Iris: como escapar do desastre total  na Câmara?

Massacre na Câmara: E agora, prefeito?

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Câmara Municipal votou e aprovou projeto proibindo aumento continuado do IPTU. O prefeito vetou. A derrubada do veto se transformou em divisor de águas
Afonso Lopes
Na semana que passou, a Câmara de vereadores de Goiânia analisou veto do prefeito Iris Rezende sobre lei que proíbe o aumento continuado do IPTU. Após intensas discussões, veio o confronto dos votos, como reza as regras democráticas em vigor. O resultado foi uma formidável surpresa. O prefeito foi fragorosamente derrotado por 29 votos, contra quatro. Não, não é um placar normal em nenhuma circunstância: 29 a 4 é um marco, um divisor de águas. E o que é pior, o que restou dessas águas é um mar revolto como jamais se viu antes.
Talvez tenha sido a pior derrota legislativa de todos os seis mandatos de prefeito e governador exercidos por Iris Rezende. Nem como governador em dois mandatos e em nenhum dos três períodos como prefeito anterior ao atual mandato Iris enfrentou uma resistência tão grande. O que houve na Câmara de Goiânia foi nada menos do que um massacre político, um extraordinário levante.
Colocado sob a visão de um raio X, percebe-se que o descalabro político dessa votação é muito pior do que seu placar humilhante exibe. O prefeito não teve um voto, um único voto, de vereadores dos partidos que foram eleitos na sua coligação. Nem de seu próprio partido, o PMDB. Isso revela que o prefeito terá que recomeçar a formar de seu governo do zero. Se mantiver tudo com a formatação política que aí está, será agonizante a caminhada até o final de mandato, em 2020.

Iris: como escapar do desastre total  na Câmara?

Iris: como escapar do desastre total na Câmara?

Sempre se soube que o prefeito saiu das urnas com minoria eleita na composição partidária na Câmara. Portanto, não seria nenhuma novidade enfrentar alguns problemas. Mas nunca, jamais, ao ponto em que chegou, de perder apoio de “seus vereadores”, e até da bancada do seu velho PMDB de guerra. Não, passou muito da conta política. Tornou-se uma questão de governabilidade, palavra que traz em seu bojo uma outra, que se sabe fundamental para a obtenção política da primeira: habilidade.
É de se questionar seriamente essa tomada de posição, que transforma a Câmara Municipal numa espécie de República Independente. Por que chegou a esse ponto? o que poderia ter sido feito antes para evitar esse desastre com perda total? O que se deve fazer de diferente de agora em diante para causar um mínimo de normalidade na relação Prefeitura de Goiânia/Câmara Municipal? Essas são as perguntas sobre as quais o prefeito Iris Rezende deve se debruçar, juntamente com aquele que parece ser o único – e último – integrante do núcleo pensante e formulador do prefeito, o secretário Paulo Ortegal. É necessário avaliar e entender o que aconteceu e como evoluiu para refazer, desta vez corretamente, aquilo que foi feito de forma errada.
Iris Rezende, em sua primeira declaração pós-massacre, concluiu que terá que finalmente, quase um ano depois de sua posse, indicar um líder de governo. Sim, por incrível que possa parecer, o prefeito não tem nem líder na Câmara de vereadores. É errado, evidentemente. Esse cargo funciona como um parachoque, que recebe as pancadarias iniciais da bancada situacionista, ameniza os impactos e passa a intermediar diretamente com o prefeito as melhores e mais aceitáveis soluções. Sem essa figura, a Prefeitura passa a receber a carga bruta, a maré de onda cheia. O papel de líder de governo é exatamente o de ser o quebra-mar desse tipo de maré e onda, além de ser a figura central do agente identificador de problemas, que invariavelmente acabam explodindo em plenário quando não contido a tempo. Iris preferiu utilizar secretários municipais para resolver os impasses já dentro do plenário. Isso nunca funcionou antes, e jamais irá funcionar no futuro, especialmente em períodos administrativos de vacas mais do que magras, esqueléticas. Sem falar que o vereador tem ao seu lado, como constante ameaça, o voto do eleitor, enquanto o secretário precisa agradar apenas o dono da caneta palaciana. O segundo nunca consegue compreender exatamente a linguagem do primeiro por mais competente e experiente que possa ser.
Tudo isso coloca o prefeito Iris Rezende diante de seu maior desafio político-administrativo. E nesse caso ele não tem como terceirizar responsabilidades, como tentou fazer ao receber vereadores, entre os quais o inquieto Jorge Kajuru, nada menos que o campeão de votos nas eleições do ano passado. Ao tratar sobre a estrutura de saúde pública, todas as questões levantadas, segundo explicou o vereador depois, receberam idêntica resposta: “veja isso diretamente com a secretária”. Embora obviamente não seja, soa como se ele estivesse afirmando que esse não é um problema dele, mas da secretária. Kajuru afirmou nesse pós-encontro na Prefeitura que jamais voltará lá.
Essa citação vale como porta de entrada para o futuro da relação Prefeitura/Câmara. Se o governo Iris, que está, como se viu no resultado da votação, completamente atordoado e perdido, conseguirá se reciclar e reconstruir. Resta saber se o prefeito Iris Rezende ainda tem pique para governar como em outros tempos. Se tiver, ainda há tempo suficiente para mudar o curso dessa tétrica história administrativa. Se não, vai ser uma agonia infindável até 2020.