Um país feito nas coxas

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É pra desanimar qualquer cidadão… O Brasil é uma eterna piada de muito mau gosto. E faz um tempão que é assim. Tem piorado muito. Será que um dia ainda verei um país surgir desse troço? Não acredito. Não mesmo.

Cresci num país que não podia votar pra presidente. Nem pra governador. Época inocente. Lá no interiorzão das Gerais, ninguém ligava muito para isso. As notícias não circulavam instantaneamente como hoje. TV, por exemplo, só fui ver mesmo na Copa do Mundo de 70. Antes, não existia. E só havia um canal na cidade. A TV Tupi. Preto e branco, claro.

O povo votava de tempos em tempos para vereador e para prefeito. Dois partidos apenas. Mas nenhum deles podia ser chamado de partido. Arena e MDB.

ilustração: 3bp.blogspot

ilustração: 3bp.blogspot

Os emedebistas eram mal vistos. Eram “comunistas”. Sei lá por quê, mas quase todo mundo tinha medo dos “comunistas”. Eu não tinha medo, não. Nem sabia o que era isso. A Arena ganhava sempre.

É claro que depois passei a entender como eram essas coisas da política brasileira. E também depois é que fui entender porque os brasileiros não votavam nem para governador e nem para presidente. Ditadura.

Outra coisa da qual me lembro é o telefone. Poucos na pequena cidade. Dois números apenas.

O disco não era usado. Quem completava a ligação era uma telefonista

O disco não era usado. Quem completava a ligação era uma telefonista

Tirava o fone do gancho e esperava a voz feminina anunciar: ¨Telefonista¨. Aí você dizia o tal número. De repente, alguém atendia do outro lado. A “telefonista” avisava: “Pode falar”. Era assim que se fazia uma ligação naquela época.

Carro também não era comum. O primeiro na minha família foi um Volkswagem sedã vermelho. Esse nome todo pomposo nunca pegou. Era o Fusca. 1969. volkswagen-fusca-1969-vermelho_30987cf0Meu pai o comprou através de consórcio. Como na nossa casa não tinha garagem, meu pai alugava uma, que ficava no final do quarteirão.

Viagens? Que nada. Meu universo ia somente até São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, perto da divisa com Minas. Ninguém falava São José. Era só Rio Preto. Cidade “grande”, assustadora. Eu morria de medo de me perder naquela selva.

A gente ia pra lá de ônibus. 120 KM de distância. Asfaltados. Um luxo. Tinha cobrador dentro do ônibus, que ia parando na estrada para pegar novos passageiros. ônibus velhoPara Uberaba, também em Minas e com a mesma distância, era terra. Todo mundo na cidade, então, ia só pra Rio Preto. Cada viagem era uma aventura pra se lembrar por muito tempo.

Falo que meu universo conhecido era só esse, mas já tinha ido a Portugal. Só que eu era muito pequeno, seis anos apenas. Então, me lembro muito pouco. Fomos de avião e voltamos de navio. Ou fomos de navio e voltamos de avião, sei lá. Eu, minha irmã e minha mãe. Meu pai ficou para garantir o paitrocínio.

Bons tempos aqueles. Pela inocência de não saber das coisas como elas são. Não sei se eram tempos melhores ou piores que agora. Não há como comparar.

De quase todas as formas que se pode ver, a vida hoje é bem mais fácil e prática. E tem muito mais opção. Carro? Vai na esquina que tem uma revenda que te entrega o zerado e parcela em sei lá quantos meses. Telefone? Nem precisa decorar os 8 ou 9 números. A memória do próprio aparelho faz isso. Viagem de navio? Só se for para ficar de papo pro ar. Sobe num avião, tira uma soneca e rapidim tá lá do outro lado do Atlântico.

Me pego rindo agora. “Pega o avião e rapidim está lá”. Tô rindo porque nunca mais voltei a Portugal. avião modernoNão é medo de avião, não. Quer dizer, tenho medo, sim, mas consigo viajar. É só beber antes um gole d’água com um comprimidim antes de embarcar. Não há pânico que sobreviva. Ahh, sim, tenho algumas crises de pânico. Antes eram bastante frequentes. Hoje, só de vez em quando. Bateu? Comprimidim na síndrome e pronto.

O que me incomoda nos vôos é ter que ficar dentro do avião muito tempo. Meu limite tranquilamente suportável é coisa de hora e meia, duas horas e meia, no máximo. E não sei o que é mais perturbador, se na hora de decolar ou na hora de pousar. Acho que são os dois, do mesmo tanto.

É, o mundo mudou, e o Brasil mudou muito também… Muita coisa melhorou, mas muita coisa bagunçou.

