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Caiado hospital

Conexão – Mal súbito do governador Caiado: No limite da verdade

Quarta-feira, 9, início da tarde. No palácio do governo, há um corre-corre. Ronaldo Caiado, o homem pinçado entre 6 milhões de habitantes para governar o destino de todos até dezembro de 2022, sentia-se mal. Bem mal mesmo. Ele, que é médico de larga experiência, percebeu que não era algo a ser resolvido ali mesmo, com um analgésico. Uma dor aguda e repentina em seu peito indicava também para ele que havia a partir daquele momento uma corrida contra o tempo. A dor, naquela região do corpo, estaria lhe revelando que algo estava errado no funcionamento do coração.

Caiado hospital

imediatamente, como sempre é recomendável e necessário nesses momentos, o governador foi levado às pressas para o Hospital do Coração, no setor Oeste. Os rumores – sim, a máquina do governo foi lenta ao divulgar o que estava acontecendo, o que facilitou o surgimento de inúmeras versões – davam conta até de Caiado ter sofrido um ataque cardíaco, ou um infarto, num linguajar mais técnico.

Sem boletim médico inicial, o que é rotineiro nesses casos, informou-se apenas que o governador Caiado havia se submetido a um exame chamado cateterismo – que é a introdução de um minúsculo tubo nas coronárias para avaliação médica da situação. O que se constatou era que havia um enorme acúmulo de gordura em uma artéria, reduzindo dramaticamente o fluxo sanguíneo para somente 30% da capacidade normal. Foi por essa razão que o peito dele doeu intensamente – a dor é considerada pelos médicos sempre como um aviso. Felizmente, não chegou ao ponto de falência total, o infarto, mas, sim, esteve perto disso.

Mais tarde, e com a nota oficial correta da Secretaria de Comunicação, surgiu uma segunda versão, que pela posição de seu porta-voz também teve, e tem, peso. O secretário estadual da Saúde, Ismael Alexandrino, que também é médico, rebaixou a dor torácica sentida pelo governador e que o deixou alarmado, para dor epigástrica. Atente-se para a diferença entre esses termos técnicos.

A dor torácica dispara todos os alarmes que remetem a problema no funcionamento do coração. Frequentemente, essa dor intensa na região está associada a esse tipo de causa. Já a dor epigástrica normalmente tem ligação com problemas estomacais, e inclui como uma de várias causas uma simples azia ou má digestão, embora muito raramente também possa indicar problemas no coração.

Além de rebaixar a dor do peito para a boca do estômago, o dr Ismael informou que o governador passaria a noite sob observação, o que assim se descartava um deslocamento urgente para São Paulo, onde trabalha a médica e cientista Ludhmila Abrahão Hajjar, conterrânea de Ronaldo Caiado (ambos naturais de Anápolis), e que o acompanha há anos. Ludhmila, porém, naquela altura dos acontecimentos já estava chegando a Goiânia para analisar o quadro do governador, seu paciente.

Naquela mesma noite, creditando-se a opção à família do governador, Ronaldo Caiado foi transferido para São Paulo em uma UTI aérea. Ou seja, ele teve todos os seus sinais vitais detalhadamente observados o tempo todo. Na manhã seguinte, após novo cateterismo, os médicos do Hospital Sírio-Libanês decidiram imediatamente por uma angioplastia com instalação de stent no local problemático. A recuperação do governador foi praticamente imediata.

Todo esse quadro mostra que enquanto todo o transcurso médico foi absolutamente impecável, a comunicação oficial talvez tenha esbarrado em problema. Ao ponto de sites de abrangência nacional, como Veja online e Estadão online, para citar apenas dois de muitos, terem noticiado que o governador havia sofrido um infarto. Quando a informação oficial se desconecta de outros fatos correlatos ao principal – no caso, e diretamente, o desembarque da primeira dama, dona Gracinha Caiado, de um avião que estava pronto para decolar no aeroporto Santa Genoveva após ter sido avisada da situação de seu marido através de um telefonema – da se oportunidade para a versão não exatamente correta. Aparentemente, foi o que aconteceu. Em outras palavras, o governo enquanto instituição não mentiu, mas cerziu no limite da verdade.

dinheiros

Diário íntimo de um velho repórter… Enquanto as tribos se odeiam, cúpulas conquistadoras copulam sobre o patrimônio de todos

Tente apenas observar. Não retruque, somente leia. Não lance uma dúvida, só acompanhe as “certezas” mesmo quando elas se antagonizam. É assim o tempo todo nas redes sociais. No Twitter é bem mais que no Facebook, mas no 2º há ainda mais profundidade nos ataques, na agressividade muitas das vezes chula.

dinheiros

Não, não é só nos temas políticos. É em “tudo quanto é assunto”. Até nas mentiras, que viraram modinha de nome pomposamente americanizado, fake news. As vacinas, por exemplo. Até as vacinas… Maravilhas da alquimia produzida na extraordinária capacidade humana de testar, observar e aprender, resultado de séculos de lento caminhar da ciência, agora são… vilãs. E, por mais estúpido que seja, há seguidores desses modernos profetas “Jim Jones”… Despreza-se o conhecimento e dá-se realismo à ficção.

