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Vinhos e comidinhas caseiras

As diversas ¨rolhas¨ dos vinhos. Qual é a melhor?

A primeira imagem que vem à mente quando se pensa em abrir uma garrafa de vinho é o saca-rolhas sendo puxado. Um ritual, certamente. Mas hoje em dia é possível abrir belas garrafas com os dedos, sem o velho parceiro.

Me lembro de algumas pescarias regadas a cerveja o dia todo e com as noites degustadas na viola, ao lado da fogueira, com vinhozinho… E não sei quantas vezes me esqueci de levar um saca-rolhas, e me vi obrigado a empurrar a rolha pra dentro da garrafa. Hoje, bastaria escolher o tipo certo para não passar esse tipo de sufoco.

Existem 4 tipos básicos de ¨rolhas¨: cortiça natural, cortiça sintética, tampinha de rosca e tampa de vidro. De vidro? Pois é, de vidro, sim. Mas será que pela tampa pode se conhecer o caráter do conteúdo? Negativo. Há ótimas garrafas com tampinhas de rosca e vidro, por exemplo. Mas nem todos os vinhos podem ser fechados dessa forma. E nem com a tal rolha sintética. Os bebedores contumazes já conhecem as diferenças, mas não é ruim mostrar aos iniciados no mundo dos prazeres de Baco a função de cada tipo de ¨rolha¨.

vinhos - rolha de cortiçaCortiça natural

É a velha conhecida de todos. A cortiça é a casca de uma certa árvore típica, Sobreiro, de Portugal, maior produtor – e praticamente único – do mundo. Tem se tornado cada vez mais rara e cara, fato que se tornou porta de entrada para as demais ¨rolhas¨.

vinhos - fabricação de rolhas

 

Vinhos de longa guarda, que precisam amadurecer ao longo dos anos dentro das garrafas, levam obrigatoriamente esse tipo de rolha. A porosidade controlada da cortiça natural permite que pequeníssimas doses de ar circulem e, assim, permitam que o vinho cresça lentamente até atingir sua plenitude.

vinhos - rolha aglomerada

Alguns produtores passaram a usar também a rolha de cortiça aglomerada, feitas com sobras dos cortes da cortiça e reciclagem. Essas pequenas lascas são coladas e moldadas para se encaixarem na boca das garrafas. As primeiras rolhas de cortiça aglomerada estragavam o vinho por causa do contato da cola com o líquido. As mais modernas tem um tampão em cada extremidade feita com cortiça natural para evitar esse contato com a cola. Com porosidade praticamente nula, vinhos com essas rolhas são para consumo mais jovem.

Então, em resumo, os grande vinhos de guarda sempre são fechados com rolhas tradicionais, de cortiça.

vinhos - rolha sintéticaCortiça sintética

O termo não é exatamente correto, cortiça sintética. Na realidade, não tem coisa alguma a ver com cortiça. É uma espécie de plástico denso. Porosidade zero, o que sempre indica que o vinho não amadurece após sair dos tonéis de carvalho, aço inoxidável ou tanques de concreto. Lacram vinhos de consumo rápido. Garrafas de safras mais antigas podem revelar vinhos já em fase final ou simplesmente mortos. Intragáveis.

vinhos - screenTampinha de rosca

Especialmente no Novo Mundo, e nas novas fronteiras do vinho, como Austrália, Nova Zelândia e África, e nas Américas, os vinhos fechados com tampinhas rosqueáveis de metal e um anel vedante estão se tornando cada vez mais comuns.

São indicadas para vinhos que também não vão atravessar longos períodos de guarda. Há ótimas garrafas desses países lacradas com essas tampas. Geralmente, lacram Pinot Noir que não carregam carga genética propícia ao envelhecimento dentro das garrafas. Pessoalmente, prefiro os vinhos com tampa de rosca do que as que vem com cortiças sintéticas. Deve ser, e é, preconceito da minha parte, mas acho que os fabricantes que colocam essas tampas de rosca deixam claro as suas propostas, enquanto os que usam cortiça sintética tentam esconder algo.

Vinhos - rolha vinolockTampa de vidro

Uma rolhinha bonita pra caramba. Alguns dizem que elas são feitas com silicone. Outros garantem que se trata realmente de vidro. Sei lá do que realmente elas são feitas, mas são bonitas e não escondem vinhos bons de se beber no dia a dia. Elas trazem um aro vedante e se encaixam nas garrafas com pressão. Abre-se com os dedos, sem maiores problemas.

vinhos - rolha de vidro

Ainda não é muito utilizada. Não conheço um só fabricante no Novo Mundo do vinho que use a tampa de vidro. No Brasil, bebi apenas uma marca com esse tipo de rolha, o Scaia Rosso IGT Tenuta Sant´Antonio, da Itália. Um vinho bacana, que repeti algumas vezes depois de experimentar.

Qual é a melhor tampa para os vinhos? Pois é, as modernas técnicas de vinificação e amadurecimento criaram alternativas ao modo tradicional, de cortiça natural, sem comprometer a qualidade do líquido. Cortiças são fundamentais somente para os vinhos de enorme potencial de guarda. Vinhos para serem bebidos jovens, a esmagadora maioria da produção mundial, podem – e devem, a julgar pelo estoque de Sobreiros – ser lacrados com tampas de rosca ou de vidro. Até de cortiça sintética, apesar do meu preconceito. Definitivamente, não é a tampa que indica a qualidade do vinho.

Volta ao mundo pelos sabores dos vinhos

As uvas mais cultivadas no planeta são de origem francesa: Cabernet Sauvignon, Pinot Noir, Merlot, Carmenére, Syrah, Malbec, Tannat… Todas francesas, e se espalharam pelo mundo. Cada uma gera um determinado vinho, com características únicas, dependendo de onde é plantada. A uva, mais do que qualquer outra fruta, incorpora o ambiente em seu DNA. Impressionante.

Um vinho cabernet francês jamais será exatamente igual a um vinho cabernet australiano, sul-africano ou chileno. Jamais. Os bebedores fora-de-série, com memória gustativa privilegiada, como os grandes julgadores de vinho, conseguem perceber a origem pelo cheiro. Na boca, então, não erram nunca.

Mas fora da França também existem uvas famosas e características. Em Portugal, a Touriga Nacional é a campeoníssima. Produz vinhos espetaculares. Na Itália, a mais conhecida, e quase sinônimo de vinhos esplendorosos, é a Sangiovese. Na Espanha, a Tempranillo, que em Portugal também é cultivada como espécie nativa – na divisa entre os dois países peninsulares –,  e ganhou o nome de Aragonez. É a Tempranillo, por exemplo, que apresenta o melhor, mais caro e famoso vinho espanhol do mundo: o Vega Sicília Único. Na Grécia, há variedade aos montes, mas uma especial é a Furmint, que resulta em vinhos doces fora do comum.

