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Vinhos e comidinhas caseiras

Um toscaninho de 50/60 reais e um californiano Pinot por 25

Um legítimo Toscano gostoso, redondão mesmo, lotado de Sangiovese, e por menos de 80/100 reais? Vale a pena arriscar esse aí, o Santa Cristina. Esse toscaninho faz milagres na taça. Claro que não é nenhum Barolo ou qualquer outro super-Toscano. Mas tem o DNA da região. De quebra, é assinado pela lendária casa Antinori, talvez a maior e mais famosa da Itália. Antinori está para a Itália como o Catena está para a Argentina: um ícone.

SantaCristinaIGTSó esse cartão de apresentação do Santa Cristina já arrancaria fácil uns 35 reais de uma garrafa sem rótulo. Esse Santinha aí vai bem mais longe. É um baita vinho pelo valor que cobra. Claro que, como qualquer italiano da gema, baseado quase inteiramente na uva Sangiovese, se casa perfeitamente com as massas. Mas o Santa Cristina encara fácil uma rodada legal de queijos não muito condimentados.

Ele é redondinho desde o primeiro gole, mesmo sem estagiar antes num decanter. Mas ganha bastante se for bebericado sem nenhuma pressa, permitindo que ele respire um bocado ainda na garrafa. Depois, é só jogar na taça e dar a ele alguns minutos pra se ambientar. E pronto. Basta isso, sem maiores delongas.

Pode ser encontrado em importadoras online, mas é preciso ter cuidado nesse caso. os preços variam muito. Dia desses estava em promoção no Carrefour do Sudoeste, aqui em Goiânia, por 52 reais. Pechinchona. Não sei se ainda tem, mas deve ter. Num empório da cidade está em 65, mas se chorar acaba levando por 60 reais. Os dois preços são muito bons. É claro que é uma pena que custe tão caro. É o custo-Brasil dos vinhos. O que lá fora é barato, aqui custa pequenas fábulas. E com o dólar em alta a coisa lasca de vez.

Que tal um Pinot Noir californiano por 25 pratas?

Acredita nisso? Um californiano Pinot Noir honestíssimo, assinado por Robert Mondavi, o maior fabricante dos Estados Unidos, por menos de 30 reais? Mais exatamente, R$ 25,90. É outra pechincha que apareceu em promoção no Carrefour (Sul/Flamboyant) há alguns dias. O Merlot e o Cabernet Sauvignon também estão por esse preço, mas são mais sisudões. É o Woodbridge, a linha básica do Mondavi.

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É lógico que não se deve esperar um vinho fantástico numa garrafa como essa, mas esse Pinot tem alguma coisa da escola californiana, até com uma certa personalidade. Levíssimo, chega a dar alguma sensação de aguado. Mas não tem nada de água em excesso. É um Pinot leve, para o dia a dia, feito pra agradar todo mundo, mesmo bebedores iniciais ou eventuais, que ainda não se acostumaram aos sabores variados, e algumas vezes marcantes, do mundo dos taninos.

Vale a pena esperar por promoções nesse vinho aí, especialmente o Pinot. Quanto ao Merlot e o Cabernet são mais agressivos. E imploram acompanhamento.

Prelúdio, o uruguaio ícone que merece a fama de tem

Vez ou outra, e quase sempre, bebedores de vinho se reúnem em confraria informal para bebericar e bater papo. Quando isso acontece num bom restaurante ou boteco de 1ª linha, com uma carta de vinhos apresentável, tudo bem. É só se sentar à mesa e escolher uma das garrafas de acordo com o bolso de todos. Problema aparece quando o encontro é na casa de um dos confrades, e cada um tem a obrigação de levar uma garrafa cuja única referência é a faixa de preço.

Todo confrade ou bebedor iniciado gosta de novidades. Chegar sempre com as mesmas garrafas e tal torna a beberagem algo como mais do mesmo. Um dos grandes baratos do mundo dos vinhos é o inusitado, a descoberta, a viagem por terroirs e sabores nunca dantes aportados. Quando se encara um grupo com esse tipo de afinidade, a noite (ou a tarde/noite) fica realmente fantástica.

aqueijos taçaOs comes geralmente não são problemáticos. Vinhos tintos secos sempre batem um bolão com queijos variados e pães. Embutidos não muito fortes também se democratizam legal entre as opções. E, óbvio, água à vontade. Patêzinhos fecham o menu com chave de ouro. Pra comer, não é necessário mais nada além disso. Mas e pra beber?

Pode-se elaborar uma lista de rótulos previamente e cada um dos confrades se encarrega de comprar e levar uma das garrafas. Isso facilita a montagem da escala de beberagem. Começa com o vinho tal, sobe para aquele outro e fecha com o que se imagina grand finale. Legal, sem dúvida, porque a lista terá sempre as garrafas preferidas de todo o grupo.

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Mas prefiro as surpresas. Ir aos sabores jamais experimentados é sempre uma ótima experiência, mesmo que os vinhos agradem menos que os rótulos já conhecidos. Vinhos não são como cerveja ou coca-cola, com sabores exatamente iguais desde sempre. Cada vinho é um vinho, com característica, aromas e sabores próprios. Eles são tão personalíssimos que variam até de safra para safra. Encarar um mundo desconhecido nos vinhos é, portanto, uma viagem sem prévio conhecimento do roteiro. É pé na estrada, easy rider.

Na faixa de preço de 150 paus, as opções são milhares e geralmente muito boas. Não é coisa pro dia a dia, é claro, a não ser que os bolsos sejam daqueles que causam inveja. Mas se for analisar bem, um vinho excelente que custe mais ou menos o mesmo que uma boa garrafa de uísque não é tão fora da realidade. Não dá pra repetir encontros assim toda semana, mas uma vez ou outra vale economizar a semana inteira e mais um pouco para curtir vinhos excepcionais.

Mesmo nessa faixa de preços elevada, os franceses ficam muito mal. as melhores garrafas são bem mais caras. Então, ao invés de gastar 150 pilas num Bordeaux ou num Borgonha de menor qualidade, é melhor procurar rótulos portugueses, americanos e, principalmente, chilenos e argentinos. Há uma ou outra boa opção nessa faixa também na África do Sul, Austrália, Nova Zelândia e até no Líbano.

