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Vinhos e comidinhas caseiras

Menut, um legítimo priorato que faz questão de agradar

Em tempos de crise econômica, a vida dos apreciadores de vinhos não é nada fácil. O dólar, que rege a cotação das garrafas importadas, bateu em 4 reais e agora está em pouco mais de 3 reais, mas os preços nas prateleiras das lojas especializadas e supermercados ainda reflete o péssimo comportamento da moeda.

O resultado é o que se vê por aí: rótulos que antes da crise custavam 70 reais, hoje não são encontrados por menos de 100 reais. E olha que algumas dessas garrafas não valem 30. O que dizer então de vinhos oriundos de regiões extremamente prestigiadas…

Por 120 reais (Grand Cru, jardim Goiás): um legítimo Priorat

Por 120 reais (Grand Cru, jardim Goiás): um legítimo Priorat

Quem está iniciando no mundo da bebida dos deuses certamente já ouviu falar do Priorato, região espanhola famosa pelos seus tintos muito bem elaborados e… caros. Coisa pra lá de 200 mangotes. Isso os mais baratos.

Um priorat – como se diz no idioma local – não é pra qualquer bolso. Ou é? Bem, talvez seja possível curtir um legítimo priorato sem ter que entrar no cheque especial ou estourar o cartão de crédito.

A importadora Grand Cru, a maior do país, se instalou em Goiânia – Jardim Goiás. Lá, é possível encontrar um legítimo vinho de entrada no mundo dos priorato por incríveis 120 reais. E não pense que é um vinho mediano. Embora de entrada, o caçulinha da casa Mas Martinet, famosa pela qualidade de seus vinhos, e não faz feio. O Menut é um vinho que faz questão de agradar geral, mesmo aqueles que tem anos e anos de estrada no mundo de baco.

Aliás, por falar em Grand Cru, a loja de Goiânia tem no catálogo todos os vinhos da matriz. A garrafa que não se encontra na loja pode ser encomendada e em menos de uma semana passa para a adega do apreciador. Os preços são rigorosamente idênticos ao da matriz.

Não é só pequi: 10 pratos para agradar qualquer goiano

Há uns 20 anos, os grandes centros urbanos do sul-sudeste não tinham a menor ideia do que era pequi, a tal fruta típica do cerrado brasileiro com cheiro e sabor fortes que alucina os paladares de muitos goianos. Hoje, com a importância e integração cada vez maior de Goiás no cenário nacional, pode-se encontrar pequi em certos restaurantes de culinária brasileira no Rio, São Paulo e Belo Horizonte. Mas, afinal, não é apenas com pequi que pode-se agradar os goianos à mesa. Abaixo, 10 pratos que despertam a gula de boa parte da goianada.

– Arroz, feijão carioca (rajado), bife e ovo frito

Casinha Mineira - fotos Leo Feltran - 05/2013

Ok, não é só em Goiás que esse prato é show nas mesas. Mas é aqui que pode-se comer todos os dias sem enjoar porque é o melhor do Brasil. O segredo, dizem, é o ponto do feijão. Variação: acrescente banana prata crua ou banana da terra frita.

– Galinhada

galinhada

Tá, também esta iguaria é comum nos Estados centrais do Brasil. Dizem que as mineiras fazem galinhadas maravilhosas. Mas quem diz isso certamente jamais deu uma só garfada numa galinhada goiana com franguinho caipira.

– Peixe na telha

 

peixe na telha

 

Dizem por aí que moqueca baiana ou capixaba é uma coisa maravilhosa. Quem fala isso tem sempre razão. São moquecas extraordinárias. Em Goiás, preferimos peixe preparado em telha colonial de barro. Como assim, telha? Isso, telha, daquelas abauladas muito usadas antigamente. Pintado do rio Araguaia preparado dessa forma faz qualquer um se esquecer completamente das moquecas mais famosas do Brasil.

– Empadão

empadao-tradicional-goiano

Que empadinha, que nada. Goiano adora mesmo é o empadão. Há muitas variações, mas o tradicional é disparadamente o melhor de todos, preparado e servido numa cumbuca de barro. É quase impossível alguém não fica totalmente embriagado (ops) com as variações de sabor a cada garfada – sim, o empadão se come com garfo. Tem pedaços de frango, linguiça, batata (não muita), guariroba (palmito amargo, leia mais abaixo um prato típico com esse ingrediente), palmito caiçara/açaí, carne de porco, azeitona verde, ervilha, tomate, cebola e uma pimentinha pra fechar com chave de ouro. Não precisa de acompanhamento. O empadão de Goiás se basta.

– Galinha caipira com guariroba e uma pitada de açafrão da terra

Galinha com gariroba

Se você andar pelas cidades do interior de Goiás vai se maravilhar com belezas naturais onde menos espera. E nas baixadas ou encostas quase sempre encontrará palmeiras. A maioria delas é guariroba. É um palmito com aparência quase idêntica ao caiçara ou açaí. O gosto é diferente. O palmito tradicional é adocicado. A boa guariroba é amarga. Preparada com galinha caipira ao molho compõe uma riqueza de sabores inusitados e irresistíveis.

– Arroz de puta rica

Arroz de puta rica

Olhando, parece um risoto qualquer que mistura um punhado de ingredientes. Quando se come, aí muda a interpretação. Dizem no interior de Goiás que esse prato era preparado uma vez por mês nos cabarés para comemorar os rendimentos da noitada anterior, quando os coronéis saiam da rotina e caiam na esbórnia. Com dinheiro farto, e como recompensa pelo trabalho extra das meninas, a dona do puteiro mandava comprar todos os ingredientes que geralmente não frequentavam a mesa, carne de porco, frango caipira, ervilha, milho verde, açafrão da terra e pimenta biquinho – que é saborosa e não arde. Portanto, se estiver em Goiás e ver alguém comer esse prato, não ouse falar que é risoto. É arroz de puta rica.

– Churrasco

Churrasco

Não há como discordar: os gaúchos são os churrasqueiros mais afamados do Brasil. E eles são mesmo espetaculares na preparação de costela em fogo de chão. Mas antes de virar o rosto, tente experimentar o churrasco feito pelos goianos. Pode ter certeza: em Goiás, o churrasco atende todos as preferências. Gosta de “boi berrando”? É só pedir que a carne chega seladinha e dourada por fora e suculenta por dentro, daquelas que escorre suco para finalizar com pão francês. Prefere bem passada? Sem problemas, o churrasqueiro goiano vai preparar o “carvão” que agrada a sua preferência, sem preconceitos.

– Feijoada

Feijoada

É verdade, a feijoada não foi inventada pelas cozinheiras e cozinheiros goianos, amadores ou profissionais. Aliás, dizem que é prato típico dos cariocas. Não é bem assim. Em Goiânia, restaurantes self-service oferecem feijoada duas vezes por semana, quarta-feira e, óbvio, sábado. Tem feijoada de todo tipo. Daquelas com tudo separado e as tradicionais, bem mais saborosas, com tudo junto e misturado. A verdade é que feijoada agrada os goianos e goianas.