Bem, mas e daí isso tudo? O que interessa mesmo são os vinhos e não as uvas. Ok, ok, nesse ponto estamos plenamente de acordo. Então, que tal dar a volta do mundo viajando pelos sabores dos vinhos? Você é o convidado. Vamos lá?

Vinho chinêsChina – Surpreso? Eu também, mas os chineses começaram a dar uma incrementada. Eles sempre fizeram vinhos, mas eram uns troços espumosos, estranhíssimos. Nunca tive o prazer de colocar nenhum exemplar chinês na taça, mas uma garrafa desse vinho aí, o Dry Red, da Jia Bei Lan, blend Carnert Sauvignon, Merlot e uma tal de Cabernet Gernicht, foi servido numa desgutação na Inglaterra e surpreendeu. Na China, onde é vendido, custa o equivalente a 35 reais. Em tempo: vá se acostumando com a ideia. Há quem aposte que também no mercado de vinhos haverá invasão amarela. Ops, vermelha.

Vinho LíbanoLíbano – Arrá, se ficou supreso com a China, não é improvável que você tenha se perguntado: ¨Líbano?¨. Pois é, são vinhos diferentes e, alguns, muito saborosos. Vale a pena conhece-los. As uvas são as francesas. Do Vale de Bekaa surge o Chateau Ksara. É um ótimo e diferente Cabernet Sauvignon. Surpreende. Algumas safras extraordinárias custam em torno de 200 reais, mas os mais novos não passam de 70. O basicão, que é quase a mesma coisa dependendo da safra, é o Ksara Resérv du Convent. Também bacana, que vale pelo inusitado da região.

Vinho GréciaGrécia – Alguns dizem que os gregos são os fundadores da democracia e dos vinhos. Mas quem é que está preocupado com os séculos? Poderia citar inúmeras uvas gregas, mas fico com a Fuminji, que apresenta um dos vinhos adocicados mais extraordinários do planeta, o Tokaji, denominação da região onde é produzido. Esses vinhos são classificados por Puttonyos, quanto mais Puttonyos, mais caros e melhores. Já coloquei na boca um desses, com medianos 5 Puttonyos. Inesquecível. São vendidos em garrafas de meio litro.

Cesari Amarone   215,Itália – Ao lado, ou um pouco atrás, diriam alguns críticos, da França, a Itália é um dos melhores países do mundo dos vinhos. Há várias uvas emblemáticas na terra da bota, e a Sangiovese é a campeã. Mas que tal um Amarone dela Valpolicella, feito a partir da uva base Corvina? São garrafas pra lá de 100 reais, chegando a 2 mil. Os mais famosos e conceituados italianos são os Brunello de Montalcino – Sangiovese. Também variam bastante de preço, mas nunca vi um Brunello ¨barato¨ realmente bacana.

vega-sicilia-unico-gran-reserva-ribera-del-duero-spain-10153064Espanha – Terra da lenda Vega Sicílio Único. Os especialistas se desdobram em elogios incontidos. Vem da região de Ribera del Duero, e leva maioria de Tempranillo. Jamais tive contato imediato de 3º grau com um Vega Único. Aliás, essas garrafas não são abertas a qualquer hora. Custam mais de 5 mil reais no Brasil. E lá fora não saem por muito menos que a metade disso. Mas há outros vinhos da Vega Sicília extraordinários, como o Alión. Já entornei esse vinho na taça. É 100% Tempranillo e 200% fora do comum. Mais de 400 pilas a garrafa. Outra região extraordinária da Espanha é o Priorato, terra do famoso Clos Morgador, blend baseado na Garnacha. Em torno de quinhentão também.

Barca Velha 1995Portugal – Chegamos à terrinha. O que falta em tamanho, sobra em quantidade, variedade e qualidade nos vinhos de Portugal. Tem muita porcaria engarrafada, como em qualquer lugar, mas há preciosidades maravilhosas. A maior lenda é o Barca Velha, que só é lançado no mercado em anos de safras especialíssimas. Vem da região do Douro, que rivaliza com o Alentejo, e leva mostos de Touriga Nacional – claro, não poderia faltar –, Touriga Franca, Tinta Roriz e Tinta Cão. Eu e um grupo de amigos bebedores chegamos a comprar uma garrafa Magnum safra 1999. Na esperada noite da festança, os deuses protegeram meus amigos e me aprontaram uma boa, com baita indisposição. Não gosto nem de me lembrar disso, mas uns 2 ou 3 anos depois, numa outra roda, beberiquei uns 3 goles. Não me esqueci jamais das sensações. O custo é proibitivo, quase 2 mil pratas, então, por menos da metade, há o representante alentejano, o Pera Manca, também divinamente saboroso – 70% Aragones, 30% trincadeira.

Robert Mondavi, Pinot Noir 2010Estados Unidos – Pinot Noir, Cabernet Sauvignon e Zinfandel, que na Itália ganha o nome de Primitivo, são as grandes uvas cultivadas especialmente na Califórnia. Há muito bons vinhos made in USA, mas os americanos, especialmente Robert Mondavi, maior fabricante de lá, são acusados pelos franceses de cocacolarizar o mundo dos vinhos. Ou seja, igualar tudo como se fosse a mesma coisa. Exagero dos franceses, claro. Vendidos em dólar, chegam custando caro no Brasil pela qualidade que apresentam, mas tem coisas baratas que compensam e bombas desprezíveis que não valem 1 cent furado. Gosto, particularmente, dos cabernezão californianos, mas os Pinot também são interessantes. Tem que pesquisar muito. O Mondavi apresenta linhas acessíveis e aceitáveis.