Tudo por um clique? Provavelmente deve ser bem mais do que isso. O que antes se entendia como comportamento de certa forma adequado a adolescentes em suas “tribos sociais” adentrou o mundo adulto. Uma boa parcela protagonizar de alguma forma, e na falta de conhecimento suficiente cria-se uma mentira.

Confesso que está sendo muito chato envelhecer em um tempo como esse. Faz parte, mas que é chato, é.

É chato perceber que são tempos em que o barulho é mais importante e profundo do que a sinfonia, do que a harmonia.

Entre nós, particularmente, quase sempre escuta-se o poder apodrecido moralmente vociferar contra os que se esforçam para melhorar o ambiente, inclusive o político. E o que está se escutando é a degradação cada vez mais acentuada. Seja de um promotor de Justiça que diz receber um miserê cerca de 25 vezes maior que um salário mínimo, mas que feitas as contas embolsou 85 mil reais mensalmente nos últimos 4 anos, seja de ministros de um Supremo que não se pode investigar porque imagina-se que levantado o tapete a fedentina entorpecerá a todos.

Tempos degradados. Moralmente degradados. Desde as escolas com seus professores e professoras esmurrados e algumas vezes assassinados por alunos e alunas que nada querem aprender além da aborrescência da adolescência, até os bacanas que se formaram formidáveis patrimonialmente diante de milhares de pessoas assassinadas nos hospitais sucateados pela ganância e roubo do dinheiro que deveria sustentá-los.

No conjunto, não há nada que mereça ser salvo. Judiciário, legislativo e executivo não nos servem sequer como lata de lixo. Ao contrário, são o próprio lixo da deformação moral de um todo. O que escapa são honrosas excessões. Individualmente, há nobreza em poucos que ocupam os cargos mais elevados da hierarquia pública.

E tudo isso se reflete feito imagem no espelho nas redes sociais. Despreza-se o debate de ideias e se escancara o desacato, a grosseria como esteio da argumentação contra pensamentos não exatamente alinhados com a tribo social/política ao qual se pertence. “Nós e eles” em uma releitura de uma idiotice medieval da maquiavelice que governa a todos. E enquanto as tribos estridentes se agridem, se xingam e se odeiam, as cúpulas conquistadoras de inúmeras matizes copulam sobre o patrimônio de todos.

Tempos chatos.

PPL

Conexão: Negativismo no discurso enfraquece agenda positiva

Não é preciso ser um grande observador da cena político-administrativa para perceber que a agenda negativa, invariavelmente carregada por pernicioso clima pessimista, dominou o discurso do governo  de Ronaldo Caiado nos primeiros 8 meses deste mandato. Haveria realmente tanto espaço para divisões, fofocas, fogueiras de vaidades, falta de solução de continuidade em algumas áreas – muitas, inegavelmente, atingidas pelas dificuldades financeiras -, desarticulação política com o Legislativo, apesar de o setor contar com a expertise de um agente como o secretário Ernesto Roller e toda a espetacular carreira legislativa do próprio governador? De bate pronto é possível responder a todo esse quadro com um sonoro não, não há espaço para a extensão de uma agenda negativa como essa. E nem razão para tal.

PPL

O maior problema talvez tenha como ancoragem a forma como o governo, do mais alto ao mais baixo da cúpula palaciana, tem o hábito de se comunicar. Isso pode ter equivalência com aquilo que deveria ser apenas uma questão positiva: a enorme influência legislativa na composição do caráter do governo. Principalmente quando se leva em conta que a maior parte dessa experiência foi exercida na oposição aos governos. O discurso pessimista e negativista no legislativo, característica natural da atuação oposicionista, deve se alterar completamente na migração para o Executivo. Ou seja, não há nenhum problema com o discurso pessimista de opositores. Cabe sempre aos governos vender  otimismo – mesmo com recheio crítico em relação às administrações anteriores.