– Chica doida

Chica doida

Antes de mais nada, Chica doida não é creme de milho, ok? Também não é pamonha de panela. Nem caldo. Nem… nada. É Chica doida. O prato foi inventado por dona Petronilha Ferreira Cabral, da cidade de Quirinópolis, há uns 50 anos. Ela conta que estavam fazendo uma pamonhada na fazenda quando acabou a palha de milho verde. Com palpites do marido dela, a massa restante foi parar numa panela, e começou a alquimia. A receita tradicional leva também jiló, linguiça e queijo – nem é preciso lembrar da pimentinha, né?

– E pequi, né? De todo jeito é bom…

frango com pequi

Tá legal, não vamos deixar o pequi fora da lista. Seria injusto com nossa mais ilustre paixão à mesa. Na foto aí em cima é o tradicionalíssimo frango ao molho com pequi. Mas poderia ser com arroz. Ou com arroz e frango. Ou sozinho, ao molho. Com carne moída, que goiano costuma chamar de “boi ralado”, também fica ótimo. Aliás, o único defeito do pequi é que só tem fartura no final do ano. Deveria ter o tempo todo. Ahh, pasta de pequi também da um toque especial em risotos. E, se quiser, pode até chupar picolé de pequi. O ruim do pequi é que quanto mais se fala sobre ele, mais vontade da de encarar uma porção desses carocinhos amarelo-ouro. Só não pode morder. Pequi não aceita violência e responde a qualquer mordida com uma porção de doloridos espinhos.

Diálogo: iniciando a descoberta do mundo dos vinhos

  • Quero beber um vinho esta noite? Você me ajuda a escolher?
  • Claro, uai, vamos lá. Que tipo de vinho você quer?
  • Um que seja bom.
  • Tá, claro… Pra que você quer beber esse vinho? Vai comer alguma coisa especial, é comemoração…
  • Mais ou menos. Comemorar nada não. Comer uns patêzinhos com a patroa hoje à noite. Eu quero começar a beber vinho.
  • Ahh, tá. Ótimo. Vamos então achar um vinho bacana.
  • Um só, não. Quero vários. Tô começando a beber vinho.
  • Ué, mas você não é fanático por cerveja? Mudou?cervejas
  • Fui obrigado. Estou com diabetes e o médico proibiu cerveja. No máximo, vinho tinto seco ainda pode.
  • Pois é, eu também fui por esse caminho… Sabe aquela loja na rua 9, no setor Marista?
  • Sei.
  • Vamos lá. Tem muitas opções e a gente encontra umas garrafas legais.