PrelúdioUruguai – Demorei um tempão pra chegar aos Tannat. Estive sempre com a velha imagem de vinhos pesadamente tânicos. Que nada. Hoje, as vinícolas uruguaias apresentam vinhos Tannat absolutamente domesticados e sensacionais. Gosto bastante. Os preços de lá são mais ou menos os mesmos encontrados aqui – ao contrário dos chilenos e argentinos, verdadeiras pechinchas na origem. Existem uruguaios fantásticos e também basicões. É claro que a qualidade não está nos básicos. Aí, como sempre, reina a quantidade e baixo preço. A melhor sugestão que já bebi é o Prelúdio, da Família Deicas, na região de Juanicó. Custa em torno de 150 reais, 200 reais. É blend baseado na Tannat. Esplendoroso. Há uma garrafa superior ao Prelúdio, o Massimo, mas nunca encarei esse danado, bem mais caro. O maior fabricante de vinhos populares de lá é Don Pascual. Basicão.

estiba reservada04-okArgentina – Os hermanos são excelentes fabricantes de vinhos. O melhor sujeito de lá é o mestre Catena Zapata. Seus vinhos são bastante conhecidos por aqui. Vão do básico, rótulo Álamos, a jóias como Nicolás Catena, Estiba e Malbec Argentino. Mas existem inúmeros outros fabricantes extraordinários, mas os Catenas são os mais conhecidos – além do velho Catena, seus filhos também entendem do riscado. Deve-se ter cuidado ao garimpar vinhos argentinos. Mesmo fabricantes famosos engarrafam algumas coisas estranhíssimas. Nem tudo é perfeito.

Chile e França – Peralá. Esses dois países merecem uma nova postagem. Os chilenos são considerados os melhores vinhos bordaleses do mundo, ao lado dos próprios franceses de Bordeaux. Tá, a França leva vantagem com a Borgonha, sem rivais no mundo dos Pinot Noir. Ainda assim, rode o mundo com vinhos desses

Vinhos fantásticos, mas que custam entre 250 e 500 reais

Confesso que esta não é minha praia rotineira. Esses vinhos são fora-de-série, mas meu bolso, infelizmente, não os comporta tantas vezes quanto eu amaria. Os prazeres à boca clamam por novas jornadas nesse mundo especialíssimo de Baco, e lamentam pelas intensas saudades.Mas os deuses são camaradas com todos os tipos de bebedores e oferecem vinhos excelentes e muito mais acessíveis. De qualquer forma, e sem nenhuma dúvida, nenhum bebedor de vinho merece morrer sem antes beber alguns goles dessas flores engarrafadas do lácio escarlate.

A forma mais em conta de viver a fantástica experiência de bebericar esses vinhos é nos eventos promovidos por lojas especializadas e pelas importadoras. Goiânia ainda não entrou nesse circuito, mas Brasília, sim. São Paulo é a meca dessas degustações.

Outra forma viável é promover uma noitada especial com outros bebedores. 3 casais, ou 3 marmanjos, é bom. No máximo, 4. Mais do que isso acaba ficando com custo equivalente ao consumo individual. Cada um se encarrega de levar uma garrafa de livre escolha – dentro de faixa de preço estabelecida – e dividem o custo do néctar final. Se a opção for por casais, é preciso avaliar o consumo, e também a participação financeira das companheiras  cada um.

Mas chega. Melhor entrar logo na tal relação de vinhos extraordinários. São 11 dicas. Alguns desses vinhos são facilmente encontrados na internet ou em lojas especializadas.

Os 5 ícones chilenos – É impossível abrir uma lista como essa sem citar os 5 grandes ícones do Chile, melhor fabricante de vinho desta parte do planeta. São eles: Clos Apalta, Don Melchor, Viñedo, Montes Alpha M e Almaviva. Se quiser ler mais sobre eles, rode esta página até o final e pule para a segunda página. Eles estão todos lá, inclusive com os preços.

Borobo  390,Borobo – Mais um chileno surpreendente. É um blend que leva as castas francesas mais emblemáticas: Cabernet Sauvignon, Merlot, Syrah, Carmenére e Pinot Noir. O nome soa meio indígena, mas não tem nada a ver. É a junção das iniciais das regiões da França que trabalham essas uvas: Bordeaux, Rhône e Borgonha. O Borobo é sisudão, mas simplesmente adorável. Custa cerca de 390 reais.

Malbec argentino 450,Catena Zapata Malbec Argentino – Seria injusto falar sobre os grandes vinhos e não incluir um representante dos nossos hermanos. Aí está ele. Tá, a uva Malbec não está entre as grandes uvas, como Cabernet Sauvignon e Pinot Noir. Mas antes de virar a cara para esta garrafa, esqueça todos os vinhos Malbec que você já bebericou. Este aqui é um fora-de-série. Desde seu lançamento, ganhou o título merecidíssimo em cada gota de melhor Malbec da história humana no mundo de Baco. Se a noite tiver uma boa carne pra forrar, então… Vale 450 paus.

Cryseia   400,Cryseia – E como não citar algum vinho da terrinha nessa lista? O Cryseia entra com sobras. Foi o primeiro grande vinho português a constar na lista dos 100 melhores do mundo organizada pela importante Wine Spectator. Vá lá que é uma certa injustiça com o Barca Velha, a maior de todas as lendas lusitanas. Mas a indicação do Cryseia é mais do que justa. É feito com 4 grandes uvas de Portugal: Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz e Tinta Cão. Esplendoroso. Custa 400 reais.

Ànima Negra - 280,Ànima Negra – Espanhol, da região de Mallorca. Feito com duas uvas características e praticamente desconhecidas: Callet e Mantonegro-Fogoneu. Bebi umas 3 taças desse vinho num evento em São Paulo. É surpreendente. O crítico Robert Parker, o mais famoso do mundo, mandou 92 pontos para esse vinho, numa escala que vai até 100. Não exagerou de forma alguma. Talvez tenha sido até econômico ao dar ¨apenas¨ 92 pontos. É o menos caro nesta lista, e fica pouco acima do piso: 280 reais.

Flor de Pingus   500,Flor de Pingus – Mais um da terra da Fúria. É o melhor pontuado RP desta lista, com nada menos que 94 pontos, safra 2009. Merecidos, este Flor de Pingus é feito apenas com uvas Tempranillo – que em Portugal ganha o nome de Tinta Roriz ou Aragonês. Também neste caso, como no Malbec Argentino, antes de jogar um gole desse néctar na boca é bom zerar a memória de todos os demais Tempranillo que você tenha bebido. O Flor de Pingus é divinamente fantástico. E também se aperfeiçoa com boa carne, mas não churrasco. Bate no teto: 500 paus.

