Glenn Greenwald

Conexão: A verdade necessita do contexto das conversas vazadas no escândalo Intercept

0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Google+ 0 LinkedIn 0 Filament.io 0 Flares ×

O escândalo Intercept, que ataca o núcleo central da operação Lava Jato, responsável pelo desbaratamento do maior esquema de corrupção da história do Brasil e um dos maiores do mundo, deve ser analisado – se assim se quiser ver esse fato com alguma seriedade – como mera manipulação de informações? A pergunta parece uma mera defesa dos operadores da Lava Jato, mas não é. Ao contrário, é difícil a quem quer que seja fazer uma afirmação como essa porque o editor responsável do Intercept, Glenn Greenwald, é detentor de nada menos que um prêmio Pulitzer, o Oscar da imprensa dos Estados Unidos, país que reconhecidamente abriga uma das melhores imprensas do planeta – no Brasil, a referência mais longeva é o Prêmio Esso.

Glenn Greenwald

Portanto, não é injusto, nesta altura deste texto, dar crédito a Greenwald e descrédito à simples pergunta sobre a possibilidade de ter ocorrido uma manipulação. Se ainda tiver a pachorra de prosseguir com a leitura, ficará claro o que se quer propor enquanto fato, e que corrobora o que se está aqui questionando.

Até agora, todos os trechos dos supostos diálogos entre procuradores da força tarefa da Lava Jato e entre o chefe do MPF Deltan Dallagnol e o então juiz Sérgio Moro são exatamente isso: trechos. Mais do que isso, não apresentam tudo o que supostamente foi conversado. São trechos escolhidos a dedo e com lupa para criarem uma narrativa, não necessariamente para revelar o que realmente foi conversado.

O Intercept tem revelado somente aquilo que lhe interessa, e não o que eventualmente possa desmenti-lo, inclusive com possibilidade de não somente enveredar a interpretação em direção contrária. Nem se está aqui levantando a possibilidade de que uma ou outra palavra ou parte de alguma frase possa ter sido cortada ou inserida no trecho divulgado. A manipulação vai muito além disso. Narra-se na divulgação uma ou duas frases mesmo que uma centena delas forme um contexto completamente diferente. Isso é manipulação que atende interesses – sejam eles quais forem – do site, e jamais do público.

Adversários declarados do Intercept garantem que o objetivo dos vazamentos é desacreditar a Lava Jato, e provocar uma comoção no Supremo Tribunal Federal que o conduza abrir as portas da prisão onde se encontram corruptos condenados, principalmente do ex-presidente lula. Pode ser isso, mas também pode ser somente uma leitura equivocada e eventualmente mentirosa que parta do escândalo como forma de chamar a atenção. Qualquer que seja a interpretação que se dê, é impossível afirmar que o jornalismo que se está fazendo seja digno de um jornalista que carrega um prêmio Pulitzer em seu currículo.

A manipulação dos fatos talvez seja o pior crime praticado no mundo do jornalismo. A edição desses fatos podem, e devem, facilitar, melhorar o acesso a eles pelo público, mas jamais deturpar, principalmente quando  evitam o contexto.

O PT já foi vítima de uma manipulação como essa. Mais exatamente na reta final da campanha presidencial de 1992. Fernando Collor de Mello e Lula estavam empatados nas pesquisas, com ligeira vantagem de Collor. Um debate às vésperas do 2º turno na Rede Globo de Televisão se estendeu por boa parte da noite. Embora Lula não tenha se saído bem, Collor também não. Foi um jogo de palavras sem vencedor destacado. Com a edição manipulada do debate apresentada no dia seguinte nos telejornais, a verdade mudou: Collor venceu por nocaute. A manipulação foi tão descarada que o PT pediu justa proteção e intervenção do TSE, que acabou negada. A mentira venceu. Cerca de 22 anos depois, a emissora admitiu que a edição do debate favoreceu Collor.

Nessa famosa edição do debate de 1992 não houve inserção de novas palavras ou cortes em metade de frases. Apenas manipulação, com a supressão de alguns contextos. Bastou isso para prejudicar Lula e beneficiar Collor.

O que se deve analisar no caso Intercept é exatamente essa questão: os textos estão integralmente inseridos no contexto global das conversações? O público está tendo acesso a tudo o que foi falado ou somente se conhece o que os editores do site querem que seja conhecido? Essas são perguntas para as quais ainda não se tem respostas. E sem essas respostas é impossível se conhecer a verdade.