Diário íntimo de um velho repórter… 30 anos de democracia, e ainda somos aborrecentes

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Desde a primeira eleição para presidente, em 1989, logo após o regime militar instalado em 1964, já se passaram 30 anos. Diante da história humana, um lapso de segundo apenas. Em nossas mundanas e curtas existências, é tempo pra caramba. É só comparar com o que aconteceu com crianças que nasceram em 1989. Eram bebezinhos. Hoje, homens e mulheres. E a nossa vida democrática, o que houve com ela? Tornou-se adulta também?

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Não, né? Tenho a tentação nesta analogia de dizer que nossa atual democracia está muito mais para aquela fase aborrecente do que para adulta. Ficamos passionais demais da conta. Vá lá que a nossa latinidade tem dessas coisas, mas normalmente quando a emoção transborda, a razão encolhe. Talvez, envergonhada.

“Ahh, mas isso é ‘culpa’ da mega exposição nas redes sociais”, ouço claramente o inconsciente bradar em meus velhos miolos. Não me convence. Creio, sim, que o espelho ficou muito maior que nossos narcisos com a ultra divulgação nas redes sociais. Mas apenas isso não explica nada. Ou explica muito, mas não explica tudo.

Haddad ou Bolsonaro? É óbvio que existem muitas diferenças entre eles. E é natural que uma parcela de nós se identifique com um, e a outra parcela de nós se identifique com se veja melhor com o segundo. Mas quem tem bola de cristal para saber realmente o que será um e outro depois que tudo isso passar. Pode-se imaginar, mas jamais ter a mínima certeza. O futuro, esse tempo que ainda virá, só nos permite uma certeza. Só uma. Nada mais além disso.

E ouso afirmar que nossa vida democrática está mais para aborrecente do que para adulta porque vivemos dias como se tivéssemos todas as certezas da existência. Alguma semelhança com as deliciosas experiências da puberdade? Vejo muitas.

Restando uma semana para a eleição, ainda não tenho irreversível definição sobre em quem votar. Neste momento, meu voto não iria nem para Bolsonaro e nem para Haddad. Tenho me esforçado na tarefa de não permitir que meu senso prevaleça dentro de uma bola de cristal – votar neste para ajudar aquele ou contra o outro. É, sim, uma tentativa de ser adulto, de responder como um velho com mais de meio século de caminhada – velho, não velhinho. Não tá fácil, não.

No fundo, ainda somos pouco além de crianças.