Vosne RomanéeVosne Romanée Domaine Méo-Camuzet – É um Vosne Romanée, e isso dispensa comentários. Essa é uma sub-região da Borgonha que abriga alguns dos vinhedos mais lendários, e caros, do mundo, inclusive o Romanée Conti, espécie de ícone-mor do planeta regido por Baco. O Romane é coisa pra artista hollywoodyano no auge do sucesso, sheik do petróleo e magnatas de toda a natureza. Não é vinho para o bico dos mortais. Mas, como disse lá no início, os deuses do vinho são democráticos e agradam todos os tipos de bebedores. Esse Vosne é o basicão da Méo-Camuzet, que faz também um Grand Cru badalado, e bem mais caro. No Brasil, ele pode ser comprado, pela internet, de uma importadora séria, por 450 reais. Ainda não consegui me esbaldar em pelo menos umazinha boa taça do Vosne. Fiquei numa bicada educadíssima – embora a minha vontade fosse absolutamente selvagem naquele momento –  na mesa de amigos. Foi o suficiente. Então, para chegar o mais próximo possível de um vinho vizinho do famoso Romane, vá nesse aí.

Água, sempre uma boa companhia para vinhos tintos

Se o vinho é gostoso, por que os bebedores costumam alternar as bicadas na taça e goles de água? Na verdade, água é ótima companhia para qualquer bebida alcóolica. Deveria constar na Constituição da República dos Prazeres: todas as taças devem estar sempre acompanhadas por uma copada de água.

Água? Claro, é ótimo contra a ressaca, mas não apenas por isso

Água? Claro, é ótimo contra a ressaca, mas não apenas por isso

Mas essa é uma lei quase que restrita aos bebedores de vinho, especialmente os tintos. Alguns, poucos, apreciadores de uísque também gostam da dupla. A água é um hidrante natural. O melhor de todos eles. E o álcool é um ladrãozinho da hidratação. As ressacas são sempre maiores quanto menor é a quantidade de água que se bebe na noite anterior. Então, se não quiser apelar para a aspirina no dia seguinte, abuse da água, e tente não abusar do álcool. Sim, eu sei que o sacrifício é difícil, mas tem que ser feito e virar hábito. Não é assim que se fazem os monges? Então…

Mas além dessa nobre função, hidratar, no caso dos tintos especialmente a água é um grande barato renovador dos sabores. Vinhos trazem taninos, acidez, aromas e sabores aos montes. Então, a água vai lavando a cada bicada na taça, zerando o paladar e preparando a boca para nova jornada, e nova dose de puro prazer – claro, se o vinho for bom. Se for ruim, nem a água salva.

E pra entender melhor como essa química vinho/água funciona, acrescente aí o tira-gosto ou o prato que geralmente entra nesse cenário, queijos, embutidos ou carnes. A cada taça bicada, somada ao ¨comes¨, o paladar vai se acostumando aos poucos, e perde-se uma das coisas mais gostosas desse ritual: o impacto do sabor. A água entra nesse processo exatamente para zerar tudo e preparar o caminho para impactar novamente os sentidos.

E não é só a boca que agradece o gole d´água, não. Vinhos oferecem prazeres insuperáveis no mundo das bebidas também pelo cheiro, ou aroma, como preferem os grandes bebedores. É diferente, por exemplo, das cervejas. Ninguém fica o tempo todo cheirando o copo transbordando espuma. Claro que não. No caso do vinho, antes do prazer na boca, o cheiro invade as narinas e preparam o terreno para o grande momento: a bicada no precioso líquido vermelho.

Um dos muitos tons de vermelho dessa magia líquida

Um dos muitos tons de vermelho dessa magia líquida

Os pães também são prática no planeta vinho. Tanto nas refeições como na famosa degustação ¨queijos e vinhos¨. Mas qual é o papel desse intrusos? Eles também são ótimos faxineiros dos paladares, e dão uma dose de carboidrato. Ao contrário da cerveja, também chamada de pão líquido, o vinho praticamente é desprovido de carbos.

Fechou: um vinho gostoso, uma taça de água e queijinho pra acompanhar

Fechou: um vinho gostoso, uma taça de água e queijinho pra acompanhar

Mas será que tem hora certa para bicar a água? Tem, sim. Um queijinho e tal, a bicada no vinho depois que o queijo se vai, outra bicada, se ainda restar algum resquício de sabor do queijo, e um tempinho para que o gosto do vinho faça completamente a sua tarefa. Vinhos tem o impacto inicial, e os mais elaborados perduram mais alguns bons segundos como se ainda estivessem de mãos dadas com as papilas gustativas. Nessa hora, e apenas nessa hora, é que a água se torna protagonista do momento. E aí, é só recomeçar zerado.

Última questão: água com gás ou sem gás? Alguns bebedores gostam de águas com gás. Eu prefiro sem gás, a mais neutra possível. A grande estrela é o vinho, e não a água.

5 vinhaços, por menos de 200 reais

Vá lá: uma garrafa de vinho na faixa dos 200 paus não é pra todo dia e nem pra qualquer um. É grana pra dar com pau. Até porque não se abre uma garrafa dessas sem algum acompanhamento. E ninguém vai querer 1 pacote de amendoim torrado e salgado numa hora dessas. Então, é óbvio que a conta sobe, mas para momentos especiais, uma vez ou outra, vale o sacrifício, sim. É mais ou menos como comer fora: questão de escolha. Você pode escolher ir uma vez por mês num ótimo restaurante, ou ir uma porção de vezes no engasga-gato da esquina do bairro.

Bem, se a opção é a rotina, esses vinhos aqui estão fora. Se optar pelo momento especial, vale a pena curtir uma bela garrafa um pouco esfoliante para o bolso.

Cabo de HornosCabo de Hornos – Nem sei se já falei dessa joia chilena. Sou fã. É uma pena que custe tão caro. Em algumas lojas, a safra 2009 é vendida acima de 250 paus. Vale a pena procurar bem mais. Nunca vi uma safra ruim desse vinhaço. Em Goiânia, ele pode ser encontrado na faixa de 185 pilas.

EQ PinotEQ – É linha especial da também chilena Matetic. Não especifiquei a uva porque são vários rótulos. Particularmente, gosto do Pinot Noir, mas o Syrah é melhor pontuado. Nas importadoras, fica na faixa dos 150 reais, um pouco mais, talvez. O Pinot é levemente adocicado, o que agrada de cara os paladares femininos menos acostumados com vinhos. Ou seja, se for para compartilhar uma garrafa cheio de romance, o EQ Pinot Noir é grande pedida.