  • Quero começar com um pinot noir.
  • Hein? Você quer começar? Uai, tá pensando em derrubar mais de uma garrafa?
  • Derrubar?
  • É, beber mais de uma garrafa?
  • Num pode, não?
  • vinho-tinto-3
  • Poder, pode, mas sua resistência ao álcool vai ser testada…
  • Cê acha que eu vou ficar bêbado? hahaha… Bebo 6 cervejas tranquilão, cara.
  • É, mas duas garrafas de vinho vão te derrubar. E, tem mais: do meio da frente, você nem vai saber apreciar a segunda garrafa. Num é só você e sua mulher?
  • É. E ela bebe pouco.
  • Então, vamos pensar em uma garrafa só.
  • Quero duas pra hoje e outras pra guardar.
  • Tá. Vamos lá. Quanto você quer gastar?
  • Uns 500 contos…
  • Caramba, vai começar com essa grana toda? Tá bem na foto, hein?
  • Uai, vinho não é caro?
  • É e não é. Tem vinho bacana que é barato e vinho caro que é ótimo.
  • Vamos pegar uns caros logo de cara. Se começar com vinho ruim eu não vou me acostumar. Cerveja eu não posso mais.
  • Tá, mas vamos fazer uma escala, ok? Algumas garrafas mais em conta e uma ou outra de vinho especial. Tudo bem assim?
  • Você é quem entende desse negócio…
  • Entendo não. Existem zilhões de garrafas e ninguém conseguiu beber um pouquinho só de todas elas. Todo mundo está sempre aprendendo no mundo do vinho.
  • Esse negócio de vinho é muito complicado. Pena que eu não posso continuar na cerveja…parreirais
  • hahaha  Não é assim. Veja pelo lado bom: o vinho permite descobrir sempre novos mundos. Aromas, cores, sabores…
  • Ahh, é mesmo. Tem essa “viadagem” toda, né?
  • hahaha Claro, ué. O que você acha que é “viadagem” é uma grande curtição. Você derruba uma garrafa de 100 paus e quer beber no glut-glut como se fosse chope?
  • Num pode?
  • Claro que não. Pense nos 100 paus.
  • 100 contos de cerveja é cerveja pra dar com pau…
  • Verdade. 100 contos de vinho não é tanta coisa assim, mas você não vai beber como se fosse colecionar engradados de garrafas vazias. Uma garrafa só basta. No máximo, duas, mas tem que ter mais gente. Sozinho é brabo.
  • Da ressaca, né?
  • Todo álcool da ressaca. Depende do tanto que você bebe, uai.
  • Cerveja num da ressaca. Em mim, não.
  • Da, sim. Se beber bem, no dia seguinte tem diarréia, estômago ruim, queimação e tal…
  • É sempre do tira-gosto   hahahaha
  • Bom. Vamos lá. Um pinot… Vinho leve, combina com quase tudo. Geralmente, é a uva que eu mais curto.barris de vinho
  • Tem isso, né? Depende da uva… Vou ter que sacar de uva também pra poder beber vinho?
  • Não. Você vai bebendo e aos poucos descobrindo o gosto de cada uva. Cabernet Sauvignon é ótima.
  • Cabernet eu também conheço.
  • Bom começo. Vamos então pegar este pinot aqui e aquele cabernet ali. São bons vinhos.
  • 75 paus cada um. Caramba, duas garrafas por 150? Tô falando que é caro esse negócio de beber vinho. Coisa pra rico…
  • Ué, você quem disse que queria torrar 500 reais. Podemos escolher outras garrafas mais em conta.
  • Não. Tá danado mesmo… Vamos com essas aí.
  • Este outro vinho aqui também é legal. Tá por 50.
  • Não é ruim, não. Esse negócio de vinho barato é fria. Me lembra Sangue de boi…
  • Claro que não. Semana passada bebi uma garrafa dessas. É um vinho legal. E tem vinho mais barato que também é honesto.
  • E esse aqui?
  • Não é pro meu bolso: 800 paus? Tá louco.
  • Cê nunca bebeu?
  • Já, mas quando é assim é melhor fazer uma vaquinha entre os amigos. De vez em quando vale a pena. Aí tem jeito de experimentar esses vinhos mais caros…
  • Uai, mas aí vai dar uma tacinha só pra cada um…
  • E não está bom?
  • Uma tacinha não é beber, uai.
  • Sabe aquelas garrafinhas pequenas de perfume francês caros pra caramba? Então, pra ficar cheirosa a mulher não despeja o perfume todo em seu corpo. Basta uma gotinha.
  • É, mas vinho é de beber, não é de cheirar.
  • Negativo. É pra cheirar também.
  • Sei, aquela coisa da “viadagem”…vinho
  • hahaha  Não. Quando você vai comer alguma coisa você não olha pra aparência da panela? E o cheiro da comida, não tem aquele negócio de aumentar a vontade de comer? Vinho é a mesma coisa. É preciso olhar o vinho na taça, observar seus lances vermelhos… Sentir o cheiro. Tentar descobrir cheiro de que ele tem…
  • “Viadagem”.
  • Por 100 contos você tem direito de fazer isso.
  • Vamos lá. Pinot, cabernet e esse outro aí que você falou. O de 50. Qual uva é?
  • É um blend. Cabernet, merlot e syraz.
  • Misturado?
  • Isso. É um blend ou varietal.
  • É bom?
  • É. Vale cada centavo.
  • OK. Vou levar esse também.
  • Vai ter só patê?
  • Só. Com pão, né?
  • Claro. Patê de colher que não pode ser. Qual patê?
  • Caramba, que interrogatório é esse. Até o tipo de patê eu tenho que falar?
  • Cada patê tem uma pegada. O vinho tem que acompanhar.
  • Cerveja é mais fácil. Combina com tudo.
  • Mais ou menos, né? Combina com doce, um chocolate?
  • Ué, sobremesa?
  • Pois é, existem vinhos para antes, durante e depois das comidas. Cerveja não tem. Não que eu conheça…
  • Cachacinha antes, uma porção de geladas durante e docinho no final para recompor o açúcar…
  • É, e no dia seguinte sua taxa de glicose bate nas tampas…
  • Pois é, diabetes é danada.
  • Vamos fazer o seguinte: se o patê for de sabores fortes, abra o cabernet. Se forem levinhos, vá com o pinot. Geralmente, isso da certo.
  • E as outras garrafas? Ainda tenho 300 reais pra gastar.
  • Beba essas garrafas aí. Quando acabar, a gente volta e compra outras.
  • Pena que não posso comprar o resto de cerveja. Todo domingo eu boto uma carninha pra queimar lá em casa…
  • Agora é vinho, né? Olha a diabetes.
  • Pô, churrasco sem cerveja… A vida não é fácil, não, amigo.
  • Leve esta outra aqui. Pra domingo, no churrasco.
  • O que é isso?
  • Um malbec. Argentino. Ótimo vinho. Cê vai ver que não precisa de cerveja nem no churrasco.
  • Uma garrafa só?
  • Uma. Vinho te derruba se você exagerar. Cerveja empapuça.
  • Tá bom, vamos ver o que vai dar… Vou chegar em casa e colocar na geladeira.
  • Tudo bem, mas tire a garrafa da geladeira um tempinho antes de beber. Vinho tem que ser fresco, não gelado.
  • Tem que ter “frescura”, né? hahaha
  • Um pouco, o que que tem? Quem precisa de gelo é cerveja. Vinho só precisa de temperatura amena.
  • Cacete!!! Esse tal de argentino é caro demais: 70 reais?
  • Quer um mais barato?vinho-taca2
  • Não. Vai esse mesmo. Esse negócio de beber vinho é coisa de rico mesmo…
  • Você acha que eu sou rico?
  • Que eu saiba, não. Pé rapado igual eu mesmo…
  • Num é tão rapado assim também, não. Mas eu só bebo vinho…
  • Você é jornalista. Deve ganhar esses vinhos o tempo todo.
  • Quem me dera… O que eu faço é procurar vinhos que sejam bons e que caibam dentro do meu bolso. Ontem à noite, bebi um vinho de 17 reais.
  • Sangue de boi  hahaha
  • Tá louco. Sangue de boi não é vinho. É uma gororoba. Vinho mesmo, e de 17 reais.
  • Se é assim tão bom, por que você compra vinho mais caro?
  • Esqueceu que o mundo do vinho é de descobertas? Você mescla vinhos muito bem elaborados, complexos, cheios de perfumes e sabores diferenciados, e mais caros, com vinhos mais simples, diretos, bem mais em conta.
  • Muito complicado…
  • No começo, parece mesmo complicado. Depois é natural. Beba essas 4 garrafas e na semana que vem a gente fala sobre elas, ok?
  • Tá bom. Tudo por causa da diabetes e pelo “goró”…
  • Que nada, rapaz. Tudo pelo prazer de uma boa garrafa de vinho. Vida que segue. Ahh, e não se esqueça: vinho tem que ser bebido em taças.
  • Por que não pode ser no copo?
  • “Frescuragem”, mas use a taça.

Vinhos: o lado bom da vida não precisa ser ruim para o bolso

A crise provocada pelo tal ajuste fiscal do governo não está fácil pra ninguém. E pra quem gosta de fazer a vida sorrir um pouco com uma bela taça de vinho, o aumento dos impostos e do dólar complicou demais da conta. Afinal, é claro que os melhores vinhos custam bem acima da média. Se a grana encurta e o preço aumenta, babau. Esse prazer fica quase proibitivo.

Mas nem tudo está completamente perdido, e nem vale a pena deixar o prazer de uma boa taça apesar de todos os pesares. Aliás, já que a crise está brava, melhor é dar um olé na tristeza abrindo uma garrafa legal, sem bagunçar ainda mais a carteira. Sim, existem vinhos bebíveis bem acessíveis. E a crise, de certa forma, empurra os apreciadores de Baco na direção das descobertas, e até na (re)visita aos vinhos da iniciação, aqueles que servem como porta de entrada para o mundo maravilhoso das taças. Acredite: os iniciados vão perceber, com surpresa, que os vinhos baratos/acessíveis até que não fazem tão feio o quanto a gente imagina hoje em dia, após viajar durante anos pelos sabores realmente elaborados – e bem mais caros.

Se o seu caso é de carteira vazia, vale a pena considerar estas garrafas. Se ainda está na fase de experimentação vez ou outra, também. O que não da mesmo é ficar sem vinho.

Porca de MurçaPorca de Murça – Portugal – faixa de 30 reais – É o caçula da casa. Bruto, sem maiores delongas. Muito menos elaborado que o irmão mais velho, o Porca de Murça Reserva. Em compensação, custa uma mixaria diante do que oferece se o padrão de comparação for aquela santaiada chilena “reservada”. Não é difícil de ser encontrado, e geralmente faz parte do plantel básico dos barzinhos e botecos que oferecem alguns rótulos.

ventisqueiro ClássicoVentisqueiro Clássico – Chile – faixa de 25 reais – Há um monte de Ventisqueiros, inclusive quanto às uvas. Essa linha é a de entrada. Qualquer um deles cumpre sua obrigação sem comprometer. O Cabernet Sauvignon dessa bodega costuma ser muito bom, em todas as faixas. Também neste, a básica, não decepciona.

