi alijado do afunilamento interno do PMDB por Friboi -, um revigorado plano de ação administrativa, que inclui inauguração de obras quase todos os dias no estado inteiro, a base aliada chega às vésperas da convenção bastante animada.

Ainda há ruídos, principalmente na composição da chapa. Marconi é assunto pacificado desde sempre como candidato a governador. José Eliton repetiria a vice e Vilmar Rocha tentaria a vaga para o Senado. Mas o presidente regional do DEM, deputado federal Ronaldo Caiado, que tem ótimo trânsito tanto no PSDB nacional como no próprio DEM, também quer disputar o Senado. E só há uma vaga dentro da aliança.

Três nomes, mas apenas duas vagas

Três nomes, mas apenas duas vagas

A possibilidade de Caiado compor a chapa de Marconi provocou reações. Alguns setores, inclusive do PSDB marconista, nem querem discutir o assunto, e julgam que a composição da chapa deve ser sacramentada exatamente como está. Mas também neste caso Brasília pode intervir. Não como imposição, mas como um pedido de ajuda. Tipo: ¨aceitem o Caiado aí, que as coisas melhoram com o DEM aqui (em Brasília)¨.

Será que um pedido como esse seria negado? Difícil. De qualquer forma, essa possibilidade é remotíssima, até porque certamente implicaria em ações também das demais cúpulas nacionais dos partidos diretamente envolvidos na chapa, como o PP, de José Eliton, e o PSD, de Vilmar Rocha. O enguiço só aumentaria, portanto.

É isso o que resta definir para o grupamento liderado por Marconi Perillo colocar a mais fabulosa e azeitada máquina eleitoral do estado em funcionamento. Se os opositores um dia imaginaram que seria fácil, cometeram um dos piores erros: subestimar o adversário. Vão ter que correr o dobro, ou chorar mais uma derrota.

O conflito da dívida da Friboi

A informação caiu como uma bomba: o grupo empresarial da família de Jr Friboi, que ele próprio dirigia até há pouco tempo, tem demandas fiscais com o estado de Goiás que somam 1 bilhão e 300 milhões de reais. A notícia foi veiculada pelo jornal O Popular, edição de ontem, sexta-feira, 2.

Jr Friboi língua

Também ontem, em reação nas redes sociais Twitter e Facebook, Jr divulgou uma nota oficial. Em nenhum momento ele desmentiu a informação do jornal, o que se deduz que a dívida realmente existe.

Como destaca o jornalista Ricardo César, em O Popular, hoje, na nota oficial Jr disse considerar ¨estranho¨ e ¨suspeito¨ a divulgação dessa informação. Mas o que há de estranho e suspeito na notícia além do fato de que a fiscalização estadual tenha se deparado com lançamentos contábeis ¨estranhos e suspeitos¨ na empresa que pertence à família dele? Para Jr Friboi, esses dados deveriam ser sigilosos e, estranho, segundo ele, é o fato de que foram divulgados 3 dias depois que ele foi confirmado candidato do PMDB ao governo do Estado.

Caberia a pergunta: se ele considerou estranho e suspeito um jornal publicar que a empresa da família de um candidato ao governo do estado deve uma grana preta para o fisco 3 dias após o lançamento de seu nome pelo PMDB, quando é que não seria estranho e suspeito a publicação dessa notícia?

Em sua nota, Jr Friboi abriu levemente a tampa de uma caixa preta: a relação conflituosa de algumas empresas com o fisco. A fiscalização estadual questionou o não recolhimento de ICMS por parte da JBS. Jr não apenas admitiu esse fato, como disse que ¨em muitos casos¨ a empresa que ele dirigia discorda de ¨alguma cobrança¨. Caramba, 1 bilhão e 300 milhões de reais é uma mera ¨alguma cobrança¨?

Sede da JBS, nos Estados Unidos

Sede da JBS, nos Estados Unidos

 

Há um outro conflito nessa história. Até 1994, Goiás cobrava 12% de ICMS sobre a carne. No governo Maguito (1995/1998), houve redução para 7%. No primeiro mandato de Marconi Perillo (1999/2002) esse percentual caiu para apenas 3%, o mais baixo do Brasil. Só pra se ter uma melhor ideia do que isso representa, o cidadão recolhe 25% na sua conta de energia elétrica.

Jr Friboi, em sua nota, explicou que parte dessa dívida de 1 bilhão e 300 milhões de reais é resultado da compra do frigorífico Bertin. E acrescentou: se a JBS não tivesse comprado a empresa, o frigorífico teria fechado as portas e milhares de goianos teriam perdido o emprego.

Não há como contestar Jr Friboi nessa questão: se o Bertin não tivesse sido vendido, quebraria, e haveria demissões. Porém, não foi por esse motivo que a empresa da família de Friboi fez essa aquisição. Era um bom negócio, e por isso foi feito. Grana, mercado, e não emprego, é o que motivou a aquisição do Bertin.

A dívida que a JBS sabia existir no Bertin e que está sendo contestada representa 18% de todas as pendências fiscais que contribuintes ativos tem hoje no Estado. Não há como negar que há  conflito entre o desejo do cidadão Jr Friboi de se eleger governador e os interesses do estado de receber aquilo que julga ser justo. Somente o resto é política.

Senna Aceno

A Fórmula 1 nunca mais foi a mesma…

Senna AcenoCurva Tamburello, em Ímola, Itália. O carro azul da equipe Wiiliams estava na liderança. De repente, uma guinada à direita seguida por uma batida violentíssima no muro. Um impacto tão forte que o carro, ou o que restou dele,  rodou na grama e voltou à pista até parar completamente.

Senna carro

O mundo parou por alguns segundos. No cockpit, Ayrton Senna permaneceu imóvel.

Veja a cena.

http://www.youtube.com/watch?v=o0rbd0Z8XJI

O show tinha que continuar, e a direção da prova não declarou a morte de Senna, embora as imagens de sangue no asfalto após a retirada de seu capacete pela equipe médica, e o clima pesado no autódromo, indicava que o acidente não tinha sido apenas muito mais grave. Tinha sido fatal.