Quinta dos MurçasQuinta dos Murças – Belíssimo português da região do Douro. Não confundir com o Porca de Murças, que inclusive é de outro fabricante também do Douro. O Quinta é um vinho que se equivale a outros muito mais caros. Ele gira na faixa de 185 reais. É muita grana, claro, mas vale a pena para quem está disposto a liberar a cascavel do bolso e entornar na boca um vinho bem legal. É vinho para caprichar no acompanhamento e na companhia.

amayna_pinot_noir Amayna Pinot Noir – Safras anteriores, 2008/09 surgiram arrebatadoras. Manteve a qualidade, mas beber um 2012 agora é até pecado. Um infantocídio de vinho. É outro que enche as bocas femininas de prazer imediatamente, mas nunca vi nenhum marmanjo reclamar da exuberância do Amayna Pinot. É mais em conta que os citados anteriormente, mas ainda assim habita a faixa dos 150 paus, pra menos.

ADEGA ALENTEJANA - S??o Paulo/SP/Brasil - 13/01/2010Mouchão – Portuga da gema, fabricado por um dos mais festejados vinicultores da terrinha, Paulo Laureano. É apenas o terceiro da casa, atrás do Mouchão Vinhas Antigas e o fenomenal Mouchão tonel ¾. Mas longe de parecer o terceiro, é um vinho espetacular, desde que tenha sido bem conservado. Esse é um vinho temperamental: embora de guarda, detesta maus tratos. Um pouco acima de 160 pilas, por aí.

Champagnes e espumantes, os vinhos com cara de festa

Champagne festaMuita gente não entende muito bem, e com razão, a diferença entre um champagne e um espumante. Na taça, não há diferença alguma: são vinhos que, durante o processo natural de fermentação e envelhecimento tiveram as doses de dióxido de carbono aprisionadas na garrafa por rolhas ultra apertadas e, quando colocados na taça, liberam bolhinhas de ar (perlage).

champagne taças

A diferença de nomes existe porque essa bebida foi criada por um monge beneditino cego, Pierre Pérignon,  que morava numa Abadia localizada na região da França chamada Champagne, que fica nas cercanias da região de Paris. champagne-mapaEntão, somente os vinhos espumantes feitos nessa região podem ser chamados de champagne. Fora dali, mesmo sendo franceses, recebem o selo de espumantes.

Festas

Champagne_Estourando

O consumo de espumantes no Brasil nunca foi grande. Aliás, como também acontecia com todos os demais vinhos. Durante dezenas de anos, os brasileiros beberam porcarias engarrafadas apelidadas de vinhos. Até espumantes, como as tais Sidras, que não são feitos de uva, mas de maças.

Com a maior popularidade dos vinhos, alguns fabricantes do sul do país começaram a produzir vinhos de melhor qualidade, e os espumantes também cresceram.

O consumo de espumantes ainda é maior nas festa de fim de ano, especialmente no réveillon, mas esse é um tipo de vinho bom pro ano todo. E é realmente festivo. E como os espumantes devem ser servidos bem mais frios que os vinhos tintos, são ótimos para as tardes e noites calorentas do Brasilzão tropical.

Preços

Champagnes e espumantes são vinhos caros? Sim, e não. Exatamente como acontece com os seus colegas sem bolhas. Há garrafas que custam o olho, a cara e o bolso e aqueles que são suportáveis e até os mais em conta. É claro que há alguma correspondência entre valores e qualidade. Alguma correspondência, mas não total. Ou seja, aquela garrafa de alguns milhares de reais não é necessariamente mais gostosa do que a outra, vendida por preços civilizados.

E também como os vinhos sem bolhas, os espumantes também são amadurecidos/envelhecidos. Alguns, muito especiais, são comercializados após 10 anos de crescimento. A maioria, porém, tem vida mais curta.

Quanto gastar?

Há espumantes para todos os gostos e bolsos. Um fabricantes francês colocou no mercado a garrafa de champagne mais cara da história, Taste of Diamonds: cerca de R$ 3 milhões e 800 mil reais. A garrafa tem design exclusivo, com rótulo de ouro e um diamante encrustado. O comprador ganha junto uma placa de ouro com o seu nome. Mas quem é que vai abrir um troço desses?

champagne Taste of diamonds

Existem safras especiais e antigas da Don Pérignon que custam uma fábula, e podem ser encontradas no Brasil. Sei lá se alguém consegue festejar abrindo um vinho espumante histórico que custou 8 ou 10 mil reais.

O que há para beber e quanto pagar?

Chamapanhe Moet e veuve

No Brasil, são dois champagnes os espumantes top mais caros e conhecidos: Moet & Chandon e Veuve Cliquot. São equivalentes em preço e qualidade. Encontrados até em supermercados, estão na faixa máxima de 250 reais, mas podem ser comprados por menos de 200 reais nas lojas especializadas, inclusive pela internet.

Champagne Don PérignonBem mais caro que essa dupla e mais raro, Don Pérignon também é encontrado no Brasil – aqui mesmo em Goiânia – e sai por 700, 850 reais, por aí. É possível encontrar até algumas pechinchas. A última que eu vi foi de 590 pilas. Normalmente, Don Pérignon é vendido em caixinhas individuais.

Champagne KrugO Krug é o champagne, digamos, normal, mas caro do planeta. Uma garrafa especial de 1995 foi lançada no mercado por 750 dólares. No Brasil, Krug pode ser comprada por cerca de 900 reais.

Se você não estiver disposto a torrar toda essa grana pra beber um vinho espumante legal, abandone os importados e cai de boca nas taças brasileiras. Ao contrário dos nossos vinhos normais, que começam a ganhar qualidade, os espumantes já são considerados show de bola. Aqui e lá fora.

Champagne ChandonO que eu mais bebo é o Chandon. Nos supermercados, é possível encontrar na faixa de 65 reais, mas em algumas promoções o preço baixa para menos de 50 pratas. Vale.

Casa Valduga, Salton, Ponto Nero, Peterlongo e vários outros fabricantes brasucas têm bons espumantes, mas cuidado com aquelas garrafas baratinhas, por menos de 20 reais. Mesmo ostentando essas marcas no rótulo, não ouse parar em frente essas garrafas e jamais gaste qualquer real nesses espumantes. São porcarias adocicadas. Vá nas garrafas com alguma denominação diferente, tipo Reserv, Privilege, Miléssime e por aí. Custam bem mais que as outras, o que deixa claro suas intenções, mas nada que espante o bebedor: entre 30 e poucos e 70 reais.

Pra terminar, duas observações: os champagnes e espumantes mais vendidos são tipo Demi-Sec e Brut. Os Demi são mais adocicados, mas em ambos há açúcar. Somente os champagnes tipo Extra-Brut ou Nature não ganham nadica de açúcar no processo de fermentação. Mas são raros.

Abra os Demi para acompanhar a sobremesa. Os Brut vão bem com frutos do mar e outros pratos legais, como sashimi e sushi.