E os uruguaios? Pois é, dia desses fui apresentado a um dos ícones de nossos hermanitos do sul. Fabricado pela Família Deicas, um ótimo e famoso fabricante uruguaio, uma garrafa de Prelúdio, safra 2007, se impôs no centro da mesa. Uau! Já conhecia o danado “de nome”, mas ainda não tinha domado o rapaz na minha taça.

O Uruguai é a terra da uva Tannat, que produz vinhos lotados de taninos. Há dois aspectos nesses vinhos. O primeiro é que os taninos são exatamente aquela característica que dizem fazer milagres nas veias humanas, carregando as placas de gordura acumulada e deixando o sangue fluir com mais liberdade. O segundo é que vinhos tânicos são complicadíssimos e, geralmente, selvagens.

A primeira característica está mantida. Quanto à segunda, esqueça. Os uruguaios conseguiram dominar os taninos de seus vinhos Tannat como ninguém mais no mundo. Nem os franceses conseguem fazer vinhos com essa uva com taninos tão domesticados aos nossos sabores. Mais ou menos como aconteceu com o Malbec da Argentina, que também bate os franceses de longe.

O Prelúdio, na verdade, não é um varietal. Ele tem Tannat, Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Merlot e Petit Verdot. Mas o Tannat mostra seu sabor o tempo todo. Ele não está ali disfarçado. Isso é ótimo. Um vinho encorpado sem exageros, com sabores definidos, não muito seco na boca e absolutamente saboroso. Definitivamente, esse ícone uruguaio merece cada linha que se escreve sobre ele. Uma ótima garrafa.

E como não é tão conhecido e bebericado como argentinos, português e chilenos, torna-se a grande surpresa da noite em qualquer confraria. E, nas taças, não dará vergonha a quem o apresentar na roda.

Coleção Vega Sicilia Único. Que tal beber o equivalente a um carro popular...

Como montar e abastecer a adega?

Essa pergunta aí do título é mais corriqueira do que se imagina no mundo dos bebedores de vinho. E ela tem várias respostas. Basicamente, depende de 2 fatores: tamanho do bolso e gosto pessoal. Em ambos os casos, a adega climatizada vale muito a pena. É o lugar ideal para a garrafa ficar deitadinha, no clima perfeito para seu descanso até chegar a hora da grande e gostosa jornada até às nossas bocas.

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Tem gente que sempre fecha a carteira na hora de escolher garrafas de vinho. Por opção ou por falta de de caraminguás mesmo. Outros, tem muito maiores preocupações com outras coisas que o extrato bancário. Então, qualquer dica nesse negócio de abastecer adega deve sempre separar as faixas de capacidade de consumo.

Regra geral das adegas

Quem consome vinhos com custo máximo de 17 a  20 reais, tem uma infinidade de opções nos supermercados e nas lojas especializadas. Algumas garrafas entregam prazer na exata proposta do custo. Outros conseguem ir um pouquinho além. O fundamental é montar a adega de acordo com a experiência anterior. Casa Valduga Merlot 2004Gostou de algum rótulo? Ótimo, ganha espaço na adega. Não gostou? Jamais repita a dose. Beber vinho que a gente não gosta é martírio. Vinho não é pinga pra descer queimando e numa golada só pra não sentir o gosto. É bebida para se beber curtindo a vida, sentindo bons sabores, curtindo o visual escarlate, percebendo os odores.

adega 8 garrafas

Mas qual vinho é bebível nessa faixa de preço? Vai do gosto e da experiência pessoal de cada um, é claro. Quem já bebeu grandes vinhos, geralmente passa a identificar o sabor e a consistência dos vinhos. Então, a coisa complica bastante. Quem nunca bebeu essas garrafas, não sabe a diferença espetacular que existe entre elas e as garrafas menos estruturadas. Então, o sabor é menos exigente e até mais fácil de ser plenamente atendido.

Esses vinhos entre 17 e 20 reais são encontrados nos supermercados e em algumas lojas de bebidas populares. Também pela internet. Aliás, a internet é sempre uma ótima dica pra se encontrar boas garrafas de acordo com o bolso.

coleção almadém

Imaginando aqui uma adega para 8 garrafas, acho que a fórmula legal é preencher 6 vagas com seus preferidos, uma com alguma novidade na mesma faixa de preço, e a derradeira com algo inusitado, mais caro, que vai ser aberta apenas no momento mais especial. Se você gasta até 20 reais, compre pelo menos uma garrafa por uns 30 ou 35 reais. Se você bebe duas ou 3 garrafas por semana, ou por mês, basta pular um desses dias pra bancar o custo da tal especial. Acredite, o duplo sacrifício – adiar o consumo e gastar um pouco mais de grana – valerá muito a pena.

Club des sommeliers

Quem vai numa faixa acima, entre 30 e até 50 reais, também pode e deve aplicar a mesma regra: 6 rótulos conhecidos e apreciados, uma novidade e uma garrafa especial, com valor superior. Também nessa faixa de consumo existe centenas de bons vinhos nos supermercados e nas lojas populares.

Miolo seleção

A regra vai se embora, imutável, para os bolsos mais imunes às crises e aos gastos mensais. Sempre com uma novidade e uma especial.

Minha adega

Tenho entre 22 e 24 vagas na garagem climatizada aqui em casa. A quantidade varia um pouco porque existem garrafas bojudas, estilo Borgonha, que às vezes espreme a vaga ao lado. São 20 garrafas nas prateleiras e um cestinho embaixo.

Tem uma classe de rótulos que é recorrente por aqui: o Club des Sommeliers, das redes Extra e Pão de Açúcar. Prefiro os reservas, de rótulo preto. São melhores que os de rótulo branco. Mas jamais compro, um rótulo ou outro, se não estiver em promoção. Os preços, nessas horas, caem legal e se enquadram. São vinhos para o dia a dia. Ahh, e nunca encaro os caros vinhos da linha feitos na França. Não compensa. E os brazucas só entram aqui quando baixam a pedida.

Dia desses comprei um brazucão tempranillo. É o tal negócio: essa uva produz alguns dos maiores vinhos do mundo, como o Vega Sicília Único, delicioso na taça e absolutamente intragável no bolso. E também resulta em vinhos fracos, mal feitos. O brasileirinho me surpreendeu positivamente. Principalmente no cheiro. O sabor não é nenhuma maravilha, mas desce sem comprometer a imagem.

Coleção Vega Sicilia Único. Que tal beber o equivalente a um carro popular...

