Vinhos bons, de 30 a 100 reais, e a velha disputa com a cerveja

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cerveja e vinhoSempre que falo sobre os vinhos com alguns amigos cervejeiros eu ouço que a grana está curta e que os vinhos são muito caros. É como se a cerveja fosse uma bebida para todos e os vinhos para poucos endinheirados. Vamos lá, se for comparar o preço de uma garrafa de cerva com a de um vinho ao menos bebível, o mundo de Baco é realmente uma paulada na carteira. Mas se a comparação for por noitada, a situação pode não ser exatamente essa.

colheita da cevada

Primeiro, vale esclarecer que os vinhos custam mais caro mesmo. Por inúmeras razões. A começar pela matéria prima. Uvas versus cevada. Quais os cuidados para se colher uma plantação de cevada? Nada. É deixar os grãos crescerem e tal e passar a colheitadeira. Pronto. Haverá cevada aos montes. As uvas são colhidas manualmente. São estruturas muito mais delicadas.

colheita de pinot

Depois tem o processo de fabricação. Para o suco de uva fermentar e se transformar em vinho é necessário vigiar o processo todo, controlar até a temperatura, dar uma oxigenada no caldo de vez em quando e tal. É uma arte complicada fazer um suco de uva se transformar numa bela garrafa. A fabricação da cerveja é em escala industrial. Um monte de cevada e os demais badulaques de um lado, uma porção de água e a máquina vai o serviço todo.

fábrica de cerveja

O tempo também custa dinheiro. Um bom vinho jamais fica pronto para ser bebido antes de pelo menos seis meses de vida. Alguns levam anos para poder encher as taças de puro prazer. Bons vinhos, vinhaços mesmo, não chegam aos bebedores antes de um ano, ano e meio, de descanso e maturação em barricas, que podem ser de madeira nobre, aço inoxidável ou concreto. E não é só colocar o vinho lá e voltar no ano que vem. Tem que acompanhar o tempo todo pra criança não morrer na maternidade. Cerveja não precisa mais que alguns dias para sair do lúpulo para o copo no bar.

Mas na composição dos preços dos vinhos também há outras variantes não exatamente justificáveis. A fama é uma dessas. Vinhos famosos ganham zeros nas etiquetas. Outros, tão bons ou melhores, mas menos famosos, chegam às nossas taças sem esse complemento. Neste planeta, é necessário certo conhecimento para investir bem e não trocar um monte de grana pelos prazeres que poderiam custar menos com outros rótulos.

colheita de pinot

Cervejas, pelo menos as mais consumidas, tem pouquíssimas variações de sabor. A Skol de hoje no boteco da esquina tem o mesmíssimo gosto da Skol da semana passada, ou daquele churrasco do ano passado. Não muda. E para fazer mais cervas basta encher a máquina com cevada e abrir a torneira de água. Vinhos, não. Se a uva acabou, babau, só no ano que vem.

roda de samba e cerveja

Mas tudo isso não invalida a velha comparação: cerveja é para todos e vinhos são para as carteiras recheadas. Sim, e não. Uma parada num bar com os amigos vai cerveja de monte. Algumas turmas conseguem fechar uma ¨caixa¨ numa tarde ou noitada. Mas, numa roda de samba no boteco, a cerva é a rainha. Vinhos não são consumidos em escala industrial de consumo. É pra se beber curtindo, percebendo os sabores deliciosos e empolgantes, e não para se encharcar. casal-brinde-vinho-436Vinhos são para os momentos, não para a alegria do cotidiano. Bebedores de vinhos podem até cair bêbados, mas vão saborear até a última gota. Cervejeiros sentem sabor nas primeiras garrafas. Depois, até cerveja menos gelada vai bem porque ninguém ¨tá nem aí¨.

Cerveja é pra bagunça, gostosa, claro. Vinho é para o prazer. Bebe-se cerveja aos montes, vinhos são bebericados aos poucos. No final, feitas as contas, talvez a diferença no investimento não seja lá essas coisas. Um bebedor ¨normal¨ passa a noite toda apenas com uma boa garrafa de vinho. O cervejeiro precisa de várias ampolas pra suportar a madruga.

Ahh, mas peralá, e cadê algumas dicas de vinhos sensacionais por menos de 100 pratas? Vamos lá, então.

Viña AmáliaViña Amália Reserva – Malbec Um argentino legal por menos de 40 pratas. Paguei 38 reais e alguns centavos por uma garrafa dessas. Tem que pesquisar pra encontrar preço bom. Não é tão raro assim, mas também está longe de ser arroz-de-festa de prateleiras de supermercados. Com um brinquedo desses e uma carninha assada ou churrasqueada a noite vaza que é uma maravilha.

RedRedwood Creek – Pinot Noir Dos Estados Unidos, que não é um produtor que se preze pelos bons vinhos e preços civilizados, surge esse Redwood. Menos de 30 pilas. Pra quem gosta de Pinot – minha uva preferida – é uma ótima alternativa. E vale pelo inusitado, de beber uma garrafa americana por poucos reais. Não espere nenhuma delícia fora do comum. É um vinho bebível, sem compromissos.

Borgonha NicolasNicolas Potel – Pinot Noir Brabíssimo representante da lendária Borgonha, terra dos grandes pinot franceses. Na faixa dos 80 paus. Não é um vinho extraordinário, mas vale pela origem. Se fosse feito em outra parte da França provavelmente custaria uns 20 contos menos. Mas a Borgonha é isso. Depois de aberto, perceber a sua evolução aos poucos é muito gostoso. Ele começa meio tímido na taça e aos poucos vai se acrescentando. Vale a pena, claro, mas não é vinho pro dia a dia.

CorralilloCorralillo – Syraz Se você quer mais prazer na taça e menos descoberta, esqueça o Nicolas e aposte um bom naco da carteira nesse Corralillo. Chileno fora de série, custa na faixa dos 100 reais, um pouquinho mais, um pouquinho menos, mas fica por aí. É a segunda linha da extraordinária Matetic – a primeira é o EQ. Mas não fica devendo para os irmãos maiores, não. Custa menos que os EQ, e esbanja exuberância na taça. É outro que evolui depois que você o liberta da rolha. Se fosse europeu, custaria uns 130, 150 paus. Como é chileno, chega aqui por 100 pratas. Bebericar taças desse Corralillo é coisa pra se lembrar durante uma semana, no mínimo.