 

champagne é festaEntão, boas festas pra você, mas não vá esperar dezembro pra comemorar. Pode ser agora, no final de semana. Por que não?

Vinhos: ter ou não ter uma adega?

Quem curte um vinhozinho de vez em quando às vezes pensa em comprar uma adega. ¨Pode ser pequenininha¨, completa em pensamento. Mas será que realmente é bom ter a tal adega climatizada? É. Sempre.

Em linhas gerais, os especialistas no mundo de baco garantem que um consumo de 12 garrafas ao mês faz da adega uma peça tão importante quanto o próprio vinho. Eu, que sou apenas um bebedor rotineiro, discordo em parte. Baixo esse limite para 3 ou 4 garrafas ao mês – uma por semana, às vezes duas. Explico.

 

compacta, com 8 vagas

compacta, com 8 vagas

Comprar o vinho pela manhã ou no final da tarde e abrir a garrafa na mesma noite vale a metade. Mesmo para os vinhos que devem ser bebidos jovens. Se essa mesma garrafa descansar alguns dias na adega, vai oferecer muito mais sabor na taça.

E não se deve pensar nas grandes adegas, geralmente nos porões das mansões de grandes capitalistas apreciadores com centenas de rótulos caríssimos e de grande guarda. Como estamos falando de simples mortais de bom gosto e bebedores de grana idem, imagino adegas compactas, dessas que se parecem com frigobar. Comportam de 6 até 30 e poucas garrafas. O tamanho ideal é o tal consumo mensal. Se 3 ou 4, a adega de 8 cumpre bem sua função. Se mais de 10, 20 e poucas vagas nas prateleiras.

Essa é para pouquíssimos...

Essa é para pouquíssimos…

Bem, mas além do charme de ter uma adega – sim, o mundo do vinho tem seu charme. Qual outra bebida tem tantos tons maravilhosos de vermelho e exige taça para ser curtida em seu esplendor? -, há a questão do descanso essencial das garrafas por alguns dias. O que mais prejudica o vinho, e quando não o mata, aleija o sabor e seus cheiros, é a luz do sol. Vinhos não gostam de sol, e o sol não gosta dos vinhos. As uvas gostam de sol, os vinhos, não.

Outro aspecto ruim para a qualidade do vinho na taça é a dança da temperatura ambiente. Eles detestam o sobe e desce dos termômetros. Gostam de viver engarrafados numa temperatura só, com pouquíssima variação. Amam um friozinho e detestam o friozão. Se escondem na taça quando estão gelados demais – tintos entre 15 e 17 graus, rosés na faixa de 10 e os brancos um pouco menos. Mas não há unanimidade quanto à temperatura ideal de cada vinho. O que todos concordam é que os vinhos brancos e rosés devem ser servidos mais frios e os tintos bem menos.

Muitos bebedores dizem que gostam de tintos encorpados e de grande guarda na temperatura ambiente. Tudo bem, desde que o tal ambiente seja pelo menos o outono da Europa ou as serras do sul do Brasil. Com 20 e tantos graus, como no centro do Brasil, o tal ambiente não vale como padrão de temperatura para o vinho.

E a geladeira, na resolve o problema da temperatura? De jeito nenhum. Primeiro que ela não foi projetada para não vibrar. Vinhos são sistemáticos. Gostam de ambientes climatizados, calmos e escuros. Uso a geladeira apenas quando algum vinho precisa passar pelo decanter. Nesse caso, tiro da adega, dou mais 10 minutos no fundo da geladeira para a temperatura baixar um pouco mais, e só então passo o danado para o decanter – jarras especiais para vinhos. Uso também com espumantes e champagnes, que devem chegar às taças mais geladinhos.

Não se corre o risco de comprar uma adega e depois ela ficar pequena demais? Sempre existe esse risco, e não importa o tamanho da adega. Conheço alguns amigos que mantinham adegas de 60 garrafas. Já estão na segunda, com mais 120. Ou seja, acumulam mais ou menos 150 garrafas de vinho em casa. Parece coisa de bebedor ou de colecionador?

Com 120 vagas, comporta alguns vinhos especiais

Com 120 vagas, comporta alguns vinhos especiais

No mundo dos bebedores do cotidiano, uma adega bacana é de 23 garrafas. Tenho uma dessas. Mas nem cabe isso tudo, não. Com 22 já fica supitando. Principalmente quando tem garrafas bojudas, de Pinot Noir ou portugueses. Vale a ressalva: não tenho vinhos de grande guarda. Neste momento, por exemplo, os mais velhos da adega são 2 portugas de 2008 e um chileno bordolês de 2009. O restante é safra 2010 para frente. É o que cabe no meu bolso, e mesmo assim não é mole, não. Os vinhos no Brasil – se fossem só eles… – são caríssimos.

Bem, mas vamos lá, para as adegas. Se fosse gosta de beber apenas 3 ou 4 garrafas por mês, mas curte vinhos caros, manter as garrafas em temperatura ambiente é jogar dinheiro fora. Deixar na geladeira melhora um pouquinho, mas ainda assim perde-se qualidade na taça. Se comprar e beber no mesmo dia, então, babau montanha de reais.

Uma pequena adega resolve o problema. Esses modelos geralmente não tem compressor e trabalham com sistema termoelétrica. Essas devem ser colocadas nos lugares mais frios da casa. As outras, com compressor, podem ficar na sala, expostas – mas não ao sol, nem pela manhã.

As adegas custam caro. Sem dúvida, mas variam de acordo com a capacidade. As menores custam mais ou menos como os frigobares, um pouco mais. Vale o sacrifício, sem dúvida.

Vinhos: Bom e fácil de encontrar, por menos de 50

Comprar vinho bebível abaixo de 30 reais é uma tarefa e tanto. Geralmente, bons vinhos custam um pouco mais. Há exceções abaixo de 30 reais? Claro que sim, mas dependem de promoções. Jamais abaixo dos 20 e tantos. Aí, não tem milagre que dê jeito. Alguns questionam se esses vinhos até 50 paus não são caros demais para consumo rotineiro. Eu acho que não. Beber vinho não é a mesma coisa que se encharcar de chope ou cerveja. E, pensando bem, um chopinho tulipa num bar acaba custando bem mais que uma garrafa de vinho legal. Até porque ninguém fica numa só tulipinha, né? Algumas dicas de vinhos facilmente encontrados em Goiânia com preço de até 50 pilas.