TrapicheTrapiche Vineyards – Argentina – faixa de 25 reais – É do Vale de Mendoza, de onde saem excelentes vinhos argentinos, mas isso não significa que este aqui também é um fora-de-série. A Trapiche é uma das boas bodegas de pechinchas portenha. Como no caso do Ventisqueiro, há uma coleção dessas garrafas, separadas por uva. O Pinot Noir da Trapiche é uma opção legal, mas não espere nada muito elaborado. A proposta dessa família Trapiche é exatamente oferecer um produto honesto por um preço bacana.

10583314Paulo Laureano Premium – Portugal – faixa de 30 reais – A linha premium não é nem um pouco sofisticada. É um vinho absolutamente comum, mas sem que isso signifique pouca qualidade. Também não é raro encontrar essa garrafa nos barzinhos e botecos de Goiânia. Ahh, e vale lembrar que a velha imagem consolidada durante anos pelos vinhos portugueses, rasquentos e pesadões, que davam uma certa travada na língua, é coisa do passado. Hoje, os portugueses básicos seguem a tendência do mundo, com vinhos caprichados, de gosto fácil e imediato.

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A lista até 30 reais é realmente bastante restrita. Uma opção é o rótulo Club des Sommeliers, exclusiva das redes Pão de Açúcar e Extra. Chilenos, argentinos e um assemblage tinto brasileiro, da Serra Gaúcha, estão nessa faixa e são bebíveis. A proposta do rótulo é rodar o mundo. Então, além desses três, tem portugueses, franceses, sulafricanos, neozelandeses, italianos e espanhóis. Só que são bem mais caros. E, nesse caso, passam a enfrentar vinhos bem elaborados na mesma faixa de preço. Há duas linhas claramente definidas: rótulos brancos para os básicos e pretos para os superiores. Há uma terceira linha, mas com pouquíssimas opções, e mais cara ainda, a Reserva. As duas redes sempre colocam esses vinhos em promoção, e nesse caso deve-se selecionar logo várias garrafas. No dia a dia, vão bem.

Rolhas encrenqueiras: como evitar?

Você escolhe uma boa garrafa, prepara a noite nos mínimos detalhes, coloca as taças sobre mesa ao lado dos petiscos ou dos pratos e na solene hora de abrir o vinho… a rolha quebra. Não tem nada mais desagradável do que uma coisa dessas.

Calma, ainda não é o fim do mundo...

Calma, ainda não é o fim do mundo…

Quer dizer, até que tem coisa pior. O vinho, por exemplo, apesar do bom rótulo, pode estar oxidado, podre. Mas isso é simplesmente o fim dos tempos, então não entra na relação das coisas desagradáveis.

Como evitar essas rolhas encrenqueiras? Não é fácil, não. Algumas rolhas são simplesmente terríveis. Parecem ter vontade própria. Insistem em ficar lá, evitando o nosso contato com o precioso líquido. É como se fossem egoístas, querem o vinho só pra elas, as rolhas.

Saca-rolhas 2 estágio com espiral revestida de teflon

Saca-rolhas 2 estágio com espiral revestida de teflon

Mas existem, sim, algumas coisinhas básicas que ajudam a evitar, embora não completamente, essas surpresas desagradáveis. O principal desses cuidados é a guarda do vinho, sempre deitado e jamais em pé. O contato permanente com o vinho faz com que a rolha permaneça úmida. O ressecamento é fatal para a integridade física das danadinhas quando vai se abrir a garrafa. Mas existem alguns locais que mantém as garrafas em pé e não deitadas, como acontece nos supermercados.

prateleira de vinhos

Vamos lá. Em primeiro lugar, supermercado nunca foi o local mais apropriado para comprar garrafas de vinho. De qualquer forma, por causa da rotatividade, isso não é muito problemático. Basta que você deixe a garrafa descansar uma ou duas semanas na sua adega, ou dentro de um armário longe do sol. Deitadinha, claro. Basta esse curto tempo para a rolha se recuperar se não totalmente, pelo menos o suficiente para não quebrar na hora de ser arrancada. Uma outra dica é retirar o lacre dessas garrafas de supermercado, permitindo assim melhor oxigenação da rolha. Nesse caso, a danadinhas recebe suas cargas de umidade, por dentro e por fora.

Não se parece com um parafuso?

Não se parece com um parafuso?

Depois desse cuidado, o mais importante é a escolha do saca-rolhas. Repare e compare as espirais. Quanto mais aberta, melhor. Alguns saca-rolhas são quase um parafuso. Evite-os. E se tiver algum desses em casa, descarte. Quanto mais apertada a espiral maior é o risco de a rolha quebrar ao meio. Outro ponto é o formato do saca-rolhas. Existem muitos tipos. Uso rotineiramente o de dois estágios com espiral revestida de teflon. Dificilmente encontro uma rolha encrenqueira, mas quando acontece, uso um desses modelos clássicos, de ponta bastante fina e espiral longa. Com bastante cuidado, introduzo esse saca-rolha no pedaço que restou da rolha e vou puxando com mais cuidado ainda, sem pressão excessiva. Se puxar com tudo, a rolha pode se esfarinhar de vez.

saca-rolhas clássico

E algumas vezes nem todos esses cuidados evitam que a encrenqueira se esfarinhe. Aí, não tem jeito: empurre-a para dentro e dane-se. Depois, pegue um pano absolutamente limpo e sem cheiros, e coe o vinho. É quase um sacrilégio fazer isso, mas pior seria simplesmente virar a preciosa garrafa no ralo da pia. Vinhos não merecem esse tipo de destino. A não ser em dois casos: se estiver podre, vencido, oxidado ou se for uma gororoba vermelha indecifrável.

É quase uma máquina para sacar rolhas. Mas se for uma encrenqueira, não serve

É quase uma máquina para sacar rolhas. Mas se for uma encrenqueira, não serve

Existem 3 tipos de rolhas à prova de encrenca: a de tampinha de rosca, a de silicone (falsa cortiça) e a de vidro. Mas elas só tapam garrafas de vinho que devem ser bebidos ainda jovens. Os de guarda sempre exigem rolhas de cortiça inteiriça (existem rolhas feitas com pedacinhos de cortiça, como se fossem essas tábuas de aglomerado).

