Vinho: quanto mais velho, melhor?

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Virou ditado popular, e portanto ganhou um certo charme, mas a frase não deveria ser essa. Não é qualquer vinho que fica melhor com o passar dos anos. Ao contrário, a maioria vira “vinagre”, torna-se uma gororoba intragável. Então a frase ideal e verdadeira seria: “Alguns vinhos, quanto mais velhos, melhores ficam”.

taça de vinho

Vendo assim, é fácil concluir que o mundo dos vinhos é bastante complicado. E é mesmo. Mais ou menos como as pessoas são, cada região, cada povo, uma cultura, um modo de ser e viver todo especial e único.

Aí é que está: vinhos são bebidas vivas. Eles nascem, crescem, atingem o apogeu e entram em decadência. Por fim, morrem. E em cada uma dessas fases ele se apresenta de uma forma. E cada grupo de vinhos tem sua própria longevidade. A maioria tem vida mais curta, de 5 ou 6 anos. Geralmente, são os mais baratos e de maior consumo no mundo todo. No exato oposto ficam os vinhos chamados de longa guarda, que só se apresentam com todas as suas qualidades depois de evoluírem por 10, 15 e até 20 anos. Existem algumas garrafas francesas com mais de 30 anos e que são simplesmente indescritíveis. Mas esse é um privilégio para bolsos especialíssimos. Nós, mortais comuns, temos que nos contentar com vinhos de vida bem mais curta.

decanter vinho

Rebeldia – Vinhos de longa guarda quando novos são complicadíssimos na boca. Geralmente, nessa fase os taninos estão, como diria, no auge de seus “hormônios”. Rebeldes sem causa, indomináveis. Ao longo dos anos, ele vai amadurecendo aos poucos até que, após 15 ou 20 anos, ou até mais, finalmente se comportam com a classe e civilidade como os evoluídos devem ser.

Mas como saber se a garrafa safra, digamos, 2005 ali na prateleira da adega está boa, já passou da hora ou ainda está com taninos rebelados? Difícil responder de bate-pronto, mas como regra, o preço geralmente diz qual é a real dessa garrafa. Se muito cara, é extremamente provável que o vinho que está dentro da garrafa ainda é uma criancinha e tem muito ainda para viver. Se o preço for uma bela pechincha, daquelas que a carteira se mantém recheada de notas após passar pelo caixa, é quase certo que lá dentro tem um líquido que já viveu dias muito melhores. O ideal é pesquisar antes de comprar um vinho 2005 hoje em dia, principalmente se o bebedor não conhecer o modus operandi do fabricante. Na dúvida, prefira uma garrafa safra 2011 ou 2012. É mais seguro e quase sempre muito menos decepcionante.

É lenda? – Alguns poucos iniciantes no mundo delicioso do vinho estalam a língua quando ouvem algum relato sobre vinhos safra 2000, 1980 e tals. E realmente os vinhos mudam muito dentro de seus ciclos de vida. Mas nem todos sobrevivem por tantos anos.

Um dos muitos tons de vermelho dessa magia líquida

Um dos muitos tons de vermelho dessa magia líquida

Não sei se já contei aqui sobre ótima e surpreendente experiência que tive com garrafas de Montes Alpha, um chileno bastante conhecido no Brasil e que custava bem menos do que atualmente. Foi chocante para mim constatar o quanto um vinho consegue melhorar de um ano para o outro.

Primeiramente, a safra. O ano de 2005 foi divinamente ótimo para as videiras chilenas. São desse ano alguns dos melhores vinhos já produzidos por lá. E os fabricantes chilenos conseguem como ninguém oferecer vinhos bastante jovens de muito boa qualidade. O que eles conseguem atingir com 2 ou 3 anos de envelhecimento a maioria dos europeus precisa de uns 5 anos no mínimo.