Coleção Vega Sicilia Único. Que tal beber o equivalente a um carro popular…

Por sinal, tenho tentado me abrir um pouco para os vinhos brasileiros. Não é fácil. Algumas garrafas custam bem mais que ótimos chilenos, argentinos e portugueses. Como dispensar um conhecido e arriscar no brazuca? Complicado isso. Como sempre, no Brasil, os produtores querem sobretaxar os estrangeiros. Por que não pensam em algo bem mais simples como isenção de impostos e incentivos para a melhoria da qualidade e crescimento da produção?

Colecionadores de vinho

Quando o assunto é vinho, sempre existem aqueles que falam de exemplares extraordinários, na fama, na qualidade e no preço, que habitam suas adegas. Conheço gente que tem adega para cento e poucas garrafas. Será que bebem tanto assim? Claro que não. Alguns bebem tão raramente que a adega é como se fosse um álbum de figurinhas, uma coleção.

Mantêm garrafas caríssimas e de safras raras, mas que nunca são abertas. “É para os momentos muito especiais”, costumam justificar. Ou vivem vidinhas enfadonhas, ou esperam pra beber esses vinhos com São Pedro. Mas não se pense imune a esse tipo de comportamento: adegas são um convite irresistível para a coleção de vinhos. É o álbum.

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Como evitar essa mania de colecionador de vinhos? Simples: tá feliz, abra a tal garrafa. Não está tão bem? Abra pra melhorar. Não há motivação especial? Abra, ué, quem foi que disse que essa história de momento especial é regra pra ser eternamente observada? E, por fim, beber uma garrafa de vinho é sempre um momento muito especial. Então, sabe aquela garrafa que tá tranquilona lá na sua adega e que você dela só apreciou o rótulo e a boa sensação de possuí-la? “Mas hoje é uma batia quinta-feira – ou segunda, terça?” Então, quer razão melhor pra fazer desta noite um momento tão bom quanto um sábado ao luar? Tim tim.

tinto, branco e rose taça

Vinhos: tinto, branco ou rose?

Existe uma guerra não declarada entre os bebedores de vinho. Alguns xiitas do reino de Baco chegam a dizer que o vinho, vinho mesmo, é apenas o tinto. O branco e o rose seriam então degenerações. Será que é isso mesmo? Não, é claro que não é.

tinto, branco e rose taça

Os vinhos tintos são melhor elaborados, sem dúvida, mas isso não significa que não existam espetaculares brancos ou estimulantes roses. Além disso, todos os vinhos de longa guarda são tintos.  Os brancos não aguentam passar uma ou duas dezenas de anos nas garrafas. Nem todos os tintos conseguem fazer isso, mas há aqueles que vão além desse prazo e ainda permanecem evoluindo. Os roses também são para consumo mais rápido.

Variedades

O reinado dos tintos é maior porque há muito mais variedade. Mas, sem dúvida, os principais são mesmo o Cabernet Sauvignon e a majestade Pinot Noir. Essas uvas produzem vinhos inigualáveis, ricos, poderosos, cheios de persistência. bouchardmontrachetgrandcruEntre os brancos, a Chardonnay é a uva rainha. É com ela que se produz inesquecíveis Grand Cru na região de Borgonha, na França – sempre ela. Mas a rainha da elite branca tem uma princesa à altura, a Riesling, da Alsácia, região que fica na divisa entre a França e a Alemanha. Os roses navegam bem entre muitas variedades, mas a Grenache é uma das mais atuantes.Rose francês

Tá, mas aí volta a velha discussão: vinhos brancos e roses são tão bons quanto os tintos? Claro que sim, mas são mais restritos. Tintos vão bem, dependendo a uva com que é feito, com quase tudo. Brancos e roses atendem nichos específicos dos acompanhamentos. Peixes, por exemplo, batem super legal com vinhos brancos. Os roses, pela estrutura geralmente macia, é super refrescante. Fora isso, o que existe mesmo é um certo preconceito. Os xiitas chegam ao extremo de achar roses vinhos meio afeminados, vê se pode um trem desses.

Sabores

Nada pode ser mais agradável do que uma bela taça de champagne ou espumante lindamente perfumada, cheia de bolinhas e amarelo-palha bem leve. Tem gosto permanente de festa. Vai bem com ostras frescas ou gratinadas, com peixes de escama assados e é fantástico com sashimi e sushi. TokajiE o que dizer dos Tokaji da Hungria, saborosíssimas gotas de néctar adocicadas e perfeitas para a sobremesa? E os Chablis e Grand Cru elaborados com Chardonnay ou os Riesling de sabores marcantes da Alsácia? Definitivamente, não há como não considerar os brancos vinhos extraordinários.

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Os roses ficam entre os tintos e os brancos apenas na aparência. São brancos de alma rosada. Seriam eles os vinhos boa praça. Leves, com pouca ou quase nenhuma concentração, passam ao largo dos excessos. Os espanhóis são mestres na arte de fabricação de saborosos roses. Mas o gosto despreocupado e descompromissado dos roses franceses não ficam atrás.

Champagne

Sobre os tintos nem é bom falar. São inúmeras as variações com Cabernet, Pinot, Merlot, Syraz, Touriga Nacional, Sangiovese… E são tão variadas as maneiras de vinificação que se produz vinhos para consumo rápido, de média guarda e exemplares que precisam de 10 anos ou mais para atingirem o máximo que podem oferecer.

Então, se fosse para classificar hierarquicamente o reino dos vinhos, talvez fosse correto aceitar o tinto como rei, o branco como rainha e o rose como príncipe. Nesse mundo não existe plebeu.

Formato da garrafa indica a qualidade do vinho?

Quando se está iniciando no mundo dos vinhos a gente não da tanta atenção assim ao formato das garrafas. Mas eles são vários. Alguns são claramente um indicativo da origem do vinho. Da Borgonha, por exemplo, dificilmente se verá um vinho de garrafa diferente: é sempre de ombros que criam uma longa curva até o bojo. Quase uma reta que parte do bocal e vai se alargando até o bojo. Em Bordeaux, a garrafa típica é a mais conhecida e usada no mundo todo: pescoço não muito longo e ombro acentuado no início do bojo.

Esses dois formatos de garrafa são os principais do mundo dos vinhos. Mas existem dezenas de variações, e que também indicam alguma coisa, além, é claro, dos fabricantes que optam por alguma garrafa totalmente diferente apenas para criar um diferencial de marketing/imagem. Só um fator é que não se consegue perceber apenas pela garrafa: a qualidade do que está lá dentro.