É fácil usar, mas também não oferece maiores garantias contra as encrenqueiras

É fácil usar, mas também não oferece maiores garantias contra as encrenqueiras

E o problema é que são exatamente esses vinhos de guarda mais longa que exigem os maiores cuidados na sua conservação – sempre com a garrafa deitada e bem protegida das variações de temperatura. E no final das contas se alguma rolha quiser encrencar o seu prazer, releve: uma boa taça não é compatível com mau humor.

Vinhos, o que não era barato, tornou-se caríssimo: o que fazer?

A disparada do dólar desencadeou um aumento generalizado nos preços dos produtos importados. De um par de meia ao carrão “made in USA”, as coisas com sotaque estrangeiro tornaram ainda mais seletivos. O mercado dos vinhos foi severamente punido com esse dólar disparado. Uma boa garrafa que custava coisa de 50 reais não sai agora por menos de 60, 65 reais. E como os aumentos de preços aconteceram em todos os setores de consumo, a carteira está bem menos recheada para os prazeres da vida.

carteira vazia

Qual é a saída para os apreciadores de vinhos? Abandonar o gostoso hábito, trocá-lo por alguma bebida mais em conta – que também aumentou – ou se adaptar aos novos tempos? A última alternativa é a melhor. Então, se antes com o dólar mais em conta, o esporte da garimpagem de boas garrafas por preços razoáveis era um dos grandes baratos dos bebedores de vinhos, agora virou regra de sobrevivência.

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Vinho brasileiro? Em momentos como o atual, os vinhos nacionais deveriam passar a figurar naturalmente como bastante competitivos na relação preço-qualidade diante dos importados quase proibitivos. Deveria, mas não é o que está acontecendo. Como tudo aumentou bastante nos primeiros meses deste ano, também os insumos dos produtores subiram, como a água, energia, combustíveis e etc, etc e etc.

Por outro lado, os vinhos nacionais suportáveis para a carteira são quase todos eles insuportavelmente ruins para o paladar. O negócio está ali no meio no termo; vinhos não muito conhecidos, e portanto sem o preço extra da fama, o que é bastante rotineiro neste mundo escarlate. É uma atividade interessante navegar por esses mares de baco nacionais, mas muitas vezes também é frustrante. Vinhos nacionais ainda não se encontram no mesmo patamar dos similares chilenos, argentinos ou uruguaios.

Assemblage tinto

Mas recentemente tive uma surpresa bastante legal para o dia a dia na coleção Club des Sommeliers, da rede Pão de Açúcar/Extra. Trata-se do Assemblage tinto. O preço em dias normais é de apenas R$ 16,90. Nas promoções, que são rotineiras, da pra estocar a adega com garrafas desse vinhozinho tupiniquim por inacreditáveis R$ 12,90. É uma bela pechincha. Mas não espere um vinhaço, daqueles que se eternizam na memória gustativa. Nem pelos aromas e nem pelo sabor. É apenas uma opção para não abandonar de vez a festa, e nem o clima de boa vida, por causa da carteira esvaziada.

Pelo menos, esse Assemblage tinto do Club des Sommeliers é um vinho com gosto de vinho, e não um suco alcoolizado e adocicado como muitos outros de boa fama, e alto preço, fabricados no Brasil. Mas atenção e cuidado na hora de colocar essa garrafa no carrinho. Existem outros dois tipos, um tinto suave, ou seja açucarado, e um branco. O suave, obviamente, não levaria pra casa nem para dar de presente a um amigo. Poderia até experimentar o branco, mas sou bebedor do time dos tintos secos. Talvez ainda compre uma garrafa desse tipo aí para sentir qual é a desse branquelo.

Don Pacual Tannat

Mais dicas? Está complicado. Cada vez mais complicado. Vez ou outra é possível encontrar uruguaios bebíveis, feitos com uva tannat, na faixa de 20 e poucos reais. Los hermanitos do Plata conseguiram domar os taninos exuberantes dessa uva e extraem vinhos excelentes. Os ótimos, fora-de-série, subiram tanto quanto todos os demais. A linha mais popular do Uruguai é o Don Pascual, e pode ser encontrada em algumas importadoras (nenhuma em Goiânia) e na rede Carrefour. Também entra na lista dos preços em conta. Os tannat com carnes assadas ou churrasco vão sempre muito bem e, nesses casos, o Don não compromete o conjunto.

Já me arrisquei com os portugueses mais baratos, mas quase sempre o resultado é desastroso. São vinhos mal preparados. Também os chilenos que tenham no rótulo “reservado” devem ser evitados a qualquer custo. São umas bombas engarrafadas. Muito cuidado também com os argentinos que parecem ótimos e que custam muito barato. Geralmente, são praticamente intragáveis.

taça de vinho

Enfim, é possível, e não apenas possível, mas obrigatório,  migrar para as garrafas mais em conta para manter o prazer em alta. O que não pode mesmo é deixar a taça vazia pra acumular poeira e ocupar espaço no armário. Até porque, com uma taça de vinho na mão, até essa crise excomungada por ser esquecida por algumas horas. Um brinde a isso.

“A melhor cerveja feita no Brasil”

Quando se fala em medalha de ouro, o pensamento não poderia ser diferente: “está ali o(a) melhor de todos(as)! Definitivamente não há nada superior!”. Pois bem, teoricamente, trata-se de uma verdade das mais verdadeiras possíveis. Afinal, quem é campeão não chegou ali por acaso. Pode ter contado com a competência, com a sorte ou com qualquer outro conjunto de forças ocultas (se for o caso), mas ainda sim é do grande campeão que estamos falando.

Estou me referindo à cerveja Schornstein, do estilo India Pale Ale, que veio diretamente do sul do Brasil, em Pomerode – SC. Ela foi a vencedora (em sua categoria) do II Concurso Brasileiro de Cervejas (2014), que acontece anualmente durante o Festival Brasileiro de Cervejas, em Blumenau – SC.

Festival Cerveja

 

Quando adquiri o meu exemplar, recebi as melhores recomendações do mundo sobre o conteúdo que estava guardado dentro daquela garrafinha. E por onde eu passava depois disso, tanto em lojas de cervejas especiais em Goiânia ou em Brasília, era unanimidade: tinha comprado a melhor cerveja do Brasil. Simples assim.

A minha expectativa, que já não era pouca, cresceu bastante, e não consegui aguardar mais: era hora de degustar aquela pequena campeã. Não sabia exatamente o que esperar, e talvez tenha até colocado muita pressão sobre ela, tadinha, mas eu tinha em mãos a melhor brasileira do momento. Enfim, abri a garrafa e o momento finalmente tinha chegado. Apesar da ansiedade, tentei me concentrar e aproveitar aquele instante.

Cerveja IPA

 

O líquido no copo apresentou uma cor bem turva (âmbar), não mostrando nenhuma carbonatação. Produziu muita espuma, bem espessa e consistente. O aroma era um pouco frutado, e isso ficou evidente também no gosto. Aliás, tomei mais alguns pequenos goles tentando decifrar aquele líquido. Sabor consistente, do princípio ao fim, com um retrogosto bastante refrescante, assim como estava escrito no rótulo. Era realmente pouco amargo e muito saboroso. Uma cerveja completamente equilibrada, com certeza!

