Vilmar Rocha: A divisão nunca soma

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Diante da multiplicidade de candidaturas majoritárias, o ex-deputado federal e presidente do PSD defende o lançamento de duas chapas governistas. A intenção dele pode até ser boa, mas isso nunca funcionou

Foto: Larissa Quixabeira / Jornal Opção

O ex-deputado federal Vilmar Rocha, presidente regional do PSD, defendeu na semana passada uma tese complicada. Ele entende que não sendo possível abrigar todos os candidatos em uma só chapa, encabeçada por José Eliton, a base aliada deve avaliar se não é o caso de se lançar duas chapas de orientação governista. Dentro da base, muitas lideranças nem levaram a proposta adiante. O secretário e ex-deputado Jardel Sebba, do PSDB, reagiu. Para ele, a intenção de Vilmar é criticar José Eliton indiretamente. Mas, afinal, se a base é imensa, dividir não seria uma alternativa para segurar todo mundo do mesmo lado? A resposta é não. Esse tipo de situação jamais deu bons resultados na prática. Só funciona na teoria.

Esse caminho, o da divisão no 1º turno, tem funcionado como espécie de tabu para a oposição, que nunca consegue se unir em torno de um nome apenas. Nas duas vezes em que conseguiu isso, e ao encontrar as forças governistas divididas, venceu as eleições. Primeiro com Iris Rezende, em 1982. O PDS, que ainda mantinha o governo eleito indiretamente, se estapeou entre duas correntes. O governador Ary Valadão perdeu a disputa interna, e o ex-governador Otávio Lage foi o candidato. Na campanha, a divisão ficou evidente o tempo todo. Iris passou como um trator e venceu sem maiores problemas. A segunda vez foi em 1998. Os quatro únicos partidos que restavam na oposição ao PMDB irista – PSDB, PP, DEM e PTB – tinha como principal trunfo municipal a Prefeitura de Goiânia, e somava menos de 30 prefeitos em todo o Estado. O PMDB foi tomado de assalto pelas forças iristas, que forçaram o governador Maguito Vilela a não disputar a reeleição – até hoje considerada uma “barbada” pelo mundo político e pelos principais analistas. Ele, então, foi cuidar da sua vida como candidato ao Senado. Saiu das urnas campeão de votos. Iris, como se sabe, foi derrotado pelo pequeno grupo oposicionista com a candidatura do então deputado federal Marconi Perillo, do PSDB.

Lições 
Apesar do histórico nem um pouco favorável à tese defendida por Vilmar, deve-se levar em conta que cada eleição tem uma história, um clima de campanha e particularidades únicas, o que isola os resultados em análises estáticas. Ainda assim, a percepção histórica não pode escapar da visão de análise.

Em 1994, a história eleitoral do Estado registrou outro exemplo claro das dificuldades que um plano como o defendido por Vilmar Rocha encontra. Durante boa parte da pré-campanha, os dois principais grupos da oposição buscaram a união de candidaturas. De um lado, bem afiados, DEM, de Ronaldo Caiado, e PP, de Paulo Roberto Cunha e Roberto Balestra. Do outro, igualmente sintonizados, o PSDB, com Lúcia Vânia, e o PTB, de Pedrinho Abrão. No final, imperou a tese pacificada de duas chapas, com Lúcia e Caiado.

Tudo correu bem até o candidato governista, Maguito Vilela, que tinha total apoio do PMDB irista, começar a crescer nas pesquisas e, consequentemente, na campanha. A paz no planeta oposição foi se tornando uma guerra por cada voto, já que Lúcia e Caiado disputavam o mesmo eleitorado. Na outra raia, e sozinho, é claro que o peemedebista não teve obstáculo para ganhar corpo e entrar realmente na disputa. Na reta final, Caiado havia conseguido ligeira vantagem contra a sua adversária – de mesma trincheira – e dava mostras de que iria para o 2º turno. Votos apurados, Magui­to ficou em 1º e Lúcia Vânia ultrapassou Caiado, credenciando-se para o turno final.

Um episódio praticamente insignificante selou o destino mais do que esperado da sonhada união no 2º turno. Perguntado se apoiaria Lúcia Vânia se ela fosse para a disputa final contra Maguito, Caiado garantiu que sim. A mesma pergunta foi feita para Lúcia, que jogou a questão de apoio para depois. Ela entendeu que, naquele momento, véspera da eleição, se respondesse que apoiaria o “colega” de oposição poderia perder votos decisivos. Caiado não perdoou a resposta, e não subiu no palanque da classificada, o que sinalizou para seus apoiadores e eleitorado que cada um fizesse o que achasse melhor.

Vilmar Rocha, um dos políticos de maior experiência do Estado, sabe de todas essas histórias eleitorais porque viveu todos esses momentos do lado de dentro, disputando votos. Mas é fato que nenhuma eleição é igual a qualquer outra. Pode ser que ele tenha chegado à conclusão que a tese das duas chapas poderia afastar a possibilidade de alguma dissidência na base aliada da qual ele faz parte. Ainda assim, a divisão nunca deu certo. E dissidências não são tão problemáticas porque quem fica tem disposição para a luta político-eleitoral. E dissidência é totalmente diferente de debandada. Aí, sim, seria uma encrenca descomunal. Não parece ser este o caso.