Nexus: o silêncio constrangedor que envolve o gigante de concreto

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O Jornal Opção, em reportagem de capa, revelou que existem suspeitas de fraude nos laudos técnicos sobre o impacto que será causado com a construção de um mega edifício no cruzamento das avenidas 85 e D, na divisa entre os setores Oeste e Marista, inclusive no que se refere à pesquisa de opinião dos moradores da região. Ainda assim, o consórcio empresarial que pretende erguer o complexo no local mantém a programação de lançamento, o que da a entender que há um constrangedor silêncio sobre o caso.

Em tese, pelo menos, não há como negar que a construção de um edifício como esse naquele local é uma temeridade. A região tem a trafegabilidade tão comprometida, e há tantos anos, que até uma trincheira foi construída na avenida 85, exatamente no cruzamento com a avenida D. No rush, mesmo com essa obra de arte, o trânsito é complicadíssimo, e com efeitos que já contagiaram a região, como na rua 9, no setor Oeste, que fica a duas quadras do local do novo edifício, e que forma um sistema binário com a rua 15. É absolutamente improvável que a situação não será severamente agravada com uma obra de tamanha envergadura.

Hotel, shopping, salas comerciais: um monstro de concreto verticalizado (maquete eletrônica)

Hotel, shopping, salas comerciais: um monstro de concreto verticalizado (maquete eletrônica)

Suspeitas – O Ministério Público Estadual estuda exatamente essa questão, baseado nas suspeitas de que os estudos de impacto na vizinhança não seguiram exatamente o que determina a legislação municipal, que já é bastante branda nesses casos. Há a possibilidade de, dependendo do resultado dessas investigações, o MP pedir a interdição da obra até que as irregularidades, se existirem mesmo, sejam sanadas.

Independente de ter ocorrido algum problema na elaboração desses estudos técnicos, a verdade é que o fortíssimo adensamento de Goiânia tem sido a política urbanista da Prefeitura. A atual administração se baseia, certamente, em inúmeras publicações, inclusive internacionais, sobre a solução verticalizada das grandes cidades do planeta. Essa tese, porém, não é unanimidade. Para muitos urbanistas, o efeito sobre a qualidade de vida com adensamentos radicais é terrível, provocando uma deterioração completa e rápida.

Jardim Goiás: adensamento prejudicou a qualidade de vida?

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No caso específico de Goiânia, a verticalização vem ocorrendo há várias décadas, alternando momentos mais agudos com períodos de excessões. De maneira geral, vários urbanistas apontam problemas estruturais nessa política de adensamento, alertando que a infraestrutura da cidade não foi feita para atender demandas assim, como nas redes de água, energia elétrica e captação do esgoto. Isso fica escondido debaixo das ruas, mas é impossível não observar o problema que ocorre também na superfície, como o travamento do trânsito. No caso do Nexus, com todo o seu gigantismo, é de se esperar que surjam problemas até para que os veículos estacionados em seu interior consigam ganhar as ruas na hora do rush. Simplesmente, não há saída disponível para uma rua ou avenida sem problemas de tráfego.

Trincheira da avenida 85. Se está assim agora, como será com o Nexus?

Trincheira da avenida 85. Se está assim agora, como será com o Nexus?

Uma solução possível, mas que dificilmente será avaliada por falta de costume, é a adoção de horário de funcionamento diferenciado para todo o complexo do Nexus. Isso diluiria a demanda que o novo edifício provocaria em horários que não a comporta. Embora racional, o horário diferenciado de funcionamento sempre ronda as discussões, mas jamais deixa o papel. Pelo menos para isso o gigante de concreto, vidro, pessoas e carros que o Nexus irá representar poderá servir: tirar da teoria soluções que saiam do tradicional, como inversão de mão e contramão, semáforos e obras de arte que jogam o problema mais para frente sem realmente atacá-lo com eficácia.

Pelo que se imagina diante dos planos de grandeza do edifício, se não houver uma solução fora do script tradicional, talvez fosse bem melhor desistir da ideia de construí-lo naquele local. O bom senso provoca a razão para concluir que a região não o comporta sem comprometer ainda mais a qualidade de vida.