O Brasil tá patinando há muito tempo. É como eu percebo as coisas agora. Não sei se isso é uma inocência minha no sentido inverso daquela da infância ou se é um pouco de pessimismo e ceticismo amadurecidos pelo mais de meio século de vida. Não acredito que o Brasil vai funcionar algum dia como deveria funcionar.

Como é que a gente pode ser otimista diante de tantas coisas que se vê a cada instante?

Quer um exemplo? O Brasil foi capaz de construir há algumas décadas uma das maiores pontes do mundo, a Rio-Niterói. RJ_Constru_o_da_Ponte_Rio_Niter_i_v_o_central_1974Mas hoje, com tanta tecnologia e conhecimento no mercado, não conseguiu fazer sequer um viadutozinho em Belo Horizonte sem que ele caísse e matasse algumas pessoas. E nem terminado estava. Não tinha nenhum peso em cima dele e… prófiti, caiu. Fico imaginando se fossemos construir hoje a tal Rio-Niterói…

E a coisa é tão ruim que basta falar sobre um troço qualquer pra virar conversa e discussão política. “A culpa é do partido tal”, soa na minha mente uma voz que eu não sei de quem é, mas imagino que seja de um grupo. “Mas a obra tal também caiu e a culpa é do outro partido”, ouço a resposta. Saco isso.

Implodiram o tal viaduto que caiu. Vão ter que fazer tudo de novo. E fora das acusações, ninguém parece ter se preocupado em discutir por quê aquilo caiu e o que se pode fazer para que jamais outra obra caia nas cabeças e nas vidas das pessoas. Discute-se o que ocorreu politicamente. Caiu em Minas? Caiu, mas caiu em São Paulo também. Catzo! Não deveria ter caído nem um e nem o outro, uai.

Mas as coisas no Brasil são feitas nas coxas. Agora mesmo, aqui em Goiás, um candidato a vice-governador renunciou. Virou um quiprocó danado. Ninguém sabe ao certo o que vai acontecer. Alguns entendem que a candidatura do governador rodou. Para outros, continua do mesmo jeito. Ué, mas a regra não é clara? Não, não é. Deveria ser, mas não é.

No início deste ano, a maior corte eleitoral do Brasil, composta inclusive por ministros da corte suprema, baixou uma regra para ser aplicada nas eleições deste ano. logo TSELá pelas tantas, mudou uma das regras exatamente sobre troca de candidatos que renunciam. Tá escrito lá: só pode haver essa troca até 20 dias antes das eleições.

Resolvida a parada? Não. A regra anterior dizia que essa troca poderia ser feita até às vésperas da eleição. “Mas a nova lei mudou isso”, pode-se afirmar. Mudou, sim, mas não vale a mudança. Por que? Constitui_oPorque a Constituição, aquele outro calhamaço de leis, diz que só se pode mudar a regra do jogo um ano antes da eleição. Então, continuaria valendo a regra anterior.

Como é que pode ser otimista num país em que a maior corte eleitoral muda uma regra e ao fazer isso não leva em conta a elementar questão constitucional?

Tá esse quiprocó aí. Pelo jeito, a tal candidatura com substituto vai para a disputa eleitoral sabendo que deverá perder a questão na corte eleitoral, que obviamente terá que acatar a regra que ela própria instituiu. Mas depois, na corte suprema, deverá vencer porque a regra da corte eleitoral esbarra no fundamento constitucional.

Olha só o tamanho do rolo. engrenagensE lá se vai uma dinheirama preta dos nossos bolsos para sustentar o movimento das engrenagens dessa imensa máquina jurídica… Engrenagens que não funcionam em linha. Feitas nas coxas.

“Ahh, mas peralá, não da pra ser pessimista por causa de um erro”, ouço algumas vozes. Também acho. Mas não é um erro. São muitos. O tempo todo. É a regra que vale-mas-não-vale-agora, são os viadutos que despencam… Melhor parar por aqui. A lista é imensa.

É ou não é um país feito nas coxas onde se pode comprar um carro facilmente e se obter a CNH até por telefone? cnh-em-branco-9E não é uma CNH qualquer, não. Coisa oficial. “De primeira, autêntica, com selo de relevo e tudo, doutor”, diria o vendedor.

E quando vejo a regra-que-não-vale-agora, me lembro novamente dos tempos em que só havia Arena e MDB, os partidos que não podiam ser chamados de partidos, na esquizofrenia que não é de agora. Hoje, pode. Tem partido pra dar com pau na cabeça de doido. Tem até partido que não tem nome de partido.

E os caixas continuam tilintando. Saco.