Queremos deputados noruegueses, mas nos comportamos como brasileiros…

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É para se pensar. A renovação de nomes de parlamentares nas eleições brasileiras gira em torno de 50%. Em alguns anos essa diferença é menor, mas quase sempre gira em torno disso. Ou seja, metade dos parlamentos brasileiros, em todos os níveis, é repovoado a cada eleição. E o resultado dessa renovação de nomes é desolador. A cada legislatura a sensação é de que a situação só faz piorar constantemente.

Noruegueses: se eles conseguiram, nós também podemos conseguir

Noruegueses: se eles conseguiram, nós também podemos conseguir

Aliás, me lembro de uma frase do saudoso Ulysses Guimarães, um dos maiores políticos da história recente do Brasil, quando da época da Constituinte de 1988. Durante entrevista, um repórter perguntou a ele por que a composição da Câmara era tão pior em termos qualitativos do que a anterior. Ulysses respondeu calmamente do alto de sua vasta vivência: “Você acha que este Congresso é ruim? Espere para ver o próximo”.

E de lá pra cá, seguimos piorando a cada eleição. E, não, não é o caso de se execrar a democracia. Ao contrário, o caminho é dentro dela. A democracia não é a culpada. Os culpados somos nós, população brasileira.

Ficamos babando de inveja de noruegueses, dinamarqueses ou holandeses quando ficamos conhecendo como se comportam os políticos daqueles países. Quem dera, suspiramos todos nós, pudéssemos ter políticos com a qualidade moral que eles tem…

Pena que esse sentimento não venha acompanhado de um questionamento coletivo: por que eles podem ter políticos tão bons e a gente esteja sempre renovando nomes sem renovar a prática política? Superficialmente, a sensação coletiva é de que os culpados são os nossos políticos. Quanto a nós, somos apenas as vítimas deles.

Mas quem os coloca lá em Brasília?, tenta-se aprofundar a questão. Na década de 1970, ainda na ditadura militar, quando se ensaiava a abertura democrática, Pelé sacramentou: “O povo não sabe votar”.

Será que não sabe, e ano após ano, eleição após eleição, desaprende ainda mais? Não, o problema não é simples dessa forma. A vida é bem mais complicada.

A renovação de 50% dos políticos em Brasília deveria resultar em injeção de sangue novo, não contaminado moralmente, mas isso não acontece. E nem é “tudo como dantes”. A sensação é de que pioramos ainda mais. Por que?

Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? Gato que nasce no forno é pão? De onde surgem aqueles 50% de deputados novinhos em folha que mandamos para Brasília? Duas perguntas do folclore e uma absolutamente apropriada, julgo eu: de onde saem os políticos?

Os políticos brasileiros não surgem de uma bolha imaginária. Nem vem da Lua ou de Marte. Eles saem do meio de nós e são exatamente como nós, coletivamente, somos. Aqui recorro mais uma vez à memória deste velho repórter. Volto novamente à década de 1970. Numa propaganda de cigarro, na TV, um famoso jogador dizia que o produto era bom e barato. E concluía: “Todos nós queremos levar vantagem em tudo, certo?”, e arrematava com o apelo de compra da marca.

Então, voltando ao cerne do raciocínio proposto nesta página do “Diário íntimo de um velho repórter”, se somos um povo que gosta de levar vantagem em tudo, e considerando que os políticos são parte desse povo, os representantes dele, a conclusão, ao meu ver, não pode ser outra: por mais que renovemos os rostos em Brasília, continuaremos mandado pra lá gente exatamente como nós, que gosta de levar vantagem em tudo. A única diferença é que o poder político permite o acesso a vantagens infinitamente maiores do que aquelas de livre acesso aos demais.

Enfim, não da para nos comportar como brasileiros e sonhar com eleição de deputados noruegueses. Temos que nos comportar como eles, e certamente elegeremos sempre com esse comportamento.