Borgonha/Bordeaux

Essas duas regiões da França são consideradas as melhores do planeta para se plantar videiras, colher boas e exclusivas uvas e fabricar vinhos espetaculares. A fama não é a toa, não. Borgonha e Bordeaux estão para o vinho francês assim como Cabo Canaveral para a Nasa ou o Papa para o Vaticano.

O ícone Romanee, garrafa da Borgonha

O ícone Romanee, garrafa da Borgonha

A Borgonha produz apenas 3 tipos de uvas: Pinot Noir, Gamay e Chardonay. Dois tintos e um branco. E pronto, é só isso. E basta mesmo. Os Pinot da Borgonha são únicos no mundo. Completamente diferentes de todos os demais Pinot fabricados em qualquer outro lugar, inclusive na própria França. Os Gamay se transformam em beaujolais fenomenais.

Puycarpin, da região de Bordeaux

Puycarpin, da região de Bordeaux

Bordeaux e Borgonha são rivais em quase tudo. Se na Borgonha o vinho é sempre varietal, com uma só uva, em Bordeaux é quase regra universal os blend, que é a mistura de 1 ou mais tipos de mosto. As vinícolas de Bordeaux são Chatêau. Em Borgonha, Domaine. As principais uvas em Bordeaux são a Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Merlot, Malbec e Petit Verdot. A forma de se produzir os vinhos em Bordeaux virou estilo no mundo todo, os bordaleses. Ou seja, se alguém falar sobre um corte bordalês do Chile, não estranhe.

Outros formatos de garrafas

Mateus Rosé

Nas prateleiras dos supermercados a gente encontra facilmente o vinho português Matheus rosé. Já foi o vinho mais vendido do mundo, e tem uma garrafinha abauladíssima. É o modelo francônia. Não é muito utilizado, não, e nem tem função específica alguma.

Jimmy Hendrix, a lenda do rock, gostava do Mateus

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Da França, vem outro vinho popular campeão das prateleiras, o JP Chenet, com pescoço levemente inclinado e corpo também bastante abaulado. É só charme pra tentar, talvez, fisgar incautos bebebedores garimpeiros. A garrafa é bem melhor que o conteúdo.

JP Chernet

Na divisa entre a França e a Alemanha, a região de Alsácia produz o mais gostoso Riesling. Quem não se lembra dos Almadén Riesling brasileiríssimos? Suas garrafas também são indicativos daquela região. Bem longas e praticamente sem ombro definido. A Alemanha usa bastante esse modelo de garrafa.

Riesling-Alsace-Trimbach

Chianti populares adotaram garrafas com saia de palhinha trançada. Também não e muito raro encontrar esses exemplares nos supermercados brasileiros.

A Bottle of Chianti Wine

Enfim, os dois modelos básicos de garrafas de vinho são mesmo Bordeaux e Borgonha. As demais são pequenas variações e criações mercadológicas. E como não são indicativos de qualidade, o jeito é abrir e beber o que tem lá dentro. Afinal, esse é o objetivo mesmo, né?

Trio

O que garimpar nos supermercados e botequins

Não existe uma ¨guerra¨ entre bebedores de vinho e entornadores de cerveja. Há uma certa convivência pacífica entre os dois. Aliás, a maioria frequenta tranquilamente os dois grupos. Nuns dias bebe vinho, noutros mandam ver na cerveja. Tudo bem, nada contra. Por aqui, no Brasil, ninguém nasce bebendo vinho. Havia até um hábito de os pais mergulharem a chupeta dos meninos na cerveja. Hoje todo mundo sabe que é errado, mas na época era sinal de que o rebento era macho. Beber cerveja era coisa pra homem. E o vinho? Bem, quando surgia uma ou outra garrafa era coisa pra mulherzinha.

Tá, mudaram os tempos, os hábitos também. E é comum a gente encontrar amigos e amigas que bebem vinhos vez ou outra e mais rotineiramente se encharcam com as ¨loiras¨ geladas. Também fui praticamente dessa arte aí durante décadas. Um vinhozinho hoje, semanas de cevas.

Aí, pensei em listar vinhos bacanas, bebíveis, que não arrancam o couro da carteira, facilmente encontrados nos supermercados e até em botequins, e que poderia atender aos bebedores desses 2 planetas: vinho e cerveja. Vinhos para aqueles dias após as semanas invernadas nas cevas. Mas acho que as dicas valem também para quem contempla os milagres de Baco. Principalmente porque, em muitos casos, é uma viagem de volta ao início da caminhada.

Tempos de Almadém e Forestier

Quase todo bebedor de vinho que conheço passou pelos Almadém e Forestier. Eram tops do mercado brasileiro. E o Matheus rosé, portuga? Teve também a fase daquela garrafa azul do alemão liebfraumilch, o leite da mulher amada. Hoje, encarar vinhos como esses aí é complicado. São ruins demais da conta. Mas existem outras garrafas nas prateleiras que podem e até devem ser encaradas. Sem problema. São boas e não explodem o saldo devedor no banco.

E resolvem um probleminha, tipo efeito colateral, que os frequentadores do mundo de Baco enfrentam vez ou outra: amigos cervejeiros que querem variar com uma noitada, ou tarde, de vinhos. Então, nada de desespero nessa hora. Existem vinhos para todos os momentos.

A seleção desta vez vai até 50 paus, mas a grande maioria ronda a faixa dos 30, e alguns até menos um pouco. É importante comprar essas garrafas apenas nas promoções dos supermercados. É quando ficam com preço justo.

Antes, uma recomendação básica: os selos ¨reservado¨ fabricados no Chile são ruins pra caramba. Não valem a pena. Use-os, no máximo, para apurar temperos.

Altos del PlataAltos del Plata – Tá aí um vinho bacana. O Altos Malbec bate muito bem na boca. O preço normal dele não é recomendável, mas quando entra em promoção é compra certa e sem medo. Pra acompanhar churrasco na brasa é realmente muito legal. Entre 30 e poucos e até 40 pratas, vale. Mais do que isso, não compre.

vinho-chileno-santa-rita-120-cabernet-sauvignon-750ml-7139-MLB5171583277_102013-F120 – Os argentinos e chilenos inventam muitas histórias sobre alguns vinhos. Esse 120, por exemplo, teria recebido esse nome porque numa guerra sei-lá-quando, um grupo de soldados teria resistido ao cerco e protegido o estoque de vinhos. Quantos soldados eram? Claro, 120. Mas não ligue pra lenda. O 120 é um vinho bebível, equilibrado e tal. Até 40 pratas, no máximo.

