Prelúdio, o uruguaio ícone que merece a fama de tem

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Vez ou outra, e quase sempre, bebedores de vinho se reúnem em confraria informal para bebericar e bater papo. Quando isso acontece num bom restaurante ou boteco de 1ª linha, com uma carta de vinhos apresentável, tudo bem. É só se sentar à mesa e escolher uma das garrafas de acordo com o bolso de todos. Problema aparece quando o encontro é na casa de um dos confrades, e cada um tem a obrigação de levar uma garrafa cuja única referência é a faixa de preço.

Todo confrade ou bebedor iniciado gosta de novidades. Chegar sempre com as mesmas garrafas e tal torna a beberagem algo como mais do mesmo. Um dos grandes baratos do mundo dos vinhos é o inusitado, a descoberta, a viagem por terroirs e sabores nunca dantes aportados. Quando se encara um grupo com esse tipo de afinidade, a noite (ou a tarde/noite) fica realmente fantástica.

aqueijos taçaOs comes geralmente não são problemáticos. Vinhos tintos secos sempre batem um bolão com queijos variados e pães. Embutidos não muito fortes também se democratizam legal entre as opções. E, óbvio, água à vontade. Patêzinhos fecham o menu com chave de ouro. Pra comer, não é necessário mais nada além disso. Mas e pra beber?

Pode-se elaborar uma lista de rótulos previamente e cada um dos confrades se encarrega de comprar e levar uma das garrafas. Isso facilita a montagem da escala de beberagem. Começa com o vinho tal, sobe para aquele outro e fecha com o que se imagina grand finale. Legal, sem dúvida, porque a lista terá sempre as garrafas preferidas de todo o grupo.

aPrelúdio

Mas prefiro as surpresas. Ir aos sabores jamais experimentados é sempre uma ótima experiência, mesmo que os vinhos agradem menos que os rótulos já conhecidos. Vinhos não são como cerveja ou coca-cola, com sabores exatamente iguais desde sempre. Cada vinho é um vinho, com característica, aromas e sabores próprios. Eles são tão personalíssimos que variam até de safra para safra. Encarar um mundo desconhecido nos vinhos é, portanto, uma viagem sem prévio conhecimento do roteiro. É pé na estrada, easy rider.

Na faixa de preço de 150 paus, as opções são milhares e geralmente muito boas. Não é coisa pro dia a dia, é claro, a não ser que os bolsos sejam daqueles que causam inveja. Mas se for analisar bem, um vinho excelente que custe mais ou menos o mesmo que uma boa garrafa de uísque não é tão fora da realidade. Não dá pra repetir encontros assim toda semana, mas uma vez ou outra vale economizar a semana inteira e mais um pouco para curtir vinhos excepcionais.

Mesmo nessa faixa de preços elevada, os franceses ficam muito mal. as melhores garrafas são bem mais caras. Então, ao invés de gastar 150 pilas num Bordeaux ou num Borgonha de menor qualidade, é melhor procurar rótulos portugueses, americanos e, principalmente, chilenos e argentinos. Há uma ou outra boa opção nessa faixa também na África do Sul, Austrália, Nova Zelândia e até no Líbano.

E os uruguaios? Pois é, dia desses fui apresentado a um dos ícones de nossos hermanitos do sul. Fabricado pela Família Deicas, um ótimo e famoso fabricante uruguaio, uma garrafa de Prelúdio, safra 2007, se impôs no centro da mesa. Uau! Já conhecia o danado “de nome”, mas ainda não tinha domado o rapaz na minha taça.

O Uruguai é a terra da uva Tannat, que produz vinhos lotados de taninos. Há dois aspectos nesses vinhos. O primeiro é que os taninos são exatamente aquela característica que dizem fazer milagres nas veias humanas, carregando as placas de gordura acumulada e deixando o sangue fluir com mais liberdade. O segundo é que vinhos tânicos são complicadíssimos e, geralmente, selvagens.

A primeira característica está mantida. Quanto à segunda, esqueça. Os uruguaios conseguiram dominar os taninos de seus vinhos Tannat como ninguém mais no mundo. Nem os franceses conseguem fazer vinhos com essa uva com taninos tão domesticados aos nossos sabores. Mais ou menos como aconteceu com o Malbec da Argentina, que também bate os franceses de longe.

O Prelúdio, na verdade, não é um varietal. Ele tem Tannat, Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Merlot e Petit Verdot. Mas o Tannat mostra seu sabor o tempo todo. Ele não está ali disfarçado. Isso é ótimo. Um vinho encorpado sem exageros, com sabores definidos, não muito seco na boca e absolutamente saboroso. Definitivamente, esse ícone uruguaio merece cada linha que se escreve sobre ele. Uma ótima garrafa.

E como não é tão conhecido e bebericado como argentinos, português e chilenos, torna-se a grande surpresa da noite em qualquer confraria. E, nas taças, não dará vergonha a quem o apresentar na roda.