Mas no final das contas, não gostei. Parece ironia ter chegado a essa conclusão somente quando a garrafa ficou completamente vazia. Mas confesso que não gostei mesmo. Talvez eu tenha estranhado o estilo, já que estava diante da minha primeira India Pale Ale. Mas isso pra mim não importava, pois ela é a melhor do país, então eu não esperava nada menos do que isso.

Essa é a grande graça do mundo cervejeiro: cada paladar, uma sentença. Lendo livros a respeito do tema, aprendi que não há certo ou errado em cervejas, há apenas diferenças no paladar de cada um. E isso eu também aprendi na prática com essa Schornstein, mesmo não recebendo nenhuma crítica negativa a respeito dela. Mas na minha boca a química não bateu. E essa é a graça da coisa. É o que gera a curiosidade para buscar novos rótulos e estilos ainda não desbravados por cada um.

Mas sabe qual é a verdadeira ironia disso tudo? Já faz uns 3 meses que esse episódio ocorreu, e confesso que estou com vontade de tomar mais uma vez essa medalha de ouro. Talvez agora minha boca “esteja melhor”, ou simplesmente não há mais pressão para que ela me surpreenda. Talvez agora ela possa ser ela mesma, e eu respeitá-la assim, sem julgá-la por ser “a melhor do país”. Sem expectativas, sem pressão, sem surpresas. Apenas aproveitar aquele momento, da forma que sempre deve ser ao se degustar uma cerveja. Um momento único e prazeroso.     (por Afonso Rezende)

Vinhos: de qual país é melhor?

 Inúmeras vezes, amigos e amigas me falam sobre vinhos deste ou daquele país, e se dizem satisfeitos. E é isso mesmo: vinhos bons, honestos, bem preparados e com uvas no ponto certo existem em todos os lugares. Não sei dizer exatamente de quantas nacionalidades diferentes já bebi vinhos. Sei que foi um montão. Gosto de experimentar, tentar descobrir o eixo da escola de viticultura de cada região. Mas se não sei precisar de quantos países já bebi, garanto que ainda falta um punhado maior ainda.

 

Chileno, um dos mais vendidos no Brasil. Para iniciar, vale

Chileno, um dos mais vendidos no Brasil. Para iniciar, vale

No Brasil, os consumidores esporádicos, que dizem gostar de vinhos, mas bebem regularmente cerveja, falam maravilhas dos chilenos básicos e dos argentinos idem. Vá lá, quem não apurou o sabor para os vinhos tem certa razão ao gostar desses vinhos. E não há mal algum em escolher uma garrafa dessas nas prateleiras dos supermercados e colocar no carrinho.

 

Argentino, barato e bastante conhecido. Básico

Argentino, barato e bastante conhecido. Básico

Mas os iniciados viram a cara para os “reservados” chilenos e para as pechinchas portenhas. São vinhos fracos, misturados, quase uma gororoba em comparação com garrafas um pouco superior – tanto em qualidade quanto, óbvio, no preço. Aos amigos e amigas que me falam sobre as tais garrafas reservadas costumo dizer que é melhor comprar uma que custe entre 30 e 50 reais do que três de 17. A quantidade, nesse caso, trabalha contra a qualidade do prazer.

Países – Mas existe algum país que fabrica boas garrafas por preços mais em conta? Bem, a santaiada argentina e chilena, estes últimos com o selo “reservado”, custam baratinho. Em algumas promoções é possível encontrar esses vinhos por pouco mais de 10 pilas. Se você não for exigente, encare-os. No mínimo, servirá como parte do aprendizado. Sim, porque não adianta nada começar a beber vinhos no topo da pirâmide. Sem conhecer o vinho mais fraco, dificilmente vai se reconhecer o de melhor qualidade.

Português, o EA já foi bem mais barato. É um básico honesto para começar

Português, o EA já foi bem mais barato. É um básico honesto para começar

Além desses básicos argentinos e chilenos, o Brasil também produz garrafas de baixo custo. Claro que nessa relação não entram aqueles vinhos por menos de 10 reais, que se encontra aos montes. Eles podem até ser chamados de vinhos, mas são sucos de uva alcoolizados. E o que é pior: alguns são também adocicados. Curuizcredo!

O preço foi lá pra cima, na faixa dos 50 reais. De vez em quando, entra em promoção. Por 30, vira pechincha

O preço foi lá pra cima, na faixa dos 50 reais. De vez em quando, entra em promoção. Por 30, vira pechincha

Então, vinhos entre 15 e 20 e tantos reais feitos na Argentina, Chile e Brasil podem, sim, ser colocados no carrinho. Se você, é claro, ainda não subiu os degraus da degustação. Se forem vinhos portugueses ou espanhóis, fique atento. Geralmente, nessa faixa de preço mínimo, essas garrafas escondem coisas boas no meio de muita porcaria engarrafada.

Um degrau acima do mínimo, na faixa que vai de 30 até 60 pilas, a oferta de vinhos honestos é quase infinita. E aí, entram os portugas e os hispânicos, além dos chilenos e argentinos. E muito cuidado com franceses e italianos nessa faixa.

Mesma uva, Cabernet, do mesmo fabricante americano, Mondavi, e pela metade do preço

Mesma uva, Cabernet, do mesmo fabricante americano, Mondavi, e pela metade do preço

Daí em diante, até 100, 120 pratas, já aparecem os vinhos da França e da Itália com boa qualidade. E os anteriores, chilenos, argentinos, portugueses e espanhóis, claro. Mas ainda assim é sempre necessário pesquisar, trocar informações com outros bebedores e tal. Gastar uma pequena fábula como essa numa garrafa mentirosa é o fim da picada.

Se o vinho leva este nome, ele não será barato, mas quase sempre será muito bom

Se o vinho leva este nome, ele não será barato, mas quase sempre será muito bom

Há outros dois países produtores que estão entrando no mercado brasileiro aos poucos, Uruguai e Estados Unidos. Nosso pequeno vizinho do sul produz os melhores tannat do mundo. Mesmo rótulos básicos, como o Don Pascual, oferecem um certo apelo. E custam uma ninharia. Vale a pena experimentar. Os americanos costumam cobrar muito caro pelos bons vinhos, mas o maior fabricante de lá, Robert Mondavi, consegue fazer vinhos honestos por preços bem mais em conta. Basicamente, eles trabalham com três uvas: Zinfandel, que é chamada de Primitiva, na Itália, Pinot Noir e a Cabernet Sauvignon.

 

Reza a lenda que Pero Vaz de Caminha e Álvares Cabral suportaram até calmaria no meio do Atlântico graças ao Pera Manca...

