Vinhos, não vá complicar o prazer, ok?

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Aromas secundários de veludo rosa molhado com orvalho das restingas da base do Himalaia, couro cru de carneiro montanhês da cordilheira central do Cazaquistão.  Aromas terciários de nuvens esparsas sob o sol de Copacabana nas noites de inverno com leves toques de perfume de rosa roxa do oriente antigo.

vinhos nariz

Caramba, tudo isso para curtir uma taça de vinho? É claro que esses aromas aí foram criados apenas para este texto, com o claro objetivo de dizer uma coisa bastante simples: não é necessário ¨conversar¨ com a taça de vinho para obter todo o prazer que ele proporciona. Esqueça, simplesmente. Esse negócio de descobrir as nuances perfumadas dos vinhos é coisa pra especialista.

Mal comparando, é como um piloto de fórmula 1 e o sujeito que quer apenas um bom carro para dirigir e curtir. O primeiro precisa conhecer cada detalhe da birinboca da parafuseta esgarniçada do volante do motor. Para o segundo, basta saber onde está a chave.

Cheiro ou aroma

A mania de alguns bebedores de vinho começa aí: cheiro ou aroma. Aroma, ¨os aromas do vinho¨ e tal e coisa. E o cheiro? ¨Vinho não cheira, vinho é cheirado, e o que você percebe é o aroma¨. Tá bem. Esqueça isso. Os vinhos devem ser cheirados porque tem cheiros gostosos. Mais ou menos como se faz com as comidas. Quanto melhor o cheiro que vem das panelas, mais água na boca pra encarar o prato.

Vinhos

É por isso que um dos gostosos rituais do vinho é enfiar o nariz na taça para perceber o cheiro que vem dela. Como no nosso caso o objetivo é o prazer da taça e não o estudo sobre ela, resuma os tais aromas a apenas duas opções: cheiro bom e cheiro ruim. Pronto, isso basta.

Sintomas pelo cheiro

Agindo dessa forma, cheirar o vinho cumpre o papel exato que lhe é reservado: o de antecipar o que chegará à boca. Quando o cheiro é agradável, a expectativa de ótimo sabor é imediato. O contrário é absolutamente verdadeiro: se o cheiro não agradar, vá devagar porque a possibilidade de se decepcionar com o sabor é grande.

Mais do que isso, péssimos odores podem denunciar vinhos mortos, oxidados. Os vinhos são a única bebida que eu conheço que tem ¨vida¨ como a nossa, nascem, crescem, amadurecem e morrem. Eles podem morrer por mau trato ou por demorarem muito tempo para serem abertos. Há vinhos de morte rápida, que foram feitos para consumo imediato, de média guarda e de longa guarda.

Vinhos - 1

Ao colocar o vinho na taça, cheire sem pudor. Depois, erga a taça contra a luz e faça o líquido bailar pelas paredes de cristal. Observe a coloração. Tons atijolados são sempre um sinal de alerta. Geralmente, vinhos mortos perdem o escarlate e ganham essas cores. Depois, o testo final, com o vinho ainda se debatendo levemente em redemoinho dentro da taça: cheire novamente. Se for agradável, não tenha dúvida: foi um ótimo começo.

Vinho fedido

Vinhos estragados fedem pra caramba. Algumas vezes é uma mistura de enxofre com álcool, uma coisa ¨in¨cheirável… Aliás, embora contenham entre 12 e 15 graus de álcool, nos vinhos bons não se percebe cheiro de álcool. Nenhum. Um mero traço de álcool no cheiro e já se tem certeza de que a coisa não é a maravilha que o vendedor disse que era.

E o ritual, balançar a taça, cheirar e bebericar?

Esse ritual vale, sim, para ampliar a atitude de prazer diante da taça de vinho. De preferencia, numa taça grande de cristal. É claro que se  não tiver nada melhor, até copo americano serve. Vai se perder um enorme potencial de prazer que os vinhos oferecem, que é o cheiro, o visual e o sabor. No caso de um copo, só vai ficar o sabor. Então, se o vinho é bom, merece ser curtido por inteiro.

Vinhos não se bebe aos goles, como cervejas. Ninguém faz vira-vira numa roda de bebedores de vinho. Os vinhos conseguem alterar os sabores e os cheiros/aromas ao longo da garrafa. Começam de um jeito e vão mudando aos poucos. Bons vinhos mudam pra melhor, tanto no cheiro quanto no sabor. Vinhos ruins… Bem, não vale a pena abrir coisas assim, né?

Fechou: um vinho gostoso, uma taça de água e queijinho pra acompanhar

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Então, bebe-se vinho gole por gole, curtindo a maravilhosa sensação de prazer que ele entrega na boca e aos sentidos do olfato. Aos poucos, com calma. Respeitando inclusive os anos, muitos ou poucos, que essa garrafa precisou para chegar ao ponto em que está quando aberta, e o ápice que ainda vai atingir até se alcançar os últimos goles.

Quanto aos aromas refinados e tal, não se preocupe com isso. O seu objetivo é curtir o prazer que só o vinho consegue oferecer. A complicação fica para quem precisa complicar para chegar à mesma conclusão que você: se o vinho é bom, gostoso ou uma bomba engarrafada.