Senna atendimento

Oficialmente, Senna morreu naquele dia 1º de maio de 1994 às 13H40, horário do Brasil. O Plantão do Jornal Nacional deu, então, uma de suas mais trágicas notícias ao povo brasileiro.

http://www.youtube.com/watch?v=pswHcBtRMI0

E, então, a nação brasileira chorou. O Brasil não perdia apenas um piloto de carros de extraordinário talento. Os brasileiros perderam um ídolo que não tinha pudores de se mostrar sempre e no mundo inteiro brasileiro. O que se seguiu depois, e até o seu enterro, foi um país inteiro triste como jamais havia estado em toda a sua história.

Uma das últimas fotos de Senna antes da largada

Uma das últimas fotos de Senna antes da largada

Ainda hoje, 20 anos depois, é difícil rever as última cenas do velório de Ayrton sem que os olhos fiquem lacrimosos.

http://www.youtube.com/watch?v=xvmuHGrrbCQ

Infelizmente, nem todos são macacos…

 

 

 

 

bananaPior que jogar a banana, é não saber o que fazer com ela. Valeu, Daniel Alves

flor da bananeira   Se os preconceitos não fossem cegos, certamente poderiam ser tocados pela beleza das flores… da bananeira.

A fuga do embaixador brasileiro na Venezuela

Leandro Mazini, no Blog da Esplanada (UOL), afirma hoje que há 6 meses o embaixador do Brasil em Caracas, José Marcondes de Carvalho, saiu às pressas da Venezuela. Não foi um ato de rotina no Ministério das Relações Exteriores. Carvalho deveria ficar 5 anos no posto. Ficou apenas 2.

Ele é segue a linha do governo brasileiro com relação ao regime chavista, mas sua esposa é uma artista plástica venezuelana, e não conseguiu se manter discreta. Ao tecer críticas ao estado atual de seu país, foi ameaçada. O casal saiu às pressas de Caracas.

Cartaz venezuela

É incrível a leniência que se tem em relação a esse tipo de coisa. A esposa de um embaixador brasileiro, portanto embaixatriz, é ameaçada por radicais venezuelanos ligados ao governo e não se ouve um pio oficialmente. Será que seria a mesma coisa se o fato tivesse ocorrido nos Estados Unidos da América?

A modinha do fogo

ônibus pegando fogo

Virou modinha tocar fogo em ônibus. Atropelamento? Fogo no ônibus mesmo que o veículo do atropelador seja um carro. Cidadão é assassinado por bala perdida disparada no morro? Fogo no ônibus para protestar contra a insegurança. Polícia reage e mata traficante ou transfere chefões do banditismo de presídio? Fogo nos ônibus que estiverem por perto. Ônibus só anda lotadaço? Fogo no que resta.

Pobres diabos, não percebem que tocar fogo em ônibus movimentam a roda capitalista e enchem os bolsos das seguradoras e dos fabricantes de ônibus… Sem falar que a reposição dos ônibus é integralmente paga pelos incendiários…

A escolha de Sofia diante do monte de lixo

Que dramalhão esse da Comurg atualmente. Como não consegue recolher mais que 1 a cada 2 saquinhos de lixo doméstico, tem que escolher qual saco carregar.Delta-construçõe

E o drama é anterior a esse. Até 2012, a capital de Goiás não tinha problemas tão sérios com o lixo. Quem comandava a coisa era a Delta, a endiabrada empreiteira-mor da corrupção recente – recente, sim, porque antes eram outras empreiteiras. Elas mudam, só a corrupção é sempre a mesma, embora não exatamente menor. Mandaram a Delta embora e o resultado é esse aí. O drama sofianiano da Comurg foi concluir que era ruim com a Delta, e ficou muito pior sem ela.

Ahh, a Petrobras…

oleoduto

Mais um rombinho de quase 300 milhões de dólares foi descoberto na Petrobras, após o escândalo da refinaria ferro-velho de Pasadena. O oleoduto que liga Brasil ao Equador já gastou essa grana preta e jamais foi usado.

A Petrobras é um poço negro sem fundo. E não é de petróleo.

Os sete pecados capitais de um candidato a governador

É impossível estabelecer uma lista de tarefas que  garanta a vitória eleitoral nas disputas para o governo, mas existem erros que levam quase certamente à derrota

Não há unanimidade no planeta política quando o assunto é garantir vitória eleitoral na disputa pelo governo. É claro que muitos “especialistas” espertalhões vendem bugigangas e balandandãs eleitorais como se fossem uma garantia de sucesso nas eleições, mas é uma grande bobagem acreditar nesse tipo de promessa. Bons profissionais dessa área conseguem no máximo orientar muito bem a campanha, mas sem garantir resultados.

Se indicar a vitória é impossível, o caminho inverso é muito mais simples. Há um sem número de erros que candidatos consistentes devem evitar cometer para não diminuírem as próprias chances. Em outras palavras, é mais fácil saber as coisas e ações que certamente resultam em fracasso eleitoral nas disputas pelo governo do que encontrar a fórmula perfeita que garanta a vitória.

O que pode derrotar até candidato tido como favorito

Pecado 1 – Poder econômico excessivo
É possível vencer uma grande disputa sem uma boa estrutura financeira? Não, não é. O dinheiro é fundamental numa campanha. A história registra inúmeros casos de excelentes candidatos que naufragaram por falta de dinheiro. Mas o excesso de poder econômico também pode ser um fator determinante para derrotar. Aliás, é um dos grandes fatores negativos de uma boa campanha.