Reza a lenda que Pero Vaz de Caminha e Álvares Cabral suportaram até calmaria no meio do Atlântico graças ao Pera Manca…

Que tal sair de tudo isso aí e beber vinhos da África do Sul? Legal, mas prepare a carteira. Os vinhos bacanas de lá são caros. Os baratos não são tão bons assim. Alguns são péssimos. Quem ainda não conhece os sul-africanos deve ficar atento. É o mesmo que ocorre com os vinhos australianos. Eles fazem algumas garrafas extraordinárias com a Shiraz, mas também cobram caro. E não existe pechincha boa desses dois países. Como também não se acha vinho legal da Nova Zelândia que possa ser comprado sem entregar boa parte da carteira.

Se você precisa contar quanto dinheiro tem na carteira, nem tente comprar uma dessas obras francesas. São vinhos caríssimos

Se você precisa contar quanto dinheiro tem na carteira, nem tente comprar uma dessas obras francesas. São vinhos caríssimos

Custo-benefício – No mundo dos vinhos, o grande achado é encontrar boas garrafas por ótimo preço. E, acredite, apesar das zilhões de ofertas, não é fácil. De qualquer forma, e resumidamente, quem quiser beber vinhos honestos por faixa de preço deve olhar para a origem deles.

Na faixa 1, até 10, 12 pilas, evite todos. Ou use no preparo de alguns pratos. E mesmo assim é preciso ter algum cuidado. Os adocicados não servem nem para isso.

Na faixa 2, acima disso e que vai até 30 paus, os chilenos, argentinos e brasileiros. Mas, não se esqueça, essas opções são para iniciantes. Os iniciados vez ou outra vão encontrar alguma coisa legal, mas geralmente vão torcer a cara quase sempre.

Na faixa 3, entre 30 e poucos e 60 reais, inclua também espanhóis e, principalmente, os portugueses. Os lusitanos conseguem bons vinhos nessa faixa aí. São vinhos mais rústicos, mas deliciosos. Pesquise antes com seus amigos/amigas bebedores para não gastar dinheiro à toa.

O bom gosto não tem idade. Que tal encarar uma bela taça?

O bom gosto não tem idade. Que tal encarar uma bela taça?

E a faixa 4? Bem, aí o céu começa a ser o limite. Os mais famosos do mundo são os franceses, mas quando são realmente bons eles custam muito caro. A Itália cobra um pouco menos. Espanhóis e portugueses de excelente qualidade cobram menos e, maioria das vezes, oferecem mais ou, no mínimo, a mesma coisa. Alguns poucos chilenos e argentinos também entram nesse timaço de estrelas de baco.

No mais, é beber uma taça de vinho e deixar o prazer dominar a boca. Não há nada igual. Quando começar? Agora mesmo, uai. Vinho não é bebida de velho/velha. É bebida para quem tem bom gosto. E bom gosto não tem idade.

Vinho: quanto mais velho, melhor?

Virou ditado popular, e portanto ganhou um certo charme, mas a frase não deveria ser essa. Não é qualquer vinho que fica melhor com o passar dos anos. Ao contrário, a maioria vira “vinagre”, torna-se uma gororoba intragável. Então a frase ideal e verdadeira seria: “Alguns vinhos, quanto mais velhos, melhores ficam”.

taça de vinho

Vendo assim, é fácil concluir que o mundo dos vinhos é bastante complicado. E é mesmo. Mais ou menos como as pessoas são, cada região, cada povo, uma cultura, um modo de ser e viver todo especial e único.

Aí é que está: vinhos são bebidas vivas. Eles nascem, crescem, atingem o apogeu e entram em decadência. Por fim, morrem. E em cada uma dessas fases ele se apresenta de uma forma. E cada grupo de vinhos tem sua própria longevidade. A maioria tem vida mais curta, de 5 ou 6 anos. Geralmente, são os mais baratos e de maior consumo no mundo todo. No exato oposto ficam os vinhos chamados de longa guarda, que só se apresentam com todas as suas qualidades depois de evoluírem por 10, 15 e até 20 anos. Existem algumas garrafas francesas com mais de 30 anos e que são simplesmente indescritíveis. Mas esse é um privilégio para bolsos especialíssimos. Nós, mortais comuns, temos que nos contentar com vinhos de vida bem mais curta.

decanter vinho

Rebeldia – Vinhos de longa guarda quando novos são complicadíssimos na boca. Geralmente, nessa fase os taninos estão, como diria, no auge de seus “hormônios”. Rebeldes sem causa, indomináveis. Ao longo dos anos, ele vai amadurecendo aos poucos até que, após 15 ou 20 anos, ou até mais, finalmente se comportam com a classe e civilidade como os evoluídos devem ser.

Mas como saber se a garrafa safra, digamos, 2005 ali na prateleira da adega está boa, já passou da hora ou ainda está com taninos rebelados? Difícil responder de bate-pronto, mas como regra, o preço geralmente diz qual é a real dessa garrafa. Se muito cara, é extremamente provável que o vinho que está dentro da garrafa ainda é uma criancinha e tem muito ainda para viver. Se o preço for uma bela pechincha, daquelas que a carteira se mantém recheada de notas após passar pelo caixa, é quase certo que lá dentro tem um líquido que já viveu dias muito melhores. O ideal é pesquisar antes de comprar um vinho 2005 hoje em dia, principalmente se o bebedor não conhecer o modus operandi do fabricante. Na dúvida, prefira uma garrafa safra 2011 ou 2012. É mais seguro e quase sempre muito menos decepcionante.

É lenda? – Alguns poucos iniciantes no mundo delicioso do vinho estalam a língua quando ouvem algum relato sobre vinhos safra 2000, 1980 e tals. E realmente os vinhos mudam muito dentro de seus ciclos de vida. Mas nem todos sobrevivem por tantos anos.

Um dos muitos tons de vermelho dessa magia líquida

Um dos muitos tons de vermelho dessa magia líquida

Não sei se já contei aqui sobre ótima e surpreendente experiência que tive com garrafas de Montes Alpha, um chileno bastante conhecido no Brasil e que custava bem menos do que atualmente. Foi chocante para mim constatar o quanto um vinho consegue melhorar de um ano para o outro.

Primeiramente, a safra. O ano de 2005 foi divinamente ótimo para as videiras chilenas. São desse ano alguns dos melhores vinhos já produzidos por lá. E os fabricantes chilenos conseguem como ninguém oferecer vinhos bastante jovens de muito boa qualidade. O que eles conseguem atingir com 2 ou 3 anos de envelhecimento a maioria dos europeus precisa de uns 5 anos no mínimo.

