Eu não sou Charlie

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É difícil para nós, brasileiros, contextualizar exatamente situação que para nós é completamente esdrúxula, como o assassinato de 12 pessoas na França por causa de um jornal e suas charges. Talvez seja simples para americanos e europeus porque essa é parte da realidade deles. Para nós, aqui no nosso cantinho sul do planeta, não. O Maomé mais conhecido por nós é um sujeito que queria que a montanha fosse até ele. Como ela não foi, ele foi até ela. Há muçulmanos no Brasil, é claro, mas eles são muito poucos, e mais das vezes costumam se incorporar à paisagem nacional. Tenho mais de meio século de vida e nunca vi uma mulher andando de burca por aí. Creio que você, leitor, também nunca viu. Não sei como reagiria se visse uma muçulmana vestida assim. Ficaria curioso, daria risada, espantado? Não sei dizer. É algo tão fora da minha realidade que não tenho condições de sequer imaginar.

E aí surge essa espetacularização toda, ao vivo, pela internet e TVs sobre o brutal assassinato de jornalistas/chargistas e policiais em Paris. Chocante, sem a menor dúvida. Foram 12 assassinatos, uma das maiores e mais poderosas nações do mundo estarrecida e mobilizada, e uma porção de gente absolutamente chocada e solidária com as vítimas.

Mas, só pra constar, a nossa realidade é outra. O que aconteceu na Charlie Hebdo e que provocou a indignação em boa parte do mundo, dos Estados Unidos a alguns países asiáticos, passando obviamente por toda a Europa, nos é de certa forma incompreensível. Tentei me imaginar ali, no meio da coisa, para tentar entender o sentimento deles. Não consegui. O tal do Maomé, retratado numa charge sendo passivo numa relação sexual homo com Jesus, que por sua vez estava com um triângulo espetado no traseiro – e com a frase, sequencial, como se fosse as vozes dos três, Maomé, Jesus e o triângulo: Pai, filho e espírito santo.

É estranho, esquisito, desrespeitoso, uma imagem absurdamente agressiva contra a crença das pessoas, sejam elas muçulmanas ou cristãs? Claro que é, além de um mau gosto total. Ainda assim, como entender a reação daqueles três caras, que em nome da defesa da honra do Maomé, entraram na revista e metralharam as pessoas, e subjugaram as emoções e os medos de uma nação inteira?

Então, resolvi trocar pelo menos um personagem na charge. Na minha imaginação, e indignação também, coloquei o Edir Macedo, principal líder de uma das maiores religiões atuais, a Igreja Universal do Reino de Deus. E pronto: abriu-se em mim um certo grau de compreensão. Para completar, ao invés da Charlei Hebdo, imaginei uma publicação nacional.

E danei a pensar sobre essa situação, agora, sim, bem mais próxima da minha, da nossa realidade. Qual seria a reação das pessoas no Brasil? Como nós reagiríamos se três fanáticos cristãos entrassem nessa publicação e metralhassem as pessoas que encontrassem pela frente?

Confesso que uma das minhas conclusões é que, mesmo trocando os personagens, colocando um bispo no lugar de Jesus ou acrescentando um moleque no lugar do triângulo, ainda assim a situação permanece meio esdrúxula, diferente. Primeiramente, por um ponto: uma publicação assim não conseguiria publicar nada parecido por aqui porque a nossa tal “liberdade de expressão” está a séculos-luz de distância do conceito de liberdade que outros povos, como os franceses, europeus de uma maneira geral e americanos atingiram. Vivemos na pré-história dessa tal liberdade.

De qualquer forma, é extremamente difícil imaginar que no Brasil o desfecho seria o massacre de Paris. Haveria repúdio coletivo, em massa, talvez até um ataque ao prédio onde a publicação estivesse sediada, mas não os assassinatos. Nossos fanáticos não chegariam a tanto.

Chego à conclusão que não é a reação que assusta tanto. São os assassinatos. O duro, duro mesmo, é saber que acontecem o equivalente a 13 massacres como o que aconteceu em Paris diariamente em todo o Brasil. São 12, multiplicado por 13, 24 horas por dia, 365 dias a cada ano, e cerca de 60 mil assassinatos. São 60 mil brasileiros mortos. Na França foram 12, e eles pararam o país por causa delas.

PS – Charlie Hebdo é uma publicação que dizem ser satírica. Não acho que chega a tanto. Ela é uma bobagem desrespeitosa, e de mau gosto. Jamais a compraria, e nem de graça me daria ao desfrute de ver suas páginas. Mas daí a matar os seus autores a distância é imensa, total, maior do que eu consigo transpor. Eu não sou Charlie. Não a defendi antes, não a defendo agora. Eu sou brasileiro, e já tenho 60 mil charlies para lamentar.

PS 2 – Não reproduzi nenhuma das charges da revista francesa. Me desculpe se a página ficou pesada, apenas com texto. Mas foi a minha maneira de poupar a mim e, acredito, a você leitor.