Houve um caso, aqui mesmo em Goiás, ainda na década de 1980, de um candidato com estrutura tão boa que ele zanzava de cidade em cidade a bordo de um helicóptero. Em alguns bairros pobres, o sobrevoo arrancava o telhado de zinco das casas. É claro que o eleitor votou no adversário. No Estado do Tocantins, torrou tanto dinheiro na campanha que chegava em cidades muito pequenas, de 2 mil eleitores, mais ou menos, e distribuía 4 mil ou 5 mil camisetas com o seu retrato. Perdeu feio. Se é verdade que a falta de dinheiro complica a campanha, o excesso dele também provoca desastres.

2 – Falta de vivência partidária
Há políticos que ficam pulando de partido em partido e ainda assim conseguem vencer grandes disputas. Isso seria um indicativo de que vivência partidária, ou a falta dela, não tem peso na eleição. É um tremendo erro pensar dessa forma. A população não se incomoda com políticos que mudam de partido, principalmente quando já conhece o candidato de outras eleições e carnavais. O problema ocorre com novatos e com veteranos que não conhecem as próprias bases, como prefeitos, vereadores, lideranças de bairro e militantes do partido. É esse exército que garante repercussão entre os eleitores nos momentos em que o candidato não está presente. Quando não existe a convivência interna, essa relação espontânea entre base e candidato fica comprometida. É a convivência partidária que cria laços internos de reciprocidade. Sem isso, o que se consegue formar é exército mercenário.

3 – Subestimar adversários
Esse é um dos piores erros que um candidato ao governo pode cometer. Imaginar que o adversário é fraco ou que tem defeitos tão evidentes que vai se tornar presa indefesa é suplicar por derrota. É claro que estrategicamente ninguém sai por aí elogiando o potencial do adversário, mas daí a realmente acreditar que será sopa no mel derrotá-lo é loucura total.

Exemplo recente desse tipo de erro foi cometido na campanha de prefeito de Goiânia, em 2010. Paulo Garcia era visto pelos adversários como um político desconhecido, impopular, frágil e sem discurso. Quando a campanha pegou fogo pra valer, seus adversários é que se tornaram tudo isso e mais um pouco.

Outro exemplo: Goiás, 1998. O PMDB era tão hegemônico e grandioso eleitoralmente que esnobou coligações e desdenhou quase o tempo todo do candidato das oposições, o quase estreante e desconhecido Marconi Perillo, que só havia disputado e vencido duas eleições, de deputado estadual e deputado federal. No final das contas, Marconi em­pacotou de tal forma o poder peemedebista que venceu os dois turnos.

4 – Acreditar que pesquisa ganha eleição
Treino é treino, jogo é jogado e pronto. Eleição é isso. Pesquisa é termômetro de determinados momentos, não uma projeção de resultados para o dia da eleição. Acreditar demasiadamente nas pesquisas leva candidatos favoritos a resultados pavorosos.

Muitos candidatos são atropelados por adversários que em determinado momento da campanha demonstravam não ter força nenhuma. E aí, relaxam na hora errada. Candidatos vitoriosos costumam pisar no acelerador com mais vontade ainda quando se isolam na liderança das pesquisas.

Dentre os modais de pesquisas, o mais perigoso para os candidatos é a qualitativa. Como se trata de um levantamento científico interpretativo, se o instituto não for realmente bom nesse riscado fatalmente vai produzir um fiasco eleitoral. Sem falar que também nessa área existem picaretas, embora eles sejam mais comuns nas pesquisas quantitativas.

Se pesquisa tivesse tanta influência sobre o eleitorado como alguns avaliam que tem, não haveria virada em eleição. Novamente dois exemplos, ambos de Goiânia. Em 1996, Maria Valadão correu o tempo todo como segunda colocada, bem à frente do terceiro, Pedro Wilson. Apurados os votos, Pedro quase ganhou a eleição, fechando na segunda posição. Em 2004, e novamente com Pedro Wilson, ocorreu a mesma coisa. Pedro se arrastava na quarta posição, chegou a terceiro, mas não tinha, segundo as pesquisas, nenhuma chance de ir para o segundo turno. Foi, e o segundo colocado virou terceiro.

5 – Discurso vazio, desinformado ou prepotente
É pecado capital um discurso mal elaborado. A questão não é exatamente falar com desenvoltura. Se, sim, ótimo. Se, não, é superável. O que não pode é falar coisas sem pé nem cabeça. O eleitor é muito menos bobo do que se imagina que ele é.

O candidato precisa realmente conhecer o assunto para poder falar sobre ele de maneira convincente. E se não conhecer e for pro­vocado, deve raspar bem leve e super­ficialmente. Soa mais honesto do que entoar loas que a população sabe serem falsas.

Outra coisa é saber a solução para todos os problemas por mais complexos que eles sejam. Muitas vezes, esse tipo de discurso anda de mãos dadas com o discurso vazio. É a junção do ruim com o péssimo, a prepotência do pleno co­nhecimento sobre tudo e a petulância de não falar nada com palavras empoladas.

A desinformação acaba com a cre­dibilidade de um candidato. Em 2006, liderando as pesquisas, o plano de governo de Maguito Vilela (soluções fáceis para tudo) incluiu o asfaltamento de uma rodovia de terra localizada no sul do Estado. O adversário pintou e bordou em cima da gafe: a tal estrada tinha sido asfaltada pelo governo.

6 – Se imaginar a última Coca-Cola do deserto
Há candidatos que se imaginam muito melhor do que realmente são. Acreditam realmente que exercem um poder de sedução tão grande quanto irresistível. Para este tipo de candidato, existem apenas dois eleitores: o que o conhece, e por isso o adora, e os que ainda não o veneram porque não o conhecem. Para esse tipo de can­di­dato, seria melhor e menos perigoso elei­toralmente se ele acreditasse em Papai Noel.

7 – Não conseguir fortes coligações
Houve um tempo nas disputas eleitorais brasileiras em que um partido era suficiente para vencer qualquer eleição. Foi no berçário do pluripartidarismo que se tem hoje. Antes, na ditadura civil-militar, eram só dois partidos. Na década de 1980, até meados da seguinte, 1990, bastava a um partido ter forte capilaridade para se estabelecer com ótimas chances eleitorais.