Essa prática pode ser observada tanto em Goiás como em Brasília. Talvez seja mais simples e fácil ponderar sobre os problemas e crises geradas pelo falatório desproporcional do presidente Jair Bolsonaro, mais acentuado do que o do governador Ronaldo Caiado. Ambos, porém, geralmente apontam na mesma linha pessimista. E o que se tem claramente em  Brasília? Que boa parte dos problemas do governo federal são gestados pela boca do presidente.

É claro que proporcionalmente não há como situar o discurso de Bolsonaro e Caiado em um mesmo patamar. Não é disso que se trata. O que une os discursos é o volume de pessimismo no qual se alicerçam.

Caiado tentou criar um bom clima ao anunciar a quitação dos salários do mês de dezembro do ano passado, além das parcelas do 13º salário coligadas. Ora, como são as coisas. Tem-se um feito administrativo sensacional nestes 8 meses e pouco ou quase nenhum efeito na agenda. Qual foi a última vez que um governo estadual pagou mais folhas dos servidores que o período em que está instalado? Foi no distante ano de 1999, no 1º mandato de Marconi Perillo, que recebeu o Palácio com folhas de pagamento acumuladas. Caiado administrou 8 meses e está pagando, caso realmente complete o serviço até dia 10, 9 folhas e mais algum bocado referente a 13º atrasado. A comemoração foi muito menor, imensamente desproporcional, que o feito.

Também se pode ver, e constatar, que houve redução no número de mortes violentas por armas brancas ou de fogo neste período. Aliás, um fato nacional que também ocorreu em Goiás. E o que sobrou dessa agenda positiva? Nada ou praticamente nada. Por que? Porque, ao pautar o pessimismo de maneira tão insistente, aflorou-se isso com o fato, igualmente real, de que a queda nesses assassinatos em Goiás foi menor do que a registrada em outros Estados.

A postura otimista no governo não incomodaria o seu posicionamento crítico em relação aos governos anteriores. Cabe ao governo atual, sim, criticar aquilo que entende ter sido errado no passado. É normal que faça isso até pelo fato de que houve a aprovação dessa postura nas eleições do ano passado de forma majoritária. Foi esse discurso que colocou o governo dentro do comando do Palácio. O problema está quando se concentra de tal forma na crítica e não se tem o mesmo esforço de mensagem quanto ao otimismo futuro. Essa é a questão de fundo: desconstruir o passado dentro do aspecto político-administrativo não isenta a postura da construção do futuro. De outra forma, chega-se ao quadro que se tem agora, em que mesmo os fatos positivos terminam contaminados pelo negativismo permanente.

O governo Caiado tem à sua disposição uma agenda positiva, mas precisa falar mais sobre ela a partir de agora. A comunicação política do governo precisa passar a ideia de que será cada vez melhor viver em Goiás. Tematizar pra cima, e não agendar para baixo.

Edilson Mougenot

Lava Jato tem sido vítima de “calúnia pública”, diz procurador e doutor em processo penal de São Paulo

“Interação entre juízes e procuradores é comum em ações contra organizações criminosas”. É o que afirma o procurador paulista Edilson Mougenot, doutor em processo penal pela Universidad Complutence de Madrid e procurador da República pelo Estado de São Paulo, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo.

Edilson Mougenot

Mougenot é peremptório ao analisar, no âmbito geral, as acusações contra Sérgio Moro e Deltan Dallagnol a partir das conversas hackeadas: “Não se trabalha com as organizações criminosas com o mesmo engessamento com o que você faz no chamado sistema acusatório dos procedimentos comuns. A gente observa ali que há momentos em que há interação entre Ministério Público, juiz e delegado —e pode e deve haver, para proveito público, onde o advogado que trata de direito privado não participa”.

Mougenot garante ainda que não é incomum o juiz aconselhar advogados: “Se o magistrado aconselhar algo ao advogado, está mal? Eu não vejo, já vi mil situações em que o magistrado pondera: “doutor, o senhor tem certeza de que isto está correto? O senhor não pensou em tal recurso?” A má-fé do magistrado se evidencia quando ele de fato atende a um interesse privado de uma das partes, menoscabando a verdade processual, e fundamenta de um jeito e decide de um outro”.

Leia a íntegra da entrevista (assinantes UOL e Folha)

Ataque à aldeia Waiãpi não é excessão. Crimes contra índios também aconteceram nos governos de FHC, Lula e Dilma

É vexatório e revoltante o ataque contra uma aldeia do povo indígena Waiãpi. Isso, que salta aos olhos de qualquer pessoa com algum senso, leva à conclusão de que o fato é grave o suficiente para ser investigado com rigor, até para servir como exemplo de que tempos de impunidade devem ficar para trás.