J. P. Chernet

JP ChenetOpa, esta é um anti-dica. Esse francesinho é habitué das gondolas dos supermercados. Na faixa de 30 e poucos reais. É vinho fraquinho, fraquinho. Não deveria custar nem 20. Vinhos franceses são os mais caros do mundo. Encontrar alguma linhagem que realmente valha a pena na faixa de 50 não é fácil. Por 30 mangos, então, nem se fala. O melhor desse JP é a garrafa bonitinha. E só.

Don Pascual Pinot noirDon-Pascual-Pinot-Noir-Reserve

Uruguaio. A vinícola, Família Deicas, é campeã de vendas por lá, e por aqui também. É a linha mais popular da casa. Geralmente, custa pouco mais de 30 anos, mas o basicão mesmo, tannat, é mais barato.

Don Pacual Tannat

Até hoje, só encontrei esses vinhos, em Goiânia, no Carrefour. Os top da casa são o Prelúdio Guarda e o Massimo Deicas, mas aí a coisa fica muito séria: acima dos 200 reais. Fico com a linha Don Pascual.

AlamosAlamos

É o básico da maior casa argentina Catena Zapata. O melhor é o malbec, mas os outros não ficam devendo nada. Por menos de 50, mas ainda acima de 40 pilas. Já foi bem mais barato no Brasil. A coisa complicou e os preços dispararam. Se quiser um malbec, uva famosa para acompanhar churrasco, e gastar o mínimo possível sem beber coisa duvidosa, invista no Alamos. Se abrir a garrafa e beber rapidinho, vai bater um vinho meio rebelde na boca. Uns 15 ou 20 minutos depois ele se acalma e passa a oferecer mais um pouco de qualidade. Nem precisa decanter.

EA – Eugênio AlmeidaEA-eugenio_de_almeida

Português campeão de qualidade/baixo custo. Não é difícil encontrar as garrafas do EA nas lojas de Goiânia. Até em alguns bares ele aparece na carta de vinhos, mas é claro que aí o preço dispara. Aliás, a maioria dos bares de Goiânia ainda não percebeu que beber vinho não é luxo. Mas voltando ao EA, Eugênio Almeida é um ótimo fabricante do Alentejo, região mais famosa de Portugal – fora o Porto/Douro, com seus vinhos especiais. A casa fabrica também os ótimos Cartuxa Colheita e Cartuxa Reserva, igualmente famosos no Brasil, e preços a partir dos 100 paus.

ChaminéChamine

Outro portuga legal. É o básico da vinícola, a Cortes de Cima. Os rótulos são todos parecidos, mas os preços, não. Esse Chaminé custa bem próximo dos 50 reais, mas entrega boa qualidade na taça. Não é um vinho extraordinário e tal, e nem se propõe a isso. É um bom vinho, e que poderia custar um pouco menos, como de resto todos os vinhos vendidos no Brasil, inclusive os nacionais.

Doña Paula Los CardosDoña Paula Los Cardos Malbec

Esse é figura fácil nos supermercados. Acima de 40 e abaixo dos 50 reais. É hermano, mas nem por isso só faz Malbec. O Cabernet vai bem, para o preço que cobra. E aí vai depender do comes. Se for churrasco ou tira-gosto de carne, Malbec. Se encarar alguns queijos e tal, o Cabernet é melhor.

Cubo SelecionCubo Selecion

Showzaço de bola esse vinho espanhol. Não se encontra em supermercados. Pela internet é figura fácil no Google. Por aqui, só encontrei em uma loja, no Jardim Goiás. Tempranillo muito bem feito, e que recebeu boa pontuação Robert Parker, o crítico mais famoso do mundo. Não espere um vinho com muita personalidade. Não é esse o seu lado forte. Mande pra taça sabendo que vai beber um Tempranillo tranquilo e com custo equivalente.

Vinhos: o ritual

Cheirar e balançar a taça: necessidade ou frescura?

taça de vinho

Quase todos bebedores de vinho seguem uma espécie de ritual. Primeiro, olham a rolha de cortiça e a cheiram. Depois, colocam uma pequena dose na taça. Em seguida, enfiam o nariz dentro dela e dão uma boa inalada no ar. Depois, fazem o vinho rodopiar e olham contra a luz. Em seguida, dão uma bicadinha. Só então o bebedor-provador autoriza a distribuição do vinho pelas demais taças, abastecendo a sua própria por último.

Quem vê esse ritual nos restaurantes e bares chegam a dar risadinhas disfarçadas. Parece uma tremenda bobagem. Frescura mesmo. Mas não é, não. Cada gesto cumpre um ritual necessário.

A rolha – Ao receber a rolha do vinho que acaba de ser aberto, o bebedor-provador (geralmente é aquele que faz o pedido ao garçom) olha pra ver se não há alguma granulação descolorida. Se tiver, indica que há fungos no vinho. É um péssimo sinal. Ao cheirar a rolha, tentam identificar algum aroma próximo do enxofre, o que é alerta vermelho total. A rolha também denuncia se houve vazamento de líquido em algum momento da armazenagem.

Rolha

Dose inicialA pequena dose para o bebedor-provador é fundamental. Sem balançar o vinho, ele o cheira. Ali, naquele primeiro contato com o líquido, ele já percebe se há alguma coisa errada. Depois, quando ele balança a taça e olha o vinho contra a luz, ele atesta a sua coloração. Pode ter inúmeros tons de vermelho, desde os mais fortes até os bem menos intensos, mas sempre vermelho. Se notar tons atijolados, o sinal de alerta soa alto. É um grande sintoma de que o vinho pode ter morrido, embora o teste final e definitivo seja mesmo a tal bicadinha.

Feito o exame inicial, veredito sai na mesma hora: o bebedor-provador autoriza o garçom a abastecer as taças, recomenda que o vinho passe antes por um decanter ou o reprova de vez.

Decanter – O decanter tem um desenho próprio. Não é simplesmente uma jarra de suco. Ele tem o bojo grande e largo e a boca mais fina, e invariavelmente um pescoço não muito longo e bem mais estreito. Tem duas funções. A básica é receber vinhos de longa guarda. Com o passar dos anos, às vezes uma ou duas décadas, o vinho ganha borras. São os calos de sua longa jornada. Depositado no decanter, ele é arejado e essas borras são naturalmente decantadas.

decanter vinho

Outros vinhos, mesmo sem as borras, precisam passar pelo estágio do decanter antes de serem apreciados. Aqui, vale uma explicação mais ampla sobre o vinho.