Isso acabou faz tempo. Nenhum partido hoje conseguiria vencer uma grande disputa sozinho. É extremamente necessário somar forças. Se um candidato não consegue convencer outros partidos, como é que ele quer convencer a maioria do eleitorado? O candidato do bloco do “eu sozinho” até que funcionava em determinadas eleições no passado. Hoje, não chegaria sequer à metade da Sapucaí eleitoral.

Enfim, um candidato que cometer esses erros básicos numa campanha constrói uma derrota mais do que previsível, e a probabilidade de ser eleito ainda assim é praticamente nula.

Goiânia: das flores ao lixo

Flores - Goiânia  Flores-Lixo

Conexões: Goiânia

Quando o então prefeito Nion Albernaz transformou Goiânia no mais belo cenário urbano brasileiro, em meados da década de 1990, a oposição dizia que o povo não comia flores. Talvez, não mesmo. Não com a boca. Mas pobres e ricos  alimentavam seus espíritos, os olhos, o orgulho de ser goianiense e de perceber a admiração dos visitantes pela cidade limpa e cheirosa construída por cada goianiense. Por cada goianiense ou pelo poder público? Sim, por cada goianiense. A Prefeitura apenas plantou as flores. Quem cuidou e não depredou foi o cidadão.

Nion Albernaqz

Foi um tempo em que Goiânia ensinou ao Brasil como se comportar nas ruas, sem colher as flores, sem pisotear os canteiros. Uma aula de cidadania. Não havia uma só plaquinha proibindo arrancar rosas vermelhas ou pisar nos bem cuidados gramados das praças. E praticamente ninguém fazia esse tipo de coisa. Era muito difícil observar motoristas atirando latas ou restos de embalagens pela janelas dos seus carros. Hoje, há lei que promete punir quem joga lixo das ruas, mas é fácil flagrar veículos deixando rastros de dejetos.

Flores - Goiânia 01

Havia uma prática que chegou a ser moda naqueles tempos: pendurar um saquinho de plástico no câmbio dos carros para acomodar o lixo produzido em trânsito. Os postos de gasolina compraram a ideia e passaram oferecer essas sacolinhas aos clientes. O cidadão parava para abastecer e entregava o saquinho cheio de lixo (papel de bala, restos de cigarros e cinzas dos cinzeiros, latas de refrigerantes, papéis de propaganda…) para receber imediatamente uma nova sacola.

Saquinho de lixo carro

Saudosismo? Sim, sem dúvida. Muita saudade daquela Goiânia e daqueles quase 1 milhão de goianienses. Mas o que aconteceu? Primeiro, falaram que povo não comia flores. E arrancaram as flores, e as substituíram por folhagens. Depois, com descaso no recolhimento do lixo doméstico e na varrição das ruas, a cidade ficou suja, e assim arrancaram também a ideia de que um papelzinho a mais atirado na calçada, ou uma latinha de refrigerante, não faz a menor diferença diante de tanta sujeira. Levaram a nossa autoestima, nosso orgulho de ser goianiense.

O desafio agora é outro

Goiânia vive um dramalhão mexicanizado com lixeiras transbordando de sacos não recolhidos. Está assim na cidade toda, do centro aos bairros nobres, dos bairros menos centralizados até a periferia. Flores? Será que elas ainda existem? Nem folhagens bem cuidadas se vê por aí.

É claro que a Prefeitura vai conseguir resolver essa situação vexatória de não ter capacidade de ao menos recolher lixo. Mais cedo ou mais tarde, a situação será normalizada. Isso vai devolver o orgulho de ser goianiense? Claro que não. Recolher lixo é só o básico, e ninguém consegue sentir orgulho por realizar o básico.

Há muitos outros desafios. Inúmeros, e todos eles básicos na vida urbana. Não é só o lixo que está acumulado.

Flores-Lixo 01

Apesar dos esforços, as ruas e avenidas tem muito mais buracos do que deveriam ter. Nas ruas internas dos bairros, então, a buraqueira é espantosa. Um horror total.

E também é urgente equacionar os problemas do trânsito. Mesmo com tantos carros nas ruas, nada justifica os caóticos congestionamentos que infestam Goiânia, uma cidade completamente enlaçada por avenidas de 4 pistas (duas para ir, duas para voltar). Já na década de 1990, o assunto entrava na pauta da cidade. E de lá pra cá não avançou nada.

Onde está o dinheiro? – A Prefeitura arrecada hoje muito mais do que arredava antes. Muitíssimo mais. Mas ainda arrecada menos do que deveria arrecadar. Neste ponto, o problema é provocado por um tal pacto federativo. As cidades brasileiras ficam com 5% de todos os impostos que esfolam os cidadãos, os Estados somam menos de 25% e mais de 70% se concentram em Brasília. Dessa forma, a conta não irá fechar nunca.

Mas se o quadro é esse, então é necessário cumprir nas cidades pelo menos o básico. E como o dinheiro é curtíssimo, todo controle é vital. Dizem que o dinheiro não aceita desaforos. No caso da administração municipal, qualquer descuido com o cofre resulta nisso que ora se vê: incapacidade de recolher o lixo doméstico ou de manter ruas e avenidas em condições. Os erros se acumularam nesta administração. E isso não invalida a desconfiança de que a herança recebida por Paulo Garcia foi péssima financeiramente.

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Em boa hora – antes tarde do que nunca – o prefeito Paulo Garcia colocou a mão sobre a Secretaria de Finanças, e encontrou um especialista, Cairo Peixoto, para cuidar do cofre. Só a sua nomeação para o cargo já valeu a indicação. Foi graças a ida dele para lá que se descobriu a situação calamitosa das finanças da Prefeitura. Uma pindaíba monumental, que gera um rombo mensal de cerca de 40 milhões de reais. Praticamente, 1 bilhão de reais por ano.