A safra 2005 no início não tinha o rótulo dourado Vintage

A safra 2005 no início não tinha o rótulo dourado Vintage

Eu participava de um grupo que se reunia uma vez por semana para viver experiências no mundo de Baco. Época de descobertas. Abrimos muitas porcarias engarrafadas, mas a maioria ganhou nossos paladares. Um desses bons vinhos foi o Montes Alpha cabernet sauvignon. Não sei ao certo, mas em 2 anos de reuniões devemos ter bebido umas duas dúzias de Montes 2005. No final desse tempo já estávamos na safra 2006.

Tempo vai, vinhos outros vem, novas descobertas e tal, e eis que um belo dia bateu saudades dos sabores do Montes. Aleatório. Tava escolhendo algumas garrafas na loja e, de repente, peguei e separei uma do Montes.

Dois ou três dias depois, não mais que isso, em casa, resolvi abrir o velho conhecido. Não sou um bebedor com memória gustativa extraordinária, mas me lembrava exatamente o que iria beber. Quando coloquei o vinho na taça, apreciei a cor vermelhona, linda, mas ao bater o nariz levei um susto. Se minha memória gustativa é amadora, minha memória para os aromas é pior ainda, mas nem tanto assim que não me fizesse lembrar das garrafas de Montes que tinha bebido anteriormente. Foi um ótimo susto. Aromas perfeitos, muito agradáveis. Rodei a taça contra a luz e o vermelho ganhou ainda mais vida. “Uai, nem me lembrava mais disso tudo”, pensei na hora.

O Montes Alpha M 2005 é o primo rico (e muito mais caro. Um ícone)

O Montes Alpha M 2005 é o primo rico (e muito mais caro. Um ícone)

Mandei o primeiro gole. Rapaz, que coisa fantástica. Era o mesmo vinho que bebi tantas vezes antes, mas se apresentava de forma extraordinariamente gostosa. Beberiquei aquela garrafa aos pouquinhos, golim por golim até lamentar quando a última gota secou.

No dia seguinte, comentei com um dos amigos do grupo de bebedores que frequentava sobre essa experiência com o Montes Alpha. “Não pode ser tudo isso. É que tem mais de 1 ano que você não bebia esse vinho”, foi a reação dele. Pode ser, mas na dúvida, corri para a loja e comprei mais duas garrafas 2005. As derradeiras do estoque. Dali pra frente, só 2006.

Estava entrando em casa quando recebi telefonema desse amigo. “Você tem razão. Esse vinho explodiu. Tá cheio de depoimento de confrades na internet contando a mesma coisa. Já procurei nas lojas online e não tem mais safra 2005. Acabou. Onde você encontrou?”. No Ata (Empório Sírio Libanês), respondi, mas lá também acabou, disse sem contar que estava com as duas últimas garrafas 2005 debaixo do braço.

Ainda encontrei 11 garrafinhas de 375ml do Montes Alpha 2005 alguns dias depois. Fiquei com 6 delas e passei 5 para o amigo.

Auge – Isso é uma das características mais fascinantes nessa bebida extraordinária, a evolução. A mesmíssima garrafa, um único ano depois, um vinho bom que se tornou perfeito. Fico imaginando os vinhos franceses e portugueses de longa guarda e as marcantes diferenças e percepções ao longo dos anos.

Sobre o Montes Alpha 2005, não sei como ele estaria hoje ao ser aberto. Não acredito que estaria melhor do que no finalzinho de 2009, início de 2010, quando dessa minha experiência. Hoje, se me deparasse com uma garrafa dessa safra, a levaria para casa muito mais por curiosidade, para saber se ele ainda evoluiu ou se entrou na fase decadente.aqueijos taça

Portanto, se você está se iniciando nos prazeres do fantástico mundo dos vinhos, lembre-se que aquela garrafa maravilhosa bebida no ano passado pode não ser mais tudo aquilo hoje. Ou estar ainda melhor. Mas se você é um iniciado, certamente já passou por essas experiências que só fazem acrescentar as nossas paixões pelos vinhos.

Um toscaninho de 50/60 reais e um californiano Pinot por 25

Um legítimo Toscano gostoso, redondão mesmo, lotado de Sangiovese, e por menos de 80/100 reais? Vale a pena arriscar esse aí, o Santa Cristina. Esse toscaninho faz milagres na taça. Claro que não é nenhum Barolo ou qualquer outro super-Toscano. Mas tem o DNA da região. De quebra, é assinado pela lendária casa Antinori, talvez a maior e mais famosa da Itália. Antinori está para a Itália como o Catena está para a Argentina: um ícone.

SantaCristinaIGTSó esse cartão de apresentação do Santa Cristina já arrancaria fácil uns 35 reais de uma garrafa sem rótulo. Esse Santinha aí vai bem mais longe. É um baita vinho pelo valor que cobra. Claro que, como qualquer italiano da gema, baseado quase inteiramente na uva Sangiovese, se casa perfeitamente com as massas. Mas o Santa Cristina encara fácil uma rodada legal de queijos não muito condimentados.

Ele é redondinho desde o primeiro gole, mesmo sem estagiar antes num decanter. Mas ganha bastante se for bebericado sem nenhuma pressa, permitindo que ele respire um bocado ainda na garrafa. Depois, é só jogar na taça e dar a ele alguns minutos pra se ambientar. E pronto. Basta isso, sem maiores delongas.

Pode ser encontrado em importadoras online, mas é preciso ter cuidado nesse caso. os preços variam muito. Dia desses estava em promoção no Carrefour do Sudoeste, aqui em Goiânia, por 52 reais. Pechinchona. Não sei se ainda tem, mas deve ter. Num empório da cidade está em 65, mas se chorar acaba levando por 60 reais. Os dois preços são muito bons. É claro que é uma pena que custe tão caro. É o custo-Brasil dos vinhos. O que lá fora é barato, aqui custa pequenas fábulas. E com o dólar em alta a coisa lasca de vez.

Que tal um Pinot Noir californiano por 25 pratas?

Acredita nisso? Um californiano Pinot Noir honestíssimo, assinado por Robert Mondavi, o maior fabricante dos Estados Unidos, por menos de 30 reais? Mais exatamente, R$ 25,90. É outra pechincha que apareceu em promoção no Carrefour (Sul/Flamboyant) há alguns dias. O Merlot e o Cabernet Sauvignon também estão por esse preço, mas são mais sisudões. É o Woodbridge, a linha básica do Mondavi.

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É lógico que não se deve esperar um vinho fantástico numa garrafa como essa, mas esse Pinot tem alguma coisa da escola californiana, até com uma certa personalidade. Levíssimo, chega a dar alguma sensação de aguado. Mas não tem nada de água em excesso. É um Pinot leve, para o dia a dia, feito pra agradar todo mundo, mesmo bebedores iniciais ou eventuais, que ainda não se acostumaram aos sabores variados, e algumas vezes marcantes, do mundo dos taninos.

Vale a pena esperar por promoções nesse vinho aí, especialmente o Pinot. Quanto ao Merlot e o Cabernet são mais agressivos. E imploram acompanhamento.