Vinhos: Toro Loco, a sensação da mídia é bom mesmo na taça?

0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Google+ 0 LinkedIn 0 Filament.io 0 Flares ×

toro locoO mundo dos vinhos, e da publicidade, tem muito disso. De vez em quando, e quase sempre, surgem garrafas consideradas o último gole no inverno caríssimo de Baco. Alguns justificam pelo menos parte da fama. A maioria, é pouco mais do que sucos de uva ruim com aparência de vinho. Ou seja, um suquinho sem vergonha com alguma coisa de álcool para justificar a rolha e, principalmente, o preço.

A última imensa decepção é o tal Toro Loco, espanhol, 100% Tempranillo. A fama veio de uma degustação às cegas realizada em Londres. O Toro ficou em 2º lugar.

Foi uma prova simples. Os promotores passaram nos supermercados e recolheram garrafas de vários preços. E quem estava na lista: o Toro, apesar de estar apenas em sua primeira safra. Sabe-se lá por que então alguém o escolheu para fazer parte do time. Normalmente, num teste assim vai se escolher garrafas populares, bem vendidas, e um ou outro que permanece um pouco mais tempo nas prateleiras, mas que já tem carreira própria no mercado. Mas o Toro talvez seja um vinho que nasceu com a rolha virada para o mundo de Baco, vai saber…

O teste

Aí, como sempre, os vinhos são oferecidos aos lotes para os jurados, que vão bebericando, fazendo anotações, lavando a boca com água e pão para limpar as papilas, e a vida segue.

vinhos teste cegas

No final, os organizadores recolhem as anotações e partem para o veredito final. Foi aí que apareceu esse Toro, batendo garrafas de vários euros apesar de custar uma merreca – lá, na Europa, é claro.

vinho teste servir cegas

É óbvio que um achado desses vira febre. Todos os bebedores de vinho do planeta são garimpeiros de um tal custo-benefício: encontrar o melhor vinho possível por não mais que um punhadico de dólares – no nosso caso, reais. E o Toro Loco, bebezinho recém-nascido, feito por uma vinícola que ninguém conhecida, ganhou fama instantânea. E haja taça pra encher de Toro…

Vale a pena?

É claro que esse pequeno milagre de Baco bateu em terras brasileiras apenas um ano depois. Ele não é encontrado normalmente nas prateleiras dos supermercados. A importadora oficial os vende pela internet. É uma empresa boa, confiável, que tem boas garrafas na sua carta, e preços justos.

A 25 pilas a garrafa, encomendei, antecipadamente, 6 garrafas. Caramba, uma joia por menos de 30 reais não surge todos os dias. Aliás, não surge quase nunca. Não que eu tenha encontrado. O Toro era minha esperança. Desembarcou uns 2 ou 3 meses no Brasil e veio direto pra minha adega.

A primeira garrafa eu abri logo com 3 dias, o que não é recomendável, eu sei. Mas a ansiedade para provar esse campeão matador era grande demais pra deixar o danado descansar pelo menos uma semaninha na adega.

lasanha bolonhesa

Me preparei para receber a majestade Toro Loco. Fiz um prato bacana pra grande noite da estréia: uma lasanha caprichadíssima. A uva Tempranillo é muitíssimo versátil e aceita os mais variados pratos. Uma ótima uva-ícone da Espanha. Tudo pronto, abri as cortinas, no caso, uma rolha sintética, pra começar o espetáculo.

Tenho certo receio com vinhos de rolha sintética. Mas não nesse caso. O Toro custa o equivalente a menos de 15 reais lá fora. A rolha de cortiça natural aumentaria esse custo. Como a proposta da vinícola é vender um bom vinho pelo menor preço possível, a sintética é a rolha mais recomendável.

E aí, veio o ritual. Contra a luz, um vermelho bem Tempranillo, sem mistérios. Opa, legal, pensei na hora. Cheiradinha básica e confesso ter ficado um pouco decepcionado. Espera aromas mais vivos, eloquentes. Bom, quem sabe depois de fazer o Toro bailar nas paredes da taça… Uma última tragada funda na taça e a mesmíssima sensação. Não que o cheiro seja ruim. Não é isso, mas é quase como se não houvesse perfume nenhum.

Paciência. Se o cheiro não é estrelado, vamos ao principal: a boca. Mandei a prova e deixei o vinho se aquietar na língua. Empurrei pra lá e prá cá, respirei pelo nariz para perceber o aroma e, pimba. Nada. Nenhuma sensação maravilhosa que eu esperava.

Vinhos Toro loco taça

Fui bebericando até o final da garrafa, mas a sensação continuou sempre a mesma: um vinho fraquíssimo, sem nenhuma personalidade, que não tem nada da carismática uva Tempranillo. Tava no meio da última taça quando me lembrei que ainda teria que encarar bravamente as outras 5 garrafas do Toro que estavam em minha adega. Quase bateu desespero.

Durante a semana, fiquei me questionando a respeito da minha capacidade de escolher vinhos e separar as coisas boas  e as bombas engarrafadas. Pesquisei vários dias nos blogs das confrarias e tal sobre o Toro. Fiquei aliviado. A maioria teve a mesma sensação. Vez ou outra encontrei elogios ao Toro. E aí, me peguei sorrindo e, ao mesmo tempo, com pena dos bebedores ingleses de vinho. Se o Toro é a 2ª melhor garrafa das prateleiras dos supermercados deles, nem quero passar perto das outras. Vade retro, coisa ruim.

Se por um acaso você se ver com uma taça de Toro Loco na mão, não refugue. Mas encare sem qualquer compromisso com o prazer de beber uma boa garrafa. Vá pelo esporte. Mas não diga que não avisei. Por 25 pratas, no Brasil, o Toro custa uma fortuna. Quinzinho, 18 no máximo. E olha lá. Mas encontrar vinhos bebíveis por 25 contos no Brasil é realmente complicado.