Esse é o fato.

Já nas redes sociais e político-partidárias a história é outra, e  completamente sem nexo com a realidade. A versão oposicionista é de que o ataque atual contra a aldeia Waiãpi é resultado direto de declarações e ações política defendidas pelo governo de Bolsonaro. Pode até ter alguma ligação, mas se tem, não é nem de longe suficiente para creditar tudo dessa forma.

Aos fatos do passado recente.

No governo de Fernando Henrique Cardoso aconteceram 167 assassinatos de índios, número que disparou nos governos Lula e Dilma, que registrou aumento superior a 168%. Só nos governos de Lula – com período idêntico de 8 anos em relação a FHC – 452 índios assassinados.

Correio 1962 índios

Se o eleitor quiser viajar em tempos passados, pode-se voltar para o período pré-regime de 1964. Conforme registrado pelo jornal fluminense Correio da Manhã, em 1962: a fome e as doenças dizimam o povo Pacaas-Novo.

O problema, a ameaça de extermínio em massa, e o sofrimento dos povos indígenas é muito antigo. O triste e deplorável episódio Waiãpi é, apesar da franqueza soar como muito fria e desumana, apenas mais um. Um país sério deveria usar a indignação coletiva que fatos assim provocam para abrir uma discussão em todos os níveis para que ele possa ser o último. Usar a morte de mais um índio como combustível para interesses político-eleitorais de um lado ou de outro é comportamento típico da canalhice do andar de cima sobre o alicerce da massa de baixo.

SERGIO MORO VOTA EM CURITIBA.

Escândalo Intercept virou pó de traque: Sérgio Moro permanece como ministro mais popular do governo

Pode ainda acontecer uma reviravolta, mas a se observar o que aconteceu até agora, o escândalo Intercept, que tinha declaradamente a intenção de melhorar a complicada situação do ex-presidente Lula, condenado e preso em Curitiba, virou pó de traque. O vazamento das supostas conversas privadas entre procuradores da Lava Jato e entre Deltan Dallagnol e o então juiz Sérgio Moro não alteraram coisa alguma. Moro permanece como ministro mais popular do governo. O objetivo não confessado de Glenn Greenwald e seus companheiros era desmoralizar Sérgio Moro e criar as condições necessárias para abrir as portas da cadeia para Lula.

SERGIO MORO VOTA EM CURITIBA.

Na edição de hoje do jornal O Globo, João Marco Cunha traz um artigo que analisa tanto o objetivo de Glenn quanto o resultado obtido até aqui (Leia aqui – só para assinantes O Globo). A análise mostra que se houve algum dano à imagem de Sérgio Moro foi mínimo, restrito a uma pequena parcela da população. Por outro lado, ele diz que o tiro de Glenn pode gerar um efeito negativo para o conjunto da esquerda brasileira, que poderia neste momento se articular em torno de um novo líder, e não retornar com ênfase a Lula. Em outras palavras, João Marco insinua que Lula é passado, e a esquerda perde condições de pensar sobre o futuro.

Operação Monte Carlo: após 6 anos, 2ª instância confirma condenação de Carlinhos Cachoeira a 36 anos de prisão. Defesa vai recorrer

Em matéria assinada pela jornalista Fabiana Pulcineli, o jornal O Popular publica na edição desta quarta-feira que o Tribunal Regional Federal da 1ª Região, TRF1, com sede em Brasília, confirmou condenação de Carlinhos Cachoeira e outros 7 réus, acusados na Operação Monte Carlo. O TRF1 diminuiu a pena condenatória proferida na 1ª instância há 6 anos, de 39 para 36 anos. Com mais essa condenação, o Ministério Público Federal, MPF, pede que Cachoeira e os demais condenados comecem a cumprir imediatamente a pena de prisão. A defesa já avisou que pretende recorrer.

Cachoeira

A principal linha de defesa, conforme a reportagem de O Popular, é alegar que as escutas telefônicas da operação são ilegais. Cachoeira, segundo o jornal, disse que seus advogados devem levar o caso para as cortes superiores.

Lava Jato prende procurador do Estado do Rio de Janeiro suspeito de receber propina em obra do metro

A Lava Jato do Rio de Janeiro prendeu nesta segunda-feira, 1º, o procurador do Estado Renan Saad. Ele é suspeito de ter recebido 1 milhão e 300 mil reais da empreiteira Odebrecht. Saad avalizou alteração no traçado de uma linha do metro entre as Zonas Sul e Oeste, no Rio, que encareceu a obra 11 vezes.