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Para se ter uma melhor ideia do que representa esse 1 bilhão, Marconi Perillo passou um ano inteiro mergulhado numa crise administrativa brabíssima ao assumir o atual mandato, em 2011, por causa de um rombo calculado pelo secretario da Fazenda na época, Simão Cirineu, em 2 bilhões de reais.

Qual foi a fórmula adotada pelo Estado em 2011? Abrir-se e mostrar a situação. Vá lá que não existiam constrangimentos porque o governo anterior lhe fazia oposição. Mas isso pouco importa em situações como a atual. Não adianta nada a Comurg se calar diante do caos e prometer milagres que não vão ser consolidados a curto prazo. Não adianta frente de trabalho para recolher sacos de lixo até em carroceria de caminhões comuns. A crise vivida pela Prefeitura de Goiânia, como bem mostrou Cairo Peixoto, é financeira, mas também é uma crise de transparência, de explicações. Sem admitir o que estava errado, dificilmente se estabelece uma meta para corrigir o erro. Ou os erros, como parece ser o caso.

Cairo profetizou que 2014 e 2015 vão ser anos muito difíceis. Foi o primeiro sinal de luz num túnel marcado pelo silêncio. Se a máquina administrativa inteira entender o recado, talvez em 2016 possamos todos retomar a pauta. Aquela, de antigamente. De melhorar a nossa qualidade de vida. Até lá, o lixo vai continuar como vizinho incômodo.

Conexões: Jornal Opção

Vanderlan, o passageiro da agonia
A candidatura de Vanderlan Cardoso, sem a inclusão de Iris Rezende, está em segundo lugar nas pesquisas. Esse é o drama dele: e se Iris for candidato?
Fernando Leite/Jornal Opção
Ex-prefeito e candidato ao governo Vanderlan Cardoso: de 2010 pra 
cá ele perdeu aliados
O ex-prefeito de Se­na­dor Canedo e candidato derrotado ao governo do Estado em 2010, Vanderlan Cardoso, vive uma situação absolutamente inusitada no atual quadro eleitoral. Em todas as pesquisas feitas até aqui, seu nome aparece em segundo lugar, atrás apenas do líder Marconi Perillo. Mas há uma condicionante: isso só ocorre sem a presença do ex-governador Iris Rezende. Com Iris, ele cai para uma distante terceira posição, a mesma em que terminou a eleição de 2010. Em ou­tras palavras, sem Iris Vanderlan melhora a própria perspectiva de começar a campanha como principal opositor. Com Iris, ele definha. E como não é ele quem di­rige o PMDB, Vanderlan passou a ser um passageiro. Da agonia.
É um caso inusitado porque Vanderlan vai de zero a cem instantaneamente. Uma realidade positiva para ele sem a presença de Iris, e um quadro radicalmente oposto quando o experimentado peemedebista aparece no cenário. Ou seja, de protagonista das oposições ele passa a ser mero coadjuvante. Não é toda hora que se vê uma situação como essa.
Se esse já um tremendo problema para as pretensões de Van­der­lan, não é o único. Até agora, ele diz que é o único candidato já definido porque só depende da vontade dele próprio – Marconi ainda não anunciou se será ou não candidato à reeleição, Antônio Gomide viverá até o final de junho – prazo final para as convenções – sob a ameaça velada de ser obrigado a recuar diante de acordo nacional PT/PMDB, e Júnior Friboi e Iris Re­zende travam guerra interna para ver quem sobrevive ao processo de afunilamento interno. E mesmo sendo o tal único candidato já definido, Vanderlan não conseguiu agregar um único partido a mais na sua minúscula coligação, que inclui o seu PSB, o PSC, que ele também domina, e o PRP, do ex-secretário da fa­zen­da no governo Alcides Ro­dri­gues, Jorcelino Braga. Nada além disso. Aliás, numa visão mais rigorosa do processo, ele perdeu o PDT, do casal George Morais e deputada federal Flávia Morais.
Não há como evitar uma comparação da coligação erguida por Vanderlan agora e aquela que o apoiou em 2010. De lá pra cá, ele perdeu o PP, PDT, PR, PTN, PSDC e PV. A única coisa que ele manteve foi o recall de sua votação, que chegou a 16,6% dos votos válidos. Quando Iris e Mar­coni são pesquisados, Vanderlan soma 17,8% das intenções de voto válidas (pesquisa Fortiori).
O que significa isso? Que a­lém de lançar uma chapa reduzida e menos competitiva de candidatos a deputado estadual e deputado federal, Vanderlan Cardoso vai ter um exército eleitoral com menos soldados do que teve em 2010 para pedir vo­tos para ele. Sem falar na brutal re­dução que terá também num dos principais trunfos de qualquer campanha atualmente, que é o tempo no rádio e na televisão.
Nesse ponto, a análise sobre as chances da candidatura dele ao governo abre duas vertentes. A primeira, com óbvio impacto inicial, conforme as pesquisas estão mostrando atualmente, sem Iris Rezende. A possibilidade de iniciar a campanha à frente de Jr Friboi e Antônio Gomide é o melhor dos mundos para Vanderlan, mas ainda assim ele terá problemas.
Diante de tudo o que o próprio Friboi já gerou de perspectiva sobre financiamento de campanha para os que estiverem do seu lado, Vanderlan teria que abrir o cofre pesadamente para ampliar o leque de apoios que ele tem hoje. Dinheiro ele tem. Muito, mas o cofre dele diante do dinheiro que Friboi diz estar disposto a torrar é mais ou menos como um cofrinho de moedas poupadas por adolescentes com bons hábitos financeiros. Não dá pro cheiro. Friboi tem muito dinheiro. Mas muito mesmo, e tem prometido mundos e fundos para os partidos que se aliarem a ele.
Com Iris na jogada eleitoral, e sem Friboi, o poder econômico de Vanderlan pode se tornar bastante representativo. O problema é que ele não costuma abrir “as burras” com tanta facilidade. Aliados de 2010 dizem que ele empurrou para o governo de Alcides Rodrigues uma porção de compromissos que envolviam apoio financeiro de campanha dos aliados. Muita gente ainda reclama disso. Além disso, a perspectiva de poder despencaria com a concorrência de Iris, e isso afastaria de vez qualquer possibilidade de ampliação de sua rede de apoio.
E o que pode livrar a candidatura de Vanderlan Cardoso de perspectivas futuras tão sombrias diante de um quadro atual tão positivo — segundo ou terceiro lugar nas pesquisas? Há duas alternativas: negociação com outros candidatos ao governo ou uma improvável disparada nas pesquisas. Além do imponderável, é claro. Em se tratando de eleições sempre é bastante razoável levar em conta o imponderável. Mas qual fator que não há como ser analisado por falta de parâmetros reais que poderá quebrar uma possível e factível previsão pessimista de futuro imediato? Vai saber… É imponderável, ué.