Casa Valduga LeopoldinaCasa Valduga Leopoldina – Pra não dizer que nunca recomendo brasucas, eis o Valduga Premium Leopoldina. Não é muito comum, não, mas de vez em quando ele aparece nas prateleiras. Também frequenta a faixa de 40 pilas. Vale. A Casa Valduga é um dos melhores fabricantes do Brasil nessa faixa de vinhos. Mas, atenção: são vários rótulos Casa Valduga, e quase todos eles parecidos. Prefira os com sobrenome, tipo Leopoldina, Raízes e outros. Os que trazem apenas ¨Premium¨ são os básicos. Portanto, pague bem menos.

CONO SUR BICICLETA PINOT NOIR 750MLCono Sur – Tem vários rótulos do Cono Sur, uma vinícola que entrou na moda da onda verde planetária. Este aqui, o bicicleta, é o mais popular. Há um outro, o 20 barrels, que também surge vez ou outra nas gôndolas, mas é bem mais caro. E muito melhor, é claro. Esse bicicleta também é bom, tranquilo na taça. Vive na fixa dos 30 paus. Sem problemas, vale, sim.

Flor_de_Crasto_Tinto_2009Flor de Crasto – É o portuga basicão da Quinta. Que, por sinal, fabrica garrafas muito boas, e caras. O Flor é um ótimo começo. Acima desse aí tem o Crasto, sem a flor, destacado logo abaixo pra ser perceber melhor a diferença no rótulo. Não se pode esperar maravilhas desse vinho, mas ele cumpre bem seu papel. Na faixa dos 30. Mais do que isso, evite.

crasto-douroCrasto – É superior ao Flor, inclusive no preço, mas também deve ser considerado basicão da companhia. Ele parece ter sido feito para quem quer um vinho melhor que o Flor e só uns 10 paus mais caro que o Flor. Por 40, 40 e umas moedas, vai. Mais do que isso, é caro.

Crios MalbecCrios – São vários rótulos. O Malbec me pareceu bem tranquilão, mas exige uma carninha assada. O Cabernet é mais fechadão. De vez em quando ele entra em promoção por 30 e tantos reais. É o que ele realmente vale. O preço normal é acima de 40, quase 50. Aí, deixe o Crios na prateleira e procure outro rótulo.

Fleur du CapFleur du Cap – Conheço alguns amigos que detestam esse sul-africano. Não tenho nada contra ele, desde que seu preço não passe dos 30 e pouquinho. É um vinho um pouco mais inquieto que os outros desta lista, mas não é ruim, não. Se ele ficar uns 15 ou 20 minutos aberto, ele fica mais domesticado, menos ranzinza. Nem é necessário decanter ou jarra aberta. Basta deixar ele ali na garrafa sem a rolha que ele se acalma um pouco.

monte_velho__97440Monte Velho – É outro que também enfrenta olhares e bocas torcidos. Esse portuga não tem grandes predicados, mas é aceitável. Vale, inclusive, para conhecer suas limitações. Meio indócil na boca, mas se tiver que encarar essa garrafa, não vejo maiores problemas. Acima de 30, jamais.

palo-alto-redPalo Alto – Também não é um vinhaço, embora leve a assinatura da gigante Concha Y Toro, do Chile. É um vinho básico, que disfarça bem as próprias deficiências. Se for compará-lo com a santaiada reservada do Chile, aí ele é top. Ou seja, se for comprar um Santa revervada, tire mais uma graninha do bolso e leve este aqui. Na taça, ele vai compensar a diferença.

TrapicheTrapiche – Entra nesta lista porque vive em promoção. Normalmente, seu preço beira os 60 paus. Aí, é caro. Mas na faixa dos 40, e até um pouco menos, vale demais da conta. Tranquilão, boa estrutura e convivência sem problemas com as papilas. Nesse preço promocional ele é uma ótima pedida.

trivento-malbec-2011_novoTrivento – É o top desta lista. Com a etiqueta normal, chega pertinho dos 70 reais. Não da pra encarar, mas não é difícil topar com ele com as deliciosas etiquetas promocionais, por 40 ou até menos que isso. Nesse caso, vale cada centavo. É um vinho curioso: com 5 minutos na taça ele se abre legal. Mas não vai além disso. Se fosse, custaria uns 80 ou 100 reais fácil.

TrioTrio – Parada dura escolher o melhor desses vinhos de mesmo rótulo. Leva esse nome porque sempre é feito com três uvas diferentes. Quer dizer, nem sempre tão diferentes assim, como Carmenére, Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc. Não importa. É um vinho que não poderia ficar fora de uma lista como essa. Na faixa dos 30 alto, 40 baixo, tá valendo.

Casal Garcia - verdeCasal Garcia – Dos vinhos verdes nos supermercados, o Casal Garcia é o melhor. Não pode ser comparado, por exemplo, com o Calamares, que é vendido numa garrafa bojudinha. Mas, atenção: o vinho verde é bem diferente dos tintos e dos outros brancos. Coloquei ele aqui porque não conheço um vinho mais gostoso para se beber sapecando uma fritada de lambari. Não sei se ficaria bom com outros peixes, como o mandizinho e tal. Acho que não, mas com lambari ou manjubinha do mar, 10, com louvor.

Vinhos bons, de 30 a 100 reais, e a velha disputa com a cerveja

cerveja e vinhoSempre que falo sobre os vinhos com alguns amigos cervejeiros eu ouço que a grana está curta e que os vinhos são muito caros. É como se a cerveja fosse uma bebida para todos e os vinhos para poucos endinheirados. Vamos lá, se for comparar o preço de uma garrafa de cerva com a de um vinho ao menos bebível, o mundo de Baco é realmente uma paulada na carteira. Mas se a comparação for por noitada, a situação pode não ser exatamente essa.

colheita da cevada

Primeiro, vale esclarecer que os vinhos custam mais caro mesmo. Por inúmeras razões. A começar pela matéria prima. Uvas versus cevada. Quais os cuidados para se colher uma plantação de cevada? Nada. É deixar os grãos crescerem e tal e passar a colheitadeira. Pronto. Haverá cevada aos montes. As uvas são colhidas manualmente. São estruturas muito mais delicadas.

colheita de pinot

Depois tem o processo de fabricação. Para o suco de uva fermentar e se transformar em vinho é necessário vigiar o processo todo, controlar até a temperatura, dar uma oxigenada no caldo de vez em quando e tal. É uma arte complicada fazer um suco de uva se transformar numa bela garrafa. A fabricação da cerveja é em escala industrial. Um monte de cevada e os demais badulaques de um lado, uma porção de água e a máquina vai o serviço todo.

fábrica de cerveja

O tempo também custa dinheiro. Um bom vinho jamais fica pronto para ser bebido antes de pelo menos seis meses de vida. Alguns levam anos para poder encher as taças de puro prazer. Bons vinhos, vinhaços mesmo, não chegam aos bebedores antes de um ano, ano e meio, de descanso e maturação em barricas, que podem ser de madeira nobre, aço inoxidável ou concreto. E não é só colocar o vinho lá e voltar no ano que vem. Tem que acompanhar o tempo todo pra criança não morrer na maternidade. Cerveja não precisa mais que alguns dias para sair do lúpulo para o copo no bar.