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Projetada em 1998, a linha 4 do metro carioca custaria 880 milhões. Com as alterações, o custo pulou para estratosféricos 9 bilhões e 600 milhões de reais. Os repasses de propina, conforme publicou o site G1, aconteceram entre 2010 e 2014.

Glenn Greenwald

Conexão: A verdade necessita do contexto das conversas vazadas no escândalo Intercept

O escândalo Intercept, que ataca o núcleo central da operação Lava Jato, responsável pelo desbaratamento do maior esquema de corrupção da história do Brasil e um dos maiores do mundo, deve ser analisado – se assim se quiser ver esse fato com alguma seriedade – como mera manipulação de informações? A pergunta parece uma mera defesa dos operadores da Lava Jato, mas não é. Ao contrário, é difícil a quem quer que seja fazer uma afirmação como essa porque o editor responsável do Intercept, Glenn Greenwald, é detentor de nada menos que um prêmio Pulitzer, o Oscar da imprensa dos Estados Unidos, país que reconhecidamente abriga uma das melhores imprensas do planeta – no Brasil, a referência mais longeva é o Prêmio Esso.

Glenn Greenwald

Portanto, não é injusto, nesta altura deste texto, dar crédito a Greenwald e descrédito à simples pergunta sobre a possibilidade de ter ocorrido uma manipulação. Se ainda tiver a pachorra de prosseguir com a leitura, ficará claro o que se quer propor enquanto fato, e que corrobora o que se está aqui questionando.

Até agora, todos os trechos dos supostos diálogos entre procuradores da força tarefa da Lava Jato e entre o chefe do MPF Deltan Dallagnol e o então juiz Sérgio Moro são exatamente isso: trechos. Mais do que isso, não apresentam tudo o que supostamente foi conversado. São trechos escolhidos a dedo e com lupa para criarem uma narrativa, não necessariamente para revelar o que realmente foi conversado.

O Intercept tem revelado somente aquilo que lhe interessa, e não o que eventualmente possa desmenti-lo, inclusive com possibilidade de não somente enveredar a interpretação em direção contrária. Nem se está aqui levantando a possibilidade de que uma ou outra palavra ou parte de alguma frase possa ter sido cortada ou inserida no trecho divulgado. A manipulação vai muito além disso. Narra-se na divulgação uma ou duas frases mesmo que uma centena delas forme um contexto completamente diferente. Isso é manipulação que atende interesses – sejam eles quais forem – do site, e jamais do público.

Adversários declarados do Intercept garantem que o objetivo dos vazamentos é desacreditar a Lava Jato, e provocar uma comoção no Supremo Tribunal Federal que o conduza abrir as portas da prisão onde se encontram corruptos condenados, principalmente do ex-presidente lula. Pode ser isso, mas também pode ser somente uma leitura equivocada e eventualmente mentirosa que parta do escândalo como forma de chamar a atenção. Qualquer que seja a interpretação que se dê, é impossível afirmar que o jornalismo que se está fazendo seja digno de um jornalista que carrega um prêmio Pulitzer em seu currículo.

A manipulação dos fatos talvez seja o pior crime praticado no mundo do jornalismo. A edição desses fatos podem, e devem, facilitar, melhorar o acesso a eles pelo público, mas jamais deturpar, principalmente quando  evitam o contexto.

O PT já foi vítima de uma manipulação como essa. Mais exatamente na reta final da campanha presidencial de 1992. Fernando Collor de Mello e Lula estavam empatados nas pesquisas, com ligeira vantagem de Collor. Um debate às vésperas do 2º turno na Rede Globo de Televisão se estendeu por boa parte da noite. Embora Lula não tenha se saído bem, Collor também não. Foi um jogo de palavras sem vencedor destacado. Com a edição manipulada do debate apresentada no dia seguinte nos telejornais, a verdade mudou: Collor venceu por nocaute. A manipulação foi tão descarada que o PT pediu justa proteção e intervenção do TSE, que acabou negada. A mentira venceu. Cerca de 22 anos depois, a emissora admitiu que a edição do debate favoreceu Collor.

Nessa famosa edição do debate de 1992 não houve inserção de novas palavras ou cortes em metade de frases. Apenas manipulação, com a supressão de alguns contextos. Bastou isso para prejudicar Lula e beneficiar Collor.

O que se deve analisar no caso Intercept é exatamente essa questão: os textos estão integralmente inseridos no contexto global das conversações? O público está tendo acesso a tudo o que foi falado ou somente se conhece o que os editores do site querem que seja conhecido? Essas são perguntas para as quais ainda não se tem respostas. E sem essas respostas é impossível se conhecer a verdade.