Vinhos: o delicioso esporte da garimpagem

Uma das particularidades mais gostosas do mundo dos vinhos é a garimpagem. Praticamente todos os bebedores de vinhos gostam dessa coisa de tentar descobrir garrafas especiais. Quando o preço é baixo, pelo menos em relação à qualidade, aí se encontra o eldorado: o tal custo-benefício. Vinhos mais baratos e tão bons quanto aqueles outros famosos e mais caros.

Não é fácil garimpar. A quantidade de marcas e rótulos é incrível. Multiplique esse tantão pelas safras e torna-se tarefa impossível sequer imaginar quantas garrafas de vinho existem no planeta à espera das nossas taças. E é aí que está o grande barato da garimpagem: descobrir rótulos menos conhecidos, fora dos eixos da moda de consumo e, por isso mesmo, nem sempre muito caros.

É claro que os riscos de amargar péssimos vinhos é imenso. Dia desses, arrisquei quase 40 pilas num exemplar português que me parecia honesto. Não passei do primeiro gole. O destino foi o merecido ralo da pia da cozinha. E não pense que esse tipo de decepção acontece somente com vinhos mais em conta. Que nada. Há vinhos muito mais caros que são terríveis.

Pra iniciar

Quem está começando deve evitar ao máximo garimpagem às cegas. O ideal no começo é encontrar dicas de outros bebedores. E nem assim a gente fica imune a certos erros brutais. A maior importadora de vinhos do Brasil tem em seu slogan uma grande verdade: o melhor vinho é aquele que você gosta. Ou seja, pode ser que o ótimo vinho indicado por algum amigo seja ruim na hora que bater na sua boca. Para evitar totalmente gastos amargos no mundo dos vinhos só tem um jeito: ir apenas nos vinhos indicados por vários amigos bebedores. Uma indicação é referência, e não certeza de boa compra.

Relação preço/qualidade

Existem vinhos que chegam a custar 15 mil, 20, 25 mil reais. E vem a dúvida: será que a gente não bebe porcaria como se fosse vinho? Aí é que está: existe relação entre preço e qualidade, mas grandes vinhos não necessariamente custam os olhos da cara e mais o salário do mês. Mas também é verdade que um vinho de 10 reais jamais será um grande vinho. Provavelmente, será realmente uma tremenda porcaria. Tipo Sangue de Boi, aquela gororoba vermelha vendida em garrafões de 5 litros e que é bebida em copos americanos.

Vinho_Sangue_de_Boi

Mas vamos voltar pro nosso mundo. É sempre uma experiência muito prazerosa.

Um país com boa relação preço/qualidade – o tal custo-benefício – sempre foi Portugal. Não está mais como era antes, mas a qualidade geral dos vinhos de lá melhorou. Os vinhos espanhóis também se apresentam algumas vezes com boa relação. Mas os argentinos e os chilenos são imbatíveis no custo-benefício, desde os vinhos mais caros até os de preços civilizados. Uma santa dica: fuja dos ¨Reservado¨ produzidos no Chile. São os piores vinhos feitos por lá. É chileno e tem esse ¨reservado¨ no rótulo? Passe longe. Aquela santaiada chilena não faz milagre na taça.

Santa Helena Reservado

Por 30 reais encontra-se bons vinhos. Até 50, a relação aumenta. Em dias especiais, comemorações e tal, pode-se pensar numa extravagância, e aí o limite é o tamanho do bolso. Mas passar dos 500 reais numa garrafa é loucura total. Nem pra comemorar nascimento de primogênito, casamento de tia encalhada ou com a filha de fazendeiro rico.

Quanto mais caro for o vinho, menor é a chance de garimpagem. Quem vai arriscar num desconhecido caríssimo? É por isso que existem algumas importadoras – raramente aqui em Goiânia – que promovem degustações especiais. Paga-se uma determinada quantia e sai andando pelo salão entre vários produtores e rótulos com a taça na mão. Uma bicada aqui, outra ali e assim se conhece inúmeros vinhos. Inclusive alguns daqueles que você jamais vai ter coragem e petulância financeira para comprar uma só garrafa. Geralmente, essas degustações valem muito a pena. Além dos vinhos, sempre há água mineral pães e embutidos e queijos. E é possível descobrir que aquele vinho caríssimo e fantástico tem um irmãozinho menor, menos famoso, bem mais barato e que bate o maior bolão quando está na taça.

Quando encontrar vinhos assim, não deixe de passar a dica pros amigos, uai.

Conexões: Jornal Opção

Unidade do PMDB: onde o bicho pega
O que ainda mantém o discurso externo no partido mais ou menos unificado é a disputa. Quem vencer reinará sobre a desunião
Empresário Júnior Friboi, neófito no PMDB, e Iris Rezende, 
grande líder do partido: quem vai ganhar a guerra intestina?

