Rio de Janeiro: ambiente socialmente degradado, as janelas quebradas de uma tragédia contada por 80 tiros. Até quando?

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A cena tinha tudo do parecer cotidiano da vida familiar. Um carro com todos dentro, pai, mãe, filho, cunhada/irmã e sogro/pai. Deveria ser apenas um evento social familiar. Deveria. De repente, a tragédia: tiros de fuzil. O pai tomba sobre o volante do carro. Morto. Os demais se desesperam e escapam de dentro do carro sabe-se lá como. Os tiros continuam. Ao final, Evaldo Santos Rosa está morto. Só então a verdade surpreendente se revela: não foram os bandidos/milicianos que provocaram a morte. Foram aqueles que lá estavam para garantir a segurança de Evaldo e toda a sua família, soldados do Exército.

janela quebrada

Não há dúvida sobre o elevado grau de estresse dos soldados naquele momento. Sobrevivente disse que os tiros continuaram mesmo após a saída de todos de dentro do carro. Todos, menos Evaldo. Foram 80 tiros.

Não há como reparar os danos. Evaldo está morto. A referência paterna daquela família está irremediavelmente perdida para sempre. O alicerce familiar agora terá que ser a mãe. O mínimo que se pode querer é que o Estado brasileiro a auxilie de todas as formas possíveis nessa tarefa quase impossível.

Escapando analiticamente da dor humana, faz-se premente que se descubra exatamente o mecanismo psicológico que fez disparar 80 tiros de fuzil em um carro com uma família dentro. Esse mecanismo, seja lá qual for ele, precisa ser corrigido urgentemente. Se a ordem de comando está errada, que seja corrigida. Se os soldados estão estressados, que sejam substituídos, e recebam tratamento médico adequado. Sob pena de a tragédia evoluir para a barbárie da rotina. Mesmo sendo o Rio de Janeiro, como de resto todo o país, um ambiente socialmente degradado. Não é possível para uma nação chorar sempre pelas mesmas janelas quebradas. Basta.