Mas na composição dos preços dos vinhos também há outras variantes não exatamente justificáveis. A fama é uma dessas. Vinhos famosos ganham zeros nas etiquetas. Outros, tão bons ou melhores, mas menos famosos, chegam às nossas taças sem esse complemento. Neste planeta, é necessário certo conhecimento para investir bem e não trocar um monte de grana pelos prazeres que poderiam custar menos com outros rótulos.

colheita de pinot

Cervejas, pelo menos as mais consumidas, tem pouquíssimas variações de sabor. A Skol de hoje no boteco da esquina tem o mesmíssimo gosto da Skol da semana passada, ou daquele churrasco do ano passado. Não muda. E para fazer mais cervas basta encher a máquina com cevada e abrir a torneira de água. Vinhos, não. Se a uva acabou, babau, só no ano que vem.

roda de samba e cerveja

Mas tudo isso não invalida a velha comparação: cerveja é para todos e vinhos são para as carteiras recheadas. Sim, e não. Uma parada num bar com os amigos vai cerveja de monte. Algumas turmas conseguem fechar uma ¨caixa¨ numa tarde ou noitada. Mas, numa roda de samba no boteco, a cerva é a rainha. Vinhos não são consumidos em escala industrial de consumo. É pra se beber curtindo, percebendo os sabores deliciosos e empolgantes, e não para se encharcar. casal-brinde-vinho-436Vinhos são para os momentos, não para a alegria do cotidiano. Bebedores de vinhos podem até cair bêbados, mas vão saborear até a última gota. Cervejeiros sentem sabor nas primeiras garrafas. Depois, até cerveja menos gelada vai bem porque ninguém ¨tá nem aí¨.

Cerveja é pra bagunça, gostosa, claro. Vinho é para o prazer. Bebe-se cerveja aos montes, vinhos são bebericados aos poucos. No final, feitas as contas, talvez a diferença no investimento não seja lá essas coisas. Um bebedor ¨normal¨ passa a noite toda apenas com uma boa garrafa de vinho. O cervejeiro precisa de várias ampolas pra suportar a madruga.

Ahh, mas peralá, e cadê algumas dicas de vinhos sensacionais por menos de 100 pratas? Vamos lá, então.

Viña AmáliaViña Amália Reserva – Malbec Um argentino legal por menos de 40 pratas. Paguei 38 reais e alguns centavos por uma garrafa dessas. Tem que pesquisar pra encontrar preço bom. Não é tão raro assim, mas também está longe de ser arroz-de-festa de prateleiras de supermercados. Com um brinquedo desses e uma carninha assada ou churrasqueada a noite vaza que é uma maravilha.

RedRedwood Creek – Pinot Noir Dos Estados Unidos, que não é um produtor que se preze pelos bons vinhos e preços civilizados, surge esse Redwood. Menos de 30 pilas. Pra quem gosta de Pinot – minha uva preferida – é uma ótima alternativa. E vale pelo inusitado, de beber uma garrafa americana por poucos reais. Não espere nenhuma delícia fora do comum. É um vinho bebível, sem compromissos.

Borgonha NicolasNicolas Potel – Pinot Noir Brabíssimo representante da lendária Borgonha, terra dos grandes pinot franceses. Na faixa dos 80 paus. Não é um vinho extraordinário, mas vale pela origem. Se fosse feito em outra parte da França provavelmente custaria uns 20 contos menos. Mas a Borgonha é isso. Depois de aberto, perceber a sua evolução aos poucos é muito gostoso. Ele começa meio tímido na taça e aos poucos vai se acrescentando. Vale a pena, claro, mas não é vinho pro dia a dia.

CorralilloCorralillo – Syraz Se você quer mais prazer na taça e menos descoberta, esqueça o Nicolas e aposte um bom naco da carteira nesse Corralillo. Chileno fora de série, custa na faixa dos 100 reais, um pouquinho mais, um pouquinho menos, mas fica por aí. É a segunda linha da extraordinária Matetic – a primeira é o EQ. Mas não fica devendo para os irmãos maiores, não. Custa menos que os EQ, e esbanja exuberância na taça. É outro que evolui depois que você o liberta da rolha. Se fosse europeu, custaria uns 130, 150 paus. Como é chileno, chega aqui por 100 pratas. Bebericar taças desse Corralillo é coisa pra se lembrar durante uma semana, no mínimo.

Charlotte Calvet, diretora de marketing do Toro Loco, responde à nossa avaliação

Charlotte Calvet, diretora de Marketing da Benoit Valérie Calvet, fabricante do Toro Loco

Charlotte Calvet, diretora de Marketing da Benoit Valérie Calvet, fabricante do Toro Loco

Na sessão de comentários, a fabricante do vinho espanhol Toro Loco, Charlotte Calvet, respondeu à avaliação feita sobre este vinho na página Vida Boa: Beber&Comer. Sempre simpática, Charlotte fala sobre a principal proposta do Toro Loco, um bom produto por um bom preço. Também revelou os prêmios conquistados desde 2009 por essa garrafa.

Abaixo, o texto traduzido e revisado para português, e o original, em inglês.

Também há o link do vídeo de apresentação do Toro Loco feito por Charlotte, depositado no site Vimeo, e de livre acesso.

¨Eu produzo este vinho, e agradeço por sua revisão. O vinho é como cores, uma questão de gosto. 
Eu acho que o mal-entendido (avaliação feita na coluna Vida Boa: Beber&Comer, texto logo abaixo) vem do fato de que nunca se alegou que o Toro Loco é melhor vinho do mundo. Só que por esse preço é um grande vinho.