A safra 2005 no início não tinha o rótulo dourado Vintage

A safra 2005 no início não tinha o rótulo dourado Vintage

Eu participava de um grupo que se reunia uma vez por semana para viver experiências no mundo de Baco. Época de descobertas. Abrimos muitas porcarias engarrafadas, mas a maioria ganhou nossos paladares. Um desses bons vinhos foi o Montes Alpha cabernet sauvignon. Não sei ao certo, mas em 2 anos de reuniões devemos ter bebido umas duas dúzias de Montes 2005. No final desse tempo já estávamos na safra 2006.

Tempo vai, vinhos outros vem, novas descobertas e tal, e eis que um belo dia bateu saudades dos sabores do Montes. Aleatório. Tava escolhendo algumas garrafas na loja e, de repente, peguei e separei uma do Montes.

Dois ou três dias depois, não mais que isso, em casa, resolvi abrir o velho conhecido. Não sou um bebedor com memória gustativa extraordinária, mas me lembrava exatamente o que iria beber. Quando coloquei o vinho na taça, apreciei a cor vermelhona, linda, mas ao bater o nariz levei um susto. Se minha memória gustativa é amadora, minha memória para os aromas é pior ainda, mas nem tanto assim que não me fizesse lembrar das garrafas de Montes que tinha bebido anteriormente. Foi um ótimo susto. Aromas perfeitos, muito agradáveis. Rodei a taça contra a luz e o vermelho ganhou ainda mais vida. “Uai, nem me lembrava mais disso tudo”, pensei na hora.

O Montes Alpha M 2005 é o primo rico (e muito mais caro. Um ícone)

O Montes Alpha M 2005 é o primo rico (e muito mais caro. Um ícone)

Mandei o primeiro gole. Rapaz, que coisa fantástica. Era o mesmo vinho que bebi tantas vezes antes, mas se apresentava de forma extraordinariamente gostosa. Beberiquei aquela garrafa aos pouquinhos, golim por golim até lamentar quando a última gota secou.

No dia seguinte, comentei com um dos amigos do grupo de bebedores que frequentava sobre essa experiência com o Montes Alpha. “Não pode ser tudo isso. É que tem mais de 1 ano que você não bebia esse vinho”, foi a reação dele. Pode ser, mas na dúvida, corri para a loja e comprei mais duas garrafas 2005. As derradeiras do estoque. Dali pra frente, só 2006.

Estava entrando em casa quando recebi telefonema desse amigo. “Você tem razão. Esse vinho explodiu. Tá cheio de depoimento de confrades na internet contando a mesma coisa. Já procurei nas lojas online e não tem mais safra 2005. Acabou. Onde você encontrou?”. No Ata (Empório Sírio Libanês), respondi, mas lá também acabou, disse sem contar que estava com as duas últimas garrafas 2005 debaixo do braço.

Ainda encontrei 11 garrafinhas de 375ml do Montes Alpha 2005 alguns dias depois. Fiquei com 6 delas e passei 5 para o amigo.

Auge – Isso é uma das características mais fascinantes nessa bebida extraordinária, a evolução. A mesmíssima garrafa, um único ano depois, um vinho bom que se tornou perfeito. Fico imaginando os vinhos franceses e portugueses de longa guarda e as marcantes diferenças e percepções ao longo dos anos.

Sobre o Montes Alpha 2005, não sei como ele estaria hoje ao ser aberto. Não acredito que estaria melhor do que no finalzinho de 2009, início de 2010, quando dessa minha experiência. Hoje, se me deparasse com uma garrafa dessa safra, a levaria para casa muito mais por curiosidade, para saber se ele ainda evoluiu ou se entrou na fase decadente.aqueijos taça

Portanto, se você está se iniciando nos prazeres do fantástico mundo dos vinhos, lembre-se que aquela garrafa maravilhosa bebida no ano passado pode não ser mais tudo aquilo hoje. Ou estar ainda melhor. Mas se você é um iniciado, certamente já passou por essas experiências que só fazem acrescentar as nossas paixões pelos vinhos.