 

O discurso de Iris Rezende e Júnior Friboi pela unidade do PMDB é idêntico. Os dois dizem que vão respeitar a decisão majoritária da militância e demais dirigentes nesse processo de escolha. E só. A tal unidade termina exatamente aí. Desligados os microfones, a coisa muda de figura. Friboi passa o tempo todo estocando o fígado de Iris e igualmente leva pancadas fortes em seu próprio fígado. Um não acredita no outro e a recíproca é verdadeira. Por mais que falem publicamente que é uma disputa interna, entre amigos e que o verdadeiro inimigo está do lado de fora, o clima entre eles é tão ruim que precisam de interlocutores para trocarem algumas palavras. É aí que o bicho está pegando no PMDB.
Mas como chegou a esse ponto? Difícil demais apontar um ou outro momento. É o conjunto que desandou. Talvez tenha começado logo no primeiro momento, quando Friboi se mexeu para desembarcar no PMDB. O normal seria procurar Iris Rezende e demonstrar interesse, se comprometer politicamente e ganhar o apoio. Ele preferiu a proposta mais rápida, mais alta e mais ousada ao buscar a avenida nacional através do vice-presidente Michel Temer. Chegou atropelando.

Muitos peemedebistas, todos eles atualmente engajados à uma candidatura de Friboi, desmentem essa entrada triunfal dele no PMDB goiano. Apon­tam que o empresário foi convidado a se filiar ao partido. Mas os fatos desmentem isso de forma peremptória. Primeiro, pela reação de Iris, que foi a Brasília, ao lado de sua mulher, a deputada federal Iris Araújo, reclamar do desembarque do empresário. Depois, por tudo o que se seguiu, com as farpas públicas de lado a lado. Hoje, a relação está tão tensionada que o diálogo visando um entendimento precisa, como se disse antes, de interlocutores.

O prefeito Maguito Vilela, de Aparecida de Goiânia, tem atraído esse papel, apesar de negá-lo. Na sexta-feira, 11, por exemplo, ao participar do encontro de Friboi com prefeitos e uma porção de peemedebistas do interior do Estado, Maguito disse que os dois, Iris e Friboi, devem conversar diretamente, sem interlocutores. Indireta, mas claramente, Maguito disse que eles nem se falam mais.

E nenhum dos lados demonstra qualquer sinal de que as coisas podem mudar a curto prazo. Na sexta-feira, 11, em sua festa-resposta ao anúncio da pré-candidatura de Iris uma semana antes, Friboi disparou inúmeras vezes na direção do adversário interno. E algumas vezes nem se deu ao trabalho de usar indiretas como subterfúgio. Como no momento em que propôs que ele assinaria compromisso em cartório se comprometendo a apoiar Iris Rezende caso seja ele o escolhido, mas desde que Iris faça o mesmo. Vá lá que nenhum dos dois cultiva barba, mas o recado é claríssimo: fio de bigode, nem pensar. E teve ainda um bombardeio direto, sem outra possibilidade de interpretação, um dia antes, quando Júnior Friboi disse que o povo não quer mais nem o tempo novo e nem o tempo velho. O tempo novo, como se sabe, é a turma de Marconi Perillo. O tempo velho…

Aliás, o fio do bigode da palavra empenhada foi exatamente o recado dado pelo sobrinho do interlocutor Maguito, deputado federal Leandro Vilela. Ao discursar no evento, ele disse que foi junto com Friboi conversar com Iris lá atrás e que ouviu do líder peemedebista que ele não seria candidato ao governo. Bigodes em chamas.

Mas não é apenas e empresário e seu pessoal que andam com as armas em punho. A turma irista também é fogo na roupa quando o assunto é surrar Friboi. A deputada dona Iris, por exemplo, já bradou que Goiás não está à venda. Isso não é indireta, é um direto no bolso de Friboi. O ex-deputado estadual José Nelto também já disparou dezenas de vezes contra Friboi. Até Iris Re­zende, geralmente reservado quando se trata de ataques internos, já demonstrou pouca ou nenhuma paciência para lidar com o adversário interno. Numa delas, disse que o empresário não deveria sair por aí “arrogando” poder financeiro.

Profundamente divididos, portanto, eles estão. Ainda é possível unir novamente após um deles vencer a disputa tão acirrada? É difícil. Muito difícil. Se tem algo que é inerente à política é ego. Os líderes são todos eles egocêntricos. Não tem como ser diferente. Nenhum deles se sente menor ou menos capacitado que o outro. Entre os grandes líderes, é o universo que roda em torno deles. Quando esse mundo é abalado, a mágoa, o abatimento e o desprezo são consequências absolutamente humanas. Além disso, há um fator que anaboliza naturalmente a divisão posterior: se houve disputa é porque eles estão em campo opostos.

Pode-se alegar que Friboi não é político, e que então ele não teria essa característica. Tem, sim. Percebe-se isso claramente. Júnior Friboi é uma potencia econômica que só pode ser medida em bilhões. De dólares, diga-se. Ele está acostumado a ser aclamado, paparicado e até temido no mundo dos negócios. Ao de­sembarcar no mundo da política, ele busca o aplauso e a consagração públicos. E quem ousa se colocar como obstáculo encontra pela frente exatamente o poderio bélico que o dinheiro representa. Se falta a ele experiência na lida política, sobra poder de sedução financeira.

Mas é claro que a política é uma arte humana tão extraordinária que é temerário, extremamente temerário, afirmar que tal coisa ou tal fato é inevitável. Nada é inevitável em se tratando de política. De qualquer forma, e mesmo levando essa verdade em conta, mas não sendo escravo dela, como seria o day after da­quele que será derrotado nesse difícil processo de afunilamento interno no PMDB?

Imagine-se Iris Rezende, do alto de seus mais de 50 anos de vida pública, engolido em sua liderança pelo neófito Júnior Friboi. Em 1998, quando foi surpreendido por Marconi Perillo e seu mambembe exército de apenas quatro partidos, Iris retornou ao Senado porque tinha essa obrigação. Em 2002, quando novamente perdeu (na tentativa de se manter senador), foi para sua fazenda “tocar” lavoura, como ele próprio costuma dizer. E sua intenção era ficar lá pra sempre. Voltou porque tem a política no sangue e na alma. Disputou a Prefeitura de Goiânia em 2004 e venceu. Ou seja, ele levou dois anos para se reerguer e se animar novamente.