Vinícola BVC España

Vinícola BVC España

Ele ganhou a medalha de prata em 2009, 2010, 2012 e, este ano novamente, 2014, conquistou a medalha de prata, mais uma vez, contra vinhos que custam 10 vezes mais caro. 
Isso significa que algumas pessoas o escolheram (o indicaram), melhor do que outros (apresentados no teste). Os jurados são profissionais.

Mas eu entendo talvez não seja o seu gosto, e eu não posso discutir isso. 
Em seguida, apenas algumas informações para retificação: 
- Rolha: screwcap (rolha Sintetica) é realmente mais cara para produzir do que rolhas naturais. Nós a escolhemos para nos certificar que uma má cortiça não altere a qualidade do vinho.
- Preço: impostos para vinho não são os mesmos para vinhos do Brasil e do Mercosul e provenientes da Europa, o que tem, como você sabe, um enorme impacto sobre os preços.¨

toro loco

I produce this wine, and we thank you for reviewing it. Wine is as colours, a matter of taste.
I think the musinderstanding comes from the fact that we never clamied it was the best wine in the world, only that for this price it is a great wine.
It won the silver medal in 2009, 2010, 2012 and this year again 2014 we got the silver medal, again, against wines that cost 10 times the price.
It means that some people like it, better than others, and people choosing it are professionals. But I do appreciated it might not be your taste, and I could not argue that.
Then just some information to rectificate:
- rolha: screwcap (rolha sintetica) is actually more expensive to produce than rolha naturais. We choose this to make sure a bad cork won’t alter the quality of the wine
- price: taxes for wine are not the same for wines coming from brazil, Mercosur or Europe which has as you imagine a huge impact on prices.

Vinhos: Toro Loco, a sensação da mídia é bom mesmo na taça?

toro locoO mundo dos vinhos, e da publicidade, tem muito disso. De vez em quando, e quase sempre, surgem garrafas consideradas o último gole no inverno caríssimo de Baco. Alguns justificam pelo menos parte da fama. A maioria, é pouco mais do que sucos de uva ruim com aparência de vinho. Ou seja, um suquinho sem vergonha com alguma coisa de álcool para justificar a rolha e, principalmente, o preço.

A última imensa decepção é o tal Toro Loco, espanhol, 100% Tempranillo. A fama veio de uma degustação às cegas realizada em Londres. O Toro ficou em 2º lugar.

Foi uma prova simples. Os promotores passaram nos supermercados e recolheram garrafas de vários preços. E quem estava na lista: o Toro, apesar de estar apenas em sua primeira safra. Sabe-se lá por que então alguém o escolheu para fazer parte do time. Normalmente, num teste assim vai se escolher garrafas populares, bem vendidas, e um ou outro que permanece um pouco mais tempo nas prateleiras, mas que já tem carreira própria no mercado. Mas o Toro talvez seja um vinho que nasceu com a rolha virada para o mundo de Baco, vai saber…

O teste

Aí, como sempre, os vinhos são oferecidos aos lotes para os jurados, que vão bebericando, fazendo anotações, lavando a boca com água e pão para limpar as papilas, e a vida segue.

vinhos teste cegas

No final, os organizadores recolhem as anotações e partem para o veredito final. Foi aí que apareceu esse Toro, batendo garrafas de vários euros apesar de custar uma merreca – lá, na Europa, é claro.

vinho teste servir cegas

É óbvio que um achado desses vira febre. Todos os bebedores de vinho do planeta são garimpeiros de um tal custo-benefício: encontrar o melhor vinho possível por não mais que um punhadico de dólares – no nosso caso, reais. E o Toro Loco, bebezinho recém-nascido, feito por uma vinícola que ninguém conhecida, ganhou fama instantânea. E haja taça pra encher de Toro…

Vale a pena?

É claro que esse pequeno milagre de Baco bateu em terras brasileiras apenas um ano depois. Ele não é encontrado normalmente nas prateleiras dos supermercados. A importadora oficial os vende pela internet. É uma empresa boa, confiável, que tem boas garrafas na sua carta, e preços justos.

A 25 pilas a garrafa, encomendei, antecipadamente, 6 garrafas. Caramba, uma joia por menos de 30 reais não surge todos os dias. Aliás, não surge quase nunca. Não que eu tenha encontrado. O Toro era minha esperança. Desembarcou uns 2 ou 3 meses no Brasil e veio direto pra minha adega.

A primeira garrafa eu abri logo com 3 dias, o que não é recomendável, eu sei. Mas a ansiedade para provar esse campeão matador era grande demais pra deixar o danado descansar pelo menos uma semaninha na adega.

lasanha bolonhesa

Me preparei para receber a majestade Toro Loco. Fiz um prato bacana pra grande noite da estréia: uma lasanha caprichadíssima. A uva Tempranillo é muitíssimo versátil e aceita os mais variados pratos. Uma ótima uva-ícone da Espanha. Tudo pronto, abri as cortinas, no caso, uma rolha sintética, pra começar o espetáculo.

Tenho certo receio com vinhos de rolha sintética. Mas não nesse caso. O Toro custa o equivalente a menos de 15 reais lá fora. A rolha de cortiça natural aumentaria esse custo. Como a proposta da vinícola é vender um bom vinho pelo menor preço possível, a sintética é a rolha mais recomendável.

E aí, veio o ritual. Contra a luz, um vermelho bem Tempranillo, sem mistérios. Opa, legal, pensei na hora. Cheiradinha básica e confesso ter ficado um pouco decepcionado. Espera aromas mais vivos, eloquentes. Bom, quem sabe depois de fazer o Toro bailar nas paredes da taça… Uma última tragada funda na taça e a mesmíssima sensação. Não que o cheiro seja ruim. Não é isso, mas é quase como se não houvesse perfume nenhum.

Paciência. Se o cheiro não é estrelado, vamos ao principal: a boca. Mandei a prova e deixei o vinho se aquietar na língua. Empurrei pra lá e prá cá, respirei pelo nariz para perceber o aroma e, pimba. Nada. Nenhuma sensação maravilhosa que eu esperava.

Vinhos Toro loco taça

Fui bebericando até o final da garrafa, mas a sensação continuou sempre a mesma: um vinho fraquíssimo, sem nenhuma personalidade, que não tem nada da carismática uva Tempranillo. Tava no meio da última taça quando me lembrei que ainda teria que encarar bravamente as outras 5 garrafas do Toro que estavam em minha adega. Quase bateu desespero.