O vinho é a única bebida viva que o homem conseguiu fazer. Ele nasce, cresce, atinge o máximo, e depois entra na fase de decadência e morre. Além disso, o vinho fica preso dentro de uma garrafa com um tantinho só de ar. Faz parte do seu amadurecimento. Quando finalmente é libertado, ele precisa de oxigênio novo para revigorar e liberar todo o seu potencial. Claro que estou falando de vinhos com essa característica. Existem outros que são feitos para serem bebidos muito mais rapidamente. Se passarem alguns poucos anos dentro da garrafa, morrem.

Ou seja, o decanter serve para os vinhos de longa guarda, que ganham borras, e para aqueles que precisam de mais oxigênio para se mostrarem completamente.

O ritual continua – Ver uma mesa com bebedores de vinho é mesmo engraçado para quem não conhece esses detalhes dessa bebida maravilhosa. Por exemplo, a toda hora, eles ficam balançando as suas taças sobre a mesa, fazendo o vinho bailar pelas paredes de cristal. Depois, sempre que levam a taça à boca, inspiram o ar e só então bebem um gole. É frescura? Se for, é uma frescura necessária.

cheirar vinho

Fazer o vinho bailar na taça é dar a ele mais oxigênio. E as taças tem aquele modelo abaulado exatamente pra que se faça isso. Cheirar o vinho é o último passo antes do prazer máximo de sentir o vinho na boca.

Pensando bem, não é frescura, não. De jeito nenhum. Quem se senta à mesa para comer não fica muito mais disposto quando o prato servido é bonito? E o cheiro da comida não é a antessala da degustação? Imagine um churrasco sem aquele cheiro todo… Seria ruim demais. Ou aquele bifão todo troncho, macambúzio, feio e queimado, sem graça nenhuma. A pessoa só encara uma comida feia se não tiver opção.

E o vinho é belo, vivo, cheiroso. Bate de uma forma na boca quando aberto e vai aos poucos ganhando novos atrativos até chegar à última gota da garrafa. É por isso que os vinhos não são bebidos aos goles, como a cerveja. São bebericados aos poucos para permitir que os sentidos humanos o percebam inteiramente. Só assim se extrai toda a gama de prazeres que só os vinhos conseguem entregar.

Vinhos: o delicioso esporte da garimpagem

Uma das particularidades mais gostosas do mundo dos vinhos é a garimpagem. Praticamente todos os bebedores de vinhos gostam dessa coisa de tentar descobrir garrafas especiais. Quando o preço é baixo, pelo menos em relação à qualidade, aí se encontra o eldorado: o tal custo-benefício. Vinhos mais baratos e tão bons quanto aqueles outros famosos e mais caros.

Não é fácil garimpar. A quantidade de marcas e rótulos é incrível. Multiplique esse tantão pelas safras e torna-se tarefa impossível sequer imaginar quantas garrafas de vinho existem no planeta à espera das nossas taças. E é aí que está o grande barato da garimpagem: descobrir rótulos menos conhecidos, fora dos eixos da moda de consumo e, por isso mesmo, nem sempre muito caros.

É claro que os riscos de amargar péssimos vinhos é imenso. Dia desses, arrisquei quase 40 pilas num exemplar português que me parecia honesto. Não passei do primeiro gole. O destino foi o merecido ralo da pia da cozinha. E não pense que esse tipo de decepção acontece somente com vinhos mais em conta. Que nada. Há vinhos muito mais caros que são terríveis.

Pra iniciar

Quem está começando deve evitar ao máximo garimpagem às cegas. O ideal no começo é encontrar dicas de outros bebedores. E nem assim a gente fica imune a certos erros brutais. A maior importadora de vinhos do Brasil tem em seu slogan uma grande verdade: o melhor vinho é aquele que você gosta. Ou seja, pode ser que o ótimo vinho indicado por algum amigo seja ruim na hora que bater na sua boca. Para evitar totalmente gastos amargos no mundo dos vinhos só tem um jeito: ir apenas nos vinhos indicados por vários amigos bebedores. Uma indicação é referência, e não certeza de boa compra.

Relação preço/qualidade

Existem vinhos que chegam a custar 15 mil, 20, 25 mil reais. E vem a dúvida: será que a gente não bebe porcaria como se fosse vinho? Aí é que está: existe relação entre preço e qualidade, mas grandes vinhos não necessariamente custam os olhos da cara e mais o salário do mês. Mas também é verdade que um vinho de 10 reais jamais será um grande vinho. Provavelmente, será realmente uma tremenda porcaria. Tipo Sangue de Boi, aquela gororoba vermelha vendida em garrafões de 5 litros e que é bebida em copos americanos.

Vinho_Sangue_de_Boi

Mas vamos voltar pro nosso mundo. É sempre uma experiência muito prazerosa.

Um país com boa relação preço/qualidade – o tal custo-benefício – sempre foi Portugal. Não está mais como era antes, mas a qualidade geral dos vinhos de lá melhorou. Os vinhos espanhóis também se apresentam algumas vezes com boa relação. Mas os argentinos e os chilenos são imbatíveis no custo-benefício, desde os vinhos mais caros até os de preços civilizados. Uma santa dica: fuja dos ¨Reservado¨ produzidos no Chile. São os piores vinhos feitos por lá. É chileno e tem esse ¨reservado¨ no rótulo? Passe longe. Aquela santaiada chilena não faz milagre na taça.

Santa Helena Reservado

Por 30 reais encontra-se bons vinhos. Até 50, a relação aumenta. Em dias especiais, comemorações e tal, pode-se pensar numa extravagância, e aí o limite é o tamanho do bolso. Mas passar dos 500 reais numa garrafa é loucura total. Nem pra comemorar nascimento de primogênito, casamento de tia encalhada ou com a filha de fazendeiro rico.

Quanto mais caro for o vinho, menor é a chance de garimpagem. Quem vai arriscar num desconhecido caríssimo? É por isso que existem algumas importadoras – raramente aqui em Goiânia – que promovem degustações especiais. Paga-se uma determinada quantia e sai andando pelo salão entre vários produtores e rótulos com a taça na mão. Uma bicada aqui, outra ali e assim se conhece inúmeros vinhos. Inclusive alguns daqueles que você jamais vai ter coragem e petulância financeira para comprar uma só garrafa. Geralmente, essas degustações valem muito a pena. Além dos vinhos, sempre há água mineral pães e embutidos e queijos. E é possível descobrir que aquele vinho caríssimo e fantástico tem um irmãozinho menor, menos famoso, bem mais barato e que bate o maior bolão quando está na taça.

Quando encontrar vinhos assim, não deixe de passar a dica pros amigos, uai.