E se Friboi deixar escapar entre os dedos a tal maioria que lhe juram que ele tem dentro do PMDB, para aonde ele irá para lamber as feridas do que poderá considerar terrível traição? Há tempos o goiano Júnior Friboi não mantém raízes do cotidiano por aqui. Graças ao vertiginoso e mundial crescimento do grupo JBS, seu endereço desde 2007 é nos Estados Unidos. Em 2010, quando também tentou disputar o governo embora sem o tratoraço de agora, Friboi nem esperou a eleição esfriar e voltou para sua casa, no Estado americano do Colorado. Faz sentido, portanto, imaginar que, se perder a indicação interna, ele volta pra lá para digerir a derrota.

Mas e o tal compromisso assinado em cartório? Ora, se o fio de bigode não vale tanto assim, papel político assinado em cartório ou não vale menos ainda.

Por que Pasadena apavora o governo?

Conexões: Brasil

Pasadena

Há algo muito estranho nessa história da refinaria de Pasadena, que foi adquirida pela Petrobrás numa operação com o melhor (ou pior) estilo lesa pátria. Não é possível que o medo governista de investigação sobre o caso seja tão grande somente porque foi um péssimo negócio, onde se gastou milhões e milhões de dólares a mais do que o bom senso deveria ter indicado ser razoável, ou pelo desgaste político que a apuração poderia causar. O governo demonstra que tem mais pavor de Pasadena do que teve quando da abertura dos porões do mensalão pelo Congresso.

Não se sabe o que é, mas pode ter algo muito pior nas entranhas podres dessa história. Só má gestão seria café pequeno diante da leniência brasileira para com os furtos qualificados de seus impostos em todas as esferas da administração pública. É inacreditável que um governo inteiro se mobilize da forma como está se mobilizando apenas para impedir que os congressistas apurem a possível atuação de larápios do dinheiro antes tão farto da Petrobrás. E agindo assim, o governo passa a impressão de que existe um enorme medo de que se descubra quem roubou, quanto foi roubado e onde foi parar todo o dinheiro. Isto se realmente Pasadena foi somente um mecanismo mercantil para intencionalmente se desviar/roubar vários milhões de dólares da empresa, como parece ter sido, e não apenas resultado de ato administrativo desastroso.

Falsificação

Tome-se como referencia dessa reação a tática empregada para evitar a CPI. Os governistas, diante da inevitável instalação da investigação sobre Pasadena, acrescentaram que a CPI também deverá investigar a ladroagem cartelizada dos metrôs de São Paulo e do Distrito Federal e as malandragens que podem ter sido praticadas na construção do porto de Suape, em Pernambuco. Tudo junto e misturado.

Ontem, o presidente do Senado, Renan Calheiros, chegou a falsificar interpretação de parecer do Supremo Tribunal Federal, STF, como nunca dantes na história do país alguém teve a petulante ousadia de fazer. Ao dar sinal verde para a instalação dessa CPI múltipla, que é uma forma descarada de burlar o sentido prático desse instrumento do Poder Legislativo, Renan montou um parecer que é uma farsa total e completa.

Citando o então ministro Paulo Brossard, do Supremo Tribunal Federal, que no bojo do julgamento de um habeas-corpus na década de 1990 pregou que ¨descoberto um fato novo, congênere à investigação, nada impede que este (fato) seja também investigado¨, Renan concluiu em seu relatório sobre a CPI de Pasadena que o STF havia pacificado essa questão, de que o surgimento de ¨novos fatos determinados¨ podem ser incorporados ao rol inicial dos pedidos de CPI. Não pode, não. É farsa, é fraude.

O próprio Brossard, procurado pela imprensa desmascarou o parecer de Renan Calheiros. ¨Eu nunca disse isso (que o pedido inicial de uma CPI poderia incluir outros temas passíveis de investigação)¨. O ex-ministro Carlos Veloso, que também participou do julgamento daquele habeas-corpus, confirmou o que disse Brossard, e acrescentou que editar pedido inicial de CPI (incluindo outros alvos de investigação) é ¨fraude¨.

Por que, e essa é a questão relevante, o governo está se mobilizando ao limite máximo da decência ou até além dela para evitar que se investigue o negócio de Pasadena? Difícil acreditar que seja tão somente para proteger meia dúzia de apaniguados larápios. Como disse Brossard à imprensa, montar uma CPI com tantos alvos investigativos não faz sentido: ¨vai terminar a legislatura, o século e não vai dar tempo de investigar nada. Significa não fazer investigação nenhuma¨.

Desgaste político-eleitoral

É óbvio, e seria uma tolice ignorar isso, que uma CPI para investigar o nebuloso negócio de Pasadena atende objetivos políticos da oposição ao governo às vésperas da eleição. Mas é igualmente óbvio que a roubalheira de dinheiro dos impostos não é exclusividade dos larápios que, suspeita-se, se incrustaram no governo federal. Eles estão em todos os níveis administrativos do país, inclusive nos casos da cartelização bandida dos metrôs de São Paulo e do Distrito Federal e da construção do Porto de Suape.

Em um procedimento normal de disputa política com foco no resultado eleitoral, a resposta é sempre num tom semelhante. Essa é a eterna prática. Até porque ninguém, nenhum partido ou governo, está imune à corrupção de seus filiados. Então, ao ter que enfrentar a CPI de Pasadena, seria absolutamente razoável aos olhos de todos que os governistas respondessem com barulhentas CPIs dos metrôs e do Porto de Suape que, por sinal, merecem, sim, uma boa e salutar investigação.

Ao reagir da forma como está reagindo, ao desprezar a Constituição e chegar até ao escárnio de fraudar pareceres de ministros do STF, para evitar que se investigue a possível atuação de larápios na Petrobrás, fica realmente a impressão de que o governo teme muito mais Pasadena do que temeu o mensalão. Mas, afinal, o que aconteceu em Pasadena capaz de aterrorizar tanto o governo?