Durante a semana, fiquei me questionando a respeito da minha capacidade de escolher vinhos e separar as coisas boas  e as bombas engarrafadas. Pesquisei vários dias nos blogs das confrarias e tal sobre o Toro. Fiquei aliviado. A maioria teve a mesma sensação. Vez ou outra encontrei elogios ao Toro. E aí, me peguei sorrindo e, ao mesmo tempo, com pena dos bebedores ingleses de vinho. Se o Toro é a 2ª melhor garrafa das prateleiras dos supermercados deles, nem quero passar perto das outras. Vade retro, coisa ruim.

Se por um acaso você se ver com uma taça de Toro Loco na mão, não refugue. Mas encare sem qualquer compromisso com o prazer de beber uma boa garrafa. Vá pelo esporte. Mas não diga que não avisei. Por 25 pratas, no Brasil, o Toro custa uma fortuna. Quinzinho, 18 no máximo. E olha lá. Mas encontrar vinhos bebíveis por 25 contos no Brasil é realmente complicado.

Vinhos, não vá complicar o prazer, ok?

Aromas secundários de veludo rosa molhado com orvalho das restingas da base do Himalaia, couro cru de carneiro montanhês da cordilheira central do Cazaquistão.  Aromas terciários de nuvens esparsas sob o sol de Copacabana nas noites de inverno com leves toques de perfume de rosa roxa do oriente antigo.

vinhos nariz

Caramba, tudo isso para curtir uma taça de vinho? É claro que esses aromas aí foram criados apenas para este texto, com o claro objetivo de dizer uma coisa bastante simples: não é necessário ¨conversar¨ com a taça de vinho para obter todo o prazer que ele proporciona. Esqueça, simplesmente. Esse negócio de descobrir as nuances perfumadas dos vinhos é coisa pra especialista.

Mal comparando, é como um piloto de fórmula 1 e o sujeito que quer apenas um bom carro para dirigir e curtir. O primeiro precisa conhecer cada detalhe da birinboca da parafuseta esgarniçada do volante do motor. Para o segundo, basta saber onde está a chave.

Cheiro ou aroma

A mania de alguns bebedores de vinho começa aí: cheiro ou aroma. Aroma, ¨os aromas do vinho¨ e tal e coisa. E o cheiro? ¨Vinho não cheira, vinho é cheirado, e o que você percebe é o aroma¨. Tá bem. Esqueça isso. Os vinhos devem ser cheirados porque tem cheiros gostosos. Mais ou menos como se faz com as comidas. Quanto melhor o cheiro que vem das panelas, mais água na boca pra encarar o prato.

Vinhos

É por isso que um dos gostosos rituais do vinho é enfiar o nariz na taça para perceber o cheiro que vem dela. Como no nosso caso o objetivo é o prazer da taça e não o estudo sobre ela, resuma os tais aromas a apenas duas opções: cheiro bom e cheiro ruim. Pronto, isso basta.

Sintomas pelo cheiro

Agindo dessa forma, cheirar o vinho cumpre o papel exato que lhe é reservado: o de antecipar o que chegará à boca. Quando o cheiro é agradável, a expectativa de ótimo sabor é imediato. O contrário é absolutamente verdadeiro: se o cheiro não agradar, vá devagar porque a possibilidade de se decepcionar com o sabor é grande.

Mais do que isso, péssimos odores podem denunciar vinhos mortos, oxidados. Os vinhos são a única bebida que eu conheço que tem ¨vida¨ como a nossa, nascem, crescem, amadurecem e morrem. Eles podem morrer por mau trato ou por demorarem muito tempo para serem abertos. Há vinhos de morte rápida, que foram feitos para consumo imediato, de média guarda e de longa guarda.

Vinhos - 1

Ao colocar o vinho na taça, cheire sem pudor. Depois, erga a taça contra a luz e faça o líquido bailar pelas paredes de cristal. Observe a coloração. Tons atijolados são sempre um sinal de alerta. Geralmente, vinhos mortos perdem o escarlate e ganham essas cores. Depois, o testo final, com o vinho ainda se debatendo levemente em redemoinho dentro da taça: cheire novamente. Se for agradável, não tenha dúvida: foi um ótimo começo.

Vinho fedido

Vinhos estragados fedem pra caramba. Algumas vezes é uma mistura de enxofre com álcool, uma coisa ¨in¨cheirável… Aliás, embora contenham entre 12 e 15 graus de álcool, nos vinhos bons não se percebe cheiro de álcool. Nenhum. Um mero traço de álcool no cheiro e já se tem certeza de que a coisa não é a maravilha que o vendedor disse que era.

E o ritual, balançar a taça, cheirar e bebericar?

Esse ritual vale, sim, para ampliar a atitude de prazer diante da taça de vinho. De preferencia, numa taça grande de cristal. É claro que se  não tiver nada melhor, até copo americano serve. Vai se perder um enorme potencial de prazer que os vinhos oferecem, que é o cheiro, o visual e o sabor. No caso de um copo, só vai ficar o sabor. Então, se o vinho é bom, merece ser curtido por inteiro.

Vinhos não se bebe aos goles, como cervejas. Ninguém faz vira-vira numa roda de bebedores de vinho. Os vinhos conseguem alterar os sabores e os cheiros/aromas ao longo da garrafa. Começam de um jeito e vão mudando aos poucos. Bons vinhos mudam pra melhor, tanto no cheiro quanto no sabor. Vinhos ruins… Bem, não vale a pena abrir coisas assim, né?

Fechou: um vinho gostoso, uma taça de água e queijinho pra acompanhar

Fechou: um vinho gostoso, uma taça de água e queijinho pra acompanhar

Então, bebe-se vinho gole por gole, curtindo a maravilhosa sensação de prazer que ele entrega na boca e aos sentidos do olfato. Aos poucos, com calma. Respeitando inclusive os anos, muitos ou poucos, que essa garrafa precisou para chegar ao ponto em que está quando aberta, e o ápice que ainda vai atingir até se alcançar os últimos goles.

Quanto aos aromas refinados e tal, não se preocupe com isso. O seu objetivo é curtir o prazer que só o vinho consegue oferecer. A complicação fica para quem precisa complicar para chegar à mesma conclusão que você: se o vinho é bom, gostoso ou uma bomba engarrafada.